Hebreus 2 (BKJ)
2Portanto, devemos dar mais diligente atenção às coisas que ouvimos,1 para que em tempo algum deixemos as escapar.2 2 Pois, se a palavra falada por anjos foi firme,3 e toda transgressão e desobediência recebeu justa retribuição,4 3 como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação,5 a qual, a princípio, começou a ser falada pelo Senhor,6 e foi-nos confirmada por aqueles que o ouviram,7 4 Deus também lhes dando testemunho,8 tanto com sinais e maravilhas como com diversos milagres,9 e dons do Espírito Santo, segundo sua própria vontade?10
Nota — “dar mais diligente atenção”
KJV 1611 e filologia. We ought to giue the more earnest heede combina obrigação e intensidade. O grego traz δεῖ, que expressa necessidade ou obrigação, seguido de περισσοτέρως προσέχειν, literalmente a ideia de prestar atenção de modo ainda mais abundante ou cuidadoso. “Devemos dar mais diligente atenção” conserva tanto o valor obrigatório de ought quanto o comparativo intensificador de the more earnest.
Estrutura do argumento. “Portanto” não inicia um assunto independente. A exortação é inferida diretamente de Hb 1: se a revelação culminou no Filho e o Filho acaba de ser demonstrado superior aos anjos, aquilo que foi ouvido por meio dessa revelação exige atenção proporcionalmente maior. O movimento de 1.1–14 para 2.1–4 é, assim, deliberadamente argumentativo: cristologia conduz a responsabilidade do ouvinte.
História da tradução. A Bishops’ Bible já trazia substantivamente “Wherfore we ought to geue the more earnest heede”. A KJV conserva quase integralmente o núcleo da formulação, alterando a abertura para Therefore e regularizando a redação. A Geneva empregava uma construção diferente, com “diligently to giue heede”. O caso ilustra bem o caráter revisional da KJV: a proximidade com sua Bíblia-base pode ser documentada sem atribuir a mudança a uma preferência estilística específica quando não há testemunho manuscrito que registre a motivação.
Nota — “para que em tempo algum deixemos as escapar”
Margem da KJV 1611. A primeira edição não deixa o leitor sem orientação sobre let them slip. Sua própria nota marginal oferece: “Gr. run out as leaking vessels”. A margem é especialmente importante porque mostra que os tradutores reconheciam uma imagem mais dinâmica no verbo grego do que a redação principal inglesa isoladamente poderia sugerir.
Filologia. παραρυῶμεν é primeira pessoa do plural e deriva de verbo associado a fluir ou passar ao lado; em uso figurado, pode descrever o ato de desviar-se, passar à deriva ou deixar algo escapar. O grego não possui um pronome correspondente a them. A KJV organiza a frase em inglês como “nós deixarmos as coisas ouvidas escapar”, ao passo que uma representação mais diretamente alinhada à forma verbal grega pode produzir “para que não nos desviemos” ou “não passemos à deriva”. A tradução principal preserva a construção efetivamente impressa pela KJV, enquanto a nota registra a estrutura do original.
História da tradução. A Bishops’ Bible já tinha “lest at any tyme we should let them slippe”, forma substancialmente preservada em 1611. A Geneva, porém, lia “lest at any time we runne out”, enquanto traduções inglesas mais antigas chegaram a empregar a ideia de “perecer”. A diversidade anterior ajuda a explicar por que a nota marginal da KJV é editorialmente valiosa: ela conserva ao lado do texto principal uma possibilidade que sua própria tradição inglesa conhecia.
Nota — “a palavra falada por anjos”
Filologia. A KJV lê the word spoken by Angels. O grego emprega δι’ ἀγγέλων, literalmente “por meio de anjos”, de modo que os anjos são apresentados como mediadores da comunicação, não como sua fonte última. “Por anjos” conserva a formulação inglesa de 1611, enquanto a distinção é registrada aqui para impedir que by seja interpretado como indicação de autoria.
Contexto bíblico. A referência é à revelação legal associada à mediação angelical, tradição que aparece explicitamente em At 7.53 e Gl 3.19. O argumento não procura depreciar essa palavra: ela “foi firme” e sua violação recebeu sanção justa. Precisamente sua validade permite a comparação de 2.2–3: se uma revelação mediada por anjos possuía consequências reais, negligenciar a salvação anunciada pelo Senhor implica responsabilidade ainda maior.
Nota — “foi firme [...] recebeu justa retribuição”
Inglês de 1611. Stedfast é a grafia antiga de steadfast e, neste contexto, significa algo estabelecido, válido ou confirmado. Não descreve meramente constância subjetiva: a palavra demonstrou sua firmeza também porque as violações correspondentes receberam a consequência prevista.
“Recompense of reward”. A expressão inglesa pode soar redundante ao leitor moderno e reward pode sugerir exclusivamente prêmio positivo. O grego ἔνδικον μισθαποδοσίαν significa uma retribuição justa, aquilo que é devidamente pago em resposta a uma ação. Como o contexto é de transgressão e desobediência, “justa retribuição” comunica o sentido da KJV sem introduzir a impressão moderna de uma recompensa favorável.
Distinção lexical. παράβασις designa transgressão, o ato de ultrapassar uma norma; παρακοή pertence ao campo da desobediência ou recusa em atender ao que se ouviu. A combinação é particularmente apropriada depois de 2.1: o perigo começa com a falta de atenção àquilo que foi ouvido e é contrastado com a seriedade da desobediência já conhecida na revelação anterior.
Nota — “como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação”
Sintaxe e argumento. O pronome ἡμεῖς está expresso no grego e recebe força contrastiva: “como nós escaparemos?”. O raciocínio procede do menor para o maior. Se a palavra mediada por anjos mostrou-se válida e sua transgressão recebeu retribuição, não se pode pressupor impunidade diante de uma salvação cuja proclamação é atribuída ao próprio Senhor.
“Negligenciarmos”. ἀμελήσαντες não exige a ideia de rejeição formal ou hostilidade declarada. O verbo pode significar descuidar, não dar a devida atenção, tratar algo como sem importância. Isso liga o versículo diretamente à exortação de 2.1: o perigo descrito pelo texto não começa necessariamente numa negação explícita, mas na negligência diante daquilo que foi ouvido.
“Tão grande salvação”. So great saluation representa τηλικαύτης σωτηρίας. A grandeza da salvação é desenvolvida pela própria sequência da frase: sua proclamação começa com o Senhor, é confirmada pelos ouvintes diretos e recebe testemunho divino. O adjetivo, portanto, não funciona isoladamente como linguagem devocional; o autor passa imediatamente a fundamentá-lo historicamente.
Nota — “a princípio, começou a ser falada pelo Senhor”
Filologia. A construção ἀρχὴν λαβοῦσα λαλεῖσθαι é idiomática e significa literalmente algo próximo de “tendo recebido um começo para ser falada”. A forma inglesa at the first began to be spoken parece repetitiva ao ouvido moderno, mas representa os dois componentes da expressão: começo e ato de falar.
História da tradução. Nesse ponto, a KJV não simplesmente reproduz a redação imediata de suas predecessoras. A Geneva dizia que a salvação “began to be preached by the Lord”, e a Bishops’ também empregava preached. A KJV imprime began to be spoken by the Lord, correspondendo mais diretamente ao verbo λαλεῖσθαι, “ser falada”. É possível documentar a alteração e sua maior proximidade lexical ao grego; não é necessário, porém, atribuir uma intenção particular aos revisores sem testemunho contemporâneo específico sobre essa decisão.
Nota — “foi-nos confirmada por aqueles que o ouviram”
Filologia. ὑπὸ τῶν ἀκουσάντων εἰς ἡμᾶς ἐβεβαιώθη descreve a mensagem como “confirmada a nós pelos que ouviram”. O grego não possui depois de “ouviram” um pronome objeto correspondente a him; o referente é explicitado em inglês a partir do “Senhor” mencionado imediatamente antes. Por isso, o é mantido em itálico na tradução portuguesa.
Sequência de testemunho. Os vv. 3–4 apresentam uma cadeia cuidadosamente ordenada: o Senhor fala; aqueles que o ouviram confirmam a mensagem aos destinatários; Deus acrescenta seu próprio testemunho. O verbo ἐβεβαιώθη pertence à mesma família semântica da ideia de firmeza expressa em 2.2 e cria um paralelo deliberado entre a palavra anterior que se mostrou firme e a salvação posteriormente confirmada.
Limite histórico. A expressão “foi-nos confirmada” coloca o escritor juntamente com seus leitores no lado receptor dessa confirmação. O dado é relevante para qualquer discussão sobre a situação histórica de Hebreus, mas não deve ser transformado isoladamente numa identificação do autor ou numa cronologia mais precisa do que o texto permite.
Nota — “Deus também lhes dando testemunho”
Filologia. God also bearing them witnesse traduz συνεπιμαρτυροῦντος τοῦ θεοῦ. O verbo composto é particularmente forte: significa dar testemunho conjuntamente, acrescentar o próprio testemunho ao de outros. A formulação inglesa põe os primeiros ouvintes de 2.3 sob a confirmação de Deus; a construção grega enfatiza que o testemunho divino acompanha e autentica o testemunho humano.
Sintaxe. O particípio está subordinado à afirmação anterior. Assim, 2.4 não começa uma nova demonstração independente: explica de que maneira a confirmação mencionada em 2.3 recebeu também testemunho de Deus. A sequência inteira — Senhor, ouvintes, Deus — pertence a uma só construção argumentativa.
Nota — “sinais e maravilhas [...] diversos milagres”
Filologia. A sequência grega é σημείοις, τέρασιν e ποικίλαις δυνάμεσιν. Os dois primeiros substantivos correspondem diretamente a “sinais” e “maravilhas”. O terceiro significa literalmente “poderes” ou manifestações de poder; miracles é a escolha interpretativa da KJV para expressar essas obras poderosas.
História da tradução. A diferença entre as Bíblias inglesas anteriores é instrutiva. A Bishops’ Bible imprimia “diuers powers”, preservando mais diretamente o substantivo grego. A Geneva tinha “diuers miracles”, e a KJV também imprime diuers miracles. O dado permite situar a redação de 1611 dentro da tradição inglesa, mas não permite, sem documentação adicional, afirmar que a Geneva foi necessariamente a causa imediata da escolha.
Função. Os três termos não precisam designar três classes rigidamente separadas de fenômenos. A acumulação apresenta diferentes aspectos do testemunho divino: acontecimentos que funcionam como sinais, despertam assombro e manifestam poder.
Nota — “dons do Espírito Santo, segundo sua própria vontade”
Margem da KJV 1611. Para gifts, a própria primeira edição oferece na margem a alternativa “Or, distributions”. A observação é filologicamente precisa e deve ser preservada no aparato desta edição, porque o substantivo grego não é o termo usual para “dom”, mas μερισμοῖς, “distribuições, repartições”.
Filologia. πνεύματος ἁγίου μερισμοῖς descreve repartições ou distribuições relacionadas ao Espírito Santo. A KJV escolhe a forma mais idiomática gifts of the holy Ghost no texto corrente, mas conserva “distributions” à margem. Temos, portanto, um caso em que o próprio aparato de 1611 documenta simultaneamente a opção idiomática do texto e uma representação lexical mais estreita do original.
“Segundo sua própria vontade”. κατὰ τὴν αὐτοῦ θέλησιν encerra a enumeração subordinando essas distribuições à vontade divina. O ponto da frase não é a iniciativa autônoma daqueles que recebem os dons, mas a soberania daquele que os distribui. Essa linguagem encontra paralelo conceitual em 1Co 12.4–11, onde diversidade de dons e distribuição segundo a vontade divina aparecem novamente associadas ao Espírito.
5 Pois não sujeitou aos anjos o mundo vindouro,11 do qual falamos. 6 Mas alguém, em certo lugar, testificou, dizendo:12 “Que é o homem, para que te lembres dele? ou o filho do homem, para que o visites? 7 Tu o fizeste um pouco menor que os anjos;13 coroaste-o de glória e honra, e o puseste sobre as obras de tuas mãos;14 8 sujeitaste todas as coisas debaixo de seus pés”.15 Pois, ao sujeitar-lhe todas as coisas, nada deixou que não lhe esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele.16 9 Mas vemos Jesus,17 que foi feito um pouco menor que os anjos, pelo sofrimento da morte,18 coroado de glória e honra, para que, pela graça de Deus,19 provasse a morte por todo homem.20 10 Pois convinha àquele, para quem são todas as coisas e por quem são todas as coisas,21 ao levar muitos filhos à glória, tornar o Capitão da salvação deles22 perfeito por meio de sofrimentos.23 11 Pois tanto aquele que santifica como os que são santificados24 são todos de um só; por essa causa ele não se envergonha de chamá-los irmãos,25 12 dizendo: “Declararei teu nome a meus irmãos; no meio da Igreja cantarei louvor a ti”.26 13 E novamente: “Porei minha confiança nele”. E novamente: “Eis, eu e os filhos que Deus me deu”.27
Nota — “o mundo vindouro”
Filologia. A KJV lê the world to come, traduzindo τὴν οἰκουμένην τὴν μέλλουσαν. οἰκουμένη designa propriamente o mundo habitado ou a terra habitada; não é o mesmo substantivo traduzido por “mundos” em Hb 1.2. A expressão aponta para a ordem vindoura sobre a qual o argumento passa a tratar. O mesmo termo já apareceu em 1.6, onde a KJV também o verte simplesmente por world.
Estrutura. O versículo retoma imediatamente o tema dos anjos. Hb 1.5–14 demonstrou que o Filho não pertence à categoria dos seres ministradores; Hb 2.5 acrescenta que a ordem vindoura da qual o autor fala tampouco foi submetida a eles. O contraste prepara a citação do Salmo 8, na qual domínio e sujeição passam para o primeiro plano.
Nota — “alguém, em certo lugar, testificou”
KJV 1611 e filologia. But one in a certaine place testified representa de modo bastante próximo διεμαρτύρατο δέ πού τις, literalmente algo como “mas alguém, em algum lugar, testificou”. A forma indefinida não indica que o escritor desconhecesse a passagem. A própria edição de 1611 remete marginalmente Hb 2.6 a Sl 8.4.
Função literária. Hebreus frequentemente permite que a Escritura fale como testemunha sem concentrar a atenção no nome do autor humano. Aqui o importante é o testemunho escriturístico: o Salmo 8 introduz a questão da posição do homem na ordem criada e fornece o texto que será aplicado a Jesus em 2.9.
Nota — “um pouco menor que os anjos”
Margem da KJV 1611. Ao lado de a little lower then the Angels, a primeira edição registra a alternativa: “Or, a little while inferiour to”. Os tradutores, portanto, preservaram explicitamente duas possibilidades para βραχύ τι: pequena diferença de posição — “um pouco menor” — ou curta duração — “por um pouco de tempo inferior”.
Salmo 8 e Hebreus. No texto grego de Hebreus aparece explicitamente ἀγγέλους, “anjos”. A KJV também havia traduzido Sl 8.5 por “a little lower then the Angels”, de modo que a forma da citação em Hebreus encontra correspondência verbal direta no próprio Antigo Testamento da KJV. Em 2.9 a mesma linguagem será retomada e aplicada nominalmente a Jesus.
Nota — “e o puseste sobre as obras de tuas mãos”
Crítica textual. A cláusula καὶ κατέστησας αὐτὸν ἐπὶ τὰ ἔργα τῶν χειρῶν σου pertence ao texto grego seguido pela KJV e aparece integralmente em 1611: and didst set him ouer the workes of thy hands. Diversas edições críticas modernas, entre elas NA28, SBLGNT e o Tyndale House Greek New Testament, omitem essa cláusula em Hb 2.7. A diferença é textualmente real e explica por que muitas traduções modernas terminam o versículo depois de “glória e honra”.
Intertextualidade. A frase não introduz um conceito estranho ao Salmo, pois pertence à própria sequência de Sl 8.6. A questão crítica é se ela fazia parte do texto de Hebreus neste ponto ou se entrou em parte da tradição manuscrita para completar mais plenamente a citação. Como esta edição traduz a KJV, a cláusula permanece no texto e sua situação crítica é registrada aqui.
Nota — “sujeitaste todas as coisas debaixo de seus pés”
Filologia e estrutura. A família verbal de ὑποτάσσω domina o início desta seção: o mundo vindouro não foi “posto em sujeição” aos anjos em 2.5; em 2.8, “todas as coisas” são colocadas sob os pés do homem descrito pelo Salmo. A KJV mantém essa ligação lexical por meio de put in subjection e subjection under.
Totalidade. O autor explicita a abrangência da citação: se Deus submeteu “todas as coisas”, nada ficou fora dessa sujeição. A explicação não é uma glosa ornamental; ela prepara o problema imediatamente enunciado na frase seguinte: essa submissão universal ainda não é empiricamente visível.
Nota — “mas agora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele”
Argumento. A expressão not yet é decisiva. O autor não nega a promessa do Salmo, mas reconhece uma distância entre aquilo que a Escritura declara e aquilo que atualmente é visto. O versículo seguinte responde a essa tensão: “não vemos ainda todas as coisas”, mas “vemos Jesus”.
Transição cristológica. O movimento de 2.8 para 2.9 permite que o destino humano descrito no Salmo seja contemplado primeiro em Jesus. A argumentação não abandona o tema da humanidade; identifica naquele que sofreu e foi coroado a realização já visível da glória que o Salmo associa ao homem.
Nota — “mas vemos Jesus”
Estrutura literária. But wee see Iesus responde diretamente a wee see not yet de 2.8. A oposição é deliberada: a sujeição universal ainda não é observável, mas Jesus já é visto, no argumento da epístola, como aquele que passou pela humilhação descrita no Salmo e foi coroado de glória e honra.
Aplicação do Salmo. Até aqui a citação falou de “homem” e “filho do homem”. Em 2.9 o nome “Jesus” torna explícita a aplicação cristológica. A mesma expressão de 2.7, “um pouco menor que os anjos”, reaparece agora ligada a ele.
Nota — “pelo sofrimento da morte”
Margem da KJV 1611. A primeira edição marca for the suffering of death com a alternativa marginal “Or, by”. Trata-se de um dos casos em que o próprio aparato de 1611 registra uma ambiguidade sintática que afeta a relação entre humilhação, morte e coroação.
Documentação do processo de tradução. A colação do manuscrito da Segunda Companhia de Westminster mostra que essa ambiguidade foi efetivamente considerada durante o processo de revisão. A construção pode ser associada ao que precede — Jesus feito inferior aos anjos em relação ao sofrimento da morte — ou ao que segue — coroado por causa, ou mediante, o sofrimento da morte. A pontuação final de 1611 não elimina inteiramente as duas possibilidades, e a nota marginal impede que uma delas seja ocultada.
História da tradução inglesa. As predecessoras não eram uniformes nesse ponto. A tradição de Geneva tendia a ligar a expressão ao que precede, enquanto Tyndale, Great Bible, Bishops’ Bible e Rheims favoreciam sua ligação com a coroação subsequente. A forma da KJV mantém uma abertura interpretativa maior do que uma tradução portuguesa excessivamente explicativa permitiria; por isso, “pelo sofrimento da morte” foi preservado no texto principal.
Nota — “pela graça de Deus”
Crítica textual. A KJV traduz χάριτι θεοῦ, “pela graça de Deus”, leitura seguida pelo Textus Receptus e também pela maioria das principais edições críticas modernas. Existe, porém, uma variante antiga e notável, χωρὶς θεοῦ, “sem Deus” ou “à parte de Deus”. A leitura era conhecida já na Antiguidade e foi preservada em tradição manuscrita muito mais restrita.
História crítica. A variante não corresponde a uma alteração produzida pelos tradutores ingleses. O texto grego recebido por eles tinha χάριτι θεοῦ, razão pela qual by the grace of God é tradução direta de sua base textual. Entre edições modernas, NA28 mantém “graça”, enquanto o SBL Greek New Testament imprimiu a leitura minoritária “à parte de Deus”. Esta edição conserva naturalmente a leitura da KJV e registra a alternativa apenas no aparato.
Nota — “provasse a morte por todo homem”
Filologia. Taste death representa γεύσηται θανάτου, literalmente “provar a morte”. O verbo não enfraquece a realidade da morte; é uma maneira idiomática de dizer experimentá-la. A mesma imagem verbal ocorre em outras construções bíblicas com “provar” vida, morte ou dons.
“Por todo homem”. ὑπὲρ παντός contém a preposição ὑπέρ, aqui com sentido de benefício ou representação, seguida de “todo/cada um”. A KJV explicita o referente humano por every man. O contexto imediatamente seguinte fala dos “muitos filhos”, dos “irmãos” e dos “filhos” dados por Deus, mas a tradução não deve restringir lexicalmente παντός além da forma adotada pela própria KJV.
Nota — “pois convinha àquele, para quem são todas as coisas e por quem são todas as coisas”
Inglês histórico. It became him não significa que Deus “se tornou” alguma coisa. Become possuía — e ainda conserva em registro elevado — o sentido de “ser apropriado, conveniente, digno”. O grego ἔπρεπεν expressa precisamente aquilo que é adequado ou condizente. “Convinha” evita a falsa leitura moderna do verbo inglês.
Teologia da frase. As duas construções — “para quem” e “por quem” são todas as coisas — apresentam Deus como finalidade e agente da ordem criada. É dentro desse quadro, e não contra ele, que os sofrimentos do Capitão da salvação são declarados apropriados ao propósito divino.
Palavras supridas. O grego possui as expressões elípticas δι’ ὃν τὰ πάντα e δι’ οὗ τὰ πάντα, sem verbo expresso equivalente a “são”. Por isso, são permanece em itálico na tradução portuguesa.
Nota — “o Capitão da salvação deles”
Filologia. Captaine traduz ἀρχηγός. O substantivo pode designar aquele que ocupa a posição inicial ou dirigente: líder, fundador, originador, pioneiro. “Capitão” pertence ao inglês da KJV e conserva a imagem de alguém que vai à frente, embora o vocábulo português moderno possa soar mais estritamente militar do que o grego exige.
História da tradução. A escolha de 1611 insere-se numa história concreta. Tyndale e Coverdale haviam empregado “Lord”; Geneva preferiu “Prince”; a Bishops’ Bible trouxe “captain”. A KJV retorna aqui à redação de sua Bíblia-base, em conformidade com o caráter revisional do projeto, ao mesmo tempo que preserva um termo capaz de representar liderança e precedência.
Processo manuscrito. A colação do MS 98 registra também a revisão da construção imediatamente anterior: a redação da Bishops’ Bible “after he had brought many sons unto glory” cede lugar à forma final “in bringing many sons unto glory”. O versículo oferece, portanto, evidência documental direta de que a redação de 1611 resultou de revisão efetiva da Bíblia-base e não de simples reprodução dela.
Nota — “perfeito por meio de sofrimentos”
Filologia. To make ... perfect traduz τελειῶσαι. O verbo não pressupõe que o Capitão da salvação tivesse defeito moral a ser corrigido. τελειόω pode significar levar ao fim, completar, conduzir ao objetivo ou tornar plenamente apto para uma função.
Contexto de Hebreus. O sofrimento é apresentado como o caminho pelo qual aquele que conduz os filhos à glória chega à plena realização de sua missão humana e salvífica. O mesmo campo verbal reaparecerá em Hebreus em contextos sacerdotais, nos quais “perfeição” envolve cumprimento, acesso e qualificação, não reparação de pecado pessoal em Cristo.
História inglesa. A Bishops’ Bible já trazia “make the captain of their salvation perfect through afflictions”. Geneva, por sua vez, preferia “consecrate the Prince of their salvation through afflictions”. A KJV preservou o verbo perfect da Bíblia-base e substituiu afflictions por sufferings.
Nota — “aquele que santifica [...] os que são santificados”
Filologia. A construção contrapõe ὁ ἁγιάζων, “aquele que santifica”, a οἱ ἁγιαζόμενοι, “aqueles que são santificados”. Ambos são particípios presentes. A KJV reproduz o primeiro pela antiga terminação verbal sanctifieth e o segundo pela forma passiva are sanctified.
Relação com 2.10. O versículo continua a explicar por que o sofrimento e a solidariedade do Filho com aqueles que conduz à glória são apropriados. Ele é distinguido deles como aquele que santifica, mas ao mesmo tempo é associado a eles pela origem comum descrita na cláusula seguinte.
Nota — “são todos de um só [...] irmãos”
Filologia. A KJV preserva a concisão de ἐξ ἑνὸς πάντες por are all of one. O grego não expressa o substantivo que completaria “um”: por isso, interpretações como “de um Pai”, “de uma origem” ou “de uma mesma humanidade” tornam explícito algo que a frase mantém elíptico. A tradução principal não deve decidir silenciosamente essa questão.
História da interpretação inglesa. O texto da Geneva também dizia are all of one, mas sua nota marginal explicava “one” como “uma mesma natureza humana”. A KJV não incorporou essa interpretação ao texto nem colocou explicação correspondente à margem. “De um só” preserva, portanto, a abertura formal da redação de 1611.
“Irmãos”. A consequência explicitada pelo autor é relacional: o santificador “não se envergonha” de chamar os santificados de irmãos. As citações de 2.12–13 serão introduzidas precisamente para fundamentar escrituristicamente essa solidariedade.
Nota — “no meio da Igreja cantarei louvor a ti”
Texto citado. A citação é Sl 22.22 [21.23 LXX]. Depois de declarar que Jesus chama os santificados de “irmãos”, Hebreus seleciona exatamente um texto em que o orador promete anunciar o nome de Deus “a meus irmãos” e louvá-lo no meio da comunidade reunida.
“Igreja”. ἐκκλησία significa assembleia ou congregação e, conforme o contexto, a comunidade reunida. A escolha Church é particularmente significativa na história da Bíblia inglesa. Tyndale e Coverdale haviam traduzido neste versículo “congregation”; Bishops’ e Geneva usaram “Church”, e a KJV conservou essa forma.
Norma de tradução da KJV. Uma das instruções dadas às companhias determinava que os antigos termos eclesiásticos fossem preservados e mencionava expressamente que Church não deveria ser traduzido por Congregation. Hb 2.12 constitui um exemplo direto do efeito dessa regra sobre uma passagem na qual traduções inglesas anteriores haviam empregado os dois termos.
Nota — “Porei minha confiança nele [...] Eis, eu e os filhos que Deus me deu”
Duas citações. A segunda sentença vem claramente de Is 8.18. A identificação da primeira exige maior cuidado. A margem da KJV 1611 remete “I will put my trust in him” a Sl 18.2, e linguagem semelhante ocorre também em 2Sm 22.3. Entretanto, a forma grega corresponde de modo muito próximo a Is 8.17, imediatamente anterior a Is 8.18 na Septuaginta. Por isso, é forte a possibilidade de Hebreus apresentar duas unidades consecutivas do mesmo contexto de Isaías.
KJV e predecessoras. Tyndale e Geneva tinham em Is 2.13 a forma “Behold, here am I”. A KJV imprime simplesmente Behold, I, and the children which God hath giuen me, acompanhando mais de perto a construção nominal da citação. A colação do material de Westminster registra precisamente essa zona de revisão, na qual a expressão anterior “here am I” deixou de aparecer na forma final de 1611.
Função no argumento. As duas citações aprofundam o tema de 2.11–12. O primeiro enunciado apresenta confiança em Deus; o segundo reúne o orador e os “filhos” dados por Deus. Em Hebreus, ambos são colocados na boca do Filho e preparam diretamente 2.14: aqueles que foram chamados irmãos e filhos compartilham carne e sangue, e ele participa da mesma condição.
14 Visto, pois, que os filhos são participantes de carne e sangue, ele também, do mesmo modo, participou das mesmas coisas,28 para que, pela morte, destruísse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo,29 15 e libertasse aqueles que, pelo medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão.30 16 Pois, verdadeiramente, ele não tomou sobre si a natureza de anjos; mas tomou sobre si a semente de Abraão.31 32 17 Por isso, em todas as coisas convinha que fosse feito semelhante a seus irmãos,33 para que fosse um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas pertencentes a Deus,34 para fazer reconciliação pelos pecados do povo.35 18 Pois, naquilo em que ele mesmo sofreu, sendo tentado,36 é capaz de socorrer aqueles que são tentados.37
Nota — “participantes de carne e sangue [...] participou das mesmas coisas”
Filologia. A KJV distingue corretamente dois verbos gregos relacionados, mas não idênticos. Os filhos “são participantes” traduz κεκοινώνηκεν, perfeito de κοινωνέω, que descreve aquilo de que eles compartilham como condição comum; Cristo “participou” traduz μετέσχεν, aoristo de μετέχω, que apresenta sua participação nessa mesma condição. A diferença verbal permite ao texto afirmar simultaneamente a realidade da condição humana dos filhos e a participação deliberadamente atribuída ao Filho.
Crítica textual. A tradição grega seguida pela KJV apresenta a sequência “carne e sangue”. Stephanus e Beza, pertencentes ao horizonte textual dos tradutores, leem σαρκός καὶ αἵματος. Testemunhos antigos importantes e as principais edições críticas modernas apresentam a ordem inversa, “sangue e carne”. A diferença altera a ordem dos substantivos, mas não o conteúdo da afirmação. “Carne e sangue” permanece aqui porque corresponde ao texto grego seguido pela KJV e à redação efetivamente impressa em 1611.
Continuidade do argumento. “Os filhos” retoma imediatamente Hb 2.13 — “os filhos que Deus me deu”. A solidariedade anunciada pelas citações anteriores torna-se agora corporal: aqueles a quem o Filho chama irmãos compartilham a condição mortal humana, e ele participa dela.
Nota — “destruísse aquele que tinha o poder da morte”
Filologia. Destroy traduz καταργήσῃ. O verbo pode significar tornar inoperante, reduzir à impotência, anular ou privar de eficácia; não exige a ideia de deixar de existir. A declaração, portanto, descreve a derrota do poder exercido pelo diabo mediante a própria morte de Cristo. “Poder” traduz κράτος, termo associado a força, domínio ou poder efetivo.
História da tradução. Aqui há evidência concreta do processo revisional. A Bishops’ Bible lia que Cristo poderia “expell him that had lordship over death”. A colação do material da Segunda Companhia de Westminster registra justamente a passagem da linguagem de “expulsar” e “senhorio” para a forma final da KJV, “destroy him that had the power of death”. A redação de 1611 é, portanto, resultado documentável de revisão da Bíblia-base.
“O diabo”. A aposição final identifica explicitamente o referente: “aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo”. O texto não afirma que o diabo seja soberano sobre a morte em sentido absoluto; a própria estratégia do versículo é mostrar que esse poder é vencido “pela morte” daquele que compartilhou a condição humana.
Nota — “pelo medo da morte [...] sujeitos à escravidão”
Filologia. φόβῳ θανάτου é literalmente “medo da morte”. ἔνοχοι ἦσαν δουλείας descreve aqueles que estavam sujeitos ou presos à condição de δουλεία, “escravidão, servidão”. A KJV usa bondage, termo que no inglês bíblico expressa sujeição servil, não simplesmente dificuldade ou sofrimento.
“Por toda a vida”. διὰ παντὸς τοῦ ζῆν apresenta a duração integral da vida como horizonte dessa escravidão. O argumento liga morte, medo e servidão: a libertação de 2.15 resulta da derrota descrita no versículo anterior, de modo que os dois versículos formam uma única sequência causal.
Nota — “ele não tomou sobre si a natureza de anjos”
Margem da KJV 1611. Este é um dos casos mais importantes em que o texto corrente da KJV deve ser lido juntamente com sua margem. Ao lado de “he tooke not on him the nature of Angels: but he tooke on him the seed of Abraham”, a primeira edição registra: “Gr. hee taketh not hold of Angels, but of the seede of Abraham he taketh hold”. A margem oferece uma representação muito mais direta do verbo grego.
Filologia. ἐπιλαμβάνεται significa literalmente tomar, agarrar ou tomar pela mão e, conforme o contexto, pode adquirir a ideia de tomar alguém para ajudar. O grego não contém um substantivo equivalente a “natureza”, nem usa aqui o verbo ordinário para “assumir uma natureza”. A expressão the nature of é explicitação interpretativa da KJV; por isso, “a natureza” é assinalado como suplemento na tradução portuguesa.
“Verdadeiramente”. Verely representa δήπου, partícula que aqui introduz algo apresentado como evidente ou seguramente concedido. Não possui sentido temporal. “Verdadeiramente” conserva o valor afirmativo do inglês de 1611.
História da tradução. A tradição inglesa anterior mostra duas linhas distintas. Tyndale, Coverdale, Great Bible e Bishops’ conservavam a construção “taketh on him the angels”, formalmente mais próxima da imagem de “tomar”. A Geneva já explicitava “the Angels nature”. A KJV colocou a interpretação da natureza angélica no texto principal, mas conservou à margem a tradução literal, tornando visível a diferença entre interpretação e forma lexical do original.
Nota — “a semente de Abraão”
Filologia. σπέρματος Ἀβραάμ significa literalmente “semente de Abraão” e pode designar sua descendência. A KJV conserva the seed of Abraham, linguagem fortemente estabelecida na tradição bíblica inglesa. “Semente” preserva aqui essa relação verbal em vez de substituí-la silenciosamente por “descendentes”.
Argumento. A oposição formal do grego é “anjos / semente de Abraão”. Se a construção for lida conforme a própria margem da KJV, a declaração é que o Filho não “toma” os anjos, mas toma a descendência de Abraão. A interpretação cristológica da encarnação permanece verdadeira no contexto de 2.14–17, mas não deve apagar a forma precisa da frase grega nem o testemunho marginal dos próprios tradutores.
Nota — “em todas as coisas convinha que fosse feito semelhante a seus irmãos”
Inglês histórico e filologia. It behooued him significa “era necessário, convinha, era devido”. O grego ὤφειλεν possui força de obrigação ou necessidade. “Convinha” não indica mera conveniência opcional: a solidariedade integral com os irmãos é apresentada como necessária em vista da função sacerdotal descrita a seguir.
“Em todas as coisas”. κατὰ πάντα intensifica a identificação: ele devia tornar-se semelhante aos irmãos “em todos os aspectos” pertinentes à humanidade assumida no argumento. A frase retoma “carne e sangue” de 2.14 e conduz diretamente à capacidade de exercer um sacerdócio misericordioso e fiel.
História da tradução. A Bishops’ Bible tinha “in all thinges it became him”; a KJV substitui became por behoved. A alteração torna mais explícita em inglês a força de necessidade contida no verbo grego.
Nota — “um sumo sacerdote misericordioso e fiel”
Primeira ocorrência sacerdotal. Aqui aparece pela primeira vez em Hebreus o título ἀρχιερεύς aplicado explicitamente a Jesus. O tema, introduzido apenas ao final do capítulo 2, passará a dominar extensas seções posteriores da epístola.
“Misericordioso e fiel”. ἐλεήμων descreve disposição misericordiosa para com aqueles em favor de quem o sacerdote atua; πιστός pode significar fiel, confiável ou digno de confiança. A combinação relaciona solidariedade com os irmãos e fidelidade no serviço diante de Deus.
“Nas coisas pertencentes a Deus”. τὰ πρὸς τὸν θεόν é expressão relacional: as coisas que dizem respeito à relação com Deus. A KJV conserva uma formulação deliberadamente ampla, in things pertaining to God, que não deve ser reduzida na tradução a uma única atividade sacerdotal.
Nota — “para fazer reconciliação pelos pecados do povo”
Filologia. To make reconciliation traduz ἱλάσκεσθαι. O verbo pertence ao campo de lidar sacrificialmente com o pecado de modo a remover a barreira que ele cria na relação com Deus; conforme a abordagem lexical e teológica, pode ser representado por “fazer propiciação”, “fazer expiação” ou “fazer expiação pelos pecados”. A palavra inglesa reconciliation da KJV não deve ser entendida apenas segundo o sentido moderno de duas partes resolverem mutuamente uma divergência.
História da tradução. A Bishops’ Bible apresentava “for to purge the peoples sinnes”. A colação do material da companhia de Westminster registra essa formulação no processo de revisão, enquanto a edição final de 1611 traz “to make reconciliation for the sinnes of the people”. A Geneva já empregava linguagem de “reconciliation”. A mudança da KJV pode ser descrita documentalmente; não é necessário atribuir uma motivação teológica específica aos revisores sem evidência adicional.
Função no argumento. A frase explica por que a semelhança com os irmãos é necessária: ela está orientada para a atividade sacerdotal referente aos pecados do povo. O sofrimento, a solidariedade humana e o sacerdócio, portanto, não constituem temas independentes; convergem na mesma argumentação.
Nota — “ele mesmo sofreu, sendo tentado”
Filologia. πειρασθείς deriva de πειράζω, verbo cujo campo abrange pôr à prova, testar e, em contextos apropriados, tentar. A KJV usa being tempted. O texto vincula essa experiência ao sofrimento efetivamente suportado pelo próprio Cristo, preparando o desenvolvimento posterior de sua capacidade de compadecer-se das fraquezas humanas.
Sintaxe. A construção não afirma simplesmente que Cristo “sofreu” e, separadamente, “foi tentado”; sofrimento e provação são apresentados de maneira estreitamente relacionada. A experiência daquele que socorre fundamenta sua capacidade de assistir os que atravessam provação.
Nota — “é capaz de socorrer aqueles que são tentados”
Inglês de 1611. Succour é hoje arcaico em muitos contextos, mas significava ajudar, assistir ou acudir alguém em necessidade. Não indica apenas consolo emocional. O português “socorrer” preserva muito bem essa força concreta.
Filologia. βοηθῆσαι deriva de verbo associado a ir em auxílio de alguém que clama por ajuda. A expressão “é capaz” traduz δύναται e estabelece uma relação direta entre a experiência anterior de Cristo e sua capacidade presente de prestar auxílio.
Transição. O capítulo termina com o Filho como aquele que socorre os provados. Hb 3 inicia-se chamando os destinatários de “irmãos santos” e dirigindo sua atenção novamente a Jesus. Assim, a cristologia desenvolvida desde 1.1 desemboca não apenas em afirmações sobre sua posição, mas na eficácia de sua identificação e de seu sacerdócio em favor daqueles a quem chama irmãos.
