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Hebreus 4 (BKJ)

King James Version 1611 — Uma versão de estudo sem paralelo

1 O descanso dos cristãos é alcançado pela fé. 12 O poder da palavra de Deus. 14 Por nosso Sumo Sacerdote Jesus, o Filho de Deus, sujeito a enfermidades, mas não ao pecado, 16 devemos e podemos ir ousadamente ao trono da graça.

1 Temamos, portanto,1 para que, sendo deixada a nós uma promessa de entrar em seu descanso,2 nenhum de vós pareça ficar aquém dela.3 2 Pois a nós foi pregado o Evangelho, assim como a eles;4 mas †† Gr.: a palavra da audição. a palavra pregada não lhes aproveitou,5 ‖‖ Ou: porque não estavam unidos pela fé aos que ouviram. não sendo misturada com fé naqueles que a ouviram.6 3 Pois nós, os que cremos, entramos no descanso,7 como ele disse: “Como jurei em minha ira: se eles entrarem em meu descanso”;8 embora as obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo.9 4 Pois ele falou, em certo lugar, acerca do sétimo dia, desta maneira: “E Deus descansou no sétimo dia de todas as suas obras”.10 5 E neste lugar novamente: “Se eles entrarem em meu descanso”.11

6 Visto, portanto, que resta que alguns entrem nele,12 e aqueles a quem ‖‖ Ou: o Evangelho foi primeiro pregado. foi primeiro pregado não entraram por causa da incredulidade:13 7 novamente, ele determina um certo dia, “Hoje”,14 dizendo em Davi, depois de tanto tempo;15 como foi dito: “Hoje, se ouvirdes sua voz, não endureçais vossos corações”.16 8 Pois, se ‖‖ Isto é: Josué. Jesus lhes tivesse dado descanso,17 então ele não teria falado depois acerca de outro dia.18

9 Resta, portanto, um ‖‖ Ou: observância de um sábado. descanso para o povo de Deus.19 10 Pois aquele que entrou em seu descanso,20 também ele cessou de suas próprias obras,21 como Deus cessou das suas.22 11 Esforcemo-nos, portanto, para entrar naquele descanso,23 para que nenhum homem caia segundo o mesmo exemplo de ‖‖ Ou: desobediência. incredulidade.24

12 Pois a palavra de Deus é viva e poderosa,25 e mais afiada do que qualquer espada de dois gumes,26 penetrando até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medula,27 e é discernidora dos pensamentos e intenções do coração.28 13 Nem há criatura alguma que não seja manifesta à sua vista;29 mas todas as coisas são nuas e abertas aos olhos daquele30 com quem temos de tratar.31

14 Visto, portanto, que temos um grande Sumo Sacerdote,32 que passou para os céus, Jesus, o Filho de Deus,33 retenhamos firmemente nossa confissão.34 15 Pois não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas;35 mas foi tentado em todos os pontos, como nós somos, contudo sem pecado.36 16 Aproximemo-nos, portanto, ousadamente do trono da graça,37 para que obtenhamos misericórdia e encontremos graça para socorro em tempo de necessidade.38

Nota — “Temamos, portanto”

KJV 1611 e filologia. Let vs therefore feare conserva sem atenuação o verbo de temor. O grego tem Φοβηθῶμεν οὖν. Φοβηθῶμεν é subjuntivo aoristo empregado hortativamente — “temamos” —, enquanto οὖν estabelece a inferência expressa por “portanto”. A redação não recomenda mera cautela prudencial; formula uma exortação comunitária diante do precedente imediatamente apresentado.

Estrutura do argumento. A divisão capitular não interrompe a sintaxe argumentativa. O “portanto” retoma diretamente Hb 3.19: a geração do deserto não pôde entrar por causa da incredulidade. O autor inclui a si próprio no plural “temamos” e transfere para a comunidade presente a advertência extraída daquela geração. Assim, 4.1 começa como consequência de 3.7–19, não como tema independente.

Nota — “sendo deixada a nós uma promessa de entrar em seu descanso”

KJV 1611 e grego. A promise being left vs of entring into his rest representa a construção genitiva absoluta καταλειπομένης ἐπαγγελίας εἰσελθεῖν εἰς τὴν κατάπαυσιν αὐτοῦ. O particípio presente καταλειπομένης apresenta a promessa como ainda deixada, remanescente ou vigente. O pronome inglês vs não possui equivalente pronominal independente nessa construção grega; por isso a nós é tipograficamente distinguido na tradução portuguesa, seguindo a convenção editorial das palavras supridas. A mudança de posição em português evita a sequência pouco natural “sendo nos deixada” sem apagar o elemento efetivamente suprido pela KJV.

Processo de revisão. A Bishops’ Bible de 1602 trazia uma construção substantivamente diferente: by forsaking the promise of entring into his rest, isto é, tratava a advertência em termos de “abandonar” a promessa. A colação do Lambeth Palace MS 98 publicada por Ward Allen documenta já no processo de revisão a substituição por a promise being left us; o manuscrito conserva ainda, em margem, a alternativa Or, seeing there remaineth a promis. A redação final de 1611, portanto, resulta de uma revisão documentável da Bíblia-base, e não de simples conservação da Bishops’ Bible.

Exegese. O ponto decisivo é que a promessa não expirou com a geração do deserto. Sua permanência constitui a premissa do raciocínio que seguirá: se Deus ainda fala de entrada em seu descanso, a exclusão dos incrédulos do passado não esgotou aquilo que a promessa designava.

Nota — “nenhum de vós pareça ficar aquém dela”

Filologia. Any of you should seeme to come short of it corresponde a δοκῇ τις ἐξ ὑμῶν ὑστερηκέναι. Como a oração está sob o alcance de lest, o português idiomático exprime o indefinido inglês por “nenhum de vós”, sem alterar a força da advertência. ὑστερηκέναι é infinitivo perfeito de ὑστερέω, verbo que pode significar ficar para trás, faltar ou não alcançar determinado objetivo. “Ficar aquém” conserva a imagem de não atingir aquilo que permanece disponível.

“Pareça”. O verbo δοκέω não deve ser usado para esvaziar a advertência, como se o fracasso fosse somente aparente. A construção pode envolver a ideia de ser considerado ou mostrar-se alguém que ficou aquém. A KJV preserva formalmente seeme, e esta edição mantém “pareça”, deixando a nota esclarecer a amplitude da construção.

História da tradução. A tradição inglesa mostra variação significativa neste ponto. Tyndale empregava a ideia de come behynde; a Bishops’ Bible dizia be defrauded. O processo documentado no MS 98 conduz à redação que aparece em 1611: come short of it. A mudança aproxima a linguagem inglesa da ideia de não alcançar o objetivo sem introduzir no corpo do texto uma interpretação adicional sobre a natureza desse fracasso.

Nota — “a nós foi pregado o Evangelho, assim como a eles”

KJV 1611 e grego. For vnto vs was the Gospel preached, as well as vnto them traduz καὶ γάρ ἐσμεν εὐηγγελισμένοι καθάπερ κἀκεῖνοι. O grego não apresenta aqui o substantivo εὐαγγέλιον, “Evangelho”, mas uma forma verbal de εὐαγγελίζω: literalmente, nós também fomos alcançados por boas-novas, assim como eles. A KJV transforma essa construção verbal na fórmula inglesa idiomática the Gospel preached; “foi pregado o Evangelho” traduz, portanto, a opção efetivamente impressa em 1611.

Alcance da comparação. O versículo não afirma que a geração do êxodo recebeu, em todos os pormenores, a mesma forma histórica da proclamação cristã. A comparação requerida pela frase é mais precisa: tanto “nós” quanto “eles” fomos destinatários de uma mensagem divina que exigia fé. O contraste que controla o versículo não está entre duas mensagens sem qualquer relação, mas entre a recepção proveitosa e a recepção infrutífera daquilo que foi ouvido.

História da tradução. A formulação com Gospel preached já se encontra nas predecessoras imediatas, incluindo Geneva e Bishops’ Bible. Nesse ponto, a KJV participa da continuidade da tradição inglesa, em vez de introduzir uma redação inteiramente nova.

Nota — “a palavra pregada não lhes aproveitou”

Margem da KJV 1611 — † “Gr. the word of hearing.” A nota marginal está ligada a the word preached. O grego traz ὁ λόγος τῆς ἀκοῆς, literalmente “a palavra da audição” ou “a palavra do ouvir”. A expressão pode designar a mensagem recebida pela audição. O corpo da KJV interpreta a construção por the word preached, enquanto a margem preserva uma equivalência formal mais próxima do grego.

História da revisão. A Bishops’ Bible tinha the worde which they heard. A colação do MS 98 registra a revisão que conduziu a the word preached e também documenta a glosa marginal Gr., the word of hearing. Neste locus, portanto, dispomos de evidência direta tanto para a alteração do texto principal quanto para a preservação, na margem, de uma tradução mais literal.

Exegese. A mensagem não é responsabilizada pelo fracasso. Did not profit them representa οὐκ ὠφέλησεν ἐκείνους: aquilo que foi ouvido não lhes trouxe benefício porque a recepção da mensagem é imediatamente qualificada pela relação — ou ausência de relação — com a fé.

Nota — “não sendo misturada com fé naqueles que a ouviram”

KJV 1611. Not being mixed with faith in them that heard it entende o particípio como concordando com “a palavra”: a mensagem ouvida não foi “misturada” com fé. O objeto it é suprido em inglês, pois o grego termina simplesmente com τοῖς ἀκούσασιν, “aos que ouviram”; por isso o correspondente português a é distinguido tipograficamente.

Margem da KJV 1611 — ‖ “Or, because they were not vnited by faith to.” A alternativa marginal representa outra análise sintática: não a “palavra” misturada com fé, mas os ouvintes “unidos pela fé” aos que ouviram. A nota fica formalmente incompleta porque se liga ao restante da frase impressa; seu sentido é completado pela referência aos ouvintes.

Crítica textual. A diferença possui fundamento manuscrito. A forma singular recebida pela tradição grega seguida pela KJV, συγκεκραμένος, concorda com ὁ λόγος, “a palavra”, e produz a construção do texto principal de 1611. Testemunhos antigos importantes apresentam o acusativo plural συγκεκερασμένους, que concorda com os próprios destinatários e favorece a construção registrada na margem: eles não foram “unidos” pela fé aos que ouviram. Entre os testemunhos da leitura plural encontram-se 𝔓13vid, 𝔓46, A, B, C e D*. As principais edições críticas modernas adotam essa forma plural.

Significado editorial. Este locus mostra de maneira particularmente clara por que a margem de 1611 deve ser preservada. A alternativa não é simples paráfrase devocional: ela registra uma análise do texto grego que corresponde a uma forma textual importante na tradição manuscrita. A tradução principal desta edição permanece, contudo, vinculada à KJV 1611 e, por isso, conserva “não sendo misturada”.

Nota — “nós, os que cremos, entramos no descanso”

KJV 1611 e filologia. We which haue beleeued do enter into rest representa εἰσερχόμεθα γὰρ εἰς τὴν κατάπαυσιν οἱ πιστεύσαντες. O verbo principal εἰσερχόμεθα está no presente: “entramos”. οἱ πιστεύσαντες identifica os que entram como aqueles que creram. A KJV usa o perfeito inglês haue beleeued; em português, “os que cremos” conserva de modo mais natural a identificação do grupo sem transformar a frase numa definição abstrata da fé.

Argumento. O versículo responde diretamente ao v. 2. A geração antiga recebeu a mensagem, mas a mensagem não lhe aproveitou em razão da ausência de fé; em contraste, “os que cremos” entram no descanso. Fé e entrada são, assim, colocadas em relação explícita antes que o autor desenvolva historicamente o significado desse descanso.

Processo de revisão. O MS 98 conserva vestígios de diferentes disposições da frase durante a revisão, incluindo a ordem “we enter into rest which do believe”. A forma final de 1611 antepõe a identificação dos crentes — we which haue beleeued — à declaração do enter into rest, tornando o contraste com a incredulidade precedente imediatamente audível.

Nota — “Como jurei em minha ira: se eles entrarem em meu descanso”

Texto citado. A frase retoma Sl 95.11 [94.11 LXX], já citado em Hb 3.11. A KJV conserva a forma if they shall enter into my rest, correspondente à estrutura grega εἰ εἰσελεύσονται εἰς τὴν κατάπαυσίν μου.

Fórmula de juramento. O “se” não introduz aqui uma condição aberta. Trata-se de uma fórmula de juramento de matriz semítica, reproduzida pela Septuaginta, na qual a construção condicional funciona como negação enfática: o sentido pragmático é “certamente não entrarão em meu descanso”. A presente edição não substitui, no corpo da tradução, a forma peculiar preservada pela KJV; mantém “se eles entrarem” e explicita nesta nota seu valor idiomático.

Função no argumento. A repetição de Sl 95.11 não é redundante. Em Hb 3, a sentença selava a condenação da geração do deserto; aqui ela se torna premissa para uma investigação sobre o próprio “descanso”. Se alguns foram excluídos dele, a pergunta seguinte é quando esse descanso foi estabelecido. O autor responde voltando à criação.

Nota — “embora as obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo”

Filologia. Although the workes were finished from the foundation of the world traduz καίτοι τῶν ἔργων ἀπὸ καταβολῆς κόσμου γενηθέντων. καίτοι introduz uma relação concessiva, “embora”, enquanto τῶν ἔργων ... γενηθέντων forma uma construção genitiva absoluta. “Estivessem acabadas” representa a escolha da KJV were finished; o particípio grego deriva de γίνομαι e, em termos estritamente lexicais, exprime que as obras já haviam sido realizadas ou chegado a existir.

Estrutura do raciocínio. A cláusula acrescenta uma coordenada cronológica decisiva. O descanso de que o Salmo fala não precisava ser criado depois da rebelião no deserto: as obras de Deus já estavam concluídas “desde a fundação do mundo”. Essa afirmação permite ao autor colocar lado a lado, nos vv. 4–5, Gn 2.2 e Sl 95.11.

Exegese. Hebreus não identifica ainda, em uma fórmula exaustiva, todas as dimensões desse descanso. O passo argumentativo é mais controlado: o descanso de Deus pertence à ordem estabelecida na criação, ao passo que o Salmo, muito posterior, ainda fala de entrada ou exclusão desse descanso. Essa tensão temporal sustentará a conclusão dos vv. 6–11.

Nota — “em certo lugar, acerca do sétimo dia, desta maneira”

KJV 1611 e sintaxe. He spake in a certaine place representa εἴρηκεν γάρ που, literalmente “pois ele disse em algum lugar”. που é indefinido; “em certo lugar” é a maneira tradicional pela qual a KJV verte essa forma de citação. A referência não exprime desconhecimento da fonte: Hebreus frequentemente introduz a Escritura concentrando a atenção na voz divina que fala, em vez de nomear o livro citado.

Palavra suprida. O grego traz περὶ τῆς ἑβδόμης, literalmente “acerca da sétima”, com “dia” subentendido pelo contexto. A KJV fornece day para completar a expressão em inglês; “dia” é, por isso, distinguido tipograficamente na tradução portuguesa.

Texto citado. “E Deus descansou no sétimo dia de todas as suas obras” procede de Gn 2.2. A citação estabelece explicitamente que o “descanso” de Deus pertence ao sétimo dia da criação. On this wise é inglês histórico para “desta maneira”, isto é, introduz a forma pela qual a passagem é citada.

Nota — “E neste lugar novamente: ‘Se eles entrarem em meu descanso’”

KJV 1611. And in this place againe introduz novamente Sl 95.11. “Lugar” é elemento suprido para produzir a construção inglesa completa e é distinguido da mesma forma na tradução portuguesa. O texto da citação repete a fórmula do v. 3 sem convertê-la no corpo da tradução em sua equivalência explicativa “não entrarão”.

Intertextualidade. Os vv. 4–5 funcionam como um par deliberado. Primeiro, Gn 2.2 declara que Deus descansou no sétimo dia; em seguida, Sl 95.11 fala, séculos depois, de pessoas que não entram no “meu descanso”. Hebreus aproxima as duas passagens pelo vocabulário comum de descanso e constrói daí um argumento temporal: o descanso existe desde a criação, mas a palavra posterior do Salmo continua tratando sua entrada como questão aberta.

Transição. A conclusão ainda não é formulada por completo no v. 5. Os vv. 6–8 explorarão precisamente a consequência dessa justaposição: resta que alguns entrem, e a menção posterior de um novo “Hoje” impede que o descanso seja encerrado simplesmente na entrada de Israel em Canaã.

Nota — “resta que alguns entrem nele”

KJV 1611 e filologia. It remaineth that some must enter therein representa ἀπολείπεται τινὰς εἰσελθεῖν εἰς αὐτήν. ἀπολείπεται é presente passivo de ἀπολείπω e, neste contexto, significa que algo “permanece”, “resta” ou continua disponível. A construção não diz simplesmente que alguns de fato entrarão como observação histórica; ela parte da demonstração dos vv. 3–5 e afirma que a entrada no descanso ainda não foi esgotada.

Margem da KJV 1611 — ‖ “Or, the Gospel was first preached.” A primeira edição assinala it was first preached com esta alternativa, tornando explícito “the Gospel” onde o texto principal emprega o pronome it. Em português, um pronome explícito como “ele” poderia ser tomado equivocadamente como referência ao “descanso” da oração anterior; por isso o corpo conserva a passiva “a quem foi primeiro pregado”, deixando o referente implícito como no contexto e tornando-o explícito apenas na margem. A colação de Ward Allen registra a mesma alternativa tanto no material do MS 98 quanto no aparato da A.V.; a margem, portanto, pertence ao próprio histórico documental deste locus e não deve ser omitida da reprodução de 1611.

Continuidade do argumento. “Visto, portanto” retoma diretamente a justaposição de Gn 2.2 e Sl 95.11. O descanso de Deus existe desde a criação, mas a Escritura pronunciada posteriormente continua falando de entrada nele. Daí a inferência: resta que alguns entrem. O verbo ἀπολείπεται voltará em 4.9, onde introduzirá a conclusão sobre o descanso que permanece para o povo de Deus.

História da tradução. A redação remaineth distingue a KJV de sua Bíblia-base neste ponto. A Bishops’ Bible de 1602 trazia substantivamente it followeth, enquanto a Geneva já empregava it remaineth. A colação do Lambeth Palace MS 98 mostra remaineth no processo de revisão das Epístolas. A forma final de 1611, portanto, pertence a uma alteração documentável da redação herdada da Bishops’ Bible.

Nota — “não entraram por causa da incredulidade”

KJV 1611. Entred not in because of vnbeleefe mantém a linguagem inglesa que já aparecia nas traduções anteriores. Tyndale, Coverdale, Geneva e Bishops’ Bible empregavam formas de unbelief neste versículo, e a KJV preserva essa tradição como vnbeleefe. “Incredulidade” traduz, portanto, a escolha lexical efetivamente impressa em 1611.

Grego e escolha da KJV. O texto grego recebido subjacente à KJV tem δι’ ἀπείθειαν. ἀπείθεια pertence primariamente ao campo de “desobediência”, “recusa em obedecer” ou “recusa em deixar-se persuadir”, e é a mesma palavra que reaparece em 4.11. A KJV não distingue lexicalmente aqui ἀπείθεια de ἀπιστία, “incredulidade”, que havia aparecido em 3.19. Sua tradução aproxima, assim, os dois conceitos que o próprio argumento relaciona estreitamente.

Nota textual. Existe também uma variante antiga ἀπιστίαν, “incredulidade”, testemunhada por 𝔓46, א* e testemunhos latinos. As principais edições críticas, contudo, mantêm ἀπείθειαν, assim como a tradição do Texto Recebido. A redação inglesa unbelief não deve, portanto, ser tomada como prova de que os tradutores possuíam ἀπιστίαν no texto grego deste locus; ela é antes uma opção de tradução que já possuía longa história na Bíblia inglesa.

Exegese. O fracasso da primeira geração é apresentado como o contraponto da possibilidade ainda aberta. A existência do descanso não garantiu a entrada daqueles primeiros destinatários da boa notícia; a resposta à palavra divina continua sendo o fator decisivo no desenvolvimento de Hebreus 3–4.

Nota — “novamente, ele determina um certo dia, ‘Hoje’”

KJV 1611 e inglês histórico. A primeira edição lê Againe, hee limiteth a certaine day. Limiteth não deve ser entendido no sentido português moderno de simplesmente “restringir”. Neste contexto, o verbo possui a força de definir, fixar ou determinar. Por isso, “determina” verte o valor histórico do inglês sem produzir em português a falsa impressão de que Deus esteja reduzindo a duração do dia.

Filologia. O grego apresenta πάλιν τινὰ ὁρίζει ἡμέραν. ὁρίζω pode significar marcar, determinar, fixar ou estabelecer limites. Σήμερον, “Hoje”, aparece como identificação do “certo dia”: o argumento não fornece uma nova data cronológica, mas chama atenção para a categoria temporal criada pela própria palavra do Salmo.

História da tradução. A Bishops’ Bible de 1602 empregava appointeth a certaine day. A KJV substitui appointeth por limiteth. A mudança não altera o núcleo do argumento, mas torna a relação com ὁρίζω lexicalmente mais marcada. A tradução portuguesa usa “determina” para representar o sentido contextual da escolha de 1611, enquanto esta nota conserva a forma histórica limiteth.

Argumento. O “Hoje” é decisivo porque ocorre muito depois da geração do deserto. A promessa não desaparece quando os primeiros destinatários fracassam; uma ocasião posterior é delimitada pela própria Escritura como nova ocasião de escuta e resposta.

Nota — “dizendo em Davi, depois de tanto tempo”

KJV 1611 e sintaxe. Saying in Dauid conserva muito de perto ἐν Δαυὶδ λέγων, literalmente “dizendo em Davi”. Em português moderno seria possível explicitar “por meio de Davi” ou “nos escritos de Davi”; esta edição mantém “em Davi” no corpo para preservar a forma característica da KJV, deixando a relação ser esclarecida na nota.

“Em Davi”. A expressão apresenta Davi como o locus humano da palavra citada, enquanto o sujeito que “determina” o dia continua sendo Deus. Hebreus emprega a Escritura como fala divina presente: a identificação de Davi não substitui Deus como aquele cuja voz governa o argumento.

“Depois de tanto tempo”. After so long a time representa μετὰ τοσοῦτον χρόνον. A indicação temporal é essencial, não decorativa. Entre a experiência do deserto e a palavra “Hoje” do Salmo transcorreu longo período; portanto, a possibilidade de entrada no descanso continuava sendo anunciada depois dos acontecimentos associados a Moisés e Josué.

Nota — “como foi dito: ‘Hoje, se ouvirdes sua voz, não endureçais vossos corações’”

Texto citado. A sentença retoma Sl 95.7–8 [94.7–8 LXX], já usado em Hb 3.7–8,15. A repetição é parte da demonstração: o autor volta especificamente ao “Hoje” para mostrar que a exortação do Salmo permanece posterior ao fracasso da geração do deserto e à entrada na terra.

KJV e Texto Recebido. A KJV 1611 lê as it is saide. Essa formulação corresponde à leitura εἴρηται, “foi dito”, recebida pelo Texto Recebido. Aqui existe uma diferença textual significativa em relação às principais edições críticas modernas.

Nota textual. 𝔓46, א, A, C, D*, P, Ψ e outros testemunhos leem προείρηται, “foi dito anteriormente”, leitura adotada por NA28/UBS5 e outras edições críticas. B, 1739 e 1881 apresentam προείρηκεν, “disse anteriormente”; D2, K, L e a tradição bizantina, entre outros, têm εἴρηται. O Texto Recebido segue esta última forma. Assim, a ausência de “anteriormente” na KJV não resulta de simplificação inglesa: corresponde à forma grega de sua tradição textual.

Exegese. A advertência mantém unidas audição e resposta. O “Hoje” não é apenas uma informação sobre disponibilidade temporal; é uma ocasião em que a voz divina deve ser ouvida sem o endurecimento que caracterizou a geração anterior.

Nota — “se Jesus lhes tivesse dado descanso”

KJV 1611. A primeira edição imprime inequivocamente For if Iesus had giuen them rest. “Jesus” no corpo desta edição portuguesa preserva essa escolha histórica da KJV. O referente, entretanto, não é Jesus Cristo, mas Josué, filho de Num, sucessor de Moisés e condutor de Israel na entrada em Canaã.

Margem da KJV 1611 — ‖ “That is, Iosuah.” A própria primeira edição esclarece o referente de Iesus por meio desta nota marginal: “Isto é, Josué”. Preservar “Jesus” no corpo e “Josué” na margem reproduz, portanto, a solução editorial de 1611, em vez de modernizar silenciosamente o nome no texto principal.

Filologia e nomes próprios. O grego traz Ἰησοῦς, a forma grega do nome que pode representar tanto Jesus quanto Josué. A Septuaginta emprega Ἰησοῦς para Josué, e o Novo Testamento conserva a mesma forma. A distinção gráfica moderna entre inglês Jesus e Joshua não existe no substantivo grego deste versículo; o referente é determinado pelo contexto.

História da tradução. A forma Iesus em Hb 4.8 não é peculiar à KJV. Geneva e Bishops’ Bible também imprimiam Iesus neste locus, enquanto outras testemunhas da tradição inglesa podiam empregar formas correspondentes a Josué. A KJV, portanto, conserva uma convenção já presente em suas predecessoras imediatas.

“Deu descanso”. Had giuen them rest representa κατέπαυσεν, de καταπαύω. Em 4.4 o verbo descreveu Deus descansando de suas obras; aqui é empregado transitivamente para a hipótese de Josué ter “dado descanso” a Israel. O jogo lexical é central: o descanso associado à entrada na terra é comparado com o descanso de Deus desenvolvido desde os vv. 3–5.

Nota — “então ele não teria falado depois acerca de outro dia”

Sintaxe. A construção grega εἰ ... κατέπαυσεν, οὐκ ἂν ... ἐλάλει apresenta uma condição contrária ao fato: se Josué tivesse concedido o descanso em questão, não se teria falado posteriormente de outro dia. A redação da KJV, then would he not afterward haue spoken, reproduz essa força contrafactual. “Não teria falado” comunica-a diretamente em português.

O sujeito de “falado”. O grego não repete um sujeito nominal diante de ἐλάλει. No desenvolvimento do argumento, a fala é a palavra divina pronunciada “em Davi” no versículo anterior. O he inglês pode parecer, pela proximidade, retomar Iesus; contudo, a lógica da passagem depende de Deus ter falado posteriormente acerca de outro dia. A tradução mantém “ele” como a KJV, e a nota esclarece a referência contextual.

Nota textual. A partícula ἂν, que constitui naturalmente a apódose contrafactual com οὐκ, é sustentada pela tradição amplamente predominante, incluindo 𝔓13, 𝔓46, א, A e C; B apresenta ἄρα. Mais adiante, μετὰ ταῦτα, “depois destas coisas”, possui amplo apoio, enquanto C apresenta μετ’ αὐτά. Tanto as edições críticas principais quanto o Texto Recebido mantêm as formas representadas pela construção da KJV.

Função argumentativa. O ponto não é negar que Josué tenha proporcionado a Israel qualquer espécie de descanso histórico. O argumento é mais preciso: se a entrada sob Josué tivesse esgotado o “meu descanso” de que a Escritura fala, não haveria razão para Davi, muito tempo depois, voltar a apresentar um “Hoje” e outro dia de entrada. Hb 4.8 encerra, assim, a demonstração necessária para a conclusão introduzida no v. 9.

Nota — “Resta, portanto, um descanso para o povo de Deus”

KJV 1611 e margem. O texto principal imprime There remaineth therefore a rest to the people of God, mas a própria edição de 1611 acrescenta à palavra rest a alternativa marginal: Or, keeping of a Sabbath. A margem é exegética e lexicalmente importante, porque neste ponto o grego não emprega o substantivo κατάπαυσις, “descanso”, dominante desde 3.11, mas σαββατισμός.

Filologia. σαββατισμός pertence ao campo lexical do sábado e pode designar observância sabática ou descanso de caráter sabático. A tradução principal da KJV mantém simplesmente rest, preservando a continuidade verbal do argumento; a margem, entretanto, torna visível a especificidade do novo vocábulo. Por essa razão, esta edição conserva “descanso” no corpo — porque traduz a KJV — e registra “observância de um sábado” na margem, sem apagar a distinção existente no grego. O vocábulo, por si só, não autoriza transformar Hb 4.9 em uma determinação isolada acerca da observância semanal do sábado: no argumento imediato, ele nomeia o descanso que ainda permanece para o povo de Deus e que é explicado pelos vv. 10–11.

Estrutura do argumento. O “portanto” corresponde a ἄρα e apresenta a conclusão formal dos vv. 3–8. O descanso de Deus existe desde a criação; a geração do deserto foi excluída; muito tempo depois, o Salmo ainda estabeleceu um “Hoje”; e Josué não esgotou a promessa. A consequência é que permanece algo para “o povo de Deus”. O verbo ἀπολείπεται, “permanece/resta”, retoma deliberadamente o mesmo verbo empregado em 4.6.

História da tradução. A Geneva Bible já dizia There remaineth therefore a rest to the people of God. A Bishops’ Bible, texto-base oficial dos revisores, trazia There remaineth therefore yet a rest to the people of God. A KJV elimina o yet da Bishops’ Bible e coincide substancialmente com a forma da Geneva, acrescentando em sua margem a importante explicação sabática.

Nota — “aquele que entrou em seu descanso”

KJV 1611 e filologia. He that is entred into his rest corresponde a ὁ εἰσελθὼν εἰς τὴν κατάπαυσιν αὐτοῦ. ὁ εἰσελθών é um particípio aoristo substantivado: literalmente, “aquele que entrou”. O singular foi preservado na tradução porque a KJV também conserva essa formulação individual e não a transforma no plural generalizante “aqueles que entram”.

Referente. O texto não nomeia explicitamente quem é “aquele que entrou”. Já se propôs que o sujeito fosse especificamente Cristo; outra leitura entende a frase de maneira geral, aplicável àquele que entra no descanso divino. A tradução não resolve essa discussão mediante uma identificação acrescentada. “Aquele que entrou” reproduz a abertura referencial do texto e evita introduzir “Cristo”, “o crente” ou outro sujeito ausente da sentença.

Continuidade lexical. Depois do σαββατισμός de 4.9, o autor volta imediatamente a κατάπαυσις, o substantivo usado ao longo do argumento. Assim, o “descanso sabático” da conclusão não constitui uma realidade desconectada do descanso anteriormente discutido; o v. 10 explica-o retomando precisamente o vocabulário anterior.

Nota — “também ele cessou de suas próprias obras”

KJV 1611. Hee also hath ceased from his owne works emprega ceased, “cessou”, enquanto o grego tem καὶ αὐτὸς κατέπαυσεν ἀπὸ τῶν ἔργων αὐτοῦ. O mesmo verbo καταπαύω aparecera em 4.4 para o descanso de Deus no sétimo dia. “Cessou” conserva a escolha lexical da KJV, enquanto a nota torna visível que o grego pertence à mesma família de “descanso” que estrutura a passagem.

“Também ele”. καὶ αὐτός é enfático e estabelece uma correspondência entre aquele que entra no descanso e o próprio Deus: “também ele”. A KJV conserva essa retomada por hee also. Não se trata de um mero preenchimento estilístico, mas de um elemento do paralelismo que será completado pela expressão “como Deus”.

“Suas próprias obras”. A KJV acrescenta a força enfática de owne, “próprias”, ao primeiro membro: his owne works. O texto grego possui simplesmente τῶν ἔργων αὐτοῦ, “suas obras”. A tradução portuguesa conserva “próprias” porque o objeto deste projeto é a redação da KJV e não uma nova tradução independente do grego.

Limite exegético. O versículo não qualifica essas “obras” como “obras da lei”, “obras para obter salvação” ou “obras mortas”. Essas leituras podem surgir em construções teológicas posteriores, mas não devem ser introduzidas no corpo desta sentença. A comparação imediata é com as obras das quais Deus descansou na criação.

Nota — “como Deus cessou das suas”

Elipse e palavra suprida. O inglês termina as God did from his. Na tipografia da KJV, did pertence às palavras supridas e retoma verbalmente ceased, enquanto his retoma “works”; o substantivo não é repetido. Por isso, a transcrição inglesa marca did em itálico e o português conserva o mesmo princípio em “como Deus cessou das suas”.

Grego. A cláusula correspondente é ὥσπερ ἀπὸ τῶν ἰδίων ὁ θεός, literalmente “assim como Deus das suas próprias”, também elíptica quanto ao verbo e ao substantivo “obras”. O paralelismo depende do membro anterior para completar aquilo que está omitido. A concisão não é deficiência textual; faz parte da construção comparativa.

Relação com Gênesis 2.2. A comparação fecha o movimento iniciado em 4.4. Assim como Deus cessou de suas obras ao concluir sua obra criadora, aquele que entra em seu descanso também cessa das suas. O texto aplica a estrutura do descanso divino à realidade anunciada para o povo de Deus sem redefinir aqui, em termos mais específicos, a natureza de todas essas “obras”.

Nota — “Esforcemo-nos, portanto, para entrar naquele descanso”

KJV 1611 e inglês histórico. Let vs labour therefore to enter into that rest não usa labour simplesmente no sentido moderno de exercer trabalho profissional. Aqui o verbo comunica empenho, esforço e diligência. “Esforcemo-nos” representa esse valor contextual sem transformar a frase na ideia potencialmente equívoca de “trabalhemos para merecer o descanso”.

Filologia. O grego tem σπουδάσωμεν οὖν εἰσελθεῖν. σπουδάσωμεν é subjuntivo aoristo exortativo de σπουδάζω, verbo que expressa diligência, empenho, esforço ou zelo. A exortação poderia ser traduzida literalmente por “sejamos diligentes” ou “empenhemo-nos”. A escolha da KJV por labour dá à injunção força ativa, enquanto “esforcemo-nos” procura preservar essa energia em português atual.

Paradoxo retórico. A frase deliberadamente coloca esforço e descanso lado a lado: deve-se empenhar-se para entrar no descanso. Não há contradição no argumento. O esforço exigido é a perseverança obediente da comunidade diante da voz que diz “Hoje”, em contraste com a geração que ouviu e não entrou.

Estrutura. O οὖν, “portanto”, converte em exortação a conclusão dos vv. 9–10. A sequência é rigorosa: 4.9 afirma que o descanso permanece; 4.10 caracteriza aquele que entra; 4.11 exige que a comunidade responda diligentemente para não repetir o fracasso já apresentado desde 3.7.

Nota — “o mesmo exemplo de incredulidade”

KJV 1611 e margem. O texto principal lê after the same example of vnbeleefe, mas a margem traz explicitamente: Or, disobedience. A relação entre texto e margem é especialmente significativa porque o grego possui τῆς ἀπειθείας, substantivo cujo valor normal neste contexto é “desobediência”. A própria KJV, portanto, oferece ao leitor essa alternativa lexical sem retirar unbelief do texto principal.

Relação com 4.6. A mesma palavra, ἀπείθεια, ocorre em 4.6. A KJV traduz ambos os lugares por formas de unbelief, mas em 4.11 acrescenta marginalmente “disobedience”. No grego, a repetição cria uma moldura deliberada: os primeiros destinatários não entraram “por causa da desobediência” em 4.6, e a comunidade deve evitar cair no mesmo “exemplo de desobediência” em 4.11.

Crítica textual. A leitura ἀπειθείας possui apoio amplo e é adotada tanto pelas principais edições críticas quanto pelo Texto Recebido. Entre os principais testemunhos controlados no aparato do projeto, 𝔓46 apresenta ἀπιστίας, “incredulidade”, forma que aproxima ainda mais a cláusula de Hb 3.19; a tradição restante examinada mantém ἀπειθείας. Assim, o vnbeleefe do texto principal da KJV é uma decisão de tradução, não consequência de o Texto Recebido possuir ἀπιστία neste lugar.

“Exemplo”. ὑπόδειγμα pode designar exemplo, modelo ou padrão. A construção não descreve apenas alguém observando exteriormente o mau exemplo de outros; adverte contra cair dentro do mesmo padrão de resposta que caracterizou a geração do deserto. A história anterior funciona, portanto, como paradigma negativo para os ouvintes presentes.

Nota textual adicional. O pronome τις, “alguém”, que fornece o sujeito de “caia”, é sustentado por 𝔓13, 𝔓46, A, B, C e pela tradição principal; א o omite. As edições críticas e o Texto Recebido o conservam. A KJV representa-o naturalmente por any man, aqui mantido como “nenhum homem” dentro da construção negativa introduzida por “para que”.

Nota — “a palavra de Deus é viva e poderosa”

KJV 1611 e inglês histórico. The word of God is quicke and powerfull não emprega quick no sentido moderno predominante de “rápido”. No inglês bíblico da época, quick podia significar “vivo”, em oposição a morto. “Viva” é, portanto, a equivalência exigida neste contexto. Powerfull é mantido como “poderosa”, preservando a escolha expressa da KJV em vez de substituí-la no corpo por “eficaz” ou “ativa”.

Palavras supridas. Na KJV, os dois is do versículo — antes de quicke e antes de a discerner — são palavras supridas. A transcrição inglesa passa, por isso, a distingui-los em itálico, e os dois correspondentes portugueses é recebem o mesmo tratamento editorial.

Filologia. O grego apresenta ζῶν γὰρ ὁ λόγος τοῦ θεοῦ καὶ ἐνεργής. ζῶν caracteriza a palavra como viva; ἐνεργής descreve aquilo que está efetivamente em operação, ativo ou eficaz. A formulação da KJV distribui esses valores por quicke e powerfull. A força do segundo adjetivo não é meramente potencial: a sequência demonstrará essa capacidade mediante penetração, discernimento e exposição.

Crítica textual. Em ἐνεργής existe um locus antigo: B apresenta ἐναργής, termo que poderia significar “claro”, “evidente” ou “manifesto”. A tradição amplamente predominante conserva ἐνεργής, leitura também seguida pelo Texto Recebido e pelas principais edições críticas. A KJV, portanto, traduz aqui a leitura textual majoritariamente transmitida.

História da tradução. Na Bishops’ Bible de 1602, texto-base dos revisores, lê-se quicke and mighty in operation; a Geneva de 1562 tem livelie, and mightie in operation. A KJV conserva quicke da Bíblia-base, mas substitui mighty in operation por powerfull. A colação do MS 98 publicada por Ward Allen documenta esta zona de revisão, inclusive a passagem para quicke e powerful no processo que conduziu à redação final.

Função no argumento. O “Pois” não permite transformar 4.12 em aforismo isolado. O versículo fundamenta a exortação de 4.11: os ouvintes devem diligenciar para entrar no descanso e não repetir a antiga desobediência porque a palavra divina que continua dizendo “Hoje” não é uma palavra morta do passado. Ela permanece viva e operante diante da comunidade presente.

Nota — “mais afiada do que qualquer espada de dois gumes”

KJV 1611. Sharper then any two edged sword preserva a imagem concreta da lâmina. “Mais afiada” representa diretamente sharper, enquanto “espada de dois gumes” conserva a expressão tradicional inglesa sem substituí-la por “espada de dois fios” ou por uma paráfrase de sua capacidade ofensiva.

Filologia. τομώτερος é comparativo de um adjetivo relacionado ao corte e significa “mais cortante”, “mais afiado”. μάχαιρα δίστομος designa literalmente uma espada ou lâmina “de duas bocas”, expressão idiomática para dois gumes. A comparação não identifica a palavra com uma arma material; utiliza a capacidade de uma lâmina extraordinariamente cortante para introduzir a imagem de penetração que vem em seguida.

História inglesa. A imagem já estava firmemente estabelecida antes de 1611. Tyndale, Coverdale, Geneva e Bishops’ Bible apresentam a espada de dois gumes. A KJV não cria a metáfora nem sua forma inglesa fundamental; trabalha dentro de uma tradição de tradução já consolidada, refinando a redação ao redor dela.

Progressão retórica. A comparação não termina em “afiada”. O particípio seguinte explica para que serve a imagem: a palavra penetra. A espada fornece, portanto, uma figura para o alcance do julgamento divino, que passa da superfície ao interior e culmina, no v. 13, na impossibilidade de ocultação diante de Deus.

Nota — “penetrando até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medula”

KJV 1611. Pearcing euen to the diuiding asunder of soule and spirit, and of the ioynts and marrowe intensifica a imagem da espada por meio de pearcing e dividing asunder. “Penetrando até a divisão” conserva a relação entre alcance e limite sem transformar a frase em afirmação de que a palavra necessariamente “separa a alma do espírito”.

Filologia. διϊκνούμενος descreve penetração profunda, e ἄχρι μερισμοῦ indica o ponto até o qual essa penetração alcança. Os pares ψυχῆς καὶ πνεύματος, “alma e espírito”, e ἁρμῶν τε καὶ μυελῶν, “juntas e medulas”, dependem de μερισμός, “divisão”. A construção enfatiza profundidade e capacidade de alcançar aquilo que parece mais interior e difícil de distinguir.

Limite exegético. A frase, por si só, não estabelece uma teoria antropológica completa segundo a qual “alma” e “espírito” sejam aqui definidos como duas substâncias separáveis, assim como “juntas” e “medulas” não constituem uma anatomia sistemática. Os dois pares trabalham cumulativamente para exprimir a penetração extrema da palavra. A nota deve preservar essa força sem fazer o versículo responder a uma questão ontológica que ele não formula diretamente.

Crítica textual. O Texto Recebido apresenta ψυχῆς τε καὶ πνεύματος, com a partícula τε, enquanto importantes testemunhos antigos e as principais edições críticas leem ψυχῆς καὶ πνεύματος. A diferença não produz alteração substantiva em português. Há ainda a leitura σώματος, “corpo”, em testemunhos tardios restritos, no lugar de πνεύματος, “espírito”; a tradição antiga predominante conserva “espírito”.

História da tradução. A Geneva de 1562 e a Bishops’ Bible de 1602 empregam entreth through nessa parte da imagem. A KJV substitui essa formulação por pearcing, ao mesmo tempo que conserva dividing asunder. A revisão torna a relação com a espada mais imediata: a lâmina é afiada e, precisamente por isso, “penetra”.

Nota — “discernidora dos pensamentos e intenções do coração”

KJV 1611 e filologia. A discerner of the thoughts and intents of the heart representa καὶ κριτικὸς ἐνθυμήσεων καὶ ἐννοιῶν καρδίας. κριτικός descreve aquilo que é capaz de avaliar, julgar ou discernir. A KJV conserva a construção nominal por a discerner; “discernidora” mantém essa forma em português em vez de transformar imediatamente o substantivo em oração verbal.

Interioridade. ἐνθυμήσεις e ἔννοιαι referem-se aos movimentos de pensamento, reflexão, intenção ou propósito. “Coração” funciona dentro da linguagem bíblica como centro interior do pensamento e da intenção, não apenas como sede moderna das emoções. O movimento da frase é, portanto, da penetração figurada ao julgamento efetivo daquilo que se passa no interior humano.

Função. A palavra não apenas alcança o interior; ela o avalia. A metáfora da espada não deve ser limitada à ideia de ferimento. O termo discerner explicita que a finalidade retórica da penetração é revelar e julgar pensamentos e intenções, preparando diretamente a declaração do v. 13 de que nada permanece oculto.

História da tradução. A expressão a discerner já aparecia na Geneva e na Bishops’ Bible. A KJV preserva esse núcleo tradicional, embora revise outras partes do mesmo versículo. O resultado combina continuidade com a tradição inglesa anterior e intervenção seletiva onde os revisores julgaram necessário.

Nota — “Nem há criatura alguma que não seja manifesta à sua vista”

KJV 1611. Neither is there any creature that is not manifest in his sight amplia o alcance do versículo precedente. “Criatura” não significa aqui apenas ser humano; κτίσις pode designar aquilo que foi criado. A negativa absoluta conduz da capacidade discernidora da palavra para a impossibilidade universal de ocultação diante de Deus.

Referente de “sua”. O desenvolvimento do v. 13 deixa claro que a referência é Deus. O texto parte da “palavra de Deus” no v. 12 e termina diante dos “olhos” daquele com quem os seres humanos têm de tratar. Não é necessário transformar “palavra” em título pessoal de Cristo para explicar a passagem; o encadeamento pode mover-se naturalmente da palavra divina para o próprio Deus que fala e julga.

História da tradução. A Bishops’ Bible de 1602 tinha in the sight of him. A redação final da KJV, in his sight, torna a construção mais compacta. A colação do material de Westminster registra essa zona de revisão, permitindo observar que até alterações pequenas de pronome e ordem foram consideradas no processo que levou ao texto impresso.

Nota — “todas as coisas são nuas e abertas aos olhos daquele”

Palavra suprida. A construção grega não possui verbo copulativo expresso correspondente a “são”. A KJV supre are para produzir uma sentença inglesa completa; por isso, o correspondente português são é distinguido tipograficamente de acordo com a convenção editorial desta tradução.

Filologia. γυμνά significa “nuas”, “despidas”, enquanto τετραχηλισμένα é um particípio perfeito de um verbo relacionado lexicalmente a τράχηλος, “pescoço”. O termo descreve algo posto a descoberto ou completamente exposto. Sua imagem de origem tem sido explicada de diferentes maneiras, inclusive por práticas sacrificiais, luta corporal e outras formas de exposição forçada; nenhuma dessas reconstruções é segura o bastante para ser incorporada ao corpo da tradução.

KJV — “opened”. A KJV emprega opened, enquanto Geneva e Bishops’ Bible tinham simplesmente open. A colação do processo de revisão registra precisamente a passagem para opened. “Abertas” mantém o resultado da imagem no português sem introduzir uma hipótese específica sobre o gesto físico por trás do verbo grego.

Imagem cumulativa. “Nuas” e “abertas” não são duas afirmações independentes. O segundo termo intensifica o primeiro: diante dos olhos divinos, nada possui cobertura, proteção ou interioridade inacessível. A linguagem prepara a cláusula final, na qual a exposição se transforma em responsabilidade.

Nota — “com quem temos de tratar”

KJV 1611 e inglês histórico. With whome wee haue to doe significa mais do que simples convivência ou contato. A expressão to have to do with podia designar ter trato, relação, negócio ou questão com alguém. Neste contexto, a ideia culmina em responsabilidade diante daquele cujos olhos tudo veem. “Com quem temos de tratar” preserva deliberadamente a forma idiomática da KJV; o sentido de prestação de contas pertence à explicação da nota.

Filologia. O grego é extremamente condensado: πρὸς ὃν ἡμῖν ὁ λόγος. λόγος, que no v. 12 significa “palavra”, pode aqui assumir o valor de “conta”, “assunto” ou aquilo sobre o que se deve responder. A proximidade dos dois usos produz um efeito lexical difícil de transportar integralmente: a “palavra” de Deus discerne o ser humano, e diante do próprio Deus está a “conta” humana. Uma tradução diretamente orientada pelo grego poderia explicitar “a quem temos de prestar contas”; o corpo desta edição mantém “com quem temos de tratar” porque seu objeto primário é a formulação histórica da KJV, e a nota fornece o alcance judicial da expressão.

História da tradução. Tyndale, Coverdale e Bishops’ Bible encerravam o versículo com construções equivalentes a “dele/de quem falamos”. A Geneva já apresentava with whome we haue to doe. A KJV abandona, portanto, a formulação de sua Bíblia-base neste ponto e adota a construção que também se encontrava na tradição de Geneva. O material de Westminster documenta a mudança de of whom we speake para a redação final.

Estrutura teológica. O v. 13 completa o movimento iniciado em 4.12: a palavra é viva e poderosa; penetra; discerne; nenhuma criatura permanece oculta; todas as coisas estão expostas; e o Deus diante de cujos olhos ocorre essa exposição é também aquele perante quem há responsabilidade. Por isso, 4.12–13 fornece o fundamento solene para a exortação imediatamente anterior, não uma digressão sobre as propriedades abstratas da Escritura.

Nota — “temos um grande Sumo Sacerdote”

KJV 1611 e estrutura. Seeing then that wee haue a great high Priest abre uma nova concentração explícita sobre o sacerdócio de Jesus, mas não inicia um assunto sem preparação. O título já apareceu em 2.17 e 3.1. “Visto, portanto” representa a relação inferencial da construção inglesa: aquilo que será ordenado no final do versículo decorre da realidade sacerdotal que acaba de ser afirmada.

Filologia. O grego traz Ἔχοντες οὖν ἀρχιερέα μέγαν, literalmente “tendo, portanto, um grande sumo sacerdote”. Ἔχοντες é particípio presente e οὖν estabelece a inferência. A KJV reorganiza a construção por Seeing then that wee haue, forma idiomática inglesa que converte a circunstância participial numa oração introdutória. Esta edição traduz a construção efetivamente impressa em 1611 e conserva “Visto, portanto, que temos”.

“Grande”. μέγαν modifica diretamente ἀρχιερέα. O adjetivo não é simples ornamento retórico. Hebreus acaba de concluir a advertência acerca do descanso e da prestação de contas e volta agora à realidade que fundamenta confiança e perseverança: os destinatários possuem não apenas um sumo sacerdote, mas um “grande” Sumo Sacerdote.

Transição literária. Hb 4.14–16 funciona também como dobradiça. Retoma a apresentação sacerdotal de 2.17–18 e 3.1, ao mesmo tempo que prepara a exposição de 5.1 em diante. A unidade contém duas exortações principais — “retenhamos” em 4.14 e “aproximemo-nos” em 4.16 — entre as quais 4.15 fornece o fundamento cristológico.

Nota — “que passou para os céus, Jesus, o Filho de Deus”

KJV 1611. A redação final é that is passed into the heauens, Iesus the Sonne of God. “Passou para os céus” conserva a direção expressa por into. A tradução não substitui silenciosamente essa forma histórica da KJV por “atravessou os céus”, ainda que esta última represente mais diretamente a construção grega.

Filologia. O grego emprega διεληλυθότα τοὺς οὐρανούς. διεληλυθότα é particípio perfeito de διέρχομαι, verbo que pode exprimir passar ou atravessar, e o acusativo τοὺς οὐρανούς apresenta “os céus” como extensão atravessada. Traduções posteriores frequentemente fazem essa dimensão explícita mediante “passed through the heavens” ou “atravessou os céus”.

Processo de revisão — MS 98. Este é um locus excepcionalmente bem documentado. A Bishops’ Bible trazia substantivamente which is entred into heavens. No manuscrito de trabalho da companhia de Westminster, essa redação foi alterada para who hath passed through the heavens. Ward Allen observa ainda que o copista omitiu inicialmente high e que à margem foi escrito vide cap. 7.26. O estágio manuscrito, portanto, aproximava de maneira transparente a tradução de διεληλυθότα e registrava uma remissão interna a Hb 7.26.

Da revisão à impressão. A edição final de 1611 não reproduz integralmente aquele estágio intermediário: em lugar de who hath passed through the heavens, imprime that is passed into the heauens. A evidência permite descrever os estágios da revisão, mas não autoriza atribuir a um tradutor individual uma razão específica para o retorno de through a into.

Identificação. “Jesus, o Filho de Deus” não é uma designação secundária acrescentada depois da afirmação sacerdotal; é a identificação do grande Sumo Sacerdote. O movimento do versículo é: posse do Sumo Sacerdote → sua passagem aos céus → sua identidade → exortação a conservar a confissão.

Nota — “retenhamos firmemente nossa confissão”

KJV 1611 e palavra suprida. A edição imprime let vs hold fast our profession. O possessivo our é suprido para completar idiomaticamente a construção inglesa; o grego possui κρατῶμεν τῆς ὁμολογίας, literalmente “retenhamos a confissão”. Por isso, nossa aparece distinguido tipograficamente nesta tradução.

“Profession”. Em inglês bíblico do período, profession podia designar uma declaração pública ou confissão daquilo que alguém reconhece e sustenta. Não possui aqui o sentido português moderno predominante de ocupação profissional. Como já foi estabelecido em Hb 3.1, “confissão” é a equivalência editorial empregada para evitar esse falso sentido moderno e preservar o valor de ὁμολογία.

História da tradução. A Bishops’ Bible de 1602 trazia let us hold fast this confession. A Geneva de 1562 empregava let us holde fast our profession. O MS 98 registra explicitamente a alteração de confession para profession; a redação final de 1611 mantém profession e o possessivo our, coincidindo nesse segmento com a solução já encontrada na Geneva.

Função da exortação. κρατῶμεν é subjuntivo exortativo: “retenhamos”. A confissão não deve simplesmente ser formulada uma vez, mas conservada firmemente. A identidade apresentada imediatamente antes — “Jesus, o Filho de Deus” — fornece o fundamento objetivo dessa perseverança.

Nota — “não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas”

KJV 1611 e inglês histórico. A expressão which cannot bee touched with the feeling of our infirmities não descreve simples contato emocional. To be touched with the feeling of comunica participação compassiva na condição de outro. “Compadecer-se de nossas fraquezas” representa esse sentido em português sem reproduzir uma construção inglesa que, traduzida palavra por palavra, seria artificial e potencialmente enganosa.

Filologia. O grego é μὴ δυνάμενον συμπαθῆσαι ταῖς ἀσθενείαις ἡμῶν. συμπαθῆσαι significa sentir com, compartilhar afetivamente ou compadecer-se. O objeto são αἱ ἀσθένειαι, “fraquezas”, termo que pode abranger fragilidade, limitação e vulnerabilidade humanas. O texto não identifica essas fraquezas simplesmente com pecados.

Construção negativa. “Não temos ... que não possa” constitui uma litotes: o propósito não é negar duas vezes por mero estilo, mas afirmar enfaticamente que o Sumo Sacerdote é capaz de compadecer-se. O membro seguinte explica a razão dessa capacidade: ele próprio passou pela experiência da provação.

História inglesa. Tyndale e Coverdale empregavam linguagem direta de compassion. Geneva e Bishops’ Bible já utilizavam a formulação touched with the feeling of our infirmities, conservada pela KJV. Neste ponto, portanto, a redação de 1611 pertence à linha imediata de suas predecessoras elisabetanas.

Relação com Hb 2.18. O capítulo 2 afirmou que Jesus pode socorrer os que são tentados porque ele próprio sofreu sendo tentado. Aqui a mesma lógica reaparece sob linguagem sacerdotal: experiência de provação → capacidade de compadecer-se → possibilidade de aproximação em busca de socorro.

Nota — “foi tentado em todos os pontos, como nós somos, contudo sem pecado”

KJV 1611 e palavras supridas. A redação inglesa é but was in all points tempted like as we are, yet without sinne. A construção grega é mais condensada e não possui equivalentes independentes para we are e yet; por isso, “nós somos” e “contudo” permanecem distinguidos tipograficamente. A ordem portuguesa “foi tentado em todos os pontos” evita um calque desnecessário de in all points tempted, sem alterar a abrangência expressa pela KJV.

Filologia. O grego traz πεπειρασμένον δὲ κατὰ πάντα καθ’ ὁμοιότητα χωρὶς ἁμαρτίας. πειράζω pode significar testar, provar ou tentar conforme o contexto. A KJV escolhe tempted, que esta edição conserva como “tentado”. κατὰ πάντα expressa abrangência — “em todos os pontos” — e καθ’ ὁμοιότητα estabelece a correspondência da experiência.

“Sem pecado”. χωρὶς ἁμαρτίας é uma expressão extraordinariamente concisa: “sem pecado”, “à parte do pecado”. Ela qualifica a semelhança afirmada sem exigir uma expansão no corpo da tradução. A KJV mantém a mesma concisão por without sinne.

Crítica textual e edições gregas. As principais edições críticas apresentam πεπειρασμένον, com apoio de 𝔓13, 𝔓46, א, A e B, enquanto C, a tradição bizantina e o Texto Recebido apresentam πεπειραμένον. A diferença não é meramente ortográfica: a primeira forma corresponde regularmente a πειράζω, “provar/tentar”, ao passo que a segunda pode ser relacionada a πειράω, “fazer prova/ter experiência”. O apoio antigo e a relação com Hb 2.18 favorecem πεπειρασμένον no texto crítico. A KJV, porém, verte a forma de sua tradição por tempted; por isso “tentado” permanece no corpo desta edição, enquanto a distinção textual é registrada aqui sem fingir que as duas formas gregas sejam idênticas.

Alcance da afirmação. “Em todos os pontos” não exige identidade absoluta entre cada circunstância particular da vida de Jesus e cada tentação experimentada por todo ser humano. A frase afirma realidade e abrangência da provação segundo semelhança humana, ao mesmo tempo que estabelece o limite decisivo: “sem pecado”.

Nota — “Aproximemo-nos, portanto, ousadamente do trono da graça”

KJV 1611. Let vs therefore come boldly vnto the throne of grace transforma a afirmação do v. 15 em exortação. “Portanto” é indispensável: a possibilidade de aproximação decorre precisamente do caráter do Sumo Sacerdote descrito nos dois versículos anteriores.

Filologia. προσερχώμεθα é subjuntivo presente exortativo de προσέρχομαι, “aproximar-se”, “chegar-se”. A KJV emprega o mais simples come; “aproximemo-nos” comunica em português o valor do movimento em direção ao trono sem alterar a função exortativa da frase.

“Ousadamente”. μετὰ παρρησίας pode exprimir franqueza, liberdade de fala, confiança ou ousadia. A KJV escolhe o advérbio boldly. “Ousadamente” conserva essa escolha, mas a ousadia não deve ser entendida como irreverência: sua base é a mediação do grande Sumo Sacerdote capaz de compadecer-se.

“Trono da graça”. τῷ θρόνῳ τῆς χάριτος une linguagem régia e favor divino. O lugar de autoridade é caracterizado como trono da graça. O texto não opõe aqui “trono” e “graça”; a própria autoridade daquele a quem os destinatários se aproximam é apresentada como fonte de misericórdia e auxílio.

História da tradução. Tyndale e Coverdale empregavam seate of grace. A Geneva adota throne of grace e “go boldly”; a Bishops’ Bible já traz substancialmente come boldly vnto the throne of grace. A KJV conserva neste locus a estrutura da Bíblia-base, que por sua vez participa da consolidação anterior da expressão “trono da graça”.

Nota — “obtenhamos misericórdia e encontremos graça para socorro em tempo de necessidade”

KJV 1611. A finalidade da aproximação é expressa por that wee may obtaine mercy, and finde grace to helpe in time of need. A KJV diferencia os dois verbos: “obter” misericórdia e “encontrar” graça. A tradução conserva essa distribuição em vez de reduzir ambos os membros a um único verbo.

Filologia. O grego possui ἵνα λάβωμεν ἔλεος καὶ χάριν εὕρωμεν. λάβωμεν significa literalmente “recebamos”, enquanto a KJV escolhe obtaine; εὕρωμεν significa “encontremos”, representado diretamente por finde. Como esta edição traduz a KJV 1611, “obtenhamos” permanece no primeiro membro.

Crítica textual. Existe diferença formal em “misericórdia”: importantes edições críticas apresentam ἔλεος, enquanto a tradição do Texto Recebido apresenta ἔλεον. A distinção de caso/forma não produz diferença correspondente na tradução “mercy”. B também omite εὕρωμεν, “encontremos”, mas a tradição amplamente predominante e as principais edições o conservam; a KJV possui corretamente o segundo verbo em sua tradição textual.

“Em tempo de necessidade”. O grego termina εἰς εὔκαιρον βοήθειαν. εὔκαιρος descreve aquilo que é oportuno, adequado à ocasião, enquanto βοήθεια significa auxílio ou socorro. A KJV expande essa expressão idiomaticamente por to helpe in time of need. “Para socorro em tempo de necessidade” preserva a forma inglesa e mantém o vínculo com Hb 2.18, onde Jesus é declarado capaz de “socorrer” os que são tentados.

Fechamento da unidade. Os três versículos formam um argumento completo: porque temos o grande Sumo Sacerdote, devemos conservar a confissão; porque esse Sumo Sacerdote conhece a provação sem pecado e pode compadecer-se das fraquezas, podemos aproximar-nos ousadamente; e essa aproximação tem por finalidade concreta misericórdia, graça e socorro. A exposição de Hb 5.1 poderá então perguntar quais qualificações pertencem ao sumo sacerdote e mostrar como elas se relacionam com Cristo.

Bibliografia

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Siglas, símbolos e abreviaturas
Edições, textos e documentos: KJV = King James Version. KJV 1611 = primeira edição impressa da King James Bible, Robert Barker, 1611. LXX = Septuaginta. NA28 = Novum Testamentum Graece, 28ª edição. UBS5 = The Greek New Testament, 5ª edição revisada. TR = Textus Receptus. MS 98 = Lambeth Palace Library, MS 98, manuscrito de trabalho da Segunda Companhia de Westminster.
Manuscritos e aparato: 𝔓13 = Papiro 13. 𝔓46 = Papiro 46. א, A, B, C, D, P, Ψ etc. = siglas convencionais de manuscritos gregos. * após a sigla de um manuscrito = primeira mão do manuscrito. 2, c etc. = corretor ou estágio posterior indicado pelo aparato. vid = leitura parcialmente visível ou considerada provável no testemunho.
Livros bíblicos citados: Gn = Gênesis. Sl = Salmos. Hb = Hebreus.
Outras abreviaturas e convenções: v. = versículo. vv. = versículos. Itálico = palavra ou elemento tipograficamente distinguido na edição, conforme indicado pela nota pertinente. † = punhal reproduzido da margem da KJV 1611; neste capítulo introduz uma glosa do grego. ‖ = sinal reproduzido da margem da KJV 1611 para uma tradução ou leitura alternativa. Gr. = “grego” (do inglês Greek); abreviatura do aparato marginal de 1611.
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