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Hebreus 5 (BKJ)

King James Version 1611 — Uma versão de estudo sem paralelo
CAP. V.

1 A autoridade e a honra do sacerdócio de nosso Salvador. 11 A negligência no conhecimento dele é repreendida.

Pois todo sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é ordenado para os homens nas coisas pertencentes a Deus,1 para que possa oferecer tanto dons como sacrifícios pelos pecados.2 || Ou: “pode tratá-los com moderação” — alternativa marginal de 1611 para “pode ter compaixão”; representa mais diretamente a ideia de uma reação medida para com os que erram. O original de 1611 traz: Or, can reasonably beare with. 2 que ||pode ter compaixão dos ignorantes e dos que estão fora do caminho,3 visto que ele mesmo também está cercado de fraqueza;4 3 e, por causa disso, deve, assim como pelo povo, também por si mesmo, oferecer pelos pecados.5 4 E ninguém toma esta honra para si mesmo,6 senão aquele que é chamado por Deus, como foi Arão.7

5 Assim também Cristo não glorificou a si mesmo para ser feito sumo sacerdote;8 mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei.9 6 Como ele diz também em outro lugar:10 Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.11

7 O qual, nos dias de sua carne, quando havia oferecido orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas,12 àquele que era capaz de salvá-lo da morte,13 || Ou: “por sua piedade” — alternativa marginal de 1611 para “naquilo que temia”; “piedade” possui aqui o sentido de reverência ou devoção diante de Deus. O original de 1611 traz: Or, for his pietie. e foi ouvido ||naquilo que temia.14 8 Embora fosse Filho, contudo aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu;15 9 e, sendo aperfeiçoado, tornou-se o autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem,16 10 chamado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.17

11 A respeito do qual temos muitas coisas a dizer, e difíceis de serem proferidas,18 visto que sois tardios para ouvir.19 12 Pois, quando pelo tempo já devíeis ser mestres, tendes necessidade de que alguém vos ensine novamente quais sejam os primeiros princípios dos oráculos de Deus;20 e vos tornastes tais que necessitais de leite, e não de alimento forte.21 † Gr.: “não tem experiência” — marginal original de 1611 para “inábil”; explicita o valor de ἄπειρος. O original de 1611 traz: Gr. hath no experience. || Ou: “perfeitos” — alternativa marginal de 1611 para “de plena idade”. O original de 1611 traz: Or, perfect. || Ou: “de um hábito, ou perfeição” — alternativa marginal de 1611 para “do uso”. O original de 1611 traz: Or of an habite, or perfection. 13 Pois todo aquele que usa leite é †inábil na palavra da justiça, pois é um bebê.22 14 Mas o alimento forte pertence aos que são ||de plena idade,23 a saber, aqueles que, em razão do ||uso, têm seus sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal.24

Nota — “todo sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é ordenado para os homens nas coisas pertencentes a Deus”

KJV 1611 e filologia. For euery high Priest taken from among men, is ordeined for men in things pertaining to God representa Πᾶς γὰρ ἀρχιερεὺς ἐξ ἀνθρώπων λαμβανόμενος ὑπὲρ ἀνθρώπων καθίσταται τὰ πρὸς τὸν θεόν. A construção é cuidadosamente equilibrada: o sumo sacerdote é tomado from among men, “dentre os homens”, e é ordenado for men, “para os homens”. Sua procedência e sua função representativa são colocadas lado a lado.

Taken from among men preserva o particípio passivo λαμβανόμενος. O sentido contextual admite a ideia de seleção, mas nem o inglês da KJV nem esta cláusula grega nomeiam ainda explicitamente aquele que o toma. A iniciativa divina aparecerá de forma inequívoca no v. 4. Por isso, “tomado” foi conservado em vez de antecipar “escolhido por Deus”.

Is ordeined corresponde a καθίσταται, verbo de estabelecimento ou designação para uma função. “É ordenado” traduz a redação efetivamente impressa pela KJV; neste contexto, “ordenado” significa estabelecido ou constituído no ofício, e não deve ser restringido automaticamente a sentidos eclesiásticos posteriores do termo. Things pertaining to God, por sua vez, reproduz τὰ πρὸς τὸν θεόν: a esfera das relações e funções que dizem respeito a Deus.

Função argumentativa. O For inicial representa γάρ e liga 5.1 diretamente a 4.14–16. Depois de apresentar Jesus como grande Sumo Sacerdote e afirmar sua capacidade de compadecer-se das fraquezas humanas, Hebreus passa a explicitar quais características pertencem ao sumo sacerdócio que servirá de termo de comparação. Os vv. 1–4 descrevem o sacerdote humano; os vv. 5–10 aplicarão e, ao mesmo tempo, qualificarão essa comparação em relação a Cristo.

Nota — “para que possa oferecer tanto dons como sacrifícios pelos pecados”

KJV 1611 e sintaxe. That hee may offer both giftes & sacrifices for sins representa ἵνα προσφέρῃ δῶρά τε καὶ θυσίας ὑπὲρ ἁμαρτιῶν. A construção com ἵνα e o subjuntivo define a finalidade da designação sacerdotal: ele é estabelecido para oferecer. O verbo προσφέρω pertence ao vocabulário estrutural de Hebreus e reaparecerá repetidamente quando a epístola tratar das ofertas levíticas e do oferecimento de Cristo.

Both giftes & sacrifices torna explicitamente correlativa a combinação δῶρά τε καὶ θυσίας. “Tanto dons como sacrifícios” conserva essa forma inglesa sem obrigar os dois substantivos a designar categorias cultuais absolutamente separadas em todas as ocorrências. Hebreus voltará à mesma associação em 8.3 e 9.9.

Crítica textual. O texto crítico lê δῶρά τε καὶ θυσίας. Alguns testemunhos antigos, entre eles 𝔓46 e B, omitem τε, deixando simplesmente “dons e sacrifícios”. A variação altera a forma da coordenação, mas não o conteúdo básico da frase. A KJV representa a tradição que contém o correlativo e o reforça em inglês mediante both.

Função argumentativa. A honra mencionada posteriormente no v. 4 não é apresentada como dignidade abstrata. Desde o primeiro versículo, o ofício possui finalidade: atuar em favor de outros diante de Deus e oferecer em relação aos pecados. Esse vocabulário prepara o desenvolvimento de 7.27; 8.3; 9.7–14 e 10.1–14, onde a comparação entre as ofertas sacerdotais e a obra atribuída a Cristo será progressivamente aprofundada.

Nota — “pode ter compaixão dos ignorantes e dos que estão fora do caminho”

KJV 1611 e margem original. O texto principal imprime Who can haue compassion on the ignorant, and on them that are out of the way. Ao lado de can haue compassion, porém, a própria edição de 1611 oferece a alternativa: Or, can reasonably beare with. A margem é especialmente significativa porque preserva duas maneiras de representar μετριοπαθεῖν: a redação principal enfatiza compaixão; a alternativa explicita a ideia de suportar ou tratar os faltosos de maneira medida.

Filologia. Μετριοπαθεῖν, dependente de δυνάμενος, ocorre somente aqui no Novo Testamento. O verbo não exprime ausência de sentimento, mas uma disposição moderada diante da falha alheia: nem severidade desmedida nem indiferença diante do erro. A glosa marginal reasonably beare with documenta que a edição de 1611 registrou, ao lado do texto principal, uma alternativa que explicita essa nuance. A evidência permite afirmar a existência da alternativa; não exige atribuir aos tradutores uma justificativa específica para a escolha de have compassion no texto principal.

Essa escolha também merece ser distinguida de Hebreus 4.15. Ali, o grego utiliza συμπαθῆσαι para a capacidade de Cristo de participar compassivamente das fraquezas humanas; aqui emprega μετριοπαθεῖν para a disposição do sacerdote humano diante dos que falham. Há proximidade conceitual, mas não identidade lexical. Como esta edição traduz a KJV, “pode ter compaixão” permanece no texto principal, enquanto a alternativa de 1611 conserva visível a nuance mais específica.

Nota — “dos ignorantes e dos que estão fora do caminho [...] cercado de fraqueza”

Filologia e imagem. The ignorant, and [...] them that are out of the way representa τοῖς ἀγνοοῦσι καὶ πλανωμένοις. O primeiro termo descreve aqueles que ignoram ou agem sem conhecimento; o segundo, aqueles que se desviam ou se extraviam. A KJV preserva a imagem do desvio mediante out of the way, razão pela qual “fora do caminho” foi mantido em vez de reduzir a expressão simplesmente a “os que erram”.

O horizonte sacrificial ajuda a delimitar a expressão. A legislação levítica trata repetidamente de pecados cometidos por ignorância ou inadvertência (Lv 4.2,13,22,27; Nm 15.22–29). Hebreus não está descrevendo simples falta de instrução intelectual, mas pessoas cuja transgressão se encontra dentro do âmbito em que o ministério sacerdotal exerce sua função.

“Cercado de fraqueza”. He himselfe also is compassed with infirmitie representa ἐπεὶ καὶ αὐτὸς περίκειται ἀσθένειαν. Περίκειται conserva uma imagem envolvente: a fraqueza cerca o sacerdote. O substantivo ἀσθένεια está no singular. “Fraqueza” foi preferido a “enfermidade” porque infirmitie, no inglês bíblico da KJV, possui alcance mais amplo que doença física e aqui corresponde à fragilidade própria da condição sacerdotal humana.

Limite da comparação. “Fraqueza” não é sinônimo lexical de “pecado”. O v. 3 mostrará, contudo, que no sacerdote humano essa condição também se manifesta na necessidade de oferta por seus próprios pecados. Esse ponto será decisivo quando Hebreus contrastar tal sacerdócio com Cristo, já apresentado em 4.15 como participante das provações humanas, porém “sem pecado”.

Nota — “por causa disso, deve, assim como pelo povo, também por si mesmo, oferecer pelos pecados”

KJV 1611 e coesão. And by reason heereof não introduz uma razão nova e indeterminada. Hereof retoma a infirmitie imediatamente mencionada no v. 2. A tradução “por causa disso” conserva essa relação anafórica: a fraqueza que possibilita ao sacerdote reconhecer a condição dos faltosos também significa que ele próprio necessita do ministério sacrificial.

Hee ought representa ὀφείλει e possui força de obrigação. O sacerdote não oferece por si mesmo como simples gesto facultativo de humildade; sua própria condição torna necessária a oferta. A correlação inglesa as for the people, so also for himselfe preserva a ordem do argumento: primeiro a função em favor do povo, já apresentada no v. 1, e então a necessidade correspondente do próprio sacerdote.

Crítica textual. Para fins de controle desta edição, a NA28 lê δι’ αὐτήν, αὐτοῦ e περὶ ἁμαρτιῶν. Essas formas não exigem alteração da redação inglesa de 1611 reproduzida nesta coluna; a observação serve apenas para distinguir a forma crítica moderna do texto representado pela KJV.

Pano de fundo cultual. O Dia da Expiação fornece o paralelo mais imediato para essa necessidade. Em Lv 16.6,11–17, o sumo sacerdote apresenta oferta relacionada a si e à sua casa antes de realizar a expiação pelo povo. Hebreus retomará expressamente essa limitação em 7.27 e 9.7. O ponto não é uma deficiência acidental de determinado ocupante do cargo, mas uma característica estrutural do sacerdócio humano descrito nesta seção.

Contraste posterior. A frase estabelece um dos limites da analogia que começa em 5.1. Cristo poderá ser comparado ao sumo sacerdote quanto à representação, à solidariedade e ao chamado divino, mas não quanto à necessidade de oferecer por pecados próprios. Quando o argumento chegar a 7.26–28, essa diferença se tornará explícita.

Nota — “ninguém toma esta honra para si mesmo”

KJV 1611 e sintaxe. And no man taketh this honour vnto himselfe representa Καὶ οὐχ ἑαυτῷ τις λαμβάνει τὴν τιμήν. A frase é uma proposição geral, não um imperativo. Hebreus não diz simplesmente “ninguém deve tomar”, mas formula como princípio constitutivo do sacerdócio que ninguém toma para si próprio essa honra.

This honour, “esta honra”, retoma a dignidade sacerdotal descrita desde o v. 1. Τιμή pode designar honra, valor ou dignidade e, neste contexto, refere-se ao ofício honroso do sumo sacerdote. A tradução conserva “honra” em vez de substituí-la por “cargo”, porque a linguagem honorífica será imediatamente relevante quando o v. 5 disser que Cristo não glorificou a si mesmo para tornar-se sumo sacerdote.

Estrutura. Os vv. 1–3 descreveram o sacerdote quanto à sua relação com os seres humanos e com o pecado; o v. 4 acrescenta a condição de legitimidade de seu ofício diante de Deus. Origem humana e solidariedade não bastam: a posição também precisa ser recebida, não apropriada por iniciativa pessoal.

Nota — “senão aquele que é chamado por Deus, como foi Arão”

KJV 1611 e filologia. But hee that is called of God, as was Aaron representa o núcleo ἀλλὰ [...] καλούμενος ὑπὸ τοῦ θεοῦ [...] Ἀαρών. O inglês antigo called of God emprega of onde o português contemporâneo requer naturalmente “por”: “chamado por Deus”. O particípio passivo torna explícito que a legitimidade sacerdotal procede de uma iniciativa externa ao próprio sacerdote.

Arão. A referência pressupõe a instituição do sacerdócio aarônico. Em Êx 28.1, Deus ordena que Arão e seus filhos sejam separados dentre Israel para o serviço sacerdotal; Êx 29 e Lv 8 desenvolvem sua consagração. As narrativas de Nm 16–17 reforçam o mesmo princípio ao rejeitarem pretensões sacerdotais concorrentes. Arão funciona aqui positivamente como paradigma de alguém cuja dignidade sacerdotal procede do chamado divino.

Transição para Cristo. O v. 4 foi construído para preparar o v. 5. A expressão seguinte, So also Christ, aplicará a Jesus precisamente o princípio acabado de formular: assim como a honra sacerdotal não é autoconferida, Cristo não glorificou a si mesmo para tornar-se sumo sacerdote. A comparação com Arão, portanto, começa por uma correspondência real — a origem divina da nomeação — antes que Hebreus introduza a diferença decisiva do sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque.

Nota — “Assim também Cristo não glorificou a si mesmo para ser feito sumo sacerdote”

KJV 1611 e estrutura. So also, Christ glorified not himselfe, to bee made an High Priest representa Οὕτως καὶ ὁ Χριστὸς οὐχ ἑαυτὸν ἐδόξασεν γενηθῆναι ἀρχιερέα. So also corresponde a οὕτως καί e retoma diretamente o princípio estabelecido no versículo anterior. Em 5.4, ninguém toma para si a honra sacerdotal; em 5.5, “assim também” Cristo não atribui a si próprio essa dignidade. A comparação com Arão, portanto, prossegue precisamente no ponto da origem do ofício: em ambos os casos, a legitimidade do sacerdócio procede de Deus.

“Não glorificou a si mesmo”. A KJV conserva de perto οὐχ ἑαυτὸν ἐδόξασεν mediante glorified not himselfe. O texto não nega que Cristo possua glória nem descreve uma ausência geral de autoglorificação; o infinitivo seguinte delimita a afirmação. Ele não glorificou a si mesmo para ser feito sumo sacerdote. O ponto imediato é a ausência de autodesignação sacerdotal.

“Para ser feito”. To bee made representa γενηθῆναι, infinitivo aoristo de γίνομαι. No contexto, o verbo possui naturalmente o sentido de “tornar-se”, “vir a ser”. Como esta edição traduz a KJV efetivamente impressa, “ser feito” conserva a forma inglesa de 1611, enquanto a nota registra que o grego não exige a ideia de fabricação ou criação de Cristo. Trata-se de sua entrada ou constituição na condição de sumo sacerdote.

Crítica textual. A forma γενηθῆναι, pressuposta pela tradição textual representada pela KJV, é também a leitura adotada pelas principais edições críticas. O códice A apresenta γενέσθαι, outro infinitivo aoristo de γίνομαι. A variante modifica a forma verbal, mas não introduz diferença substantiva no sentido da oração. Por isso, ela não exige qualquer alteração na tradução da KJV.

Função argumentativa. A correspondência com Arão possui limite definido. Hebreus não afirma que Cristo pertença à ordem aarônica. O v. 5 aplica-lhe o princípio de 5.4 — a dignidade sacerdotal deve proceder de nomeação divina —, enquanto o v. 6 imediatamente mostrará que a modalidade de seu sacerdócio é definida por outra declaração escriturística, associada a Melquisedeque. Continuidade de autorização e diferença de ordem são, assim, colocadas lado a lado.

Nota — “mas aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei”

KJV 1611 e sintaxe. But hee that saide vnto him representa ἀλλ᾽ ὁ λαλήσας πρὸς αὐτόν. A construção é elíptica. Depois de “Cristo não glorificou a si mesmo”, nem o grego nem a KJV repetem expressamente o verbo “glorificou” no segundo membro. O sentido é: Cristo não conferiu a si mesmo essa glória, mas [ela procede de] aquele que lhe falou. A tradução conserva a estrutura da KJV — “mas aquele que lhe disse” — em vez de inserir no corpo do texto um verbo que a própria redação inglesa não expressa.

O sujeito de saide é Deus. Isso se torna especialmente importante porque Hebreus trata as palavras da Escritura como palavra divina atual. A nomeação sacerdotal não é demonstrada por uma reivindicação de Cristo acerca de si mesmo, mas por aquilo que Deus lhe diz nas Escrituras.

Texto citado. Thou art my Sonne, to day haue I begotten thee reproduz Sl 2.7 e corresponde a Υἱός μου εἶ σύ, ἐγὼ σήμερον γεγέννηκά σε. A mesma passagem já havia sido citada em Hb 1.5. Sua retomada aqui liga deliberadamente a exposição sacerdotal ao tema da filiação desenvolvido desde o início da epístola.

Variação interna da KJV 1611. Em Hb 1.5, a edição de 1611 imprime Thou art my Sonne, this day haue I begotten thee; em 5.5, imprime Thou art my Sonne, to day haue I begotten thee. O grego possui σήμερον, “hoje”, nas duas ocorrências. Em português, ambas são naturalmente representadas por “hoje”. A diferença inglesa deve ser documentada, mas não há base suficiente para atribuir aos tradutores uma intenção exegética específica para essa variação.

“Hoje te gerei”. Γεγέννηκα é perfeito de γεννάω, “gerar”. A tradução conserva a metáfora da geração sem substituí-la por explicações como “hoje te constituí Filho”, “hoje te entronizei” ou “hoje te declarei Filho”. Essas interpretações podem participar da discussão exegética de Sl 2.7, mas não constituem equivalentes lexicais da frase citada.

Filiação e sacerdócio. Sl 2.7, isoladamente, não contém declaração sacerdotal. A afirmação explícita “Tu és sacerdote” somente aparecerá no v. 6. Por isso, as duas citações devem ser lidas conjuntamente sem serem confundidas: a primeira identifica novamente Cristo como o Filho a quem Deus fala; a segunda fornece a declaração escriturística específica acerca de seu sacerdócio.

Limite cronológico. O “hoje” da citação não deve ser convertido no texto da tradução numa afirmação de que Cristo começou a ser Filho naquele momento. Hebreus já o apresenta como Filho antes desta passagem e dirá em 5.8 “embora fosse Filho”. Qual acontecimento é especialmente focalizado pela reutilização de Sl 2.7 pertence à interpretação da citação; não deve ser acrescentado à sua redação.

Nota — “Como ele diz também em outro lugar”

KJV 1611 e sintaxe. As he saith also in another place representa καθὼς καὶ ἐν ἑτέρῳ λέγει. O grego não repete nominalmente o sujeito de λέγει; a KJV torna-o explícito mediante he. O referente continua sendo aquele que falou ao Filho no versículo anterior, isto é, Deus. “Como ele diz também em outro lugar” conserva esse pronome da redação inglesa sem substituir seu referente diretamente por “Deus” no texto principal.

In another place representa a construção elíptica ἐν ἑτέρῳ, literalmente “em outro”. O substantivo “lugar” não possui correspondente independente expresso, mas é a resolução contextual natural tanto no inglês da KJV quanto em português. A fórmula coloca uma segunda declaração escriturística ao lado de Sl 2.7.

De Sl 2 a Sl 110. A mudança de passagem é decisiva para o argumento. Sl 2.7 fornece linguagem de filiação régia; Sl 110.4 fornece linguagem sacerdotal. Hebreus não cria uma única citação composta, mas faz duas declarações divinas convergirem sobre a mesma pessoa. Filho e sacerdote permanecem categorias distintas, agora reunidas no desenvolvimento cristológico da epístola.

Relação com Hebreus 1. Os mesmos dois salmos já ocupavam posição central no primeiro capítulo. Sl 2.7 foi citado em 1.5, enquanto Sl 110.1 concluiu a cadeia de citações em 1.13 com a entronização à direita de Deus. Em 5.6, Hebreus retorna ao mesmo Sl 110, agora não ao v. 1, mas ao v. 4. O salmo que anteriormente forneceu linguagem régia de entronização passa a fornecer a declaração que sustenta a exposição sacerdotal.

Nota — “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”

KJV 1611 e texto citado. Thou art a Priest for euer after the order of Melchisedec reproduz Sl 110.4 [109.4 LXX] e corresponde em Hebreus a Σὺ ἱερεὺς εἰς τὸν αἰῶνα κατὰ τὴν τάξιν Μελχισέδεκ. A declaração fornece diretamente aquilo que Sl 2.7 não havia expresso: Cristo é apresentado escrituristicamente como sacerdote.

“Tu és” e crítica textual. O texto grego recebido representado pela KJV lê Σὺ ἱερεύς, sem cópula expressa: literalmente, “Tu, sacerdote”. O inglês necessita do verbo e apresenta naturalmente Thou art a Priest; portanto, o art não demonstra que a base grega continha εἶ. Alguns testemunhos, entre eles 𝔓46, P e 629, acrescentam εἶ depois de σύ, produzindo Σὺ εἶ ἱερεύς. A forma longa se aproxima da redação de Sl 109.4 LXX; a forma sem εἶ possui apoio amplo e é a que corresponde à tradição recebida aqui. Em português, ambas resultam em “Tu és sacerdote”.

“Sacerdote”, não “sumo sacerdote”. O v. 5 emprega High Priest, correspondendo a ἀρχιερεύς; a citação do v. 6 traz simplesmente Priest, correspondendo a ἱερεύς. A KJV preserva essa diferença, e a tradução faz o mesmo. Hebreus não está instituindo dois ofícios distintos: em 5.10 o próprio autor retomará a referência a Melquisedeque e qualificará Cristo novamente como “sumo sacerdote”.

“Para sempre”. For euer representa εἰς τὸν αἰῶνα. No desenvolvimento de Hebreus, essa duração será decisiva. O capítulo 7 contrastará a permanência do sacerdócio associado a Melquisedeque com o sacerdócio levítico marcado pela sucessão de homens impedidos pela morte de permanecer no ofício. A fórmula é, portanto, programática para a argumentação posterior.

“Segundo a ordem”. O inglês de 1611 after the order of Melchisedec não é temporal; after representa κατά no sentido de “segundo”, “conforme”. Τάξις pode designar disposição, posição, categoria ou modalidade, e aqui não exige uma corporação histórica ou uma sucessão genealógica de sacerdotes melquisedequianos. Hebreus deixará a natureza dessa correspondência para o capítulo 7, onde falará também de um sacerdote “segundo a semelhança de Melquisedeque” (7.15).

Melquisedeque. A KJV imprime Melchisedec; “Melquisedeque” emprega a forma portuguesa convencional do nome. Neste ponto, Hebreus ainda não explica a personagem. A exposição será retomada em 5.10, novamente em 6.20 e extensamente em 7.1–28. Introduzir aqui uma descrição desenvolvida de Gn 14.18–20 anteciparia a própria progressão deliberada da epístola.

Função teológica. Os vv. 5–6 demonstram simultaneamente continuidade e diferença. Cristo satisfaz o princípio apresentado por meio de Arão: o sacerdote não toma a honra para si, mas recebe sua designação de Deus. Contudo, a Escritura pela qual seu sacerdócio é caracterizado não o coloca na sucessão de Arão; coloca-o “segundo a ordem de Melquisedeque” e qualifica seu sacerdócio como permanente. Essa tensão fornece o programa que Hebreus desenvolverá nos capítulos seguintes.

Nota — “nos dias de sua carne, quando havia oferecido orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas”

KJV 1611 e filologia. Who in the dayes of his flesh, when hee had offered vp prayers and supplications, with strong crying and teares representa ὃς ἐν ταῖς ἡμέραις τῆς σαρκὸς αὐτοῦ [...] δεήσεις τε καὶ ἱκετηρίας [...] μετὰ κραυγῆς ἰσχυρᾶς καὶ δακρύων προσενέγκας. “Nos dias de sua carne” conserva a imagem concreta tanto da KJV quanto do grego. A expressão caracteriza o período da existência humana de Cristo submetida às condições de mortalidade e sofrimento; não significa que “carne” possua aqui, por si mesma, conotação moral negativa.

“Quando havia oferecido”. O grego emprega προσενέγκας, particípio aoristo de προσφέρω, literalmente “tendo oferecido”. A KJV transforma a construção participial em when hee had offered vp, uma oração temporal finita. “Quando havia oferecido” acompanha a estrutura inglesa efetivamente impressa, embora a nota preserve a forma mais compacta do original.

O verbo offered vp merece atenção dentro de Hebreus. O mesmo campo verbal de “oferecer” domina a descrição sacerdotal iniciada em 5.1 e reaparecerá na exposição das ofertas de Cristo. Aqui, porém, o objeto imediato são “orações e súplicas”. A linguagem pode adquirir ressonância sacerdotal no contexto, mas o texto não deve ser expandido para dizer que as orações eram formalmente um “sacrifício” se essa palavra não aparece na cláusula.

“Forte clamor e lágrimas”. Strong crying and teares representa κραυγῆς ἰσχυρᾶς καὶ δακρύων. A intensidade da linguagem mostra que a participação do Filho na condição humana não é apresentada de maneira abstrata. O sofrimento inclui oração angustiada, clamor e lágrimas. A formulação torna a paixão especialmente relevante, mas o plural “nos dias de sua carne” não permite reduzir todo o versículo, no texto da tradução, a um único episódio denominado expressamente “Getsêmani”.

Estrutura. A frase iniciada no v. 7 não se encerra sintaticamente nele no grego. Os particípios relativos à oferta das orações e ao fato de ser ouvido conduzem ao verbo principal “aprendeu” no v. 8. A KJV torna parte dessa estrutura mais finita mediante when hee had offered e was heard, mas ainda preserva a progressão que liga oração, sofrimento e obediência.

Nota — “àquele que era capaz de salvá-lo da morte”

KJV 1611 e filologia. Vnto him that was able to saue him from death representa πρὸς τὸν δυνάμενον σῴζειν αὐτὸν ἐκ θανάτου. O sujeito é aquele que possui poder para salvar; a construção não diz que Cristo carecesse de poder em sentido absoluto, mas descreve a direção concreta de suas orações durante “os dias de sua carne”.

“Da morte”. A preposição ἐκ possui o sentido básico de movimento “para fora de”. Em combinação com θάνατος, a expressão pode ser entendida como livramento da morte ou como salvamento para fora dela. A KJV emprega o suficientemente aberto from death, que não obriga o leitor a decidir no próprio texto entre evitar a morte e ser libertado dela mediante ressurreição.

Essa abertura é relevante para a cláusula seguinte, segundo a qual ele “foi ouvido”. Hebreus evidentemente conhece a morte de Cristo; por isso, “foi ouvido” não pode ser transformado sem explicação na afirmação de que a oração produziu simplesmente a não ocorrência da morte. A sequência da epístola permite compreender a resposta divina no horizonte mais amplo da passagem através do sofrimento para o aperfeiçoamento, a salvação e a exaltação.

Limite histórico. A linguagem possui correspondências evidentes com as tradições da paixão, nas quais Jesus ora diante da morte. Contudo, Hebreus não cita aqui uma narrativa evangélica, não menciona o cálice e não nomeia um lugar. A tradução, portanto, conserva a generalidade da KJV em vez de substituir “nos dias de sua carne” por “no Getsêmani”.

Nota — “e foi ouvido naquilo que temia”

KJV 1611 e margem original. O texto principal imprime and was heard, in that he feared. A primeira edição coloca ao lado dessa expressão a alternativa Or, for his pietie. A própria KJV, portanto, preserva duas maneiras de representar a difícil construção εἰσακουσθεὶς ἀπὸ τῆς εὐλαβείας. A tradução principal acompanha a redação efetivamente impressa — “foi ouvido naquilo que temia” — enquanto a margem portuguesa conserva a alternativa de 1611.

“Temia”. O inglês feared não deve ser lido automaticamente no sentido moderno de medo covarde ou terror descontrolado. Εὐλάβεια pertence ao campo da reverência, cautela religiosa, temor respeitoso e devoção. Assim, a frase não atribui a Cristo uma falha moral causada pelo medo; descreve sua postura diante de Deus.

Margem da KJV 1611. For his pietie aproxima-se da análise causal de ἀπὸ τῆς εὐλαβείας: “por causa de sua reverência”. No português atual, “piedade” pode sugerir sobretudo compaixão; aqui possui sentido religioso, de reverência ou devoção. A presença dessa alternativa no aparato de 1611 documenta que in that he feared não era apresentada como a única maneira de representar a construção.

Função no argumento. Ser “ouvido” não elimina o sofrimento descrito pelo texto; imediatamente o v. 8 afirmará que o Filho aprendeu a obediência “pelas coisas que sofreu”. O atendimento da oração e a passagem pelo sofrimento coexistem na mesma construção. A resposta divina não deve, portanto, ser reduzida à remoção de toda experiência dolorosa.

Nota — “Embora fosse Filho, contudo aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”

KJV 1611 e sintaxe. Though hee were a Sonne, yet learned hee obedience, by the things which he suffered representa καίπερ ὢν υἱός, ἔμαθεν ἀφ᾽ ὧν ἔπαθεν τὴν ὑπακοήν. A KJV torna a concessão particularmente explícita mediante o par Though ... yet. “Embora ... contudo” preserva essa estrutura inglesa, embora o grego concentre a força concessiva principalmente em καίπερ.

“Filho”. A ausência de artigo diante de υἱός não exige a tradução “um filho”. O contexto acabou de repetir em 5.5 a declaração “Tu és meu Filho”. A edição de 1611 imprime Sonne com inicial maiúscula, e a tradução conserva “Filho” como designação cristológica; a capitalização histórica, porém, não deve ser usada isoladamente como prova de uma intenção exegética específica dos tradutores.

“Aprendeu a obediência”. A frase deve conservar sua força própria. O texto não diz simplesmente que o Filho “mostrou obediência”, mas que a aprendeu. Isso não implica desobediência anterior. Hebreus já o apresentou como “sem pecado” em 4.15. O aprendizado é experiencial: a obediência é conhecida e realizada concretamente quando cumprir a vontade recebida envolve sofrimento.

“Pelas coisas que sofreu”. A KJV reproduz de modo bastante próximo ἀφ᾽ ὧν ἔπαθεν. A relação não deve ser enfraquecida para uma simples simultaneidade. Aquilo que ele sofreu constitui o âmbito por meio do qual a obediência é experimentada.

Forma literária. O grego apresenta a notável aproximação sonora ἔμαθεν ... ἔπαθεν, “aprendeu ... sofreu”. A associação entre aprender e sofrer era conhecida na língua grega, mas Hebreus a utiliza sem sugerir que Jesus tenha aprendido depois de cometer um erro. O jogo verbal é colocado dentro de uma trajetória de obediência sem pecado.

Ligação com o v. 9. “Obediência” prepara também a linguagem seguinte. No v. 8, o Filho aprende obedience; no v. 9, torna-se autor da salvação para aqueles que obey him. A KJV, assim como o grego, preserva audivelmente a passagem da obediência do Filho à obediência daqueles que respondem a ele.

Nota — “sendo aperfeiçoado, tornou-se o autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem”

KJV 1611 e filologia. And being made perfect, he became the authour of eternall saluation vnto all them that obey him representa καὶ τελειωθεὶς ἐγένετο [...] αἴτιος σωτηρίας αἰωνίου. “Sendo aperfeiçoado” traduz being made perfect sem perder a relação com a família verbal de “aperfeiçoar” que já aparece em Hebreus 2.10 e voltará em 7.28.

“Aperfeiçoado”. A expressão não implica correção de defeito moral, o que contrariaria 4.15. O sentido é de consumação ou cumprimento: a trajetória de sofrimento e obediência chega à condição adequada ao exercício de sua missão salvadora e sacerdotal. A família de “aperfeiçoar” possui ressonâncias cultuais, mas reduzi-la aqui a “foi consagrado sacerdote” estreitaria uma formulação que reúne sofrimento, obediência, consumação e eficácia salvadora.

“Autor”. Authour não significa aqui “escritor”; representa αἴτιος, aquele que é causa, responsável, originador ou fonte de um resultado. A escolha também deve ser distinguida de 2.10: ali ἀρχηγός é vertido pela KJV como captaine of their saluation; aqui αἴτιος aparece como authour of eternall saluation. “Autor” permanece no texto português porque traduz a escolha lexical da KJV sem apagar a diferença entre os dois termos gregos.

“Salvação eterna”. Eternall saluation representa σωτηρίας αἰωνίου. A qualificação prepara uma rede característica de Hebreus: “redenção eterna” em 9.12, “herança eterna” em 9.15 e “aliança eterna” em 13.20. A duração da salvação contrasta com a transitoriedade e repetição das instituições sacerdotais que serão analisadas nos capítulos seguintes.

“Os que lhe obedecem”. A afirmação não deve ser separada do v. 8. A mesma família verbal organiza os dois versículos: ele “aprendeu a obediência” e tornou-se autor da salvação para os que “lhe obedecem”. A relação não torna idênticos os dois atos de obediência, mas cria uma ligação deliberada entre a trajetória do Filho e a resposta requerida daqueles que recebem sua salvação.

Nota — “chamado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque”

KJV 1611 e filologia. Called of God an high Priest after the order of Melchisedec representa προσαγορευθεὶς ὑπὸ τοῦ θεοῦ ἀρχιερεὺς κατὰ τὴν τάξιν Μελχισέδεκ. O inglês antigo of God possui aqui o valor que o português atual expressa naturalmente por “por Deus”.

Dois verbos diferentes traduzidos por “chamar”. Há uma distinção importante que a KJV não torna imediatamente visível. Em 5.4, “he that is called of God” representa καλούμενος, de καλέω. Em 5.10, “Called of God” representa προσαγορευθείς, de προσαγορεύω. O segundo verbo é mais específico e pode significar dirigir-se formalmente a alguém mediante determinado nome ou título, denominá-lo ou proclamá-lo.

Por isso, o “chamado” do v. 10 não deve ser entendido simplesmente como repetição lexical do chamado de 5.4. A KJV emprega a mesma palavra inglesa para dois verbos gregos distintos. Aqui o sentido está ligado à declaração divina que atribui a Cristo a designação sacerdotal apresentada no Salmo 110.4.

“Sumo sacerdote”. Há também uma progressão entre os vv. 6 e 10. A citação do Salmo no v. 6 diz Priest, “sacerdote”, correspondendo a ἱερεύς. O v. 10, ao resumir a aplicação da citação a Cristo, emprega high Priest, “sumo sacerdote”, correspondendo ao ἀρχιερεύς efetivamente escrito por Hebreus. Não se trata de alteração textual do Salmo pela KJV, mas da interpretação feita pelo próprio autor da epístola.

“Segundo a ordem”. A fórmula retoma 5.6 sem acrescentar aqui uma nova definição de τάξις. A novidade do v. 10 é resumir a declaração de Sl 110.4 sob o título explícito de “sumo sacerdote”; a explicação da correspondência com Melquisedeque permanece reservada ao capítulo 7.

Função argumentativa. O v. 10 fecha o movimento iniciado em 5.4–6: Cristo não toma para si a honra sacerdotal, mas recebe de Deus sua designação. Entre a nomeação e sua retomada, os vv. 7–9 inserem oração, sofrimento, obediência e aperfeiçoamento. Ao mesmo tempo, “aperfeiçoado”, “salvação eterna” e “sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” antecipam a exposição que será retomada em 6.20–7.1.

Nota — “A respeito do qual temos muitas coisas a dizer, e difíceis de serem proferidas”

KJV 1611 e ligação com o contexto. Of whom we haue many things to say, and hard to be vttered representa Περὶ οὗ πολὺς ἡμῖν ὁ λόγος καὶ δυσερμήνευτος λέγειν. O pronome relativo whom faz a leitura inglesa apontar naturalmente para Melquisedeque, mencionado imediatamente no final do v. 10. O grego οὗ, contudo, permite que a referência seja entendida de modo mais amplo como “a respeito disso”, isto é, acerca do assunto recém-introduzido: o sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque.

A opção “a respeito do qual” preserva deliberadamente a leitura formal da KJV. Isso não significa que tudo o que segue no capítulo 7 será simplesmente uma biografia de Melquisedeque. O tema retomado em 6.20–7.1 será a relação entre Melquisedeque e o sacerdócio de Cristo, de modo que a referência pessoal e a referência temática convergem no desenvolvimento do argumento.

“Muitas coisas a dizer”. O grego possui πολὺς ἡμῖν ὁ λόγος, construção idiomática que exprime a existência de um discurso extenso sobre o assunto. A KJV expande naturalmente essa construção para we have many things to say. Não se trata necessariamente de uma enumeração de numerosas informações independentes, mas de matéria que exige exposição desenvolvida.

“Difíceis de serem proferidas”. Hard to be vttered traduz δυσερμήνευτος λέγειν, “difícil de interpretar, explicar ou expor”. O problema não é a mera pronúncia das palavras: λέγειν relaciona a dificuldade ao ato de apresentar a matéria de modo inteligível. A tradução conserva a formulação histórica da KJV, enquanto o restante do versículo esclarece que a dificuldade decorre também da condição dos ouvintes.

Pontuação e transição. O v. 10 terminou na edição de 1611 com dois-pontos depois de Melchisedec; o v. 11 prossegue diretamente com Of whom. A disposição torna visível a ligação entre a proclamação sacerdotal e a interrupção pedagógica que agora começa. O autor não abandona o tema de Melquisedeque: suspende sua exposição.

Nota — “visto que sois tardios para ouvir”

KJV 1611 e filologia. Seeing ye are dull of hearing representa ἐπεὶ νωθροὶ γεγόνατε ταῖς ἀκοαῖς. Dull possui aqui o sentido de lento, obtuso, pouco responsivo. Não descreve deficiência física da audição. A metáfora é intelectual, moral e espiritual: eles ouvem, mas não recebem e processam adequadamente aquilo que lhes é exposto.

KJV 1611 e grego. A KJV diz ye are dull, “sois tardios”, enquanto o grego emprega γεγόνατε, perfeito de γίνομαι: literalmente, “vos tornastes tardios”. O original apresenta, portanto, uma condição adquirida. Os destinatários não são caracterizados como pessoas naturalmente incapazes de compreender; chegaram a uma condição de lentidão.

Essa nuance torna a repreensão mais séria. O problema poderia ter sido diferente. O tempo transcorrido deveria ter produzido crescimento, como o v. 12 mostrará. Em vez disso, houve estagnação ou regressão. A tradução principal segue a KJV, mas a diferença é relevante para compreender a força do argumento grego.

“Ouvir”. A KJV preserva a metáfora explícita dos “ouvidos” presente em ταῖς ἀκοαῖς. Não há razão para substituí-la no texto por “lentos para compreender”, embora compreensão seja precisamente a faculdade afetada. Em Hebreus, ouvir possui importância retórica particular: a obra repetidamente convoca seus destinatários a prestar atenção à palavra que lhes é dirigida (Hb 2.1; 3.7,15; 4.7).

Função retórica. O autor não afirma que o assunto de Melquisedeque seja intrinsecamente incomunicável. A dificuldade de exposição decorre da relação entre um conteúdo exigente e uma audiência que não desenvolveu a capacidade esperada de ouvi-lo. Essa acusação prepara todas as imagens pedagógicas dos vv. 12–14.

Nota — “quando pelo tempo já devíeis ser mestres [...] os primeiros princípios dos oráculos de Deus”

KJV 1611 e sintaxe. For when for the time yee ought to bee teachers representa καὶ γὰρ ὀφείλοντες εἶναι διδάσκαλοι διὰ τὸν χρόνον. O inglês de 1611 conserva uma construção hoje incomum. For the time significa, no contexto, “em razão do tempo decorrido” ou “considerando o tempo”. A ideia não é que determinada hora do dia os obrigasse a ensinar, mas que o período de formação já recebido deveria tê-los conduzido a um estágio mais avançado.

“Devíeis ser mestres”. Ὀφείλοντες expressa obrigação ou expectativa. O texto não precisa pressupor que todos os destinatários devessem possuir um ofício eclesiástico formal de mestre. A oposição é pedagógica: depois de tempo suficiente como aprendizes, deveriam estar capacitados a instruir outros; em vez disso, precisam ser ensinados novamente.

“Que alguém vos ensine novamente quais sejam”. A KJV lê yee haue neede that one teach you againe which be the first principles. A sequência grega é τοῦ διδάσκειν ὑμᾶς τινὰ τὰ στοιχεῖα. A forma ΤΙΝΑ dos manuscritos antigos não distingue por acentuação entre τινά, pronome indefinido (“alguém”), e τίνα, interrogativo (“quais”); nas edições gregas impressas, contudo, a acentuação e a análise variam. A redação inglesa da KJV fornece one como sujeito do infinitivo e verte τινα por which, “quais”.

O texto crítico moderno imprime τινά como pronome indefinido e favorece a análise “precisais de que alguém vos ensine os elementos iniciais...”. Já a KJV expressa também a leitura interrogativa em which be the first principles. Como há apenas uma ocorrência de τινα no grego, não se deve afirmar que o original contenha simultaneamente dois pronomes distintos; trata-se de uma diferença de análise sintática, tornada explícita na forma inglesa.

“Primeiros princípios”. The first principles representa τὰ στοιχεῖα τῆς ἀρχῆς. Στοιχεῖα pode designar componentes elementares e, em contexto educacional, os rudimentos de uma disciplina. A expressão é enfaticamente básica: os destinatários que deveriam ensinar ainda precisam retornar aos elementos do começo.

“Oráculos de Deus”. The Oracles of God representa τῶν λογίων τοῦ θεοῦ. Λόγια pode designar pronunciamentos ou oráculos divinos e, em certos contextos, as Escrituras. Aqui a expressão pode compreender a revelação divina que constitui a base da formação recebida pelos leitores. Preservar “oráculos” evita restringi-la no texto principal a “Antigo Testamento”, “doutrinas” ou outra definição mais estreita que o próprio versículo não fornece.

Paradoxo pedagógico. A censura é construída por inversão: aqueles que deveriam ensinar precisam ser ensinados; aqueles que deveriam ter avançado precisam retornar ao começo. A imagem alimentar da segunda metade do versículo tornará essa regressão ainda mais concreta.

Nota — “vos tornastes tais que necessitais de leite, e não de alimento forte”

KJV 1611 e aspecto verbal. And are become such as haue need of milke representa καὶ γεγόνατε χρείαν ἔχοντες γάλακτος. Aqui a KJV preserva claramente γεγόνατε mediante are become: eles não apenas “precisam” de leite; tornaram-se pessoas que precisam dele. A formulação descreve uma condição resultante e reforça o caráter regressivo da repreensão.

“Leite”. A metáfora é pedagógica, não depreciativa em relação ao conteúdo básico em si. Leite é alimento apropriado à infância. O problema é que pessoas que, devido ao tempo transcorrido, já deveriam possuir maturidade continuam dependentes do alimento correspondente ao estágio inicial.

“Alimento forte”. O inglês strong meat precisa ser lido historicamente. Meat no inglês da KJV pode significar alimento em sentido geral, não apenas carne animal. A expressão inteira designa alimento consistente ou sólido em contraste com leite. “Alimento forte” conserva na tradução a formulação característica da KJV; semanticamente, trata-se do “alimento sólido” mencionado na descrição temática da passagem.

Crítica textual. A NA28 imprime καί antes de οὐ entre colchetes, sinalizando incerteza quanto à sua presença no texto. A diferença é estilística e não altera o contraste fundamental entre leite e alimento sólido. Como esta edição traduz a KJV 1611, a coordenação de seu texto principal permanece preservada.

Função da metáfora. O contexto imediato impede que a metáfora seja transformada numa oposição entre “evangelho simples” e alguma doutrina secreta reservada a uma elite. O assunto cuja exposição foi interrompida é precisamente o sacerdócio de Cristo segundo Melquisedeque. O “alimento forte” inclui, portanto, uma compreensão mais desenvolvida da revelação já recebida, capaz de acompanhar argumentação escriturística e teológica mais exigente.

Nota — “todo aquele que usa leite é inábil na palavra da justiça, pois é um bebê”

KJV 1611 e filologia. For euery one that vseth milke, is vnskilful in the word of righteousnes: for he is a babe representa πᾶς γὰρ ὁ μετέχων γάλακτος ἄπειρος λόγου δικαιοσύνης, νήπιος γάρ ἐστιν. A KJV traduz μετέχων por useth, “usa”. O verbo grego significa participar, tomar parte ou compartilhar; aplicado a alimento, possui naturalmente o sentido de consumir ou alimentar-se dele.

“Usa leite” foi mantido para representar a redação efetiva da KJV. Em português idiomático poder-se-ia dizer “alimenta-se de leite”, mas isso traduziria mais diretamente a imagem contextual que o inglês de 1611.

“Inábil” e margem da KJV 1611. Vnskilful representa ἄπειρος, aquele que carece de experiência ou prática. A primeira edição reforça essa nuance com a marginal Gr. hath no experience. “Inábil” não indica incapacidade intelectual absoluta; descreve falta de experiência, em contraste com as faculdades “exercitadas” do v. 14.

“Palavra da justiça”. The word of righteousnes traduz literalmente λόγου δικαιοσύνης, expressão cuja delimitação exata é discutida. Λόγος pode significar palavra, discurso, ensino ou mensagem; δικαιοσύνη, justiça. O texto não define explicitamente se se trata de “ensino sobre a justiça”, “discurso justo”, “mensagem de justiça” ou uma designação mais ampla da instrução cristã madura.

Por essa razão, “palavra da justiça” foi preservado. Traduzir diretamente por “doutrina da justiça” decidiria antecipadamente que δικαιοσύνης exprime o conteúdo do ensino e que λόγος possui aqui sentido técnico de doutrina. A formulação mais aberta permite que o próprio contexto determine seu alcance.

“Pois é um bebê”. Babe representa νήπιος, criança pequena ou infante. A afirmação não fornece uma classificação ontológica permanente de certos cristãos. Ela interpreta a metáfora alimentar: quem permanece limitado ao leite ocupa, na analogia, a posição da criança que ainda não alcançou a maturidade necessária para o alimento sólido.

Função argumentativa. O contraste não despreza os elementos iniciais. Eles são necessários como começo, assim como o leite é apropriado ao bebê. A crítica dirige-se à permanência indefinida nesse estágio. Por isso, 6.1 chamará os ouvintes a avançar para a maturidade sem negar o fundamento anteriormente recebido.

Nota — “o alimento forte pertence aos que são de plena idade”

KJV 1611 e contraste. But strong meate belongeth to them that are of full age representa τελείων δέ ἐστιν ἡ στερεὰ τροφή. A ordem inglesa põe “alimento forte” em primeiro plano e estabelece diretamente a antítese com o leite do v. 13.

“Alimento forte”. A KJV repete strong meat, já empregado em 5.12 para στερεὰ τροφή. Vale aqui a mesma distinção histórica: meat significa alimento em sentido amplo. A repetição fecha a oposição iniciada no v. 12 entre leite e alimento próprio da maturidade.

“De plena idade”. O grego possui simplesmente τελείων, genitivo plural de τέλειος. O termo pode descrever aquilo que chegou à sua completude, maturidade ou pleno desenvolvimento. A KJV interpreta a metáfora de crescimento mediante of full age, “de plena idade”.

Margem da KJV 1611 — “Or, perfect”. A primeira edição oferece ao lado de of full age a alternativa Or, perfect. A margem é filologicamente importante porque revela as duas principais maneiras de representar τέλειος neste contexto: uma tradução interpretativa em termos de maturidade — “de plena idade” — e uma tradução lexical mais direta — “perfeito”.

“Perfeito” não deve ser lido aqui automaticamente como impecabilidade moral absoluta. Dentro da metáfora de infância e alimentação, o contraste fundamental é entre imaturidade e maturidade. A alternativa marginal preserva o vocabulário de “perfeição” sem abolir esse contexto de crescimento.

Relação lexical. A mesma família lexical desempenha papel significativo na carta, inclusive na afirmação de que Cristo foi “aperfeiçoado” em 5.9. Isso não torna “os perfeitos” do v. 14 idênticos a Cristo no sentido da declaração anterior, mas mostra que a linguagem de τέλειος/τελειόω comporta a ideia de levar algo à sua condição adequada ou completa.

Nota — “aqueles que, em razão do uso, têm seus sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal”

KJV 1611 e sintaxe. Euen those who by reason of vse haue their senses exercised to discerne both good and euil representa τῶν διὰ τὴν ἕξιν τὰ αἰσθητήρια γεγυμνασμένα ἐχόντων πρὸς διάκρισιν καλοῦ τε καὶ κακοῦ. O segundo membro explica quem são os maduros mencionados na primeira metade do versículo. A maturidade não é definida simplesmente pelo tempo transcorrido, mas por faculdades efetivamente treinadas.

“Em razão do uso”. By reason of vse representa διὰ τὴν ἕξιν. Ἕξις ocorre somente aqui no Novo Testamento e pode significar estado adquirido, hábito ou prática. A ideia não é simples repetição mecânica de determinada atividade, mas uma disposição consolidada pelo exercício.

Margem da KJV 1611 — “Or of an habite, or perfection”. A edição de 1611 registra essas alternativas ao lado de vse. Habite aproxima-se diretamente do valor de ἕξις como disposição adquirida; perfection pode ser lido em relação à condição amadurecida descrita imediatamente antes. A marginal documenta possibilidades de representação da expressão grega, mas não fornece, por si só, uma explicação dos motivos editoriais que levaram à escolha de vse no texto principal.

“Sentidos exercitados”. Senses representa αἰσθητήρια, as faculdades de percepção; exercised traduz γεγυμνασμένα, forma que descreve faculdades treinadas pelo exercício. A metáfora passa da alimentação à percepção: o contraste deliberado é entre o unskilful do v. 13 e quem possui faculdades já exercitadas.

“Discernir”. Πρὸς διάκρισιν expressa a finalidade desse exercício: distinção ou discernimento. A maturidade, portanto, não é simples acúmulo de informação, mas capacidade adquirida de avaliar e fazer distinções adequadas.

“Tanto o bem como o mal”. Καλοῦ τε καὶ κακοῦ é diretamente representado por both good and euil. A fórmula pode abranger discernimento moral, mas no contexto pedagógico também inclui a capacidade de avaliar corretamente ensino, argumentos e suas implicações. Não há necessidade de limitar “bem e mal” exclusivamente à moral individual nem de convertê-los apenas em “verdade e erro”.

Maturidade como prática. O v. 14 fornece a resposta positiva à acusação dos vv. 11–13. A maturidade que falta aos destinatários não resulta simplesmente de envelhecimento ou passagem automática do tempo. Ela envolve hábito, exercício e discernimento. O tempo de que fala o v. 12 deveria ter produzido precisamente essa prática, mas não a produziu.

Fechamento do capítulo. A sequência inteira forma uma progressão coerente: os ouvintes tornaram-se lentos; por isso não conseguem acompanhar a exposição; embora devessem ensinar, precisam reaprender os rudimentos; em vez de alimento forte, necessitam de leite; em vez de faculdades treinadas, permanecem como crianças. Hebreus 6.1 responderá diretamente a essa condição com o chamado para avançar rumo à maturidade.

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