Hebreus 2 Peshitta
1 Por isso, somos obrigados a ser ainda mais atentos àquilo que ouvimos,1 para que não caiamos.2
2 Pois, se a palavra que foi falada por meio de anjos foi confirmada,3 e todo aquele que a ouviu e transgrediu contra ela recebeu justa retribuição,4
3 como escaparemos nós, se desprezarmos aquelas coisas que são a nossa vida,5 aquelas que começaram a ser faladas por nosso Senhor e, pelos que dele ouviram, foram confirmadas entre nós?6
4 enquanto Deus dava testemunho acerca delas por sinais, maravilhas e diversos poderes,7 e pela distribuição do Espírito Santo, que foram dados segundo a sua vontade.8
5 Pois não foi aos anjos que ele sujeitou o mundo vindouro, acerca do qual falamos.9
6 Mas, como a Escritura testemunha e diz:10 “Que é o homem, para que te lembres dele, ou o filho do homem, para que cuides dele?”11
7 “Tu o rebaixaste um pouco abaixo dos anjos;12 puseste glória e honra sobre sua cabeça e lhe deste autoridade sobre a obra de tuas mãos;13
8 e tudo sujeitaste debaixo de seus pés.” Pois, ao sujeitar-lhe tudo, nada deixou sem lhe ser sujeito.14 Agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja sujeito.15
9 Mas aquele que foi rebaixado um pouco abaixo dos anjos, vemos que é Jesus; por causa do sofrimento de sua morte, glória e honra foram postas sobre sua cabeça.16 Pois ele, Deus, em sua graça, provou a morte em favor de cada pessoa.17
10 Pois era apropriado àquele por meio de quem existem todas as coisas e por causa de quem existem todas as coisas,18 e ele introduziu muitos filhos na glória, que aperfeiçoasse, por seu sofrimento, o líder da vida deles.19
11 Pois aquele que santificou e os que foram santificados são todos de um só.20 Por isso, não se envergonhou de chamá-los seus irmãos,21
12 ao dizer: “Anunciarei teu nome a meus irmãos; e, no meio da assembleia, te louvarei.”22
13 E novamente: “Eu estarei confiando nele”;23 e novamente: “Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu.”24
14 Pois, visto que os filhos participaram de carne e sangue,25 também ele, da mesma maneira, participou dessas mesmas coisas, para que, por sua morte, reduzisse à impotência aquele que detém a autoridade da morte,26 isto é, Satanás.27
15 e libertasse aqueles que, pelo medo da morte, durante toda a vida estavam sujeitos à escravidão.28
16 Pois a morte não tinha autoridade sobre os anjos, mas tinha autoridade sobre a descendência de Abraão.2930
Nota 1 — “somos obrigados a ser ainda mais atentos”
Texto. A linha P de Aland–Juckel reproduz documentalmente BL Add. 14.470 (P4), códice dos séculos V/VI. Os editores esclarecem que a finalidade dessa linha não é apresentar um texto eclético ou um “original” reconstruído, mas um antigo texto da Peshitta controlado pelas demais testemunhas. P4 foi escolhido por sua antiguidade, completude relativa e reduzida alteração por influência grega. P17 não pode testemunhar Hb 2.1–4, pois apresenta lacuna de Hb 1.1 a 2.4.
Morfologia/Léxico. ܚܰܝܳܒ݂ܺܝܢܰܢ (ḥayyāḇīnan) exprime obrigação/dever e contém a primeira pessoa plural; ܙܗܺܝܪܺܝܢ (zhīrīn) caracteriza aqueles que estão atentos, cuidadosos ou vigilantes. ܕ݁ܝܰܬ݁ܺܝܪܳܐܝܺܬ݂ intensifica a predicação.
Sintaxe. A Peshitta não verte simplesmente “prestar atenção”; constrói “somos obrigados a ser mais atentos”. A TCE conserva o caráter predicativo e não reduz a oração a um imperativo estilístico.
Grego. O controle traz δεῖ περισσοτέρως ἡμᾶς προσέχειν. A proximidade funcional é clara, mas a Peshitta distribui o dever e a atenção por recursos próprios.
Nota 2 — “para que não caiamos”
Morfologia/Léxico. ܢܶܦ݁ܶܠ (neppel) pertence à raiz ܢܦܠ, “cair”.
Grego. μήποτε παραρυῶμεν é tradicionalmente representado por imagens como “desviar-se”, “derivar” ou “deixar escapar”. A Peshitta não conserva essa imagem: emprega o verbo comum “cair”.
Tradução. “Para que não caiamos” é deliberadamente siríaco. Substituí-lo por “não nos desviemos” seria nivelar a Peshitta ao grego.
Exegese. O primeiro aviso de Hebreus decorre diretamente da cristologia de Hb 1: a grandeza da revelação recebida aumenta a responsabilidade de quem a ouviu.
Versões comparadas. A Vg conserva a imagem de fluxo do grego em ne forte pereffluamus, acompanhando de perto παραρρέω. A Peshitta, ao contrário, simplifica a imagem para ܢܦܠ, “cair”. O contraste confirma que “não caiamos” não é paráfrase do latim ou do grego, mas escolha própria da versão siríaca.
Nota 3 — “a palavra que foi falada por meio de anjos foi confirmada”
Morfologia/Léxico. ܐܶܫܬ݁ܰܪܪܰܬ݂ (eštarrarat) é forma passiva/reflexiva da raiz ܫܪܪ, com o sentido de ser estabelecido, confirmado ou tornado firme.
Sintaxe. ܒ݁ܝܰܕ݂ ܡܰܠܰܐܟ݂ܶܐ é literalmente “pela mão dos anjos”, construção mediatorial idiomática representada por “por meio de anjos”.
Exegese. O argumento é a fortiori: se a palavra mediada por anjos foi firme e sua violação recebeu retribuição, tanto mais séria é a resposta exigida à palavra associada ao Senhor.
Nota 4 — “todo aquele que a ouviu e transgrediu contra ela recebeu justa retribuição”
Texto. Aland–Juckel registram em Hb 2.2 (Pls 1070/4) uma leitura singular de P11 que encontra paralelo no material de citações siríacas. O dado é importante para a história da transmissão, mas não exige modificação da linha P/P4 adotada na tradução.
Morfologia/Léxico. ܕ݁ܫܰܡܥܳܗ significa “que a ouviu”; ܘܰܥܒ݂ܰܪ ܥܠܶܝܗ combina a raiz ܥܒܪ com preposição e pode ser representada contextualmente por “transgrediu contra ela”. ܦ݁ܽܘܪܥܳܢܳܐ é retribuição/pagamento; ܒ݁ܟ݂ܺܐܢܽܘܬ݂ܳܐ qualifica-o como justo.
Grego. πᾶσα παράβασις καὶ παρακοή apresenta dois substantivos abstratos, “transgressão e desobediência”. A Peshitta os reestrutura em uma pessoa que ouve a palavra e depois a viola.
Tradução. A TCE preserva a personalização siríaca; “toda transgressão e desobediência” seria tradução do grego, não da Peshitta.
Transmissão. A coincidência de uma leitura singular de P11 com material de citação ilustra a advertência metodológica de Aland–Juckel: uma leitura minoritária no corpus manuscrito pode ter circulação mais ampla do que a contagem dos códices conservados sugere.
Versões comparadas. A Vg conserva a formulação abstrata do grego: omnis praevaricatio et inobedientia. O Sa igualmente mantém os dois conceitos, com ⲡⲁⲣⲁⲃⲁⲥⲓⲥ e ⲁⲧⲥⲱⲧⲙ. Assim, grego, latim e sahídico preservam a dupla “transgressão/desobediência”, enquanto a Peshitta singulariza a formulação numa pessoa que ouve e transgride.
Nota 5 — “aquelas coisas que são a nossa vida”
Morfologia/Léxico. ܢܰܒ݂ܣܶܐ pertence à raiz ܒܣܐ e exprime desprezar, tratar como insignificante ou ter em pouca conta. ܚܰܝܰܝܢ contém o substantivo “vida” com sufixo de primeira pessoa plural: “nossa vida”.
Sintaxe. A expressão ܐܰܝܠܶܝܢ ܕ݁ܗܶܢܽܘܢ ܐܶܢܽܘܢ ܚܰܝܰܝܢ está no plural: “aquelas coisas que elas mesmas são nossa vida”.
Grego. τηλικαύτης ... σωτηρίας tem o singular “tão grande salvação”. A Peshitta reexpressa o conteúdo como realidades que constituem “nossa vida”.
Tradução. “Aquelas coisas que são a nossa vida” é mantido exatamente para não substituir a formulação siríaca por “tão grande salvação”.
Versões comparadas. A Vg lê tantam ... salutem, conservando o substantivo “salvação” e o grau de grandeza do grego. O Sa também mantém explicitamente ⲟⲩϫⲁⲓ, “salvação”, acompanhado de expressão de grau. A Peshitta é, portanto, distintiva ao reformular σωτηρία como ܚܰܝܰܝܢ, “nossa vida”.
Nota 6 — “começaram a ser faladas por nosso Senhor [...] foram confirmadas entre nós”
Sintaxe. A Peshitta passa ao plural em ܗܳܢܽܘܢ ܕ݁ܫܰܪܺܝܘ, retomando “aquelas coisas”. A cadeia é explícita: Senhor → ouvintes dele → nós.
Tradução. ܒ݁ܰܢ ܐܶܫܬ݁ܰܪܰܪܘ é materialmente “foram confirmadas em/entre nós”. “Entre nós” foi escolhido porque preserva a preposição sem produzir português artificial.
Grego. O controle grego possui εἰς ἡμᾶς, mais naturalmente “a nós”. A TCE não substitui a preposição siríaca pela construção grega.
Exegese. O versículo situa o “nós” depois do Senhor e daqueles que o ouviram. Isoladamente, a frase não resolve a questão da autoria de Hebreus; ela descreve uma cadeia de transmissão.
Nota 7 — “sinais, maravilhas e diversos poderes”
Morfologia/Léxico. ܣܳܗܶܕ݂ é particípio de “testemunhar”. ܚܰܝܠܶܐ ܡܫܰܚܠܦ݂ܶܐ designa poderes/forças variados ou diversos.
Sintaxe. O pronome plural em ܥܠܰܝܗܽܘܢ, “acerca delas”, retoma naturalmente as realidades plurais do v. 3. Assim, a reestruturação siríaca de σωτηρία continua no v. 4.
Grego. O inventário corresponde de perto a σημείοις, τέρασιν e ποικίλαις δυνάμεσιν; a tradução, porém, segue a sintaxe siríaca.
Nota 8 — “pela distribuição do Espírito Santo [...] segundo a sua vontade”
Texto. Aland–Juckel registram em Hb 2.4 (Pls 1071/5) uma leitura singular de P2 com paralelo no material de citações. O mesmo versículo aparece ainda entre os pontos em que a transmissão harcleaniana conhece correção; esses dados pertencem à história textual e não são usados para substituir a linha P/P4.
Morfologia/Léxico. ܦ݂ܽܘܠܳܓ݂ܳܐ pertence à raiz ܦܠܓ, “dividir, repartir”, daí “distribuição/repartição”.
Grego. πνεύματος ἁγίου μερισμοῖς está no plural. A forma siríaca da linha traduzida é singular; a TCE mantém “distribuição” em vez de pluralizá-la a partir do grego.
Exegese. Os dons não aparecem como poderes autônomos: ܐܰܝܟ݂ ܨܶܒ݂ܝܳܢܶܗ, “segundo a sua vontade”, subordina sua concessão à vontade divina.
Versões comparadas. A Vg apresenta Spiritus Sancti distributionibus, no plural, e o Sa emprega igualmente uma expressão plural de repartições, ϩⲉⲛⲡⲱⲣϫ. Ambas acompanham o plural grego μερισμοῖς. A Peshitta da linha traduzida, ao usar ܦ݂ܽܘܠܳܓ݂ܳܐ no singular, conserva uma diferença formal real.
Nota 9 — “o mundo vindouro”
Morfologia/Léxico. ܥܠܡܐ ܕܥܬܝܕ é literalmente “o mundo que há de vir”; “mundo vindouro” conserva a perspectiva prospectiva da expressão.
Sintaxe. O sujeito de “sujeitou” é recuperado do contexto; “Deus” não está lexicalmente expresso. O ele da TCE é, por isso, suplemento necessário ao português e permanece em itálico.
Transmissão — Harcleana. Hb 2.5 marca um limite documental importante: H4, o testemunho harcleaniano mais antigo empregado por Aland–Juckel, interrompe-se neste ponto. A partir daí, o controle da tradição Harcleana depende sobretudo de H1 e H3, e os editores observam crescente grecização e aproximação ao texto grego padrão. Por isso a Harcleana posterior funciona aqui apenas como controle histórico, nunca como instrumento para corrigir silenciosamente a Peshitta.
Exegese. A seção retorna ao contraste com os anjos: o mundo vindouro não lhes foi submetido, preparando a leitura de Sl 8.
Versões comparadas. A Vg explicita o sujeito com Non enim angelis subjecit Deus. O Sa, como a Peshitta, pode deixar o agente recuperável pelo contexto verbal, sem inserir um substantivo independente equivalente a “Deus” neste ponto. Isso confirma a decisão da TCE de não acrescentar “Deus” sem marca editorial.
Nota 10 — “como a Escritura testemunha e diz”
Texto. Aland–Juckel assinalam Hb 2.6 (Pls 1072/5+6–6) entre os lugares em que a Peshitta do AT atua como força adicional de formação de variantes na transmissão de Hebreus; registram ainda uma leitura singular do suplemento de P13 que encontra paralelo no material de citações. Esse dado exige distinguir o texto traduzido da história posterior de harmonização.
Grego. O texto de controle apresenta διεμαρτύρατο δέ πού τις λέγων, aproximadamente “alguém, em algum lugar, testemunhou, dizendo”. A Peshitta explicita ܡܣܗܕ ܟܬܒܐ, “a Escritura testemunha”.
Tradução. A TCE mantém a explicitação siríaca. Sem evidência positiva de uma Vorlage grega diferente, a diferença é classificada como técnica de tradução/interpretação, não como variante grega demonstrada.
Transmissão. O fato de a Peshitta veterotestamentária poder exercer pressão harmonizadora sobre os manuscritos de Hebreus impede usar concordância tardia com o AT siríaco como critério automático de antiguidade.
Versões comparadas. A Vg conserva a indefinição do grego: Testatus est autem in quodam loco quis, “alguém testemunhou em certo lugar”. O Sa faz o mesmo, introduzindo “um” que dá testemunho “em um lugar”. A explicitação ܟܬܒܐ, “a Escritura”, distingue portanto a Peshitta tanto do grego como dessas duas versões antigas.
Nota 11 — “para que te lembres dele [...] para que cuides dele”
Morfologia/Léxico. ܥܗܕ exprime lembrar-se. ܣܥܪ pode envolver visitar, voltar-se para ou ocupar-se de alguém; “cuides” representa aqui a função contextual sem sugerir visita física.
AT/Intertextualidade. A Peshitta do Saltério emprega em Sl 8 verbos diferentes nos dois membros: formas de ܕܟܪ e ܦܩܕ. A Peshitta de Hebreus, portanto, não é mera reprodução do Saltério siríaco.
Transmissão. A observação de Aland–Juckel de que a Peshitta do AT é força variantenbildende precisamente em Hb 2.6 recomenda cautela: aproximações de manuscritos de Hebreus ao Saltério podem ser secundárias. A comparação intertextual serve para reconstruir a história da transmissão, não para corrigir a linha P.
Tradução. “Cuidares dele” permanece preferível no corpo; “visitares” e “atenderes” são alternativas lexicais possíveis, mas menos transparentes no português corrente.
Versões comparadas. A Vg verte o segundo membro com visitas eum, preservando a linguagem de visitação. O Sa também emprega vocabulário de visita/inquirição no segundo membro. A Peshitta, com ܣܥܪ, permite “visitar”, “atender” ou “cuidar”; a TCE escolhe “cuides” pela função contextual, sem negar a proximidade das demais versões com a formulação grega.
Nota 12 — “tu o rebaixaste um pouco abaixo dos anjos”
Morfologia/Léxico. ܩܠܝܠ significa “um pouco”. Não há na construção siríaca um marcador lexical que obrigue a paráfrase “por pouco tempo”.
Grego. βραχύ pode sustentar discussão semântica própria no texto grego; essa discussão não autoriza inserir na tradução siríaca uma temporalidade que ܩܠܝܠ não explicita.
AT/Intertextualidade. A Peshitta de Sl 8 emprega outro verbo para a ação de tornar menor/rebaixar. A diferença confirma que a Peshitta de Hebreus não copia mecanicamente a redação contínua do Saltério.
Tradução. Mantém-se “um pouco abaixo dos anjos”; qualquer interpretação temporal pertence à nota exegética, não ao texto principal.
Versões comparadas. A Vg traz paulo minus ab angelis; o Sa igualmente expressa “um pouco” em relação aos anjos. Essas versões favorecem uma representação quantitativa imediata semelhante à da Peshitta. A possibilidade de entender βραχύ temporalmente pertence à exegese do grego, não é imposta pela tradição versional aqui comparada.
Nota 13 — “puseste glória e honra sobre sua cabeça e lhe deste autoridade sobre a obra de tuas mãos”
Sintaxe/Tradução. Onde o grego possui ἐστεφάνωσας, “coroaste”, a Peshitta formula literalmente “puseste glória e honra sobre sua cabeça”. A TCE preserva essa concretização e não reintroduz “coroaste”.
Texto grego. A cláusula correspondente a “e lhe deste autoridade sobre a obra de tuas mãos” não pertence ao texto curto de NA28, mas é conhecida em outra forma da tradição grega de Hb 2.7. Sua presença no siríaco, portanto, não é uma criação sem paralelo grego.
AT/Intertextualidade. A Peshitta de Sl 8 também contém uma oração muito próxima. Isso impede inferir automaticamente uma única origem para a cláusula em Hebreus: permanecem possíveis uma Vorlage grega longa, influência da tradição siríaca do Salmo ou interação entre ambas.
Crítica textual. A edição não decide a direção genética apenas pela coincidência. O dado seguro é a presença da cláusula na forma siríaca traduzida; a história de sua incorporação permanece separada da decisão tradutória.
Versões comparadas. A Vg mantém a metáfora explícita de coroação — gloria et honore coronasti eum — e conserva também a cláusula constituisti eum super opera manuum tuarum. O Sa usa o empréstimo ⲥⲧⲉⲫⲁⲛⲟⲩ, “coroar”, e igualmente preserva a oração sobre as obras das mãos. A Peshitta coincide com elas na cláusula longa, mas difere ao concretizar “coroar” como “pôr glória e honra sobre sua cabeça”.
Nota 14 — “tudo sujeitaste [...] ao sujeitar-lhe tudo”
Morfologia/Léxico. A repetição da família ܫܥܒܕ é estrutural. A TCE conserva “sujeitar/sujeito” em vez de variar estilisticamente o vocabulário.
AT/Intertextualidade. A Peshitta de Sl 8 diz “puseste” onde Hb 2.8 diz “sujeitaste”. A LXX emprega ὑποτάσσω. Nesse ponto, a Peshitta de Hebreus está semanticamente mais próxima da formulação grega do que da Peshitta contínua do Salmo.
Exegese. A repetição totalizante estabelece o alcance universal da sujeição antes de introduzir a tensão do “ainda não vemos”.
Nota 15 — “agora, porém, ainda não vemos que tudo lhe esteja sujeito”
Sintaxe. O contraste temporal entre a abrangência da sujeição afirmada pela Escritura e aquilo que “agora” é visto prepara diretamente o v. 9.
Exegese. O argumento não abandona Sl 8 diante da experiência presente; identifica em Jesus o ponto em que sofrimento, morte, honra e domínio começam a ser interpretados cristologicamente.
Nota 16 — “vemos que é Jesus [...] glória e honra foram postas sobre sua cabeça”
Tradução. A TCE conserva em 2.9 a mesma formulação concretizada de 2.7: glória e honra são “postas sobre sua cabeça”, em vez de importar “coroado” do grego.
Morfologia/Léxico. A expressão “sofrimento de sua morte” explicita a morte mediante sufixo possessivo. Essa formulação deve ser preservada antes de qualquer harmonização com o grego.
Exegese. Jesus é identificado como aquele em quem a trajetória de Sl 8 — rebaixamento, sofrimento e honra — recebe aplicação cristológica.
Nota 17 — “pois ele, Deus, em sua graça, provou a morte em favor de cada pessoa”
Texto. Este é o locus crítico principal de Hb 2. Aland–Juckel registram P4c in ras. e P4* illeg.: a correção de P4 está escrita sobre rasura e a primeira mão não pode ser recuperada. O aparato registra ainda formas em P2, P10, P11, P12, P13, P14, P15, P17, P19 e P20; P16 é lacunoso. Os próprios editores concluem: “o texto original é difícil de determinar”.
Crítica textual. A incerteza não pode ser resolvida pela preferência do texto grego crítico. A tradição grega conhece χάριτι θεοῦ e χωρὶς θεοῦ; a tradição siríaca possui sua própria estratificação de formas relacionadas. Aland–Juckel remetem expressamente ao estudo de Sebastian P. Brock, dedicado a Hb 2.9b, e a M. E. Gudorf.
História da tradição siríaca. Brock, “Hebrews 2:9b in Syriac Tradition” (Novum Testamentum 27 [1985]: 236–244), é o tratamento específico do locus. A data correta do artigo é 1985. O estudo é usado como controle da distribuição e da história das leituras, não para reconstruir silenciosamente uma primeira mão ilegível de P4.
Harcleana. O controle harcleaniano também não é simples: Aland–Juckel registram correção interna na tradição de H3 em Hb 2.9. Além disso, H4 já não está disponível após Hb 2.5. A Harcleana, portanto, documenta recepção e revisão grega da passagem, mas não decide o texto da Peshitta.
Sintaxe. Na forma siríaca apresentada na linha editorial, ܗܘ ... ܐܠܗܐ permite representar a frase como “pois ele, Deus, em sua graça...”.
Tradução. Mantém-se essa redação no texto principal porque ela representa a forma siríaca adotada pela edição, mas com grau de segurança textual explicitamente reduzido. A tradução não pretende reconstruir P4* nem apagar a rasura do manuscrito.
Versões comparadas. A Vg lê ut, gratia Dei, pro omnibus gustaret mortem. O Sa também conserva “graça de Deus” (ϩⲙ ⲡⲉϩⲙⲟⲧ ⲙⲡⲛⲟⲩⲧⲉ) e o verbo “provar” a morte. Latim e sahídico, portanto, testemunham uma forma alinhada a χάριτι θεοῦ. Essa convergência é controle externo importante, mas não autoriza reconstruir P4* — que permanece ilegível — nem apagar a história interna das leituras siríacas.
Nota 18 — “por meio de quem [...] por causa de quem”
Texto. Juckel inclui Hb 2.10 como unidade de teste nº 199 para a história da Peshitta. Nessa unidade, 6n1 — BL Add. 14.470, isto é, P4 — pertence ao grupo A, definido por Juckel como o texto do período antigo/bizantino, dos séculos V–VII; o grupo B representa o texto padrão oriental, dominante desde os séculos VII/VIII. P4 está aqui acompanhado por amplo conjunto de testemunhas antigas. Aland–Juckel registram ainda em Hb 2.10 (Pls 1077/4) uma leitura singular de P15 que encontra paralelo no material de citações.
Crítica textual. A classificação A/B é histórica, não uma etiqueta automática de “original” versus “secundário”. O próprio método de Juckel visa distinguir estágios e tradições da transmissão, não reconstruir mecanicamente um Urtext. Nesta passagem, contudo, a posição de P4 dentro do grupo A reforça a antiguidade documental da forma usada como linha de base.
Sintaxe. ܒܺܐܝܕܶܗ, literalmente “por sua mão”, funciona instrumentalmente: “por meio de quem”. ܡܶܛܽܠܳܬܶܗ exprime causa/razão: “por causa de quem”.
Grego. O grego dispõe as relações na ordem inversa: “por causa de quem [...] e por meio de quem”. A Peshitta inverte a ordem sem que isso, isoladamente, requeira uma Vorlage diferente.
Nota 19 — “introduziu muitos filhos na glória [...] líder da vida deles”
Morfologia/Léxico. ܪܺܝܫܳܐ significa “cabeça, chefe, líder”. ܚܰܝܰܝ̈ܗܽܘܢ é formalmente “vida deles”. O CAL registra para ܚܝ̈ܐ primeiro “vida, duração da vida” e, no siríaco, também o sentido secundário “salvação”. A polissemia é real; ainda assim, “vida” é a representação lexical mais direta e permite que o valor soteriológico surja do contexto em vez de ser importado do grego.
Tradução. A R2 prefere “líder da vida deles”. “Líder da salvação deles” aproximava excessivamente a TCE do grego σωτηρία e enfraquecia justamente a diferença versional que esta edição pretende conservar.
Sintaxe. A Peshitta transforma o particípio grego πολλοὺς υἱοὺς ... ἀγαγόντα em oração finita: “e ele introduziu muitos filhos na glória”.
Grego. O controle possui ἀρχηγὸν τῆς σωτηρίας αὐτῶν e διὰ παθημάτων, plural. A forma siríaca traduzida traz “líder da vida deles” e ܒܚܰܫܶܗ, singular com sufixo: “por seu sofrimento”. Essas diferenças devem permanecer visíveis.
Exegese. A mudança para “vida” reforça uma recorrência interna da Peshitta em Hb 2: o vocabulário de ܚܝ̈ܐ já havia sido usado em 2.3 para aquilo que o grego designa como σωτηρία. A versão siríaca organiza o campo soteriológico com seu próprio léxico.
Versões comparadas. A Vg lê auctorem salutis eorum per passionem: conserva “salvação”, mas apresenta “sofrimento/paixão” no singular. O Sa tem ⲁⲣⲭⲏⲅⲟⲥ ⲙⲡⲟⲩϫⲁⲓ, “líder da salvação”, e ϩⲓⲧⲛ ϩⲉⲛϩⲓⲥⲉ, “por sofrimentos”, acompanhando mais de perto o plural grego. A Peshitta combina outra configuração: “líder da vida deles” + “por seu sofrimento”.
Nota 20 — “aquele que santificou e os que foram santificados são todos de um só”
Morfologia/Léxico. A Peshitta emprega perfeitos: ܩܰܕܶܫ, “santificou”, e ܐܶܬܩܰܕܰܫܘ, “foram santificados”.
Grego. O controle grego possui particípios presentes, “aquele que santifica” e “os que são santificados”. A diferença é aspectual e deve ser preservada na TCE.
Sintaxe. ܡܶܢ ܚܰܕ é simplesmente “de um/de um só”. A tradução não explicita “Pai”, “natureza” ou “Adão”, pois o complemento permanece não expresso.
Versões comparadas. A Vg preserva o aspecto não perfectivo do grego em qui sanctificat, et qui sanctificantur. O Sa também estrutura a frase como “aquele que santifica” e “os que são santificados”, sem convertê-la numa sequência de perfeitos. A Peshitta se distingue ao apresentar ܩܰܕܶܫ e ܐܶܬܩܰܕܰܫܘ como ações perfeitas.
Nota 21 — “não se envergonhou de chamá-los seus irmãos”
Morfologia/Léxico. ܒܗܶܬ é perfeito: “envergonhou-se”. ܐܰܚܰܘ̈ܗ̱ܝ contém sufixo possessivo: “seus irmãos”.
Grego. O grego deixa a posse apenas na relação verbal “chamá-los irmãos”; a Peshitta explicita “seus irmãos”.
Exegese. A solidariedade dos “filhos” de 2.10 é agora expressa como fraternidade e prepara a citação do Salmo no v. 12.
Nota 22 — “anunciarei teu nome a meus irmãos [...] no meio da assembleia”
Morfologia/Léxico. ܐܶܣܰܒܰܪ significa anunciar/proclamar; ܐܶܫܰܒܚܳܟ, “te louvarei”.
AT/Intertextualidade. Em Sl 22.22 a Peshitta do Saltério usa os mesmos verbos principais, mas traz ܟܢܽܘܫܬܳܐ para “assembleia”, enquanto Hb 2.12 emprega ܥܺܕܬܳܐ. A coincidência verbal e a diferença nominal impedem falar em simples cópia mecânica.
Grego. A LXX do Salmo e Hebreus divergem no primeiro verbo grego, enquanto a Peshitta emprega a mesma raiz siríaca nos dois contextos. A versão, portanto, neutraliza uma diferença grega e cria outra distinção em seu próprio léxico.
Tradução. “Assembleia” preserva o cenário citacional e evita antecipar uma leitura institucional de “igreja”.
Versões comparadas. A Vg verte ἐκκλησία por ecclesia; o Sa emprega diretamente ⲉⲕⲕⲗⲏⲥⲓⲁ. Ambas acompanham de perto o vocábulo grego. A Peshitta usa ܥܺܕܬܳܐ, termo siríaco próprio para assembleia/igreja, mas diferente de ܟܢܽܘܫܬܳܐ na Peshitta do Salmo.
Nota 23 — “eu estarei confiando nele”
Morfologia/Léxico. A construção combina pronome independente, futuro de “ser/estar” e predicativo da raiz ܬܟܠ: literalmente, “eu estarei confiando nele”.
AT/Intertextualidade. A Peshitta contínua de Is 8.17 não possui essa mesma formulação e emprega linguagem de esperar/aguardar pelo Senhor. A Peshitta de Hebreus corresponde mais de perto à forma grega citada em Hebreus.
Grego. ἐγὼ ἔσομαι πεποιθὼς ἐπ’ αὐτῷ encontra representação estrutural muito próxima no siríaco de Hb 2.13.
Tradução. “Eu estarei confiando nele” conserva a construção perifrástica; “porei nele a minha confiança” é alternativa idiomática, mas menos formal.
Versões comparadas. A Vg lê Ego ero fidens in eum, construção notavelmente próxima da perífrase da Peshitta. O Sa também apresenta estrutura equivalente a “eu estarei confiando nele” (ⲁⲛⲟⲕ ϯⲛⲁϣⲱⲡⲉ ⲉⲓⲛⲁϩⲧⲉ ⲉⲣⲟϥ). A convergência mostra que a formulação perifrástica não é peculiar ao siríaco, embora cada versão deva ser analisada em sua própria sintaxe.
Nota 24 — “eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu”
AT/Intertextualidade. A Peshitta de Is 8.18 tem “o Senhor” (ܡܳܪܝܳܐ) onde a Peshitta de Hb 2.13 tem “Deus” (ܐܰܠܳܗܳܐ). O hebraico possui Yahweh; a LXX e o grego de Hebreus, ὁ θεός.
História da tradução. Neste ponto, a forma de Hebreus acompanha claramente a tradição grega da citação e não a redação contínua da Peshitta de Isaías.
Exegese. A cadeia “filhos” (2.10) → “irmãos” (2.11–12) → “filhos” (2.13) prepara diretamente o reaparecimento de “filhos” em 2.14.
Versões comparadas. A Vg lê quos dedit mihi Deus, e o Sa igualmente traz ⲡⲛⲟⲩⲧⲉ, “Deus”. Grego, latim, sahídico e Peshitta de Hebreus convergem aqui em “Deus”, em contraste com ܡܳܪܝܳܐ, “o Senhor”, na Peshitta contínua de Is 8.18.
Nota 25 — “os filhos participaram de carne e sangue”
Morfologia/Léxico. A raiz ܫܘܬܦ descreve tanto a participação dos filhos quanto a participação de Cristo. A Peshitta, portanto, repete a mesma família verbal.
Grego. O texto crítico grego distingue κοινωνέω e μετέχω; a Peshitta neutraliza essa diferença lexical. Também diverge na ordem dos substantivos: a linha siríaca traz “carne e sangue”, enquanto o texto crítico grego tem αἵματος καὶ σαρκός, “sangue e carne”.
Crítica textual grega. A ordem “carne e sangue” é conhecida na tradição grega bizantina/TR. A correspondência é real, mas não basta para demonstrar que o tradutor da Peshitta tinha necessariamente essa forma grega diante de si; idiomatização, harmonização ou história textual grega continuam possíveis.
Exegese. O termo “filhos” retoma diretamente 2.13 e preserva a coesão familiar do argumento.
Versões comparadas. A Vg tem carni, et sanguini, “carne e sangue”, coincidindo na ordem com a Peshitta. O Sa, ao contrário, lê ⲥⲛⲟϥ ϩⲓ ⲥⲁⲣⲝ, “sangue e carne”, acompanhando o texto crítico grego. A divisão versional aconselha cautela antes de usar a ordem siríaca como prova isolada de uma Vorlage grega específica.
Nota 26 — “por sua morte [...] reduzisse à impotência aquele que detém a autoridade da morte”
Tradução. A Peshitta diz ܒܡܰܘܬܶܗ, “por sua morte”, com possessivo explícito; a TCE não reduz a frase ao grego “por meio da morte”.
Morfologia/Léxico. ܢܒܰܛܶܠ pertence ao campo de cessar, anular, tornar sem efeito; “reduzisse à impotência” procura representar esse valor sem exagerar para “destruir”. A família ܫܠܛ exprime governar, ter poder ou autoridade sobre; o CAL registra explicitamente esse valor com b- ou ʿal. Assim, ܫܽܘܠܛܳܢܳܐ é adequadamente representado por “autoridade”.
Coesão lexical. A opção “autoridade da morte” é deliberadamente mantida porque a mesma família ܫܠܛ reaparece em 2.16. A repetição é um elo semântico da Peshitta que se perderia com variação estilística arbitrária.
Exegese. A morte de Cristo é apresentada como o meio pelo qual se torna inoperante aquele que detém a autoridade associada à morte.
Versões comparadas. A Vg lê simplesmente per mortem, sem possessivo expresso. O Sa apresenta “por sua morte”, com possessivo explícito, convergindo nesse ponto com a Peshitta e não com a formulação mais curta do grego. Quanto ao poder da morte, a Vg usa mortis imperium, enquanto a Peshitta escolhe ܫܽܘܠܛܳܢܳܐ, “autoridade/domínio”.
Nota 27 — “isto é, Satanás”
Morfologia/Léxico. A Peshitta nomeia ܣܳܛܳܢܳܐ, “Satanás”.
Grego. O correspondente grego é τὸν διάβολον, “o diabo”. A diferença é lexical e não deve ser apagada pela tradução.
Tradução. A TCE diz “Satanás”; “o diabo” seria uma normalização pelo grego.
Versões comparadas. A Vg lê diabolum e o Sa emprega ⲇⲓⲁⲃⲟⲗⲟⲥ, ambos diretamente relacionados ao grego διάβολος. A Peshitta traduz interpretativamente com ܣܳܛܳܢܳܐ, “Satanás”, tornando explícita a identificação do adversário por outro nome tradicional.
Nota 28 — “pelo medo da morte [...] sujeitos à escravidão”
Morfologia/Léxico. ܢܶܫܪܶܐ, da raiz ܫܪܐ, significa soltar/libertar. ܕܶܚܠܬܳܐ é medo/temor; ܥܰܒܕܽܘܬܳܐ, servidão/escravidão.
Sintaxe. ܡܫܰܥܒܕܺܝܢ ܗ̱ܘܰܘ é construção perifrástica que descreve estado durativo no passado: “estavam sujeitos”.
Exegese. O versículo explicita o efeito humano da morte: uma vida inteira marcada por sujeição e medo, da qual a ação de Cristo liberta.
Nota 29 — “a morte não tinha autoridade sobre os anjos”
Texto. Juckel inclui Hb 2.16 como unidade de teste nº 200. Nela, 6n1 (= P4, BL Add. 14.470) pertence ao grupo A, acompanhado por amplo conjunto de manuscritos dos séculos V–VII; o grupo B representa a forma padrão oriental dominante desde os séculos VII/VIII. Aland–Juckel assinalam ainda, em sua análise da transmissão antiga, duas concordâncias características de P19 e P20 em Hb 2.16; P16, que em outras passagens se associa a esses testemunhos, é lacunoso neste ponto. O dado confirma que o versículo teve história intraversional própria.
Crítica textual. A etiqueta A em Juckel significa “texto do período antigo/bizantino”, não “original” por definição. Neste locus, porém, a presença de P4 e de numerosos testemunhos antigos no grupo A impede tratar a leitura da linha P como peculiaridade editorial tardia.
Morfologia/Léxico. ܡܰܫܠܰܛ ܗ̱ܘܳܐ, da raiz ܫܠܛ, exprime exercer poder/autoridade sobre. O CAL confirma para a raiz os sentidos “governar, ter poder sobre, dominar”. A TCE mantém “autoridade” para conservar a conexão com ܫܽܘܠܛܳܢܳܐ em 2.14.
História da tradição siríaca. A forma siríaca traduzida explicita ܡܰܘܬܳܐ, “a morte”, como sujeito. Essa reestruturação deve ser tratada como dado da Peshitta, não corrigida pela sintaxe do grego.
Versões comparadas. A Vg mantém o verbo do grego em angelos apprehendit ... semen Abrahae apprehendit. O Sa faz o mesmo com ⲁⲙⲁϩⲧⲉ, “tomar/agarrar”. Nenhuma das duas introduz “a morte” como sujeito. O contraste reforça o caráter interpretativo e intraversional da redação da Peshitta, que deve ser preservada como tal.
Nota 30 — “mas tinha autoridade sobre a descendência de Abraão”
Grego. οὐ ... ἀγγέλων ἐπιλαμβάνεται, ἀλλὰ σπέρματος Ἀβραὰμ ἐπιλαμβάνεται não explicita “morte” como sujeito e emprega ἐπιλαμβάνομαι. A Peshitta não traduz simplesmente esse verbo por um equivalente siríaco; ela reestrutura a sentença.
Tradução. “Socorre” ou “assume a natureza de” não traduzem a leitura siríaca aqui adotada. Na Peshitta, o contraste é entre aqueles sobre os quais a morte exerce ou não exerce autoridade.
Exegese. A leitura siríaca interpreta 2.16 retrospectivamente a partir de 2.14–15: a descendência de Abraão pertence à condição mortal; os anjos, não. Isso cria transição natural para a necessidade de semelhança com os irmãos em 2.17.
Transmissão — Harcleana. A Harcleana pode servir de controle para a recepção de ἐπιλαμβάνεται e para a posterior aproximação ao grego, mas depois de 2.5 já não dispõe do antigo testemunho H4. Por isso não é usada para substituir a construção própria da Peshitta.
Versões comparadas. Grego, Vg e Sa estruturam o versículo em torno do ato de “tomar/agarrar” anjos ou a descendência de Abraão. A Peshitta desloca o eixo semântico para o domínio da morte. A comparação torna visível que “a morte tinha autoridade” não é simples equivalente lexical de ἐπιλαμβάνεται, mas leitura tradutório-exegética da sentença.
Nota 31 — “era justo que, em tudo, se tornasse semelhante a seus irmãos”
Texto. Juckel inclui Hb 2.17 como unidade de teste nº 201. Aqui P4 (= 6n1) não está no grupo A, mas no grupo B, junto com amplo conjunto de testemunhas. Esse contraste com 2.10 e 2.16 é metodologicamente importante: P4 não pode ser tratado mecanicamente como portador da forma A em todo locus. Aland–Juckel registram ainda em Hb 2.17 (Pls 1090/3) uma leitura singular de P10 que encontra paralelo no material de citações.
Morfologia/Léxico. ܙܳܕܶܩ ܗ̱ܘܳܐ pertence ao campo do que é justo, correto, próprio ou devido. O CAL registra para ܙܕܩ, no siríaco, o sentido “proper, right” e documenta construções equivalentes a “é justo/correto que...”. Em 2.10 a Peshitta usa outro idiomatismo, ܝܳܐܶܐ ܗ̱ܘܳܐ, razão pela qual a tradução diferencia “era apropriado” (2.10) de “era justo” (2.17).
Morfologia/Léxico. ܢܶܬܕܰܡܶܐ significa tornar-se semelhante. ܠܰܐܚܰܘܗ̱ܝ contém o possessivo: “a seus irmãos”.
Grego. ὤφειλεν possui valor de dever/obrigação. “Era justo” representa deliberadamente a escolha lexical do siríaco em vez de retroverter ὤφειλεν.
Exegese. O versículo conclui a solidariedade desenvolvida desde 2.10 e a converte em fundamento para o sumo sacerdócio.
Versões comparadas. A Vg usa debuit, refletindo diretamente a noção de obrigação de ὤφειλεν. O Sa emprega a construção ϣϣⲉ ⲉⲣⲟϥ, idiomática para aquilo que convém/é devido a alguém. A Peshitta, com ܙܳܕܶܩ ܗ̱ܘܳܐ, também formula a necessidade mediante linguagem de correção/propriedade, razão pela qual “era justo” permanece preferível.
Nota 32 — “para que fosse misericordioso e um sumo sacerdote fiel”
Sintaxe. A sequência siríaca é ܡܪܰܚܡܳܢܳܐ ܘܪܰܒ ܟܽܘܡܪܶܐ ܡܗܰܝܡܢܳܐ: primeiro “misericordioso”, depois “sumo sacerdote fiel”. A TCE preserva essa disposição, em vez de reorganizar automaticamente para a coordenação adjetiva do grego.
Morfologia/Léxico. ܪܰܒ ܟܽܘܡܪܶܐ é a expressão siríaca para “sumo sacerdote”.
Exegese. É a primeira ocorrência explícita do título sacerdotal em Hebreus; ele surge como resultado argumentativo da solidariedade com os irmãos.
Nota 33 — “nas coisas de Deus”
Sintaxe. ܒܕܰܐܠܳܗܳܐ é construção comprimida de relação/esfera. “Nas coisas de Deus” produz em português um sintagma idiomático sem precisar importar palavra por palavra a preposição grega.
Grego. τὰ πρὸς τὸν θεόν é mais literalmente “as coisas referentes a Deus”. A TCE mantém o grego como controle, mas deixa a formulação portuguesa ser governada pelo siríaco.
Tradução. A R2 fixa “nas coisas de Deus”, forma mais clara e ainda suficientemente próxima da construção siríaca.
Nota 34 — “fizesse expiação pelos pecados do povo”
Morfologia/Léxico. ܡܚܰܣܶܐ pertence à raiz ܚܣܐ. O CAL registra no Pael o sentido “absolver” e, especificamente com ܥܠ, “expiar”. A construção de Hb 2.17 é precisamente ܡܚܰܣܶܐ ܥܰܠ. O mesmo uso cultual é documentado pelo CAL na Peshitta em Êx 29.36, Lv 16.17 e Lv 19.22.
Tradução. A auditoria confirma “fizesse expiação pelos pecados do povo”. Essa solução não precisa ser justificada apenas pelo grego ἱλάσκεσθαι: ela é sustentada pelo próprio uso lexical e sintático siríaco. “Remitisse os pecados” continua possível como paráfrase de um componente do campo semântico, mas é menos precisa para esta construção com ܥܠ.
Grego. ἱλάσκεσθαι τὰς ἁμαρτίας converge funcionalmente com a solução siríaca, embora a Peshitta empregue seu próprio verbo e sua própria construção preposicional.
Exegese. A primeira ocorrência explícita do sumo sacerdócio em Hebreus é imediatamente definida por uma ação expiatória em favor dos pecados do povo; o vocabulário siríaco conserva esse caráter cultual.
Versões comparadas. A Vg emprega repropitiaret delicta populi, preservando linguagem explicitamente propiciatória/expiatória. O Sa formula a ação como ⲕⲱ ⲉⲃⲟⲗ ⲛⲛⲛⲟⲃⲉ ⲙⲡⲗⲁⲟⲥ, isto é, “liberar/perdoar os pecados do povo”. A Peshitta, com ܚܣܐ + ܥܠ, situa-se num campo que pode expressar absolvição e expiação; por isso “fizesse expiação” permanece filologicamente defensável sem excluir a nuance remissiva.
Nota 35 — “por ter ele sofrido e sido provado”
Morfologia/Léxico. A Peshitta traz dois verbos finitos perfeitos coordenados: ܚܰܫ, “sofreu”, e ܐܶܬܢܰܣܺܝ, “foi provado/testado”.
Grego. πέπονθεν αὐτὸς πειρασθείς combina verbo perfeito e particípio aoristo. A Peshitta desfaz essa subordinação participial e coordena as duas experiências.
Tradução. Por isso a TCE diz “sofreu e foi provado”, não “sofreu ao ser provado”.
Morfologia/Léxico. A raiz ܢܣܐ pode abranger prova, teste e tentação. “Provado” preserva maior amplitude do que “tentado”.
Versões comparadas. A Vg lê passus est ipse et tentatus, coordenando explicitamente “sofreu” e “foi tentado/provado”, solução muito próxima da coordenação da Peshitta. O Sa conserva igualmente os campos lexicais de sofrimento (ϩⲓⲥⲉ) e prova (ⲡⲉⲓⲣⲁⲍⲉ). O grego crítico, porém, combina verbo finito e particípio, razão pela qual a coordenação siríaca deve continuar visível.
Nota 36 — “é capaz de ajudar os que são provados”
Morfologia/Léxico. ܡܶܫܟܰܚ exprime capacidade presente: “é capaz/pode”. ܕܰܢܥܰܕܰܪ, da raiz ܥܕܪ, significa ajudar/auxiliar. ܡܶܬܢܰܣܶܝܢ retoma a mesma raiz de “foi provado”.
Tradução. Aqui o vocabulário de auxílio está realmente expresso. Isso reforça a necessidade de não retrojetar “socorrer” para 2.16, onde a Peshitta utiliza outra construção.
Exegese. A experiência passada de sofrimento e prova fundamenta a capacidade presente de auxílio e explica funcionalmente a misericórdia sacerdotal de 2.17.
Versões comparadas. A Vg conclui com potens est ... auxiliari, “é capaz de auxiliar”, e o Sa utiliza ⲃⲟⲏⲑⲉⲓ, “ajudar”. Aqui as versões antigas convergem com a Peshitta no valor funcional de auxílio, em contraste com 2.16, onde latim e sahídico não apoiam a reestruturação siríaca com “a morte” como sujeito.
Aland, Barbara; Juckel, Andreas. Das Neue Testament in syrischer Überlieferung. II. Die paulinischen Briefe. Teil 3: 1./2. Thessalonicherbrief, 1./2. Timotheusbrief, Titusbrief, Philemonbrief und Hebräerbrief. Arbeiten zur neutestamentlichen Textforschung 32. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 2002. Barnes, William Emery. The Peshitta Psalter According to the West Syrian Text, Edited with an Apparatus Criticus. Cambridge: Cambridge University Press, 1904. Brock, Sebastian P. “Hebrews 2:9b in Syriac Tradition.” Novum Testamentum 27 (1985): 236–244. Elliger, Karl; Rudolph, Wilhelm (eds.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997. Kiraz, George A.; Juckel, Andreas (eds.); King, Daniel; Walters, J. Edward (trans.). The Syriac Peshiṭta Bible with English Translation: Hebrews and the General Catholic Epistles. Piscataway, NJ: Gorgias Press, 2016. Juckel, Andreas. “A Guide to Manuscripts of the Peshitta New Testament.” Hugoye: Journal of Syriac Studies 15.1 (2012): 79–164. DOI 10.31826/hug-2012-150107. Kaufman, Stephen A. et al. The Comprehensive Aramaic Lexicon. Cincinnati: Hebrew Union College, 1986–. Consulta lexical em 15 out. 2026. Nestle, Eberhard; Aland, Kurt et al. (eds.). Novum Testamentum Graece. 28. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012. Rahlfs, Alfred; Hanhart, Robert (eds.). Septuaginta: Id est Vetus Testamentum graece iuxta LXX interpretes. Editio altera. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2006. Rascher, Angela. Schriftauslegung und Christologie im Hebräerbrief. Beihefte zur Zeitschrift für die neutestamentliche Wissenschaft und die Kunde der älteren Kirche 153. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 2007. Weber, Robert; Gryson, Roger (eds.). Biblia Sacra iuxta Vulgatam Versionem. 5. ed. rev. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2007. Coptic SCRIPTORIUM. Sahidica — A New Edition of the New Testament in Sahidic Coptic: Hebrews 2. Versão 4.1.0, 31 mar. 2021. URN: urn:cts:copticLit:nt.heb.sahidica:2. Sokoloff, Michael. A Syriac Lexicon: A Translation from the Latin, Correction, Expansion, and Update of C. Brockelmann’s Lexicon Syriacum. Winona Lake, IN; Piscataway, NJ: Eisenbrauns; Gorgias Press, 2009.
