Singular ou plural em Hebreus 4.2? (EPIST — Vol. 1, Nº 1 • 2026)
Subtítulo: συγκεκερασμένος2 e συγκεκερασμένους4 na transmissão do texto
Tese: O acusativo plural συγκεκερασμένους4 explica melhor a tradição textual de Hb 4.2: possui apoio externo antigo e diversificado, permanece sintaticamente viável e fornece motivação mais convincente para o surgimento do nominativo singular do que o percurso inverso. A maior transparência de συγκεκερασμένος2 é sua principal força exegética, mas também constitui um indício plausível de regularização secundária.
Texto-base: Hebreus 3.7–4.2, com foco em Hebreus 4.2.
Autor(es): Ana C. Beatriz
Periódico: Epistolai — Revista de Estudos das Cartas do Novo Testamento, v. 1, nº. 1 (2026)
Categoria: Crítica textual do Novo Testamento
Ark:
Resumo
Este estudo examina a variante textual de Hb 4.2 entre o nominativo singular συγκεκερασμένος2 e o acusativo plural συγκεκερασμένους4. A diferença altera o referente do particípio e produz duas construções: a mensagem não foi combinada com fé, ou os ouvintes não foram unidos, pela fé, aos que ouviram. A análise reúne evidência manuscrita, probabilidade transcricional, sintaxe, semântica e contexto de Hb 3.7–4.2. Embora o singular ofereça maior transparência, o plural possui apoio externo mais amplo e explica melhor o surgimento da leitura concorrente. O juízo textual favorece συγκεκερασμένους4 no NTG-EV e sua correspondente tradução na BECE.
Palavras-chave: Hebreus 4.2; crítica textual; συγκεράννυμι12; variantes textuais; sintaxe grega; fé.
Problemática
Em Hb 4.2, deve-se ler συγκεκερασμένος2, fazendo o particípio concordar com ὁ λόγος3, ou συγκεκερασμένους4, relacionando-o a ἐκείνους5? A decisão exige determinar qual leitura explica melhor, em conjunto, a documentação manuscrita, a formação da leitura concorrente e a sintaxe de τῇ πίστει τοῖς ἀκούσασιν13 no contexto de Hb 3.7–4.2.
1. Introdução — uma letra gramatical, duas leituras de Hebreus 4.2
Hebreus 4.2 concentra numa diferença gráfica mínima um problema textual de consequências sintáticas amplas. Depois de aproximar a comunidade cristã da geração do deserto — ambas receberam uma proclamação —, o autor explica por que a mensagem não beneficiou os antigos ouvintes. O NTG-EV lê ἀλλ᾽ οὐκ ὠφέλησεν ὁ λόγος τῆς ἀκοῆς ἐκείνους, μὴ συγκεκερασμένους τῇ πίστει τοῖς ἀκούσασιν1; a BECE verte: “mas a mensagem ouvida não lhes trouxe proveito, por não terem sido unidos pela fé aos que ouviram”.
A cláusula integra a advertência iniciada em 4.1 e prolonga o diagnóstico de 3.18–19, onde desobediência e incredulidade explicam o fracasso da geração anterior (Attridge, 1989: 123–126, The Epistle to the Hebrews: A Commentary on the Epistle to the Hebrews, ed. Fortress Press; Westcott, 2010: 93–96, The Epistle to the Hebrews: The Greek Text with Notes and Essays, ed. Gorgias Press). A variante do particípio incide, pois, sobre a própria explicação do fracasso: o problema não é se a mensagem foi ouvida, mas como a ausência de fé se relaciona àquilo que foi ouvido.
1.1. Uma terminação, dois referentes
Duas formas principais disputam a construção:
- συγκεκερασμένος2 — nom. masc. sg. → concordância com ὁ λόγος3;
- συγκεκερασμένους4 — ac. masc. pl. → concordância com ἐκείνους5.
No singular, a “mensagem” não teria sido misturada ou combinada com fé. No plural, os antigos ouvintes não teriam sido unidos, pela fé, τοῖς ἀκούσασιν6, “aos que ouviram”. A diferença -ος28 / -ους27 altera caso, número e referente. Scrivener preserva o singular sob a forma συγκεκραμένος7 (1894: 620, The New Testament in the Original Greek According to the Text Followed in the Authorised Version, Together with the Variations Adopted in the Revised Version, ed. Cambridge University Press); Robinson–Pierpont mantém o plural sob συγκεκραμένους8 (2005: 464, The New Testament in the Original Greek: Byzantine Textform 2005, ed. Chilton Book Publishing). A oposição textual não coincide com uma divisão simples entre texto crítico e texto bizantino.
1.2. Duas camadas de variação
A tradição combina dois fenômenos. Um deles concerne à formação do perfeito, συγκεκερα-9 / συγκεκρα-10; o outro, exegética e sintaticamente decisivo, opõe nominativo singular e acusativo plural. O UBS4 registra ainda συγκεκραμμένοι11 em 104 e 459, nominativo masculino plural que deve ser catalogado separadamente. A análise distingue a variação morfológica secundária da oposição principal entre ὁ λόγος3 → singular e ἐκείνους5 → plural.
1.3. Critérios de decisão
A dificuldade do plural não autoriza aplicação mecânica da lectio difficilior, nem a transparência do singular constitui argumento suficiente em seu favor. O juízo combina quatro controles:
- evidência externa — antiguidade, distribuição e qualidade dos testemunhos;
- probabilidade transcricional — qual leitura explica melhor o surgimento da concorrente;
- sintaxe e semântica — viabilidade das construções com συγκεράννυμι12, τῇ πίστει13 e τοῖς ἀκούσασιν6;
- contexto imediato — integração da leitura em Hb 3.7–4.2.
A leitura do NTG-EV e sua representação na BECE não funcionam como premissas; são resultados a serem testados por essa convergência.
2. Delimitação exata da variante
A tradição não transmite apenas duas grafias concorrentes. Caso e número do particípio afetam sua relação sintática, enquanto a formação συγκεκερα-9 / συγκεκρα-10 pode variar sem alterar o referente. Separar esses planos impede que diferenças morfológicas sejam convertidas artificialmente em interpretações independentes.
2.1. Nominativo singular e acusativo plural
O SBLGNT apresenta μὴ συγκεκερασμένους τῇ πίστει τοῖς ἀκούσασιν14. συγκεκερασμένους4 é perf. pass. part. ac. masc. pl. e concorda formalmente com ἐκείνους5. A leitura singular, συγκεκερασμένος2, é nom. masc. sg. e encontra seu referente em ὁ λόγος3. A arquitetura sintática pode ser reduzida a duas relações:
- ὁ λόγος3 → συγκεκερασμένος2 → “a mensagem não foi combinada com fé”;
- ἐκείνους5 → συγκεκερασμένους4 → “eles não foram unidos, pela fé, aos que ouviram”.
A unidade crítica principal é caso e número, não a aparência integral das formas transmitidas.
2.2. συγκεκερα-9 e συγκεκρα-10
A oscilação entre συγκεκερα-9 e συγκεκρα-10 possui base morfológica mais ampla. Montanari registra para συγκεράννυμι12 o perfeito médio-passivo συγκέκραμαι15 e, posteriormente, συγκεκέρασμαι16 (2015: s.v. συγκεράννυμι12, The Brill Dictionary of Ancient Greek, ed. Brill). As quatro formas principais podem ser dispostas deste modo:
| Formação | Singular | Plural |
|---|---|---|
| συγκεκερα-9 | συγκεκερασμένος2 | συγκεκερασμένους4 |
| συγκεκρα-10 | συγκεκραμένος7 | συγκεκραμένους8 |
συγκεκραμένους8 e συγκεκερασμένους4 pertencem à mesma solução sintática; συγκεκραμένος7 e συγκεκερασμένος2, à solução singular. συγκεκραμμένοι11, em 104 e 459, permanece como configuração própria e de apoio restrito. O eixo exegético continua sendo nominativo singular × acusativo plural.
3. Evidência externa — como as duas leituras entram na transmissão
A oposição não reproduz uma divisão simples entre tradição antiga e tardia. O plural é antigo, amplamente distribuído e continua na tradição bizantina; o singular também é antigo, mas possui extensão documental menor.
3.1. O acusativo plural
O UBS4 agrupa sob συγκεκ(ε)ρα(σ)μένους17 pequenas diferenças na formação do perfeito e registra 𝔓13vid, 𝔓46, (A), B, C, D, Ψ, 075, 0150, 0243, 6, 33, 81, 256, 263, 365, 424, 436, 1241, 1319, 1573, 1739, 1852, 1881, 1912, 1962, 2127, 2200 e 2464, além de Byz [K L P], Lect e apoio versional e patrístico (Aland et al., 1993: 747, The Greek New Testament, ed. Deutsche Bibelgesellschaft). 𝔓13vid e 𝔓46 situam a leitura já no período papirológico; os demais testemunhos mostram continuidade em linhas transmissivas distintas.
Robinson e Pierpont imprimem συγκεκραμένους8 e registram συγκεκερασμένους4 como alternativa (2005: 464). A diferença em relação ao NTG-EV está na formação do perfeito, não em caso e número. O plural não depende de uma tradição eclética tardia.
3.2. O nominativo singular e as formas secundárias
O UBS4 agrupa formas nominativas singulares sob συγκεκ(ε)ρα(σ)μένος18, com destaque para א e apoio adicional grego, versional e patrístico (Aland et al., 1993: 747). A leitura antecede o Textus Receptus, embora sua distribuição seja mais estreita. Scrivener imprime συγκεκραμένος7, fazendo o particípio concordar com ὁ λόγος3.
104 e 459 não devem ser somados ao singular: o UBS4 lhes atribui συγκεκραμμένοι11, nominativo masculino plural. O dado confirma a instabilidade morfológica do locus, mas não cria uma terceira interpretação com peso comparável às duas construções principais.
3.3. A história editorial
O aparato comparativo do SBLGNT coloca WH, Tregelles, RP e NA do lado plural (Holmes, 2010: 436, The Greek New Testament: SBL Edition, ed. Society of Biblical Literature). A história impressa pode ser resumida:
- WH / Tregelles / NA / SBLGNT → plural;
- Robinson–Pierpont → plural, com συγκεκραμένους8;
- TR de Scrivener → singular, com συγκεκραμένος7.
Externamente, o plural reúne maior antiguidade documentada, distribuição mais ampla e continuidade superior. O singular continua relevante porque é antigo e sintaticamente atraente; a decisão depende de explicar geneticamente a relação entre ambos.
4. Evidência interna — qual leitura explica o nascimento da outra?
A crítica interna pergunta não qual forma parece mais elegante, mas qual alteração é historicamente mais provável. O UBS distingue probabilidades transcricionais e intrínsecas (Aland et al., 1993: 3*); Metzger adverte que lectio difficilior é critério relativo, não regra automática (1994: xxvi–xxvii, A Textual Commentary on the Greek New Testament, ed. Deutsche Bibelgesellschaft).
4.1. Do plural ao singular
Se συγκεκερασμένους4 era original, a mudança para συγκεκερασμένος2 possui motivação clara. O plural obriga o leitor a relacionar o particípio a ἐκείνους5 e a compreender pessoas como “unidas” a outros ouvintes. O singular transfere o particípio para ὁ λόγος3 e produz a sequência imediatamente inteligível “mensagem + fé”. Metzger considera esse percurso mais provável e entende o nominativo singular como simplificação da leitura mais difícil (1994: 665).
A dificuldade do plural, contudo, não equivale a impossibilidade. Mounce analisa συγκεκερασμένους4 como perf. pass. part. ac. masc. pl. e admite para συγκεράννυμι12 o sentido passivo “ser combinado, unido” (1993: 413, The Analytical Lexicon to the Greek New Testament, ed. Zondervan Academic); Montanari documenta usos figurados de associação. Trata-se de construção marcada, não de corrupção sem sentido.
4.2. Do singular ao plural
O percurso inverso também é possível. A proximidade de ἐκείνους5 poderia atrair o particípio e produzir a concordância ἐκείνους5 ... συγκεκερασμένους4. A diferença material -ος28 / -ους27 é mínima. A hipótese, porém, é menos econômica: resolveria a concordância local criando uma construção semanticamente mais exigente, com συγκεράννυμι12 aplicado a pessoas e τοῖς ἀκούσασιν6 como segundo polo da relação.
4.3. Balanço transcricional
As duas direções são concebíveis, mas não possuem o mesmo poder explicativo. Singular → plural explica a atração morfológica; plural → singular explica melhor a motivação para alterar a frase. A probabilidade transcricional favorece o plural, desde que sua sintaxe permaneça defensável.
5. O singular — “a palavra não foi misturada com fé”
A principal força do singular é sua transparência. συγκεκερασμένος2 concorda com ὁ λόγος3, de modo que a mensagem ouvida não teria sido “misturada” ou “combinada” com fé. O sentido lexical de συγκεράννυμι12 comporta essa leitura (Mounce, 1993: 413), e a conexão com Hb 3.19 é direta: a ἀπιστία20 que impediu a entrada no descanso reaparece em 4.2 como ausência da πίστις21 que deveria acompanhar a mensagem.
5.1. A concordância com ὁ λόγος3
No TR, συγκεκραμένος7 preserva a mesma construção: o sujeito de ὠφέλησεν22 torna-se também referente do particípio. Barnes interpreta o versículo nessa direção e considera a mensagem ineficaz porque não recebida pela fé (1962: 1251, Barnes’ Notes on the New Testament, ed. Kregel Publications). Sua leitura documenta a naturalidade exegética do singular, embora pertença a um estágio anterior da crítica textual moderna.
5.2. O problema dos dois dativos
A clareza diminui em τῇ πίστει13 τοῖς ἀκούσασιν6. Com o singular, τῇ πίστει13 designa aquilo com que a mensagem deveria ser combinada, enquanto τοῖς ἀκούσασιν6 identifica os ouvintes nos quais essa fé deveria estar presente. A tradição registra ainda τῶν ἀκουσάντων19 em testemunhos restritos, alteração que torna mais explícita a relação entre “fé” e “os que ouviram”. O singular resolve o referente do particípio, mas não elimina toda a dificuldade da cláusula.
6. O plural — “eles não foram unidos aos que ouviram com fé”
Com συγκεκερασμένους4, o particípio retoma ἐκείνους5. Walker o analisa como perf. pass. part. ac. masc. pl. e glosa a construção em termos de “ser unido/misturado” (2014: 100–101, The Letter to the Hebrews, ed. David Harris Walker). O uso aplicado a pessoas não é semanticamente impossível: Mounce admite “ser combinado, unido”, e 1Co 12.24 emprega συνεκέρασεν23 para a composição de partes num corpo. “Unidos” traduz melhor esse valor figurado que uma reprodução mecânica de “misturados”.
6.1. τῇ πίστει13 τοῖς ἀκούσασιν6
Nessa análise, τῇ πίστει13 exprime o meio ou princípio da união, e τοῖς ἀκούσασιν6 designa o grupo com o qual ela não ocorreu: ἐκείνους5 → συγκεκερασμένους4 → τῇ πίστει13 → τοῖς ἀκούσασιν6. A BECE preserva essa estrutura em “por não terem sido unidos pela fé aos que ouviram”. ἀκούω24 não deve ser convertido automaticamente em “obedecer”; Hb 3.16 chama de ἀκούσαντες25 aqueles que ouviram e se rebelaram. A distinção reside na resposta de fé, não no simples ato de ouvir.
6.2. Quem são “os que ouviram”?
Josué e Calebe são candidatos históricos naturais caso τοῖς ἀκούσασιν6 designe uma minoria fiel da geração do deserto: Nm 14.6–9 e 14.30 os distinguem da comunidade rebelde. Hb 4.2, porém, não os nomeia. A expressão pode designar de modo mais geral os ouvintes caracterizados pela fé, leitura reforçada por οἱ πιστεύσαντες26 em 4.3. A identificação com Josué e Calebe permanece possível, não necessária.
7. O contexto de Hebreus 3.7–4.2 como controle
Desde Sl 95 em Hb 3.7, a argumentação percorre a sequência ouvir → endurecer-se → desobedecer → não crer → não entrar. Hb 3.16 chama de ἀκούσαντες25 aqueles que ouviram e se rebelaram; 3.18 os caracteriza pela desobediência, e 3.19 resume o fracasso como ἀπιστία20. Thompson observa que 4.2 retoma o mesmo diagnóstico em termos de πίστις21 (1982: 96–98, The Beginnings of Christian Philosophy: The Epistle to the Hebrews, ed. Catholic Biblical Association of America).
7.1. Audição e resposta
O contraste contextual não é entre quem ouviu e quem não ouviu, mas entre respostas distintas à mesma palavra. Em 4.1–2, a história de Israel passa a advertência para a comunidade presente: “também nós fomos alcançados pelas boas-novas, assim como eles”. O eixo pode ser condensado:
- eles ouviram → não creram → não entraram;
- nós ouvimos → somos chamados à fé → a promessa permanece.
7.2. Peso do contexto sobre a variante
Esse contexto oferece ao singular uma vantagem semântica: “a mensagem não foi combinada com fé” articula diretamente ἀπιστία20 e πίστις21. O plural exige distinguir ouvintes caracterizados pela fé dentro do horizonte narrativo; Thompson observa que Hb 3.15–19 trata Israel coletivamente como exemplo negativo, sem destacar a minoria fiel preservada em Números (1982: 96–97). O contexto favorece a transparência do singular, mas não torna o plural inviável.
8. Transmissão, sintaxe e tradução
Em Hb 4.2, a tradução torna visível a decisão textual. Com o singular, o referente é ὁ λόγος3; com o plural, ἐκείνους5. Uma versão que neutralize essa diferença pode transmitir o sentido geral e, ao mesmo tempo, ocultar o locus crítico.
8.1. Duas reconstruções
| Texto pressuposto | Referente | Representação tradutória |
|---|---|---|
| singular | ὁ λόγος3 | “a mensagem não foi misturada com fé” |
| plural | ἐκείνους5 | “eles não foram unidos pela fé aos que ouviram” |
ARC e ARA refletem a construção singular; NAA e NRSV tornam explícita a concordância plural. A NTLH reformula a relação como “não a receberam com fé”, solução fluente que elimina a metáfora de συγκεράννυμι12. A YLT acompanha a construção singular, mas a forma inglesa mixed não exibe as marcas morfológicas que tornam a variante perceptível no grego.
8.2. NTG-EV, BECE e NTI
O NTG-EV mantém μὴ συγκεκερασμένους τῇ πίστει τοῖς ἀκούσασιν14; a BECE verte “por não terem sido unidos pela fé aos que ouviram”; o NTI analisa συγκεκερασμένους4 como perfeito passivo, particípio acusativo masculino plural, com a glosa “tendo sido unidos”. Texto crítico, tradução e interlinear convergem sem confundir suas funções editoriais.
9. Juízo textual
O juízo resulta da convergência das evidências, não da preferência isolada pela leitura mais difícil.
9.1. Evidência externa e probabilidade transcricional
O plural possui apoio antigo, diversificado e transmissionalmente amplo, incluindo os papiros 𝔓13vid e 𝔓46 e continuidade na tradição bizantina. O singular é antigo, mas menos difundido. No plano transcricional, συγκεκερασμένους4 explica melhor o surgimento de συγκεκερασμένος2: a regularização para ὁ λόγος3 produz uma construção semanticamente imediata. O percurso inverso por atração de ἐκείνους5 é possível, porém exige que uma construção mais simples dê origem muito cedo a outra mais marcada.
9.2. Probabilidade intrínseca
O singular se ajusta mais diretamente ao movimento ἀπιστία20 → πίστις21 de Hb 3.19–4.2. O plural, contudo, permanece lexical e sintaticamente defensável: συγκεράννυμι12 admite o sentido passivo “ser unido” (Mounce, 1993: s.v. συγκεράννυμι12). A vantagem contextual do singular não compensa a distribuição externa e a explicação genética favoráveis ao plural.
9.3. Decisão
A convergência favorece συγκεκερασμένους4:
- apoio externo antigo e distribuído;
- viabilidade sintática e lexical;
- motivação plausível para a regularização no singular;
- maior capacidade de explicar o conjunto da tradição.
O NTG-EV conserva μὴ συγκεκερασμένους τῇ πίστει τοῖς ἀκούσασιν14, e a BECE verte “por não terem sido unidos pela fé aos que ouviram”. O grau de confiança requer cautela: o aparato impresso do UBS4 marca o locus com {B} (Aland et al., 1993: 747), enquanto o comentário textual de Metzger imprime {C} (1994: 665). A discrepância não altera a preferência pelo plural, mas impede apresentá-la como indiscutível.
10. Conclusão
Em Hb 4.2, a diferença entre -ος28 e -ους27 desloca o particípio de ὁ λόγος3 para ἐκείνους5 e produz duas construções: a mensagem não combinada com fé, ou os antigos ouvintes não unidos, pela fé, aos que ouviram. A oscilação συγκεκερα-9 / συγκεκρα-10 pertence a uma camada morfológica secundária e não deve obscurecer essa oposição.
συγκεκερασμένους4 oferece a explicação crítico-genética mais forte. Sua documentação é antiga e diversificada; sua sintaxe, embora menos imediata, permanece viável; e sua dificuldade fornece motivação plausível para o surgimento do nominativo singular mais transparente. O singular conserva vantagem de clareza contextual, mas explica menos satisfatoriamente a história da transmissão. A leitura plural permanece no texto, com grau de certeza moderado.
Transliteração: all’ ouk ōphelēsen ho logos tēs akoēs ekeinous, mē synkekerasmenous tē pistei tois akousasin.
Transliteração: synkekerasmenos.
Transliteração: ho logos.
Transliteração: synkekerasmenous.
Transliteração: ekeinous.
Transliteração: tois akousasin.
Transliteração: synkekramenos.
Transliteração: synkekramenous.
Transliteração: synkekera-.
Transliteração: synkekra-.
Transliteração: synkekrammenoi.
Transliteração: synkerannymi.
Transliteração: tē pistei.
Transliteração: mē synkekerasmenous tē pistei tois akousasin.
Transliteração: synkekramai.
Transliteração: synkekerasmai.
Transliteração: synkek(e)ra(s)menous.
Transliteração: synkek(e)ra(s)menos.
Transliteração: tōn akousantōn.
Transliteração: apistia.
Transliteração: pistis.
Transliteração: ōphelēsen.
Transliteração: synekerasen.
Transliteração: akouō.
Transliteração: akousantes.
Transliteração: hoi pisteusantes.
Transliteração: -ous.
Transliteração: -os.
Bibliografia
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Cite este artigo
Beatriz, Ana C. “Singular ou plural em Hebreus 4.2? ”. In: Galvão, Eduardo (ed.) et al. Epistolai. [S. l.], 14 out. 2026. Disponível em: [inserir URL do artigo]. Acesso em: [data].
