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João 1

Resumo: A abertura do Evangelho de João não constitui uma fórmula introdutória neutra. Ao começar com “No princípio”, Jo 1.1 conduz deliberadamente o leitor à abertura de Gênesis e coloca a identidade do Logos dentro do horizonte bíblico da criação. Este artigo examina como as correspondências entre princípio, palavra, criação, vida, luz e trevas estruturam Jo 1.1–5. A tese defendida é que Gn 1 fornece a matriz intertextual imediata do prólogo joanino: João retoma a linguagem da primeira criação para afirmar que o Logos já existia quando a criação começou, participou da atividade criadora de Deus e se torna, no evangelho, o centro da revelação e da nova criação.

Palavras-chave: Evangelho de João; João 1.1; Gênesis 1; Logos; criação; intertextualidade; Septuaginta.

Introdução

As primeiras palavras do Evangelho de João enviam o leitor para as primeiras palavras das Escrituras. Gênesis começa narrando o princípio da criação; João começa declarando que, quando esse princípio é alcançado, o Logos já “era”. A correspondência é forte demais para ser tratada como simples coincidência verbal. A abertura de Gênesis fornece o primeiro horizonte literário dentro do qual a afirmação joanina deve ser compreendida (Lioy, 2005: 64, The Search for Ultimate Reality, ed. Peter Lang; Weinandy, 2021: 2.9–11, Jesus Becoming Jesus, Volume 2, ed. Catholic University of America Press).

A relação não termina na expressão “no princípio”. Nos versículos seguintes reaparecem criação, palavra, vida, luz e trevas. João não reproduz Gn 1; relê-o cristologicamente, usando a linguagem da criação para situar o Logos em relação a Deus e ao cosmos.

“No Princípio”: Como Gênesis 1 Molda o Contexto de João 1.1

I. “No princípio” como sinal intertextual

A abertura de Jo 1.1 funciona como um sinal de leitura. A forma grega “no princípio” corresponde à abertura de Gn 1.1 na LXX. Para um leitor familiarizado com as Escrituras gregas, a expressão não apenas indica um momento remoto: ela desperta a memória textual do relato da criação. A sequência posterior confirma que essa evocação inicial governa mais do que a primeira frase (Lioy, 2005: 64, The Search for Ultimate Reality, ed. Peter Lang).

A. Continuidade verbal, diferença teológica

Gênesis declara que “no princípio” Deus criou os céus e a terra. João, entretanto, não afirma que “no princípio” o Logos passou a existir. Seu verbo é “era”. Essa diferença é decisiva: o princípio marca o início da ordem criada, mas não o início do Logos. Quando a criação começa, ele já existe e está em relação com Deus (Kanagaraj, 2013: 1–3, John: A New Covenant Commentary, ed. Cascade Books / Wipf and Stock; Weinandy, 2021: 2.9–11, Jesus Becoming Jesus, Volume 2, ed. Catholic University of America Press).1

Nota 1 — O campo judaico do Logos: criação, revelação e filiação. O levantamento de Talbert mostra que o logos de Fílon reúne, em diferentes textos, cinco funções particularmente relevantes para a leitura de Jo 1: é designado como divino, atua como instrumento da criação, associa-se à luz e à vida, torna Deus conhecido e participa da linguagem de filiação. O interesse desse conjunto não está em transformar Fílon em “fonte” direta do prólogo, mas em mostrar que, no judaísmo helenístico, linguagem cosmológica e linguagem revelacional já podiam convergir em torno da Palavra. Isso torna mais precisa a afirmação de Jo 1.1–5: o Logos não aparece somente como anterior ao mundo, mas no ponto de encontro entre criação, vida e revelação (Talbert, 1992: 71, Reading John: A Literary and Theological Commentary on the Fourth Gospel and the Johannine Epistles, ed. Crossroad).

João combina, portanto, continuidade e intensificação. O Deus de Gn 1 permanece a origem de todas as coisas, mas Jo 1.1–3 inclui o Logos na própria descrição da atividade criadora. A evocação de Gênesis não serve apenas para datar sua existência em um passado remoto; serve para colocá-lo antes de tudo aquilo que pertence à categoria das coisas que “vieram a existir”.

II. Palavra e criação

A ligação se torna mais clara quando Jo 1.3 é colocado ao lado do padrão narrativo de Gn 1. O relato de criação é marcado repetidamente pela fala divina: Deus diz, e aquilo que ele ordena passa a existir. João concentra essa associação entre palavra e criação ao afirmar que todas as coisas vieram à existência por meio do Logos (Weinandy, 2021: 2.11, Jesus Becoming Jesus, Volume 2, ed. Catholic University of America Press; Lioy, 2005: 70, The Search for Ultimate Reality, ed. Peter Lang).2

Nota 2 — Da fala criadora à Memra e à Sabedoria. O material comparativo reunido por Chilton et al. é mais específico do que uma simples aproximação entre João e Gênesis. O Targum Neofiti de Gn 1.1 descreve a Memra do Senhor atuando na criação; o Targum Fragmentário de Gn 1.3 associa a ordem “haja luz” à Memra; Sb 9.1–2 coloca lado a lado a Palavra pela qual Deus faz todas as coisas e a Sabedoria pela qual forma a humanidade; 4Q381 e 2Br também preservam criação “pela palavra”. O conjunto mostra que o judaísmo antigo já desenvolvia Gn 1 numa rede em que fala divina, Palavra, Sabedoria e criação podiam ser articuladas. Jo 1.3 não apenas repete “Deus disse”: concentra essa rede na mediação universal do Logos (Chilton et al., 2026: 4–8, A Comparative Handbook to the Gospel of John, ed. Brill).

A. Do “Deus disse” ao Logos

Isso não significa que o autor de Gênesis já estivesse formulando explicitamente a cristologia de João. A direção interpretativa é inversa: o evangelista lê o relato da criação a partir de sua confissão acerca de Jesus. A antiga convicção de que Deus cria eficazmente por sua palavra fornece uma categoria bíblica mediante a qual o Logos pode ser apresentado não como parte do universo criado, mas como participante da atividade divina pela qual o universo existe.

A progressão de Jo 1.1–3 é cuidadosamente construída. Primeiro aparece o “princípio”; depois, a existência do Logos, sua relação com Deus e sua identidade; somente então o texto se volta para “todas as coisas”. Desse modo, a cosmogonia de Gênesis torna-se uma moldura cristológica: antes de o evangelho narrar qualquer ação histórica de Jesus, o prólogo estabelece a relação do Logos com a própria origem do mundo.

III. Vida, luz e trevas

João continua trabalhando com o repertório de Gênesis ao passar da criação para vida, luz e trevas. Em Gn 1.2–5, as trevas caracterizam o cenário anterior à ordem progressivamente estabelecida, e a primeira palavra criadora registrada produz luz. Em Jo 1.4–5, vida e luz pertencem ao Logos, enquanto a luz brilha nas trevas sem ser vencida por elas (Brown; Moloney, 2017: 168–169, Interpreting the Gospel and Letters of John, ed. Eerdmans; Weinandy, 2021: 2.13–14, Jesus Becoming Jesus, Volume 2, ed. Catholic University of America Press).3

Nota 3 — Qumran como paralelo, não como matriz imediata. Schuller registra uma correção metodológica importante na história da pesquisa: mesmo para temas aparentemente próximos, como luz e trevas, estudos posteriores advertiram contra uma ligação excessivamente rápida entre João e Qumran e recomendaram dar maior peso aos próprios livros bíblicos e à matriz mais ampla do judaísmo do Segundo Templo. Para Jo 1.1–5, isso permite ordenar as evidências: Gn 1 explica a sequência princípio–criação–luz–trevas; Qumran ajuda a mostrar que a linguagem dualista circulava no judaísmo antigo, mas não precisa substituir Gênesis como intertexto organizador (Schuller, 2011: 4, John, Qumran, and the Dead Sea Scrolls, ed. SBL Press).

A. Da primeira criação à nova criação

A correspondência é conceitual, não apenas vocabular. Em Gênesis, a palavra divina introduz luz, ordem e vida no mundo criado. Em João, aquele por meio de quem todas as coisas vieram a existir possui vida, e essa vida é caracterizada como a luz da humanidade. O vocabulário cosmológico passa, assim, a desempenhar também uma função revelacional e soteriológica.

Essa transformação permite falar em uma orientação para a nova criação. O prólogo começa onde Gênesis começa, mas conduz a narrativa até a entrada do Logos no mundo. Princípio, atividade criadora, vida e luz formam uma sequência na qual a linguagem da primeira criação fornece a gramática para descrever a renovada ação de Deus na história (Lioy, 2005: 64, 89–93, The Search for Ultimate Reality, ed. Peter Lang).

IV. Gênesis é a matriz, não o único pano de fundo

Reconhecer a centralidade de Gn 1 não exige reduzir o conceito joanino de Logos a uma única tradição. O judaísmo antigo possuía uma rica linguagem acerca da Palavra e da Sabedoria divinas, e a literatura sapiencial oferecia categorias para falar de preexistência, criação, revelação e proximidade com Deus. A relação entre Logos e Sabedoria constitui, por isso, parte legítima da investigação do prólogo (Scott, 1992: 94–114, Sophia and the Johannine Jesus, ed. Sheffield Academic Press / Bloomsbury).

Uma proposta recente leva essa distinção ao limite, separando a eternidade do Logos da questão de quando o prólogo passa a identificá-lo pessoalmente com Jesus:

“The Prologue itself does not impute
personal pre-existence to Jesus as the divine logos,
although it does see the logos itself
as eternal.”

(Chilton et al., 2026: 38, A Comparative Handbook to the Gospel of John, ed. Brill).

A formulação não precisa ser adotada como conclusão do artigo, mas obriga a separar duas questões que muitas leituras fundem cedo demais. Jo 1.1–3 afirma a anterioridade do Logos em relação à criação e sua participação na atividade criadora; a identificação narrativa com o Jesus histórico se explicita à medida que o prólogo avança, culminando na encarnação do v. 14. Essa distinção torna a leitura de Gn 1 mais rigorosa: o intertexto estabelece primeiro uma cristologia da criação e somente depois a narrativa revela como o Logos entra na história.

A. O peso específico de Gênesis 1

Esses paralelos não anulam, porém, a evidência literária colocada na própria abertura do evangelho. João não começa com uma definição filosófica do Logos, mas com uma fórmula que reproduz a abertura das Escrituras gregas; em seguida, fala de criação, vida, luz e trevas. A sucessão desses elementos indica que Gn 1 organiza o primeiro movimento do prólogo (Kanagaraj, 2013: 1–3, John: A New Covenant Commentary, ed. Cascade Books / Wipf and Stock).

Dois extremos devem, portanto, ser evitados. Explicar Jo 1.1 primariamente por uma filosofia grega isolada de seu ambiente escriturístico enfraquece a sequência textual do próprio prólogo. Por outro lado, reconhecer Gênesis como matriz imediata não exige negar outros horizontes conceituais conhecidos por judeus e gentios do período. Gênesis fornece o intertexto estrutural; as tradições judaicas da Palavra e da Sabedoria ampliam o campo no qual essa linguagem poderia ser ouvida e interpretada.

Conclusão

“No princípio” funciona em Jo 1.1 como uma instrução de leitura. O evangelista reproduz a abertura de Gênesis para conduzir seu leitor ao cenário da criação, mas introduz uma diferença fundamental: quando o princípio da criação ocorre, o Logos já existe. Ele está com Deus e participa da atividade mediante a qual todas as coisas vêm à existência.

A conexão não depende de uma única expressão. Palavra, criação, vida, luz e trevas formam uma rede de correspondências com Gn 1. João insere o Logos no horizonte da atividade criadora de Deus e, ao avançar para a encarnação, apresenta Jesus como a manifestação histórica dessa ação. O contexto mais imediato de Jo 1.1 é, portanto, a primeira página das Escrituras relida cristologicamente.

Siglas e abreviaturas

2Br = 2 Baruque
Gn = Gênesis
Jo = João
LXX = Septuaginta
Sb = Sabedoria

Bibliografia

  1. Brown, Sherri; Moloney, Francis J. Interpreting the Gospel and Letters of John: An Introduction. Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans Publishing Company, 2017.

  2. Chilton, Bruce; Avery-Peck, Alan J.; Bock, Darrell; Evans, Craig A.; Gurtner, Daniel M. A Comparative Handbook to the Gospel of John. New Testament Gospels in Their Judaic Contexts 4. Leiden; Boston: Brill, 2026.

  3. Kanagaraj, Jey J. John: A New Covenant Commentary. New Covenant Commentary Series 4. Eugene, OR: Cascade Books / Wipf and Stock, 2013.

  4. Lioy, Dan. The Search for Ultimate Reality: Intertextuality Between the Genesis and Johannine Prologues. Studies in Biblical Literature 93. New York: Peter Lang, 2005.

  5. Schuller, Eileen. “The Past Decade of Qumran Studies: 1997–2007”. In: Mary L. Coloe; Tom Thatcher (eds.), John, Qumran, and the Dead Sea Scrolls: Sixty Years of Discovery and Debate. Early Judaism and Its Literature 32. Atlanta: SBL Press, 2011, p. 3–14.

  6. Scott, Martin. Sophia and the Johannine Jesus. Journal for the Study of the New Testament Supplement Series 71. Sheffield: Sheffield Academic Press / Bloomsbury, 1992.

  7. Talbert, Charles H. Reading John: A Literary and Theological Commentary on the Fourth Gospel and the Johannine Epistles. New York: Crossroad, 1992.

  8. Weinandy, Thomas G. Jesus Becoming Jesus, Volume 2: A Theological Interpretation of the Gospel of John: Prologue and the Book of Signs. Washington, DC: The Catholic University of America Press, 2021.

Cite este artigo

Galvão, Eduardo. ““No Princípio”: Como Gênesis 1 Molda o Contexto de João 1.1”. Biblioteca Bíblica. [S. l.], publicado em 3 set. 2026. Disponível em: [inserir URL do artigo]. Acesso em: [data].

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