Hebreus 2 (BECE)
Hebreus 2.1-4 A Primeira Advertência: Atenção ao que foi Ouvido e o Perigo de Negligenciar a Salvação
2.1 Por isso, devemos prestar atenção ainda maior ao que ouvimos, para que não nos desviemos.1
2.2 Pois, se a palavra proferida por meio de anjos se tornou firme e toda transgressão e desobediência recebeu justa retribuição,
2.3 como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação,2 a qual, tendo começado a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos confirmada pelos que ouviram,
2.4 enquanto Deus também testemunhava juntamente com eles por meio de sinais e prodígios, de diversos atos de poder e de distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade?3
“Por isso, devemos prestar atenção ainda maior ao que ouvimos, para que não nos desviemos” — a inferência de Διὰ τοῦτο (“por isso”) e o risco expresso por παραρυῶμεν (“nos desviemos”)
Exegese. Διὰ τοῦτο (“por isso”) estabelece uma inferência direta a partir da exposição precedente. Embora 1.14 tenha acabado de mencionar os anjos como espíritos enviados ao serviço dos que herdarão a salvação, a razão da exortação é mais ampla: todo o desenvolvimento de 1.1–14 estabeleceu o contraste entre a palavra anteriormente comunicada e a fala de Deus no Filho, apresentado em posição superior à dos anjos. O primeiro movimento parenético de Hebreus decorre, assim, da caracterização do Filho e da estrutura comunicativa do capítulo precedente, e não de uma mudança abrupta de assunto (Attridge, 1989: 63–64; Westcott, 2010: 36–37).
Δεῖ (“é necessário”) é verbo impessoal e rege o acusativo ἡμᾶς (“nós”) como sujeito de προσέχειν (“prestar atenção”). Sua força é mais intensa do que uma simples recomendação: o desenvolvimento precedente cria a necessidade lógica da resposta agora formulada. Em português, “devemos” reúne com naturalidade essa necessidade e a primeira pessoa inclusiva de ἡμᾶς (“nós”). “Importa que”, usado por ARA, NAA e BJ, é formalmente possível, mas possui hoje registro mais marcado e perde parte da imediatez oral da exortação (Westcott, 2010: 36).
Περισσοτέρως (“ainda mais, em grau maior”) modifica naturalmente προσέχειν (“prestar atenção”): o movimento não é simplesmente “prestar atenção”, mas fazê-lo com intensidade aumentada em razão daquilo que acaba de ser apresentado acerca do Filho. Προσέχω (“prestar atenção, dedicar-se a”) pode reger dativo, e aqui recebe τοῖς ἀκουσθεῖσιν (“às coisas ouvidas”), particípio aoristo passivo neutro plural de ἀκούω (“ouvir”) substantivado. A construção é formulada em termos auditivos. O autor não escreve “às verdades”, “aos ensinamentos” ou “à doutrina”, mas simplesmente “ao que foi ouvido”. Por isso, “ao que ouvimos” evita introduzir no texto principal uma classificação do conteúdo que o grego não fornece (Attridge, 1989: 63–64).
Essa escolha também preserva uma característica essencial do discurso de Hebreus. O texto foi construído para ser ouvido, e o próprio vocabulário da seção organiza-se em torno da comunicação oral: aquilo que Deus “falou” em 1.1–2, aquilo que os destinatários “ouviram” em 2.1, a palavra “proferida” em 2.2, a salvação que começou a “ser anunciada” em 2.3 e aqueles que a “ouviram”. Traduzir τοῖς ἀκουσθεῖσιν (“às coisas ouvidas”) por “ao que ouvimos” conserva essa rede lexical de fala e audição.
Μήποτε (“para que não, para que porventura não”) introduz παραρυῶμεν (“nos desviemos”), aoristo ativo subjuntivo, primeira pessoa do plural, de παραρρέω (“fluir para além, passar de largo, desviar-se”). O verbo é extremamente raro. Seu sentido básico envolve algo que flui, escorrega ou passa além de um ponto. Daí surgiram interpretações que veem aqui uma imagem náutica: uma embarcação que deriva e passa do porto. A imagem é possível, mas o texto não a desenvolve explicitamente; por isso, não convém reconstruir uma metáfora náutica completa. O dado seguro é o movimento para fora da posição que deveria ser mantida (Attridge, 1989: 64; Moffatt, 1948: 18).
“Não nos desviemos” foi, portanto, preferido a expressões mais interpretativas como “não derivemos para longe” ou “não passemos ao largo”. A tradução conserva a ideia de deslocamento contida em παραρρέω (“desviar-se”) sem transformar em explícita uma imagem que permanece apenas potencial no verbo. Também mantém como sujeito aqueles que ouvem: é “nós” que corremos o risco de nos desviar, não simplesmente o conteúdo ouvido que corre o risco de escapar da memória.
Versões comparadas. A ARA e a NAA trazem “nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas”, introduzindo “verdades”, substantivo que não corresponde a um elemento lexical do grego, e interpretando προσέχειν (“prestar atenção”) mediante a imagem de apego. A BJ emprega “observemos tanto mais cuidadosamente os ensinamentos que ouvimos”, explicitando de modo semelhante “ensinamentos”. A NRSV conserva mais diretamente “pay greater attention to what we have heard” e representa παραρυῶμεν (“nos desviemos”) por drift away. A YLT aproxima-se ainda mais da superfície formal com “take heed to the things heard, lest we may glide aside”. A presente tradução — “prestar ainda maior atenção ao que ouvimos, para que não nos desviemos” — procura manter a força comparativa de περισσοτέρως (“ainda mais”), a simplicidade de τοῖς ἀκουσθεῖσιν (“ao que foi ouvido”) e o movimento de παραρυῶμεν (“nos desviemos”) sem acrescentar conteúdo semântico ausente do texto.
Função argumentativa. O emprego de ἡμᾶς (“nós”) é retoricamente importante. O autor não inicia a primeira advertência de Hebreus acusando os destinatários em segunda pessoa; inclui-se na necessidade formulada. A passagem inaugura, assim, uma estratégia que reaparecerá diversas vezes na obra: exposição seguida de inferência parenética formulada de maneira inclusiva. O risco de afastamento é real no discurso, mas 2.1 não declara que o afastamento já tenha ocorrido. O subjuntivo sob μήποτε (“para que não”) apresenta aquilo que a atenção deve impedir.
Referências cruzadas. Hb 1.1–2,5–14; 2.2–4; 3.7–8,12–15; 4.1–2; 12.25.
“Pois, se a palavra proferida por meio de anjos se tornou firme [...] como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação” — o argumento a fortiori de 2.2–4
Exegese. Εἰ γάρ (“pois, se”) abre a prótase de uma construção condicional cuja apódose somente aparece em 2.3 com πῶς ἡμεῖς ἐκφευξόμεθα (“como escaparemos nós?”). O resultado é um argumento a minori ad maius: se a comunicação anterior, mediada por anjos, possuía validade e suas violações recebiam consequência correspondente, a negligência diante da salvação anunciada pelo Senhor não pode ser tratada como questão de menor peso. A superioridade não é produzida pela desvalorização da primeira palavra, pois justamente sua firmeza constitui a premissa necessária do argumento (Attridge, 1989: 64–66; Moffatt, 1948: 18–19).
Ὁ δι’ ἀγγέλων λαληθεὶς λόγος (“a palavra proferida por meio de anjos”) refere-se, no contexto, à revelação associada ao Sinai. A tradição da mediação angélica da Lei também aparece em Atos 7.53 e Gálatas 3.19. Um de seus antecedentes textuais gregos encontra-se em Deuteronômio 33.2 LXX, cuja cláusula final lê ἐκ δεξιῶν αὐτοῦ ἄγγελοι μετ’ αὐτοῦ (“à sua direita, anjos com ele”); o MT, nesse ponto, apresenta uma forma hebraica difícil e não contém o substantivo “anjos”. A relação com Deuteronômio 33.2 é, portanto, tradicional e intertextual, não uma citação formal de Hebreus 2.2. É significativo, além disso, que Hebreus escreva λόγος (“palavra, mensagem”) e não νόμος (“lei”). A escolha mantém ativa a temática da fala divina iniciada em 1.1: a comparação não ocorre simplesmente entre dois códigos religiosos, mas entre formas de comunicação. Por isso, o texto principal preserva “palavra”, em vez de explicitar “Lei”, deixando a identificação histórica para a nota (Attridge, 1989: 64–65; Westcott, 2010: 37–38).
Ἐγένετο βέβαιος (“se tornou firme”) associa γίνομαι (“tornar-se”) ao adjetivo βέβαιος (“firme, seguro, válido”). Este último pode assumir coloração jurídica, particularmente adequada à sequência formada por transgressão, desobediência, justa retribuição, confirmação e testemunho. “Se tornou firme” conserva a formulação do grego sem decidir no próprio texto entre as nuances “válida”, “eficaz”, “confirmada” ou “estabelecida”. “Entrou em vigor”, como na BJ, torna a dimensão jurídica muito explícita; “was valid”, da NRSV, faz opção semelhante. A tradução adotada mantém a metáfora conceitual da firmeza que reaparecerá em Hebreus (Attridge, 1989: 65; Westcott, 2010: 37–38).
Πᾶσα παράβασις καὶ παρακοή (“toda transgressão e desobediência”) forma uma dupla quase sinonímica. Παράβασις (“transgressão”) destaca a violação de um limite ou determinação; παρακοή (“desobediência, falha em ouvir”) é especialmente apropriado dentro de uma passagem estruturada em torno de fala e audição. Pode-se perceber no segundo termo uma dimensão negativa — não atender àquilo que foi ouvido — em contraste com a ação positiva de transgredir, embora não seja necessário transformar a dupla numa classificação técnica de diferentes espécies de pecado (Westcott, 2010: 38; Moffatt, 1948: 19).
Ἔλαβεν ἔνδικον μισθαποδοσίαν (“recebeu justa retribuição”) utiliza linguagem solene. Ἔνδικος (“justo, conforme à justiça”) qualifica μισθαποδοσία (“retribuição, recompensa correspondente”). O substantivo não é lexicalmente limitado a punição: em Hebreus 10.35 e 11.26 aparece em contexto positivo. Aqui, porém, a associação com παράβασις (“transgressão”) e παρακοή (“desobediência”) determina seu valor negativo. “Justa retribuição” foi mantido porque preserva essa neutralidade lexical e a noção de correspondência entre ato e consequência; “justo castigo”, empregado pela ARA e pela NAA, torna explícito aquilo que o contexto já permite inferir (Attridge, 1989: 65; Westcott, 2010: 38).
A apódose começa com πῶς ἡμεῖς ἐκφευξόμεθα (“como escaparemos nós?”). A presença explícita de ἡμεῖς (“nós”) acrescenta ênfase: a questão não é abstrata, mas inclui autor e ouvintes. Ἐκφευξόμεθα (“escaparemos”) é futuro e permanece sem objeto expresso; a natureza exata da consequência será desenvolvida posteriormente em Hebreus mediante outras advertências. O texto não necessita que a tradução acrescente “do castigo”, “do julgamento” ou expressão semelhante.
Τηλικαύτης [...] σωτηρίας (“tão grande salvação”) constitui o objeto de ἀμελήσαντες (“tendo negligenciado”). O particípio aoristo possui aqui força circunstancial naturalmente representada em português por uma condição: “se negligenciarmos”. Não há partícula equivalente a “se” na superfície grega, mas essa transformação torna explícita uma relação já contida na construção participial. Importante para a função da advertência, o particípio não afirma que os destinatários já negligenciaram a salvação; apresenta a situação cuja consequência é formulada pela pergunta retórica (Attridge, 1989: 65–66).
A unidade sintática explica também a pontuação adotada nesta tradução. O período não termina semanticamente em “tão grande salvação”. A expressão é imediatamente retomada por ἥτις (“a qual”), e a descrição dessa salvação continua por 2.3b–4. A NA28 imprime o sinal interrogativo somente ao término de 2.4. Como a pontuação antiga não constitui dado manuscrito equivalente às palavras, outras segmentações são editorialmente possíveis; aqui, porém, conservar a pergunta aberta até o final de 2.4 torna mais perceptível a arquitetura do período e evita que a cláusula relativa pareça uma afirmação independente.
Versões comparadas. A ARA traduz “se negligenciarmos tão grande salvação”, correspondendo de perto à força circunstancial de ἀμελήσαντες (“tendo negligenciado”). A NAA interpreta o mesmo particípio por “se não levarmos a sério tão grande salvação”, tornando explícita uma atitude mental que o verbo pode implicar, mas não lexicaliza dessa maneira. A BJ mantém “se negligenciarmos”. A NRSV igualmente emprega “if we neglect so great a salvation”, enquanto a YLT conserva mais rigidamente o particípio: “having neglected so great salvation”. Quanto a μισθαποδοσία (“retribuição”), ARA e NAA trazem “justo castigo”, a NRSV a just penalty e a YLT a just recompense. A presente tradução prefere “justa retribuição” por conservar a forma lexical menos interpretativa.
Função argumentativa. A advertência é construída sobre continuidade e intensificação, não sobre oposição simples entre uma revelação falsa e outra verdadeira. A primeira “palavra” é pressuposta como βέβαιος (“firme”); precisamente por isso ela pode funcionar como termo menor do argumento. A força do raciocínio procede da diferença de mediação apresentada pelo próprio texto: anjos em 2.2, o Senhor em 2.3. A estrutura corresponde ao contraste inaugurado em 1.1–2 e desenvolvido durante todo o primeiro capítulo.
Referências cruzadas. Dt 33.2 LXX; At 7.38,53; Gl 3.19; Hb 1.1–2,5–14; 2.1,3–4; 10.26–31; 12.25.
“Tendo começado a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos confirmada pelos que ouviram, enquanto Deus também testemunhava juntamente com eles” — proclamação, confirmação e testemunho em 2.3b–4
Exegese. Ἥτις (“a qual”), nominativo feminino singular, retoma diretamente σωτηρίας (“salvação”). O restante de 2.3 e todo o v. 4 não introduzem um novo assunto: constituem expansão relativa de “tão grande salvação”. Essa continuidade é decisiva para compreender a sintaxe. A pergunta não é somente “como escaparemos se negligenciarmos?”, seguida por uma observação histórica; a própria pergunta identifica qual salvação está sendo negligenciada por meio de sua história de proclamação, transmissão e confirmação.
Ἀρχὴν λαβοῦσα λαλεῖσθαι (“tendo recebido começo para ser falada”) é uma expressão idiomática cuja reprodução palavra por palavra seria inadequada em português. Ἀρχὴν λαμβάνειν (“receber um começo, começar”) funciona com o infinitivo passivo λαλεῖσθαι (“ser falada, ser anunciada”). “Tendo começado a ser anunciada” preserva tanto a incoação quanto a voz passiva, sem introduzir um verbo moderno excessivamente técnico como “proclamada” onde o autor continua empregando a família de λαλέω (“falar”) que domina 1.1–2.4 (Attridge, 1989: 66; Moffatt, 1948: 19).
Διὰ τοῦ κυρίου (“por meio do Senhor”) identifica o mediador inicial dessa fala. Em português, “pelo Senhor” expressa naturalmente a construção sem a rigidez de “por intermédio do Senhor”. A repetição de διά (“por meio de”) em δι’ ἀγγέλων (“por meio de anjos”) de 2.2 e διὰ τοῦ κυρίου (“por meio do Senhor”) de 2.3 estabelece formalmente os dois polos do argumento. A tradução mantém, portanto, “por meio de anjos” no v. 2 e “pelo Senhor” no v. 3, deixando à nota a correspondência estrutural das duas construções.
Ὑπὸ τῶν ἀκουσάντων (“pelos que ouviram”) identifica os agentes da confirmação subsequente. O objeto de ἀκούω (“ouvir”) permanece sem expressão: o grego não diz formalmente “os que o ouviram” nem “os que a ouviram”. “Pelos que ouviram” preserva essa indeterminação e, ao mesmo tempo, mantém a cadeia auditiva que atravessa a passagem. Εἰς ἡμᾶς (“até nós, para nós”) situa autor e destinatários no polo receptor dessa confirmação (Attridge, 1989: 66–67).
Ἐβεβαιώθη (“foi confirmada”) é aoristo passivo de βεβαιόω (“confirmar, tornar firme”) e retoma lexicalmente βέβαιος (“firme”) de 2.2. A correspondência é importante: a palavra mediada por anjos ἐγένετο βέβαιος (“se tornou firme”), enquanto a salvação anunciada pelo Senhor ἐβεβαιώθη (“foi confirmada”) aos destinatários pelos que ouviram. O autor constrói, assim, o argumento mediante uma rede lexical de firmeza e validação, não apenas mediante uma sucessão cronológica de pregadores (Attridge, 1989: 65–67; Westcott, 2010: 39–40).
Essa formulação possui também valor histórico interno. O autor coloca “nós” entre aqueles a quem a mensagem foi confirmada pelos que haviam ouvido anteriormente. O texto, portanto, distingue o κύριος (“Senhor”), os ἀκούσαντες (“os que ouviram”) e o grupo expresso por ἡμᾶς (“nós”). A observação é relevante para a discussão da localização geracional do autor e de sua audiência na transmissão da mensagem cristã, embora isoladamente não determine autoria nem cronologia precisa (Attridge, 1989: 66–67).
O v. 4 permanece subordinado ao mesmo período. Συνεπιμαρτυροῦντος τοῦ θεοῦ (“enquanto Deus testemunhava juntamente”) forma uma construção genitiva participial que acompanha ἐβεβαιώθη (“foi confirmada”). A tradução “enquanto Deus também testemunhava juntamente com eles” procura preservar esse caráter circunstancial. O testemunho divino não é uma quarta etapa independente depois da confirmação humana; ocorre conjuntamente com ela. A composição do verbo — σύν (“com”) + ἐπί (“sobre, em acréscimo”) + μαρτυρέω (“testemunhar”) — reforça a ideia de testemunho corroborador (Attridge, 1989: 67; Moffatt, 1948: 19–20).
Σημείοις τε καὶ τέρασιν (“por sinais e prodígios”) constitui uma combinação tradicional, à qual Hebreus acrescenta ποικίλαις δυνάμεσιν (“por diversos poderes”). Δύναμις (“poder”) no plural pode designar manifestações ou atos poderosos. “Diversos atos de poder” foi preferido a simplesmente “vários milagres”, porque mantém perceptível o substantivo δύναμις (“poder”) sem obrigar o leitor a interpretar cada ocorrência como uma categoria técnica de milagre. O adjetivo ποικίλος (“variado, diverso”) indica diversidade dessas manifestações.
Πνεύματος ἁγίου μερισμοῖς (“por distribuições do Espírito Santo”) apresenta μερισμοῖς, dativo plural de μερισμός (“distribuição, repartição”). A construção mais direta entende πνεύματος ἁγίου (“do Espírito Santo”) como aquilo que é distribuído. Por isso, “distribuições do Espírito Santo” preserva a forma nominal e o plural do grego. “Dons do Espírito Santo”, como na BJ, ou “gifts of the Holy Spirit, distributed”, como na NRSV, tornam a expressão mais idiomática, mas acrescentam lexicalmente “dons”. A NAA emprega o singular “a distribuição do Espírito Santo”, enquanto o texto grego possui μερισμοῖς (“distribuições”) no plural. A presente tradução conserva esse plural (Moffatt, 1948: 20).
Κατὰ τὴν αὐτοῦ θέλησιν (“segundo a sua vontade”) qualifica essas distribuições e remete naturalmente a Deus, sujeito do particípio precedente. Θέλησις (“vontade, decisão”) ocorre aqui em construção que atribui a diversidade das manifestações ao querer daquele que testemunha. Não é necessário explicitar “segundo a vontade de Deus” no texto principal, pois o antecedente de αὐτοῦ (“sua”) permanece imediatamente disponível.
Versões comparadas. A ARA conserva muito bem a dependência sintática ao trazer “dando Deus testemunho juntamente com eles”, embora encerre graficamente a pergunta em “tão grande salvação?” e passe depois à descrição da salvação. A NAA torna o v. 4 uma nova oração finita — “Também Deus testemunhou juntamente com eles” —, solução clara para leitura versículo por versículo, mas que torna menos visível a dependência de συνεπιμαρτυροῦντος (“testemunhando juntamente”). A BJ preserva o particípio mediante “testemunhando Deus juntamente com eles”. A NRSV mantém a relação circunstancial com “while God added his testimony”, ao passo que a YLT conserva de modo quase mecânico “God also bearing joint-witness”. A presente tradução opta por “enquanto Deus também testemunhava juntamente com eles”, porque permite que 2.3–4 seja ouvido como o único desenvolvimento sintático que efetivamente constitui.
Também há diferenças relevantes no último membro. A ARA mantém “distribuições do Espírito Santo”, representação muito próxima de πνεύματος ἁγίου μερισμοῖς (“distribuições do Espírito Santo”); a NAA apresenta “a distribuição do Espírito Santo”; a BJ interpreta como “dons do Espírito Santo”; a NRSV igualmente explicita “gifts”; e a YLT preserva “distributions of the Holy Spirit”. A presente tradução segue a estrutura nominal e plural do grego, reservando para a nota a explicação de que se trata de repartições ou concessões diferenciadas.
Função argumentativa. A arquitetura de 2.3b–4 é uma cadeia de autenticação: a salvação tem seu início discursivo no Senhor, chega aos atuais ouvintes mediante aqueles que ouviram anteriormente e é simultaneamente corroborada por Deus. O ponto argumentativo não é fornecer uma história completa da formação da tradição cristã, mas demonstrar que a salvação diante da qual os destinatários se encontram não chegou a eles como mensagem sem testemunho. Essa expansão explica por que o autor prolonga a pergunta até o v. 4: toda a história da comunicação pertence à caracterização da “tão grande salvação” cuja negligência está sendo apresentada como a alternativa inadmissível do argumento.
Referências cruzadas. At 2.22,43; 4.30; 10.39–43; 14.3; Rm 15.18–19; 1Co 12.4–11; 2Co 12.12; Gl 3.5; Hb 2.3–4; 6.4–5; 10.15.
Hebreus 2.5–9 — O Mundo Vindouro, Salmo 8 e Jesus Coroado por causa do Sofrimento da Morte
2.5 Pois não foi a anjos que ele sujeitou o mundo vindouro, acerca do qual estamos falando.1
2.6 Mas alguém, em certo lugar, testemunhou, dizendo: “Que é o ser humano, para que te lembres dele, ou o filho do homem, para que cuides dele?
2.7 Tu o fizeste, por pouco tempo, inferior aos anjos; de glória e honra o coroaste;
2.8 todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés.”2 Pois, ao lhe sujeitar todas as coisas, nada deixou que não lhe estivesse sujeito. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele;3
2.9 mas vemos Jesus, que, por pouco tempo, foi feito inferior aos anjos, coroado de glória e honra por causa do sofrimento da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte em favor de cada um.4
“Pois não foi a anjos que ele sujeitou o mundo vindouro, acerca do qual estamos falando” — οἰκουμένην τὴν μέλλουσαν (“o mundo vindouro”) como introdução à exposição de Salmo 8
Exegese. Γάρ (“pois”) não introduz simplesmente um comentário ocasional sobre anjos. Depois da advertência de 2.1–4, o autor retorna à exposição iniciada no capítulo 1 e prepara a citação de Salmo 8, cujo verbo ὑποτάσσω (“sujeitar”) fornecerá a palavra-chave dos vv. 5–8. O sujeito de ὑπέταξεν (“sujeitou”) não é expresso, mas Deus é naturalmente recuperado do contexto imediatamente anterior, no qual ele é o agente do testemunho de 2.4. A negação coloca ἀγγέλοις (“a anjos”) em posição contrastiva: aquilo que está em discussão não foi submetido a eles (Attridge, 1989: 69–70).
Οἰκουμένη (“mundo habitado”) designa literalmente o mundo habitado e pode adquirir, conforme o contexto, extensão geográfica, política ou cosmológica. Aqui é qualificada pelo particípio μέλλουσαν (“vindoura, que está por vir”). A expressão inteira não equivale simplesmente a “céu”, nem designa outro planeta ou espaço físico. Refere-se à ordem vindoura cuja sujeição será explicada mediante Salmo 8. A formulação possui caráter escatológico e se relaciona com μέλλοντος αἰῶνος (“era vindoura”) em Hebreus 6.5 (Attridge, 1989: 69–70; Westcott, 2010: 42).
A tradução poderia reproduzir materialmente οἰκουμένην τὴν μέλλουσαν como “o mundo habitado vindouro”. Essa forma, porém, produz em português uma especificação espacial que o uso lexical já não exige no contexto. “Mundo vindouro” conserva a oposição temporal decisiva e permanece suficientemente próxima do grego. A oração relativa περὶ ἧς λαλοῦμεν (“acerca do qual estamos falando”) mostra, além disso, que a expressão não surge como conceito independente: o autor entende esse mundo como parte do assunto que já vem desenvolvendo.
A ligação com 1.13 é particularmente importante. Ali, Salmo 110.1 apresentou a sujeição futura dos inimigos sob os pés do Filho; agora Salmo 8 fornecerá outra formulação da submissão de “todas as coisas”. O desenvolvimento de 2.5–9 combina, portanto, a linguagem da sujeição com a tensão temporal entre aquilo que foi prometido e aquilo que ainda não é visível. A realidade da era vindoura é tratada em Hebreus como já inaugurada, embora sua manifestação completa permaneça futura (Attridge, 1989: 69–70).
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem “o mundo que há de vir”, expandindo μέλλουσαν (“vindoura”) mediante uma oração relativa. A BJ emprega a forma mais compacta “o mundo futuro”. A NRSV traz the coming world, e a YLT, the coming world. “Mundo vindouro” mantém a concisão do sintagma grego e distingue a expressão de uma referência puramente espacial ao mundo presente.
Função argumentativa. O v. 5 funciona como tese programática dos vv. 5–9. Seu conteúdo somente é demonstrado pela citação e interpretação que seguem. A referência aos anjos mantém continuidade lexical com Hebreus 1, mas o centro da argumentação muda: a questão agora não é simplesmente a posição relativa do Filho e dos anjos, e sim quem recebe a sujeição universal prometida em Salmo 8 e como essa promessa pode ser compreendida diante da experiência presente.
Referências cruzadas. Sl 8.4–6; 1Co 15.25–28; Hb 1.6,13–14; 2.6–9; 6.5; 12.28; 13.14.
“Que é o ser humano [...] todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés” — a citação de Salmo 8.5–7 LXX e sua forma textual em Hebreus
Crítica textual. Em 2.6, o NTG-EV, em acordo com NA28 e SBLGNT, lê τί (“que?”). A variante τίς (“quem?”) é atestada por 𝔓46, C*, P, 81, 104 e 1881, além de testemunhos latinos e coptas. A leitura τί possui atestação globalmente mais ampla e coincide com Salmo 8.5 LXX. A evidência interna, porém, é reversível: τί pode ter sido favorecido por harmonização à LXX, enquanto τίς pode ter surgido por assimilação ao τις precedente ou ao substantivo ἄνθρωπος. Como a diferença produz apenas “que é o ser humano?” versus “quem é o ser humano?”, sem alterar o argumento, mantém-se τί.
Em 2.7, depois de δόξῃ καὶ τιμῇ ἐστεφάνωσας αὐτόν (“de glória e honra o coroaste”), א, A, C, D*, P, Ψ, 0243, 0278, 6, 33, 81, 104, 365, 629, 1505, 1739, 1881 e 2464, com amplo apoio versional, acrescentam καὶ κατέστησας αὐτὸν ἐπὶ τὰ ἔργα τῶν χειρῶν σου (“e o constituíste sobre as obras das tuas mãos”). A forma breve, adotada por NTG-EV, NA28 e SBLGNT, é antiga e tem apoio de 𝔓46, B, D2, K, L, 630, 1175 e 1241, entre outros. A expansão reproduz exatamente a continuação de Salmo 8.7 LXX e é, por isso, explicável como harmonização da citação ao texto contínuo do salmo. A tradução conserva a forma breve: “de glória e honra o coroaste; todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés”.
Exegese. Διεμαρτύρατο (“testemunhou solenemente”) é aoristo médio de διαμαρτύρομαι (“testemunhar, declarar solenemente”). A construção δέ πού τις (“mas alguém, em certo lugar”) deixa anônimo o autor humano da citação. Fórmulas semelhantes aparecem também em Hebreus 4.4. O procedimento não indica desconhecimento da fonte, mas corresponde ao modo como Hebreus pode introduzir Escritura sem concentrar atenção na identidade do autor humano (Attridge, 1989: 70).
A citação corresponde a Salmo 8.5–7 tanto na numeração do MT quanto na LXX. O hebraico de Salmo 8.6 lê וַתְּחַסְּרֵהוּ מְעַט מֵאֱלֹהִים, literalmente “tu o fizeste pouco menor que ʾĕlōhîm (“Deus/deuses/seres divinos”)”. A LXX representa אֱלֹהִים por ἀγγέλους (“anjos”) e lê ἠλάττωσας αὐτὸν βραχύ τι παρ’ ἀγγέλους (“tu o fizeste um pouco inferior aos anjos”). Hebreus reproduz essa formulação grega, que se integra diretamente ao contraste com os anjos desenvolvido desde o capítulo 1 (Attridge, 1989: 70–71).
Também é importante distinguir a forma contínua do salmo da forma citada por Hebreus. Salmo 8.7 LXX lê καὶ κατέστησας αὐτὸν ἐπὶ τὰ ἔργα τῶν χειρῶν σου, πάντα ὑπέταξας ὑποκάτω τῶν ποδῶν αὐτοῦ (“e o constituíste sobre as obras das tuas mãos; todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés”). O MT possui a mesma progressão semântica: תַּמְשִׁילֵהוּ בְּמַעֲשֵׂי יָדֶיךָ כֹּל שַׁתָּה תַחַת־רַגְלָיו (“tu o fizeste governar sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo dos seus pés”). O NTG-EV de Hebreus 2.7–8 omite a primeira dessas duas cláusulas e conserva πάντα ὑπέταξας... (“todas as coisas sujeitaste...”), justamente a expressão que será desenvolvida exegeticamente em 2.8.
Ἄνθρωπος (“ser humano, homem”) e υἱὸς ἀνθρώπου (“filho do homem”) formam paralelismo sinonímico dentro do salmo. Não há necessidade de interpretar υἱὸς ἀνθρώπου (“filho do homem”) já no interior da citação como título técnico. O próprio desenvolvimento retarda a identificação até 2.9. Por isso, a tradução mantém “o filho do homem”, sem capitalização interpretativa.
Μιμνῄσκῃ (“te lembres”) e ἐπισκέπτῃ (“cuide, visite, volte a atenção para”) descrevem a atenção favorável de Deus ao ser humano. A tradução “cuidares dele” para ἐπισκέπτῃ evita que o português “visitar” seja entendido no sentido moderno de uma visita social ocasional; o verbo grego, nesse contexto, envolve atenção efetiva ou cuidado.
A expressão βραχύ τι (“um pouco, por pouco”) é central para a interpretação da citação. No salmo, a sequência pode ser entendida em grau — “um pouco inferior aos anjos” — ou temporalmente — “por pouco tempo inferior aos anjos”. A interpretação que Hebreus dará no v. 9 favorece a segunda leitura: a condição inferior é temporária e é seguida pela coroação. Por isso, a tradução adota já na citação “por pouco tempo”. À luz de 2.9 e do restante do capítulo, a leitura temporal é a mais provável (Attridge, 1989: 75–76).
Δόξῃ καὶ τιμῇ (“de glória e honra”) representa a condição de coroação, enquanto πάντα ὑπέταξας ὑποκάτω τῶν ποδῶν αὐτοῦ (“todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés”) fornece o elemento que dominará a interpretação imediatamente seguinte. O verbo ὑποτάσσω (“sujeitar”) já fora antecipado pelo autor em 2.5, de modo que a introdução e a citação estão lexicalmente articuladas.
Versões comparadas. A ARA conserva entre colchetes “e o constituíste sobre as obras das tuas mãos”, registrando a cláusula longa sem equipará-la plenamente ao texto principal. A YLT a incorpora diretamente: and didst set him over the works of Thy hands. A NAA, a BJ e a NRSV seguem a forma curta, como a NA28. Essa diferença é textualmente significativa: não se trata apenas de estilo de tradução, mas de uma diferença na forma da citação utilizada como base.
Quanto a βραχύ τι (“por pouco”), ARA, NAA e BJ usam “por um pouco”, formulação que permite leitura temporal. A NRSV torna essa leitura explícita com for a little while lower than the angels. A YLT conserva maior ambiguidade com some little less than messengers. A presente tradução opta por “por pouco tempo”, pois o próprio v. 9 fornece a chave com que Hebreus relê a expressão.
A NRSV também pluraliza a linguagem do salmo — human beings, mortals, them, their feet — para tornar explícito o referente coletivo do texto salmódico. O grego de Hebreus, porém, mantém sistematicamente o singular ἄνθρωπος (“ser humano”), αὐτοῦ (“dele”) e αὐτόν (“o”). A presente tradução conserva esse singular, porque ele desempenha papel importante na passagem da referência antropológica do salmo à identificação de “Jesus” em 2.9.
Função argumentativa. Hebreus não começa impondo imediatamente Jesus sobre cada palavra da citação. O procedimento é progressivo: primeiro cita o texto em sua formulação sobre o ser humano; depois concentra-se na sujeição de “todas as coisas”; finalmente, em 2.9, identifica naquele movimento de rebaixamento e coroação uma realização em Jesus. Preservar essa sequência evita antecipar na tradução uma identificação que o próprio discurso constrói gradualmente (Attridge, 1989: 71–75).
Referências cruzadas. Gn 1.26–28; Sl 8.4–6; 110.1; 1Co 15.25–28; Ef 1.20–22; Hb 1.13; 2.5,8–9.
“Nada deixou que não lhe estivesse sujeito. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele” — da afirmação total do salmo à tensão do οὔπω (“ainda não”)
Crítica textual. No início da explicação, o NTG-EV lê ἐν τῷ γὰρ ὑποτάξαι αὐτῷ τὰ πάντα (“pois, ao lhe sujeitar todas as coisas”), adotando αὐτῷ (“a ele”) sem colchetes. A inclusão possui apoio amplo e diversificado — א, A, C, D, K, L, P, Ψ, 0150, 0243, 33, 1739 e a tradição bizantina — e é adotada também por NA28, THGNT, WH, Tregelles, RP e TR; a NA28, contudo, imprime [αὐτῷ] entre colchetes, indicando dúvida quanto à sua presença. A forma exata ὑποτάξαι τὰ πάντα, sem αὐτῷ, é atestada por B e adotada pelo SBLGNT; 𝔓46 apresenta uma terceira forma, omitindo αὐτῷ τὰ πάντα. A coexistência dessas três formas impede reduzir o locus a uma oposição binária simples. Como a inclusão possui apoio grego amplo e a construção seguinte já contém ἀφῆκεν αὐτῷ (“deixou a ele”), o NTG-EV mantém αὐτῷ. A tradução “ao lhe sujeitar todas as coisas” reflete essa decisão editorial.
Exegese. A oração deixa agora de citar Salmo 8 e começa a interpretá-lo. Ἐν τῷ [...] ὑποτάξαι (“ao sujeitar”) retoma diretamente πάντα ὑπέταξας (“todas as coisas sujeitaste”) da citação. A inferência acompanha o alcance absoluto do quantificador: se o texto diz πάντα (“todas as coisas”), então οὐδέν (“nada”) permanece ἀνυπότακτον (“não sujeito”). O autor extrai sua conclusão da extensão do próprio quantificador empregado no salmo (Attridge, 1989: 71–72).
A tradução “nada deixou que não lhe estivesse sujeito” conserva a estrutura negativa de οὐδὲν [...] ἀνυπότακτον (“nada [...] não sujeito”) e, sobretudo, mantém perceptível a repetição da raiz de ὑποτάσσω (“sujeitar”). Alternativas como “nada deixou fora do seu domínio”, encontradas na ARA e na NAA, comunicam corretamente a ideia, mas substituem a repetição lexical do original por uma nova imagem semântica, “domínio”.
O período seguinte introduz a tensão fundamental da unidade: Νῦν δὲ οὔπω (“agora, porém, ainda não”). O advérbio νῦν (“agora”) situa o argumento na condição presente; οὔπω (“ainda não”) nega a manifestação completa da sujeição sem negar a promessa do texto. O autor não altera o πάντα (“todas as coisas”) de Salmo 8 para adequá-lo à experiência; reconhece explicitamente a discrepância entre a afirmação escriturística e aquilo que é atualmente perceptível.
Ὁρῶμεν (“vemos”) é primeira pessoa do plural e envolve novamente autor e audiência. Αὐτῷ τὰ πάντα ὑποτεταγμένα (“todas as coisas sujeitas a ele”) mantém o referente do salmo sem ainda identificá-lo nominalmente. Essa suspensão é literariamente importante: somente a oração seguinte fornecerá Ἰησοῦν (“Jesus”) como a figura na qual o movimento de rebaixamento e coroação pode ser atualmente visto. A referência permanece ambígua até 2.9 (Attridge, 1989: 71–72).
Também há uma alteração aspectual relevante. Ὑπέταξας (“sujeitaste”) na citação é aoristo; ὑποτεταγμένα (“sujeitas”) é particípio perfeito. A exposição não questiona a validade do enunciado do salmo, mas afirma que sua condição universal não se apresenta ainda como realidade plenamente visível. O contraste, portanto, é entre a abrangência do texto citado e a percepção presente, e não entre uma Escritura fracassada e uma nova afirmação que a substitui.
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem “nada deixou fora do seu domínio”, tornando a inferência clara, mas abandonando o campo lexical de “sujeição”. A BJ conserva a repetição lexical com “nada deixou que lhe ficasse insubmisso” e “ainda não vemos que tudo lhe esteja submisso”. A NRSV emprega “left nothing outside their control”, interpretando antropologicamente o pronome mediante o plural them, para depois dizer “we do not yet see everything in subjection to them”. A YLT conserva quase mecanicamente “nothing did He leave to him unsubjected” e “not yet do we see the all things subjected to him”.
A presente tradução mantém o singular e evita especificar antecipadamente se o referente deve ser entendido simplesmente como humanidade ou já como Jesus: “nada deixou que não lhe estivesse sujeito. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele”. Essa indefinição corresponde ao próprio movimento exegético, que somente no v. 9 nomeará Jesus.
Função argumentativa. O οὔπω (“ainda não”) é a dobradiça interpretativa entre Salmo 8 e 2.9. A passagem não responde à ausência de sujeição universal abandonando o salmo, mas deslocando o foco daquilo que ainda não pode ser visto para aquilo que já pode ser visto. Por isso, a oposição seguinte é cuidadosamente formulada: “ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele; mas vemos Jesus”. A solução argumentativa é visual e temporal ao mesmo tempo (Attridge, 1989: 71–72).
Referências cruzadas. Sl 8.6; 110.1; 1Co 15.25–28; Hb 1.13; 2.5–9; 10.12–13.
“Mas vemos Jesus [...] coroado de glória e honra por causa do sofrimento da morte” — βραχύ τι (“por pouco tempo”), a identificação de Jesus e a variante χάριτι θεοῦ / χωρὶς θεοῦ
Crítica textual. O NTG-EV lê χάριτι θεοῦ (“pela graça de Deus”), em acordo com NA28, UBS5, THGNT, WH, Tregelles, RP e TR. A leitura é sustentada por 𝔓46, 𝔓116, א, A, B, C, D, K, L, P, Ψ, 69, 1424 e 1739marg vid, além de amplo apoio versional e patrístico. A variante χωρὶς θεοῦ (“sem Deus”, “à parte de Deus”) é atestada por 0243, 1739* e parte da tradição versional e patrística; o SBLGNT a adota. Orígenes conhecia as duas leituras, o que documenta a circulação de χωρὶς θεοῦ ao menos no início do século III.
A evidência interna não é decisiva. Χωρὶς θεοῦ é a leitura mais difícil e recebeu interpretações antigas diversas, mas sua origem também pode ser explicada como glosa relacionada à exceção de Deus na submissão universal de 2.8 ou à expressão ὑπὲρ παντός (“em favor de cada um”) em 2.9. No balanço entre a antiguidade da variante e a atestação grega muito mais ampla e diversificada de χάριτι θεοῦ, o NTG-EV adota χάριτι θεοῦ. A tradução, portanto, permanece “pela graça de Deus”.
Exegese. A partícula δέ (“mas”) responde diretamente ao οὔπω (“ainda não”) de 2.8. O autor acaba de afirmar aquilo que “ainda não vemos”; agora declara aquilo que βλέπομεν (“vemos”): Ἰησοῦν (“Jesus”). A oposição retórica é precisa: οὔπω ὁρῶμεν (“ainda não vemos”) → τὸν δὲ [...] βλέπομεν Ἰησοῦν (“mas vemos [...] Jesus”). A solução para a aparente discrepância entre Salmo 8 e a realidade presente não é ainda a manifestação da sujeição universal, mas a trajetória já realizada em Jesus.
A ordem grega é particularmente expressiva: τὸν [...] ἠλαττωμένον βλέπομεν Ἰησοῦν [...] ἐστεφανωμένον. As duas expressões retomadas de Salmo 8 — aquele que foi “feito inferior aos anjos” e aquele que foi “coroado de glória e honra” — enquadram o nome Ἰησοῦν (“Jesus”). Dessa maneira, a identificação que permaneceu suspensa no v. 8 torna-se explícita. Essa disposição liga simultaneamente Jesus ao “ser humano” do salmo e ao movimento entre humilhação e exaltação (Attridge, 1989: 72–75).
Βραχύ τι (“um pouco”) é aqui melhor compreendido temporalmente: “por pouco tempo”. O hebraico de Salmo 8 descrevia a humanidade como pouco inferior aos seres celestes, isto é, uma diferença de grau; a expressão grega da LXX, porém, permite também uma leitura temporal. O próprio uso em 2.9 indica que Hebreus explora essa possibilidade: Jesus não é apresentado como permanentemente apenas um pouco inferior aos anjos, mas como alguém cuja condição de rebaixamento foi seguida pela coroação. O desenvolvimento de 2.10–18, com sua ênfase na participação em “sangue e carne” e no sofrimento, reforça essa leitura (Attridge, 1989: 75–76).
Ἠλαττωμένον (“tendo sido feito inferior”) é particípio perfeito passivo de ἐλαττόω (“tornar menor, inferior”). O perfeito permite considerar uma condição resultante de um ato anterior, mas não obriga a entender βραχύ τι (“um pouco”) como diferença de grau. A construção pode perfeitamente descrever um rebaixamento iniciado no passado e limitado temporalmente, seguido pelo estado de coroação que o autor agora contempla (Attridge, 1989: 75–76).
Διὰ τὸ πάθημα τοῦ θανάτου (“por causa do sofrimento da morte”) deve ser ligado primariamente ao que segue, δόξῃ καὶ τιμῇ ἐστεφανωμένον (“coroado de glória e honra”), fornecendo a razão da coroação. Διά (“por causa de”) com acusativo expressa aqui fundamento ou causa, não finalidade. Por isso, a tradução não diz que Jesus foi feito inferior “para sofrer a morte”, solução gramaticalmente menos adequada, mas que ele foi “coroado de glória e honra por causa do sofrimento da morte” (Attridge, 1989: 72, 76; Westcott, 2010: 45).
Πάθημα (“sofrimento”) no singular é raro no NT e aqui se encontra imediatamente associado a θάνατος (“morte”). A expressão não separa sofrimento e morte como dois acontecimentos paralelos; caracteriza a própria morte como a culminação do sofrimento. A mesma raiz reaparecerá em παθημάτων (“sofrimentos”) no v. 10, produzindo continuidade lexical entre as duas unidades.
Ἐστεφανωμένον (“coroado”) é particípio perfeito passivo. A forma descreve Jesus como aquele que se encontra agora no estado resultante da coroação expressa por Salmo 8. O contraste com ἠλαττωμένον (“feito inferior”) não é, portanto, meramente espacial — abaixo e acima dos anjos —, mas narrativo: rebaixamento, morte e coroação. A tradução conserva essa estrutura mediante “foi feito inferior [...] coroado de glória e honra”.
A oração ὅπως χάριτι θεοῦ ὑπὲρ παντὸς γεύσηται θανάτου (“para que, pela graça de Deus, provasse a morte em favor de cada um”) possui conexão sintática menos imediata, porque a coroação sucede à morte, enquanto a oração final menciona novamente a experiência da morte. Não se deve, contudo, entender que Jesus foi coroado primeiro para depois morrer. Ὅπως (“para que”) pode relacionar-se ao movimento inteiro anteriormente descrito e explicitar a finalidade da missão que culmina na morte e na exaltação (Attridge, 1989: 76; Moffatt, 1948: 24–25).
Ὑπὲρ παντός (“em favor de cada um”) contém παντός (“cada um, todo”) no singular. O contexto posterior, que passa imediatamente aos “muitos filhos” em 2.10, favorece referência pessoal, não neutra a “todas as coisas”. “Em favor de cada um” preserva mais diretamente essa singularidade do que “por todos”, embora ambas sejam possíveis em português. ARA traduz “por todo homem”; NAA, “por todos”; BJ, “em favor de todos os homens”; NRSV, for everyone; e YLT, for every one.
Γεύσηται θανάτου (“provasse a morte”) é expressão idiomática para experimentar a morte. O verbo γεύομαι (“provar, experimentar”) não implica que Jesus tenha experimentado apenas pequena parcela da morte ou que sua morte tenha sido incompleta. A imagem descreve a experiência efetiva da morte e já encontra paralelos na linguagem bíblica sobre “provar a morte” (Attridge, 1989: 77; Moffatt, 1948: 25–26).
Versões comparadas. A ARA traduz: “vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra”. A ordem procura acompanhar muito de perto a disposição grega, mas resulta bastante marcada em português. A NAA reorganiza a oração: “Vemos, porém, aquele que, por um pouco, foi feito menor do que os anjos, Jesus, que, por causa do sofrimento da morte, foi coroado...”. A BJ aproxima “por causa dos sofrimentos da morte” de “coroado”, tornando mais explícita a relação causal. A NRSV igualmente explicita a sequência mediante now crowned with glory and honor because of the suffering of death. A YLT mantém a estrutura mais formal: because of the suffering of the death, with glory and honour having been crowned.
A presente tradução — “mas vemos Jesus, que, por pouco tempo, foi feito inferior aos anjos, coroado de glória e honra por causa do sofrimento da morte” — desloca Ἰησοῦν (“Jesus”) para uma posição natural em português, mas conserva a arquitetura semântica do grego: Jesus é simultaneamente o referente do rebaixamento temporário e da coroação subsequente, e esta é apresentada como relacionada ao sofrimento da morte.
Função argumentativa. O v. 9 fecha o problema levantado em 2.5–8 sem afirmar que a sujeição universal já seja empiricamente visível. O que se vê é a realização, em Jesus, da sequência que torna inteligível Salmo 8 para o argumento de Hebreus: rebaixamento temporário → sofrimento da morte → coroação de glória e honra. Essa leitura prepara diretamente 2.10, onde sofrimento, glória e aperfeiçoamento serão retomados e desenvolvidos. A unidade 2.5–9 não deveria, portanto, ser fragmentada entre a citação e sua interpretação: o nome “Jesus” em 2.9 é a resolução literária da questão aberta pelo salmo.
Referências cruzadas. Sl 8.4–6; 110.1; Mt 16.28; Mc 9.1; Jo 8.52; 1Co 15.25–28; Fp 2.8–11; Hb 1.3,13; 2.5–8,10–18; 5.7–9; 10.12–13.
Hebreus 2.10–13 — O Aperfeiçoamento por meio dos Sofrimentos e a Solidariedade entre o Santificador e os Santificados
2.10 Pois era apropriado que aquele, por causa de quem e por meio de quem existem todas as coisas, ao conduzir muitos filhos à glória, aperfeiçoasse por meio de sofrimentos o pioneiro da salvação deles.1
2.11 Pois tanto aquele que santifica como os que são santificados, todos procedem de um só; por essa razão, ele não se envergonha de chamá-los irmãos,2
2.12 dizendo: “Anunciarei o teu nome a meus irmãos; no meio da assembleia, cantarei louvores a ti”;
2.13 e, novamente: “Eu porei nele a minha confiança”; e, novamente: “Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu.”3
“Ao conduzir muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o pioneiro da salvação deles” — ἀγαγόντα, ἀρχηγός e τελειῶσαι
Sintaxe. Γάρ (“pois”) conecta 2.10 diretamente a 2.9: o versículo fornece uma explicação para a sequência sofrimento → morte → coroação acabada de descrever. Ἔπρεπεν (“era apropriado, convinha”) é imperfeito de πρέπω (“ser apropriado, conveniente”) e recebe αὐτῷ (“a ele”), cujo referente mais natural é Deus, mencionado imediatamente antes em χάριτι θεοῦ (“pela graça de Deus”). A descrição seguinte — δι’ ὃν τὰ πάντα καὶ δι’ οὗ τὰ πάντα (“por causa de quem e por meio de quem [existem] todas as coisas”) — confirma esse referente (Attridge, 1989: 82).
As duas construções com διά não são equivalentes. Δι’ ὅν emprega acusativo e exprime aqui causa ou finalidade: Deus é aquele “por causa de quem” existem todas as coisas. Δι’ οὗ emprega genitivo e exprime mediação: “por meio de quem”. A presente tradução conserva essa diferença: “por causa de quem e por meio de quem existem todas as coisas”. ARA representa a mesma distinção com “por cuja causa e por quem”; NAA a explicita como “por causa de quem e por meio de quem”; a BJ reorganiza a fórmula como “por quem e para quem”.
Πολλοὺς υἱοὺς (“muitos filhos”) é objeto de ἀγαγόντα (“conduzindo”). O particípio está em acusativo porque se relaciona semanticamente com o sujeito lógico do infinitivo τελειῶσαι (“aperfeiçoar”), isto é, Deus. Não descreve uma ação anterior já concluída, como poderia sugerir uma tradução rígida do aoristo; apresenta a circunstância dentro da qual ocorre o aperfeiçoamento do ἀρχηγός (“pioneiro”). Por isso, “ao conduzir muitos filhos à glória” representa melhor a relação sintática do que uma sequência cronológica rígida (Attridge, 1989: 82–83).
Εἰς δόξαν (“à glória”) retoma diretamente δόξῃ (“glória”) de 2.7 e 2.9. O movimento descrito em Jesus — sofrimento seguido de coroação — torna-se agora a moldura para a condução dos “muitos filhos”. A repetição lexical impede que “glória” seja reduzida aqui a mera honra social; ela pertence à mesma rede discursiva inaugurada pela interpretação de Salmo 8 (Attridge, 1989: 83).
Ἀρχηγός possui campo semântico mais amplo do que “autor”. Pode designar fundador, iniciador, líder ou aquele que vai à frente. O contexto cria uma associação particularmente significativa entre ἀγαγόντα (“conduzindo”) e ἀρχηγόν (“aquele que vai à frente”): Deus conduz os muitos filhos, e Jesus ocupa dentro desse movimento a posição daquele que abre ou percorre primeiro o caminho. Essa relação favorece “pioneiro da salvação” em vez do tradicional “Autor da salvação” (Attridge, 1989: 87–88; Westcott, 2010: 49).
“Pioneiro” também evita atribuir ao substantivo uma nuance causal exclusiva que o contexto não exige. Moffatt (1948: 31) traduz ἀρχηγός precisamente como pioneer e relaciona a expressão à ideia de alguém que percorre primeiro o caminho pelo qual outros são conduzidos. O mesmo substantivo reaparecerá em Hebreus 12.2, onde será associado a τελειωτής (“consumador, aperfeiçoador”).
Τελειῶσαι (“aperfeiçoar”) não implica que Jesus fosse anteriormente moralmente defeituoso e precisasse tornar-se eticamente melhor. Τελειόω pode significar levar algo à sua condição completa, adequada ou consumada, e Hebreus desenvolverá esse vocabulário de maneira própria em 5.9; 7.28; 9.9; 10.1,14; 11.40 e 12.23. Em 2.10, o aperfeiçoamento ocorre διὰ παθημάτων (“por meio de sofrimentos”): os sofrimentos constituem o meio pelo qual a trajetória do ἀρχηγός (“pioneiro”) alcança a condição requerida para a função que o restante do capítulo explicará (Attridge, 1989: 83–87).
A expressão διὰ παθημάτων (“por meio de sofrimentos”) também retoma lexicalmente τὸ πάθημα τοῦ θανάτου (“o sofrimento da morte”) de 2.9. A passagem não inicia um tema independente em 2.10; desenvolve lexicalmente aquilo que o versículo precedente acabara de afirmar. O singular πάθημα (“sofrimento”) de 2.9 passa ao plural παθήματα (“sofrimentos”) em 2.10, preparando ainda o vocabulário de 2.18 e 5.8.
Versões comparadas. A ARA, a NAA e a BJ traduzem ἀρχηγός (“pioneiro, líder”) por “Autor”, solução tradicional que destaca a relação de Jesus com a salvação, mas torna menos perceptível sua função de quem vai à frente. A NRSV emprega the pioneer of their salvation, enquanto a YLT usa the author of their salvation. A presente tradução prefere “pioneiro da salvação deles” porque a proximidade com ἀγαγόντα (“conduzindo”) favorece a imagem de liderança e percurso.
A NRSV traduz πολλοὺς υἱούς (“muitos filhos”) por many children, explicitando inclusão de gênero. ARA, NAA, BJ e YLT mantêm “muitos filhos”/many sons. A presente tradução conserva “muitos filhos”, porque o substantivo υἱός (“filho”) participa da terminologia de filiação que atravessa Hebreus 1–2 e será retomada no argumento imediato.
Função argumentativa. O versículo responde ao problema levantado pela morte em 2.9 não tratando o sofrimento como acidente externo ao percurso de Jesus, mas integrando-o à lógica da condução dos “muitos filhos à glória”. A sequência lexical é estreita: “sofrimento da morte” em 2.9 → “sofrimentos” em 2.10 → “santificador e santificados” em 2.11 → “irmãos” e “filhos” em 2.11–13. O argumento passa, assim, da trajetória individual de Jesus à solidariedade que torna essa trajetória relevante para o grupo descrito.
Referências cruzadas. Hb 1.3,14; 2.7–9,11,17–18; 5.8–9; 6.20; 7.28; 10.14; 12.2,23.
“Tanto aquele que santifica como os que são santificados procedem todos de um só” — ἐξ ἑνὸς e a base da designação “irmãos”
Exegese. O segundo γάρ (“pois”) introduz nova fundamentação. Se 2.10 explica por que o sofrimento pode integrar o percurso do ἀρχηγός (“pioneiro”), 2.11 explica a solidariedade pressuposta nesse percurso: ὁ ἁγιάζων (“aquele que santifica”) e οἱ ἁγιαζόμενοι (“os que são santificados”) encontram-se relacionados por uma origem expressa de maneira concisa como ἐξ ἑνός (“de um só”) (Attridge, 1989: 87–89).
Ἁγιάζω (“santificar, tornar santo, consagrar”) pertence ao vocabulário cultual que ganhará importância crescente em Hebreus. Aquele que santifica é Jesus; os que são santificados são aqueles cuja relação com ele acaba de ser expressa como os “muitos filhos” conduzidos à glória. A terminologia antecipa o desenvolvimento posterior, especialmente Hebreus 9.13–14; 10.10,14,29 e 13.12. Neste ponto, porém, o texto ainda não explica o mecanismo cultual da santificação; utiliza o par “santificador/santificados” para formular sua solidariedade (Attridge, 1989: 87–88).
Ἐξ ἑνός significa literalmente “de um”. O substantivo a que εἷς (“um”) se refere não é expresso. Isso explica a variedade histórica de interpretações: Deus, Adão, Abraão, uma única origem ou uma única natureza foram propostos como referentes. No contexto imediato, a referência a Deus como origem e finalidade de todas as coisas em 2.10 e novamente como aquele que “deu” os filhos em 2.13 torna Deus o referente mais provável; contudo, o texto não diz explicitamente ἐκ θεοῦ (“de Deus”) (Attridge, 1989: 88–89).
Por essa razão, a tradução evita incorporar “Pai” ao texto. “Procedem todos de um só” representa a relação de origem indicada por ἐκ (“de, proveniente de”) e, ao mesmo tempo, conserva a relativa indeterminação de ἑνός (“um só”). A opção é menos explícita do que “todos têm um só Pai”, mas precisamente por isso não resolve dentro da tradução uma questão que o grego deixa implícita.
Πάντες (“todos”) pertence sintaticamente aos dois grupos: o santificador e os santificados. A ordem grega — ἐξ ἑνὸς πάντες (“de um só, todos”) — enfatiza a origem compartilhada. Daí procede δι’ ἣν αἰτίαν (“por essa razão”), fórmula causal relativamente solene: porque santificador e santificados estão unidos dessa maneira, ele não se envergonha de chamá-los ἀδελφούς (“irmãos”).
Οὐκ ἐπαισχύνεται (“não se envergonha”) não deve ser enfraquecido para simplesmente “chama”. O verbo introduz uma avaliação social: apesar da diferença de posição sugerida por todo o desenvolvimento anterior, Jesus reconhece os santificados mediante uma designação de parentesco. O argumento não termina, porém, na afirmação do narrador; 2.12–13 fornecerá documentação escriturística para esse uso de “irmãos” e “filhos” (Attridge, 1989: 89–90).
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem ἐξ ἑνός (“de um só”) por “todos vêm de um só”, deixando o referente não especificado. A BJ utiliza “todos descendem de um só”, tornando a relação mais explicitamente genealógica. A YLT é ainda mais formal: are all of one. A NRSV interpreta o referente: all have one Father. Esta última solução é exegéticamente plausível, mas acrescenta “Father”, substantivo inexistente no texto grego.
A presente tradução — “procedem todos de um só” — mantém a relação de origem de ἐκ (“de”) sem introduzir “Pai”, “natureza”, “raça” ou outro complemento. A explicação do provável referente pertence à nota, não ao texto traduzido.
Função argumentativa. 2.11 funciona como ponte entre o aperfeiçoamento mediante sofrimentos de 2.10 e as citações de 2.12–13. A afirmação ἐξ ἑνὸς πάντες (“todos de um só”) produz a conclusão “irmãos”; as citações seguintes apresentam aquele que fala usando as expressões “meus irmãos” e “os filhos que Deus me deu”. A solidariedade é, portanto, primeiro formulada sintaticamente e depois sustentada pelo encadeamento escriturístico.
Referências cruzadas. Jo 17.17–19; Hb 2.10,12–13,17; 5.1–3; 9.13–14; 10.10,14,29; 13.12.
“Anunciarei o teu nome a meus irmãos [...] Eu porei nele a minha confiança [...] Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu” — Salmo 22 e Isaías 8.17–18 na demonstração escriturística
Exegese. As três citações são introduzidas como palavras daquele que, em 2.11, não se envergonha de chamar os santificados de irmãos. Hebreus não apresenta os textos apenas como previsões que correspondem posteriormente a Jesus; coloca-os em sua boca por meio de λέγων (“dizendo”). O mesmo procedimento reaparecerá de maneira particularmente desenvolvida em Hebreus 10.5–9, onde palavras de um salmo são igualmente apresentadas como discurso de Cristo (Attridge, 1989: 89–90).
A sequência também possui progressão interna: “meus irmãos” → confiança em Deus → “os filhos que Deus me deu”. Isso esclarece gradualmente a afirmação de 2.11. A solidariedade não é formulada apenas em termos biológicos; no argumento de Hebreus, ela é expressa pelas categorias escriturísticas de irmãos e filhos (Attridge, 1989: 90–91).
Intertextualidade. A primeira citação corresponde ao versículo conhecido como Salmo 22.22 na numeração usual de muitas Bíblias modernas, mas ao Salmo 22.23 na numeração do MT e ao Salmo 21.23 na LXX. O hebraico lê אֲסַפְּרָה שִׁמְךָ לְאֶחָי בְּתוֹךְ קָהָל אֲהַלְלֶךָ (“contarei o teu nome a meus irmãos; no meio da assembleia te louvarei”). A LXX traduz διηγήσομαι τὸ ὄνομά σου τοῖς ἀδελφοῖς μου, ἐν μέσῳ ἐκκλησίας ὑμνήσω σε. Hebreus conserva a segunda metade exatamente, mas substitui διηγήσομαι (“narrarei, relatarei”) por ἀπαγγελῶ (“anunciarei, proclamarei”) na primeira. A diferença lexical preserva o sentido fundamental da linha, mas deve ser registrada como uma adaptação real da forma corrente da LXX (Attridge, 1989: 90).
Ἀπαγγελῶ (“anunciarei, proclamarei”) foi traduzido por “anunciarei”. ARA e NAA preferem “declararei”; a BJ utiliza “anunciarei”; NRSV, I will proclaim; YLT, I will declare. “Anunciarei” preserva o valor comunicativo do verbo sem sugerir uma declaração jurídica ou formal inexistente no contexto.
Ἐκκλησία (“assembleia, congregação”) não exige aqui a tradução eclesiológica “igreja”. Trata-se da linguagem recebida do salmo grego. “Assembleia” é suficientemente ampla para representar o substantivo em seu contexto escriturístico e, simultaneamente, permite reconhecer sua ressonância para a comunidade à qual Hebreus se dirige. A BJ e a YLT também usam “assembleia”/assembly; ARA e NAA preferem “congregação”; a NRSV emprega congregation.
O segundo testemunho, ἐγὼ ἔσομαι πεποιθὼς ἐπ’ αὐτῷ (“eu porei nele a minha confiança”), possui identificação menos simples. A sequência πεποιθὼς ἔσομαι ἐπ’ αὐτῷ (“estarei confiando nele”) ocorre em 2 Samuel 22.3 LXX e Isaías 12.2 LXX; Isaías 8.17 LXX contém a mesma sequência precedida por καί: καὶ πεποιθὼς ἔσομαι ἐπ’ αὐτῷ. Hebreus acrescenta o pronome enfático ἐγώ (“eu”) e inverte a ordem para ἐγὼ ἔσομαι πεποιθὼς ἐπ’ αὐτῷ. Portanto, a fórmula isolada não permite identificar com certeza uma única fonte. Contudo, como a citação imediatamente seguinte reproduz Isaías 8.18, a leitura sequencial de Isaías 8.17–18 LXX é a explicação intertextual mais econômica para o encadeamento de Hebreus (Attridge, 1989: 90–91).
Ἔσομαι πεποιθώς é uma construção perifrástica formada pelo futuro de εἰμί (“ser, estar”) e o particípio perfeito de πείθω (“confiar, estar persuadido”). Uma reprodução mecânica — “estarei tendo confiado nele” — seria inadequada. “Eu porei nele a minha confiança” comunica em português corrente a postura duradoura de confiança expressa pela construção. ARA, NAA e BJ adotam praticamente a mesma solução; a YLT preserva mais da forma verbal com I will be trusting on Him.
Attridge (1989: 91) entende essa citação não como mero preenchimento entre as outras duas, mas como introdução da confiança em Deus como característica daquele que compartilha a condição dos “filhos”. A unidade, assim, não demonstra solidariedade apenas mediante substantivos de parentesco; associa essa solidariedade também a uma postura comum de confiança.
A terceira citação corresponde diretamente a Isaías 8.18 LXX: ἰδοὺ ἐγὼ καὶ τὰ παιδία ἅ μοι ἔδωκεν ὁ θεός (“eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu”). Hebreus reproduz de muito perto essa forma grega. O MT lê הִנֵּה אָנֹכִי וְהַיְלָדִים אֲשֶׁר נָתַן־לִי יְהוָה (“eis-me aqui, eu e os filhos que YHWH me deu”); a LXX representa יְהוָה por ὁ θεός (“Deus”), e Hebreus segue precisamente essa formulação. No contexto de Isaías, os filhos do profeta participam de sua função simbólica. Hebreus reaplica a frase à relação entre aquele que fala e os “filhos” que lhe foram dados por Deus. O termo παιδία (“filhos, crianças”) será imediatamente retomado em 2.14 — Ἐπεὶ οὖν τὰ παιδία (“visto, pois, que os filhos...”) — de modo que a citação não encerra simplesmente a prova escriturística: fornece o vocabulário que desencadeia o próximo movimento sintático (Attridge, 1989: 90–91).
A tradução “Eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu” conserva o καί (“e”) do grego e evita transformar a relação em “eu com os filhos”, como faz a BJ. A NAA explicita o predicado mediante “Eis aqui estou eu e os filhos”; ARA apresenta igualmente “Eis aqui estou eu”; NRSV traz Here am I and the children whom God has given me; YLT, Behold I and the children that God did give to me.
Versões comparadas. ARA e NAA traduzem 2.12 por “A meus irmãos declararei o teu nome”; a BJ prefere “Anunciarei o teu nome a meus irmãos”; NRSV, I will proclaim your name to my brothers and sisters; YLT, I will declare Thy name to my brethren. A presente tradução segue “Anunciarei”, mais próxima da força de ἀπαγγέλλω (“anunciar, proclamar”), e mantém “irmãos”, preservando formalmente o masculino plural do texto.
A NRSV expande ἀδελφοῖς (“irmãos”) para brothers and sisters e παιδία (“filhos, crianças”) para children; essas opções tornam explícita a inclusão dos membros femininos da comunidade, mas deixam de reproduzir a relação formal entre a linguagem de “filhos” em 2.10 e a terminologia familiar utilizada em 2.11–14. A presente tradução conserva as formas lexicais do grego e deixa a abrangência referencial para a análise.
Função argumentativa. 2.12–13 não constitui apêndice decorativo ao v. 11. As citações cumprem duas funções simultâneas: fundamentam a designação “irmãos” e produzem o termo παιδία (“filhos”) que será retomado imediatamente em 2.14. A unidade 2.10–13, portanto, possui progressão cuidadosamente encadeada: muitos filhos conduzidos à glória → santificador e santificados de uma única origem → irmãos → filhos dados por Deus. É dessa última formulação que partirá o período seguinte.
Referências cruzadas. 2Sm 22.3; Sl 22.22; Is 8.17–18; 12.2; Jo 17.6; Hb 2.11,14; 10.5–7; 12.23.
Hebreus 2.14–16 — Participação em Sangue e Carne, Morte, Libertação e Descendência de Abraão
2.14 Visto, pois, que os filhos têm em comum sangue e carne, também ele, de modo semelhante, participou das mesmas coisas,1 para que, por meio da morte, reduzisse à impotência aquele que detém o poder da morte, isto é, o diabo,
2.15 e libertasse aqueles que, pelo medo da morte, estavam sujeitos à escravidão durante toda a vida.2
2.16 Pois, certamente, não toma consigo anjos, mas toma consigo a descendência de Abraão.3
“Os filhos têm em comum sangue e carne, também ele, de modo semelhante, participou das mesmas coisas” — continuidade de παιδία e o contraste entre κεκοινώνηκεν e μετέσχεν
Sintaxe. Ἐπεὶ οὖν (“visto, pois, que”) retoma diretamente τὰ παιδία (“os filhos”) da citação de Isaías 8.18 LXX em 2.13. A ligação é lexicalmente exata: o mesmo sintagma τὰ παιδία encerra a citação e reaparece imediatamente como sujeito de κεκοινώνηκεν (“têm em comum”). O substantivo não é reiniciado como informação nova: os “filhos que Deus me deu” tornam-se imediatamente os “filhos” cuja condição humana é descrita. Οὖν (“pois, portanto”) marca, assim, continuidade argumentativa entre a demonstração escriturística de 2.12–13 e sua consequência em 2.14 (Attridge, 1989: 91).
Κεκοινώνηκεν é perfeito ativo de κοινωνέω (“participar, compartilhar, ter em comum”). O perfeito apresenta a participação dos παιδία (“filhos”) em αἷμα (“sangue”) e σάρξ (“carne”) como sua condição estabelecida. Μετέσχεν, aoristo de μετέχω (“participar, tomar parte”), descreve em seguida a participação de Jesus como acontecimento. A diferença aspectual é significativa: os filhos encontram-se na condição de ter em comum sangue e carne; ele, por sua vez, “participou” dessa mesma condição (Attridge, 1989: 91–92; Westcott, 2010: 53).
Os dois verbos são semanticamente próximos, mas não idênticos. O autor poderia ter simplesmente repetido κοινωνέω (“participar em comum”), porém escolhe μετέχω (“tomar parte, participar”) para a segunda oração. A tradução procura conservar simultaneamente a proximidade e a diferença: “os filhos têm em comum [...] também ele [...] participou”. Uma tradução que substitua a segunda expressão por “assumiu a humanidade deles” comunica corretamente a ideia geral, mas abandona a correspondência lexical construída pelo período.
Αἵματος καὶ σαρκός significa literalmente “sangue e carne”. A ordem é menos comum do que “carne e sangue”, encontrada, por exemplo, em Mateus 16.17 e 1 Coríntios 15.50, mas ocorre também em Efésios 6.12. Não há fundamento suficiente para inverter silenciosamente os substantivos apenas por idiomaticidade portuguesa. “Sangue e carne” preserva a ordem marcada do texto e permite que eventual importância discursiva dessa colocação permaneça disponível à análise (Attridge, 1989: 91–92).
A expressão não descreve dois componentes antropológicos tecnicamente separados. “Sangue e carne” funciona como descrição da condição humana concreta, frágil e mortal. É precisamente essa condição que torna possível o desenvolvimento seguinte: a participação de Jesus culmina na experiência da morte. Não se deve, portanto, transformar o sintagma em uma teoria antropológica de duas substâncias.
Παραπλησίως (“de modo semelhante, semelhantemente”) ocorre somente aqui no NT. O advérbio estabelece correspondência entre a condição dos filhos e a participação de Jesus. O próprio desenvolvimento impedirá que essa semelhança seja entendida como apenas aparente: 2.17 afirmará que ele devia tornar-se semelhante aos irmãos κατὰ πάντα (“em todas as coisas”). A qualificação posterior de Hebreus 4.15 — χωρὶς ἁμαρτίας (“sem pecado”) — pertence a outro estágio da exposição e não deve ser importada lexicalmente para 2.14 (Attridge, 1989: 92).
Versões comparadas. A ARA traduz “os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou”; a NAA explicita o sujeito como “também Jesus” e igualmente conserva “carne e sangue”. A BJ traz “os filhos têm em comum carne e sangue, por isso também ele participou da mesma condição”, substituindo τῶν αὐτῶν (“das mesmas coisas”) pela expressão interpretativa “da mesma condição”. A NRSV tem the children share flesh and blood, he himself likewise shared the same things. A YLT também inverte a ordem grega ao usar flesh and blood, mas preserva a distinção entre os dois verbos mediante have partaken [...] did take part of the same.
A presente tradução mantém “sangue e carne” porque essa é a ordem efetiva de αἵματος καὶ σαρκός e distingue os dois verbos: κοινωνέω é representado por “ter em comum”, enquanto μετέχω permanece “participar”. Assim se preserva a proximidade semântica sem criar em português uma repetição lexical que o grego não possui.
Função argumentativa. 2.14 transforma em realidade corporal a solidariedade afirmada nos vv. 10–13. “Filhos”, “irmãos” e “santificados” deixam de ser somente categorias relacionais: todos compartilham a condição de “sangue e carne”, e Jesus participa dessa mesma condição. A morte mencionada imediatamente depois não constitui, portanto, mudança de assunto, mas consequência interna do argumento sobre solidariedade.
Referências cruzadas. Is 8.18; Mt 16.17; 1Co 15.50; Ef 6.12; Hb 2.10–13,17; 4.15; 5.7.
“Por meio da morte, reduzisse à impotência aquele que detém o poder da morte [...] e libertasse aqueles que [...] estavam sujeitos à escravidão” — a dupla finalidade de ἵνα
Sintaxe. Ἵνα (“para que”) governa dois verbos coordenados: καταργήσῃ (“reduzisse à impotência”) em 2.14 e ἀπαλλάξῃ (“libertasse”) em 2.15. A morte de Jesus é, portanto, apresentada em relação a uma dupla finalidade: primeiro, a neutralização daquele que possui τὸ κράτος τοῦ θανάτου (“o poder da morte”); segundo, a libertação daqueles cuja existência estava condicionada pelo medo da morte. Separar os vv. 14 e 15 em unidades tradutórias independentes obscureceria essa coordenação.
Διὰ τοῦ θανάτου (“por meio da morte”) emprega διά com genitivo instrumental. O texto não diz simplesmente “por sua morte”, e, pelo referente imediato, trata-se da morte daquele que acaba de ser mencionado. “Por meio da morte” preserva a forma mais ampla do grego e torna perceptível o paradoxo verbal da passagem: a própria morte funciona como meio de derrota daquele que detém seu poder.
Καταργέω não significa necessariamente “destruir” no sentido de aniquilar ou eliminar da existência. Seu campo semântico inclui tornar inoperante, ineficaz ou impotente; abolir uma função ou privar alguém de eficácia. Por isso, “reduzisse à impotência” foi preferido a “destruísse”. O objeto continua existindo no próprio discurso como ὁ διάβολος (“o diabo”); o ponto é a perda ou neutralização de seu κράτος (“poder, domínio efetivo”), não uma declaração ontológica de desaparecimento (Attridge, 1989: 92).
Τὸ κράτος ἔχοντα τοῦ θανάτου significa “aquele que detém o poder da morte”. Κράτος (“força, poder, domínio”) não é sinônimo técnico de autoridade legítima. A construção atribui ao διάβολος (“diabo”) uma relação de poder com a morte, mas não afirma que ele seja sua causa absoluta ou que possa decidir autonomamente quando cada pessoa morre. A formulação deve ser deixada no nível em que o próprio texto a coloca (Westcott, 2010: 53–54).
Τοῦτ’ ἔστιν τὸν διάβολον (“isto é, o diabo”) identifica explicitamente o referente. Διάβολος significa literalmente “caluniador, acusador”, mas aqui funciona como designação pessoal estabelecida e é adequadamente traduzido por “diabo”. O texto não usa Σατανᾶς (“Satanás”).
O segundo subjuntivo, ἀπαλλάξῃ (“libertasse, livrasse”), possui como objeto τούτους, ὅσοι (“aqueles que, todos quantos”). O verbo pode designar libertação, afastamento ou soltura de uma condição restritiva. A condição é formulada no final do período: ἔνοχοι ἦσαν δουλείας (“estavam sujeitos à escravidão”). Ἔνοχος (“sujeito a, passível de, preso a”) marca a sujeição, e δουλεία (“escravidão”) define sua natureza.
Φόβῳ θανάτου (“pelo medo da morte”) é dativo causal ou instrumental: o medo da morte é aquilo mediante o qual essa sujeição escravizadora opera. O texto não afirma que os indivíduos estivessem literalmente mortos ou presos no Hades; descreve sua condição durante a vida. A libertação é formulada em termos do medo que acompanha a existência humana, não como uma narrativa explícita de libertação física do mundo dos mortos (Attridge, 1989: 92–93).
Διὰ παντὸς τοῦ ζῆν é expressão idiomática: literalmente, “por todo o viver”. “Durante toda a vida” representa naturalmente essa duração. O imperfeito ἦσαν (“estavam”) apresenta a condição continuada de escravidão, enquanto ἀπαλλάξῃ (“libertasse”) formula a ruptura pretendida.
Exegese. A passagem constrói uma inversão: aquilo que aparentemente colocaria Jesus sob o poder da morte torna-se o meio pelo qual o poder associado à morte é neutralizado. A primeira finalidade diz respeito ao detentor desse poder; a segunda, aos que permaneciam condicionados por ele. O resultado é uma estrutura paralela: καταργήσῃ τὸν... (“reduzisse à impotência aquele...”) / ἀπαλλάξῃ τούτους... (“libertasse aqueles...”).
Versões comparadas. ARA e NAA usam “destruísse aquele que tem o poder da morte” e “livrasse todos”. A BJ traz “destruir pela morte o dominador da morte” e “libertar os que passaram toda a vida em estado de servidão”. A NRSV emprega destroy the one who has the power of death e free those who all their lives were held in slavery. A YLT igualmente usa destroy, embora o campo semântico de καταργέω permita uma representação menos absoluta.
A presente tradução prefere “reduzisse à impotência” justamente para não transformar καταργέω em afirmação de aniquilação. Em 2.15, “estavam sujeitos à escravidão” conserva a construção ἔνοχοι ἦσαν δουλείας com maior proximidade formal do que “viviam como escravos” ou “passaram a vida em servidão”.
Função argumentativa. O sofrimento que “aperfeiçoa” o pioneiro em 2.10 é agora especificado em seu extremo: morte. A solidariedade de 2.11–14 explica como essa morte pode pertencer à condição compartilhada, e 2.14–15 descreve seus efeitos. O texto passa, assim, de participação → morte → neutralização → libertação, antes de 2.16 voltar ao contraste com os anjos.
Referências cruzadas. Jo 8.44; 12.31; Rm 8.15; 1Co 15.26,54–57; 2Tm 1.10; Hb 2.9–10,18; 12.2–4; 1Jo 3.8.
“Não toma consigo anjos, mas toma consigo a descendência de Abraão” — οὐ γὰρ δήπου e o problema semântico de ἐπιλαμβάνεται
Sintaxe. Οὐ γὰρ δήπου introduz uma afirmação considerada evidente pelo autor. Δήπου é partícula rara no NT e acrescenta à negação uma nuance aproximadamente equivalente a “certamente”, “seguramente”, “evidentemente”. A construção não formula uma dúvida — “porventura não?” —, mas reforça o contraste: não anjos, mas σπέρμα Ἀβραάμ (“descendência de Abraão”) constituem o objeto de ἐπιλαμβάνεται (Attridge, 1989: 93–94).
Ἐπιλαμβάνομαι possui como sentido concreto fundamental “tomar”, “agarrar”, “segurar”. No NT pode descrever segurar fisicamente alguém: Jesus tomando Pedro em Mateus 14.31; pessoas agarrando outras em Lucas 9.47; Atos 21.30,33; e Hebreus 8.9, onde Jeremias 31 é citado com a expressão “quando tomei pela mão os pais deles”.
A interpretação tradicional de 2.16 frequentemente enfraquece o verbo para “socorrer” ou “ajudar”. Essa leitura é semanticamente possível como desenvolvimento contextual da ideia de tomar alguém sob cuidado, mas não corresponde ao valor lexical mais concreto da forma. Attridge (1989: 93–94) sustenta que não é necessário postular aqui um sentido especial “ajudar”: a imagem de Cristo, o ἀρχηγός (“pioneiro”), tomando consigo aqueles que conduz à glória corresponde ao movimento desenvolvido desde 2.10.
Também deve ser rejeitada como tradução lexical direta a antiga interpretação “assumir a natureza de”. Ela foi importante na história exegética de 2.16, mas ἐπιλαμβάνομαι não significa simplesmente “assumir uma natureza”. O tema da participação na condição humana já foi explicitamente expresso em 2.14 por κοινωνέω (“participar”) e μετέχω (“tomar parte”); não é necessário atribuir essa mesma função semântica a outro verbo em 2.16 (Attridge, 1989: 93–94).
Moffatt (1948: 37), ao contrário, entende o verbo no sentido de auxílio e traduz o contraste como aquele que “socorre” a descendência de Abraão. Westcott (2010: 54–55) também reconhece nesse contexto a ideia de ajuda, embora relacione a expressão à ação concreta de tomar alguém para sustentá-lo. A divergência entre os comentaristas mostra por que a tradução deste versículo exige cautela.
“Toma consigo”, adotado no texto principal, procura preservar o movimento concreto de ἐπιλαμβάνομαι sem antecipar o sentido contextual de “socorrer”. A solução evita também a nuance jurídica que “toma posse” poderia sugerir em português. O verbo continua sendo explicado a partir de seu valor básico — “tomar, agarrar” — enquanto o contexto de condução, libertação e solidariedade fornece a orientação relacional da expressão.
Σπέρματος Ἀβραάμ significa literalmente “semente de Abraão”, expressão semítica convencional para descendência. “Descendência de Abraão” evita em português a impressão botânica de “semente” sem modificar o referente. O genitivo depende de ἐπιλαμβάνεται, assim como ἀγγέλων (“de anjos”) na primeira metade.
O sintagma não deve ser automaticamente restringido neste ponto a descendência biológica. A passagem acaba de definir os destinatários mediante uma cadeia de categorias — “filhos”, “irmãos”, “santificados” — e Hebreus retomará Abraão e os “herdeiros da promessa” em 6.13–17. Em 2.16, porém, a expressão deve primeiramente ser deixada em sua formulação textual: “descendência de Abraão”. Determinar sua extensão sociológica completa exige o desenvolvimento posterior da obra (Attridge, 1989: 94).
Exegese. O contraste ἀγγέλων [...] ἀλλὰ σπέρματος Ἀβραάμ (“não de anjos, mas da descendência de Abraão”) funciona como fechamento de um arco iniciado com os anjos no capítulo 1. A questão agora não é apenas a superioridade do Filho sobre os anjos, mas a razão de sua participação em sangue e carne, sofrimento e morte. O objeto de ἐπιλαμβάνεται (“tomar, tomar consigo”) é caracterizado aqui não como angélico, mas como σπέρμα Ἀβραάμ (“descendência de Abraão”); o alcance exato dessa designação deve ser determinado pelo argumento mais amplo de Hebreus, e não pressuposto a partir do substantivo isolado.
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem ἐπιλαμβάνεται por “socorre”: “não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão”. A BJ prefere “não veio ele ocupar-se com anjos, mas, sim, com a descendência de Abraão”, afastando-se ainda mais da imagem concreta. A NRSV interpreta: he did not come to help angels, but the descendants of Abraham. Nessas quatro versões, portanto, o verbo é representado funcionalmente como auxílio ou cuidado.
A YLT preserva a imagem concreta de maneira excepcionalmente próxima: of messengers it doth not lay hold, but of seed of Abraham it layeth hold. Essa diferença é importante para a presente tradução, porque mostra que “socorrer” não é a única possibilidade. A formulação adotada procura permanecer mais próxima de ἐπιλαμβάνομαι sem negar que, no contexto, esse “tomar” tenha função de resgate e auxílio.
Função argumentativa. 2.16 funciona como comentário retrospectivo sobre 2.14–15 e simultaneamente prepara 2.17. Se sua ação se dirige à descendência de Abraão e não aos anjos, a consequência introduzida por ὅθεν (“por isso”) em 2.17 torna-se inteligível: ele devia tornar-se semelhante aos irmãos κατὰ πάντα (“em todas as coisas”). Assim, 2.16 não é parêntese dispensável; é a ponte lógica entre participação humana e a formulação do sumo sacerdócio no versículo seguinte.
Referências cruzadas. Is 41.8–9; Mt 14.31; Gl 3.7–9,29; Hb 2.10–15,17; 6.13–17; 8.9; 11.8–19.
Hebreus 2.17–18 — Semelhança com os Irmãos, Sumo Sacerdócio e Auxílio aos que são Provados
2.17 Por isso, ele tinha de tornar-se semelhante aos irmãos em todas as coisas, para que se tornasse um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas referentes a Deus, a fim de fazer expiação pelos pecados do povo.1
2.18 Pois, uma vez que ele próprio sofreu ao ser provado, é capaz de ajudar os que são provados.2
“Ele tinha de tornar-se semelhante aos irmãos em todas as coisas” — ὅθεν, ὤφειλεν e a conclusão da solidariedade desenvolvida em 2.10–16
Sintaxe. Ὅθεν (“por isso, donde”) introduz a consequência de toda a argumentação precedente, e não apenas do v. 16. A sequência é acumulativa: os “filhos” têm em comum sangue e carne; Jesus participa da mesma condição; mediante a morte atua em favor deles; sua ação dirige-se à descendência de Abraão. Ὅθεν (“por isso”) transforma esse desenvolvimento em conclusão: ele devia tornar-se semelhante aos irmãos (Attridge, 1989: 94–95).
ὤφειλεν é imperfeito de ὀφείλω (“dever, estar obrigado”). Sua força é mais intensa do que o ἔπρεπεν (“era apropriado”) de 2.10. Ali, o autor dizia que o aperfeiçoamento mediante sofrimentos era apropriado; aqui afirma que, dada a finalidade já estabelecida, Jesus “tinha de” tornar-se semelhante aos irmãos. A escolha “tinha de” procura conservar essa noção de necessidade ou obrigação interna ao argumento, enquanto “convinha”, empregado pela ARA e pela BJ, aproxima ὀφείλω excessivamente do verbo diferente empregado no v. 10 (Attridge, 1989: 94; Westcott, 2010: 56).
Κατὰ πάντα (“em todas as coisas, em tudo”) ocupa posição enfática junto a τοῖς ἀδελφοῖς (“aos irmãos”). O alcance da semelhança não é apresentado como superficial ou parcial. O verbo ὁμοιωθῆναι, aoristo passivo de ὁμοιόω (“tornar semelhante”), corresponde diretamente ao παραπλησίως (“de modo semelhante”) de 2.14 e encerra lexicalmente a exposição da participação humana iniciada naquele versículo. A qualificação de Hebreus 4.15 — χωρὶς ἁμαρτίας (“sem pecado”) — virá posteriormente; ela não deve ser inserida na tradução de 2.17.
A construção não diz que ele devia tornar-se semelhante “aos seres humanos” em abstrato, mas τοῖς ἀδελφοῖς (“aos irmãos”), retomando a terminologia de 2.11–12. A solidariedade corporal de 2.14 e a designação familiar de 2.11 convergem, portanto, nesta formulação.
Exegese. Ἵνα (“para que”) introduz a finalidade da semelhança. Γένηται (“se tornasse”) é aoristo médio subjuntivo de γίνομαι (“tornar-se, vir a ser”) e recebe como predicado ἀρχιερεύς (“sumo sacerdote”), qualificado coordenadamente por ἐλεήμων (“misericordioso”) e πιστός (“fiel”). A interpretação sintática mais natural toma os dois adjetivos como qualidades do sumo sacerdote, não “misericordioso” como predicado independente e “fiel” como único modificador de ἀρχιερεύς (Attridge, 1989: 94–95).
Esta é a primeira ocorrência explícita de ἀρχιερεύς (“sumo sacerdote”) aplicada a Jesus em Hebreus. Hebreus 1.3 já havia mencionado a purificação dos pecados, mas somente aqui a função recebe denominação sacerdotal. O título não surge isoladamente: é apresentado como resultado argumentativo da solidariedade desenvolvida desde 2.10. O sumo sacerdócio é introduzido precisamente no ponto em que sofrimento, semelhança com os irmãos e capacidade de agir em favor deles convergem (Attridge, 1989: 94–95).
Ἐλεήμων (“misericordioso”) descreve capacidade de responder à condição daqueles em favor dos quais o sacerdote atua. O adjetivo será desenvolvido funcionalmente em 2.18 e depois em 4.15–16. Πιστός (“fiel, digno de confiança”) possui maior amplitude semântica: pode caracterizar fidelidade no cumprimento de uma comissão e, por consequência, confiabilidade. A qualidade será retomada imediatamente em 3.2, onde Jesus é denominado πιστός (“fiel”) àquele que o constituiu. Não é necessário reduzir o termo, já aqui, exclusivamente a “confiável” ou exclusivamente a “obediente” (Attridge, 1989: 95).
Τὰ πρὸς τὸν θεόν significa literalmente “as coisas referentes a Deus”. A expressão funciona adverbialmente com ἀρχιερεύς (“sumo sacerdote”) e reaparecerá em Hebreus 5.1 na descrição geral do ofício sacerdotal. “Nas coisas referentes a Deus” mantém essa correspondência interna. A expressão não significa simplesmente “no serviço religioso” nem especifica ainda todo o conteúdo do ofício que os capítulos seguintes desenvolverão.
Εἰς τὸ ἱλάσκεσθαι é uma construção articular com infinitivo que expressa finalidade. Ἱλάσκομαι possui história semântica complexa e, no grego bíblico, pode assumir valor expiatório. Aqui, τὰς ἁμαρτίας (“os pecados”) funciona como objeto direto do infinitivo; sintaticamente, são os pecados, e não Deus, o complemento explicitamente expresso (Attridge, 1989: 95–96).
Por isso, “fazer expiação pelos pecados do povo” foi preferido a “fazer propiciação”. A distinção não deve ser absolutizada como se ἱλάσκομαι tivesse sempre um único equivalente português: o uso cultual da LXX, particularmente em Levítico, admite valor expiatório, e a construção de 2.17 apresenta “os pecados” como objeto do verbo. Esses dados favorecem “fazer expiação” nesta passagem, sem pretender resolver, por esse versículo isoladamente, todo o debate semântico em torno de ἱλάσκομαι (Attridge, 1989: 95–96).
Τοῦ λαοῦ (“do povo”) introduz uma designação coletiva que se tornará característica em Hebreus. Neste contexto, o substantivo retoma sob outra categoria aqueles anteriormente designados como “filhos”, “irmãos”, “santificados” e “descendência de Abraão”. O versículo, portanto, já começa a converter a linguagem de solidariedade de 2.10–16 em linguagem sacerdotal.
Versões comparadas. A ARA traduz: “convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo”. A NAA representa ὤφειλεν por “era necessário” e igualmente conserva “propiciação”. A BJ traz “Convinha [...] para ser, em relação a Deus, um sumo sacerdote misericordioso e fiel, para expiar assim os pecados do povo”. A NRSV traduz ὤφειλεν por had to, mas expande o último membro para to make a sacrifice of atonement, acrescentando “sacrifice”, substantivo que não está em 2.17. A YLT oferece it did behove him e to make propitiation for the sins of the people.
A presente tradução representa ὤφειλεν por “tinha de” e ἱλάσκεσθαι por “fazer expiação”. A primeira escolha preserva a noção de necessidade expressa pelo verbo; a segunda evita acrescentar ao infinitivo o substantivo “sacrifício”, que não aparece em 2.17.
Função argumentativa. 2.17 é a conclusão estrutural de 2.10–16 e, simultaneamente, a abertura do grande tema sacerdotal da obra. A passagem liga a participação na condição de “sangue e carne” à formulação do sacerdócio. A sequência argumentativa pode ser descrita assim: solidariedade com os irmãos → capacidade de agir em favor deles → sumo sacerdócio misericordioso e fiel → ação em relação aos pecados. O v. 18 explicará imediatamente a primeira dessas qualidades em termos de experiência compartilhada de sofrimento e prova.
Referências cruzadas. Lv 16.15–17,30–34; Hb 1.3; 2.10–16,18; 3.1–2; 4.14–16; 5.1–10; 7.26–28; 9.11–14; 10.10–18.
“Uma vez que ele próprio sofreu ao ser provado, é capaz de ajudar os que são provados” — sofrimento, prova e capacidade de auxílio
Sintaxe. Γάρ (“pois”) mostra que o v. 18 fundamenta imediatamente o v. 17. Não inicia uma nova unidade. A capacidade sacerdotal descrita como ἐλεήμων (“misericordiosa”) é explicada por uma experiência correspondente: aquele que ajuda os provados passou ele próprio por sofrimento e prova. O corte entre os vv. 17 e 18 ocultaria precisamente essa relação de fundamento.
Ἐν ᾧ pode ser formalmente traduzido “naquilo em que”, como faz a ARA, mas no contexto possui força causal: “porque”, “visto que”, “na medida em que”. A construção introduz a razão pela qual δύναται (“é capaz”) de βοηθῆσαι (“ajudar”). A presente tradução explicita essa relação mediante “uma vez que”, evitando que “naquilo em que” seja entendido como referência a uma área ou espécie particular de sofrimento (Attridge, 1989: 96).
Πέπονθεν é perfeito de πάσχω (“sofrer”). O perfeito é importante: o sofrimento pertence ao passado, mas é apresentado como experiência cujo resultado permanece relevante para a capacidade presente expressa por δύναται (“é capaz”). A oração não afirma simplesmente “ele sofreu e depois passou a ajudar”; relaciona a experiência sofrida à sua atual capacidade de auxílio.
Πειρασθείς é aoristo passivo participial de πειράζω (“provar, testar, tentar”). O verbo pode assumir os sentidos “provar” e “tentar”, dependendo do contexto. Aqui a associação imediata com πάσχω (“sofrer”) favorece “ser provado”: está em foco a prova experimentada através ou no contexto do sofrimento. “Tentado” não é incorreto, mas pode estreitar prematuramente o campo semântico para atração moral ao pecado, enquanto Hebreus relaciona a πειρασμός (“provação”) também à pressão exercida pelo sofrimento (Attridge, 1989: 96).
A relação entre os dois verbos admite mais de uma análise sintática. Pode-se representar a construção como “porque ele próprio sofreu, tendo sido provado” ou, de modo causal mais idiomático, “uma vez que ele próprio sofreu ao ser provado”. A segunda solução torna mais clara, em português, a simultaneidade contextual sem afirmar que todo sofrimento resulte exclusivamente de uma tentação. Moffatt (1948: 39–40) entende o particípio como definidor da experiência de sofrimento em conexão com a prova enfrentada, especialmente a pressão de evitar o caminho de sofrimento.
O paralelismo sonoro do grego também merece atenção: πέπονθεν [...] πειρασθείς [...] πειραζομένοις. A repetição de sons e da raiz de πειράζω (“provar”) reforça auditivamente a correspondência entre a experiência daquele que ajuda e a situação daqueles que recebem auxílio. Numa obra concebida para audição pública, essa concentração fonética contribui para a coesão do período (Attridge, 1989: 96).
Δύναται (“é capaz, pode”) está no presente e descreve capacidade atual. A mesma linguagem reaparecerá de maneira importante em Hebreus 4.15–16 e 7.25. O texto não descreve essa capacidade em termos de conhecimento psicológico adquirido pela experiência. No desenvolvimento do capítulo, δύναται (“é capaz”) aparece depois do percurso de sofrimento, aperfeiçoamento e coroação atribuído a Jesus, de modo que a capacidade de auxílio é integrada a esse movimento argumentativo (Attridge, 1989: 96).
Βοηθῆσαι é aoristo infinitivo de βοηθέω (“ajudar, socorrer, vir em auxílio”). Diferentemente do problemático ἐπιλαμβάνεται de 2.16, aqui o vocabulário de auxílio é inequívoco. O mesmo campo lexical reaparecerá em Hebreus 4.16 com βοήθεια (“auxílio”). Assim, a tradução “ajudar” não é interpretação contextual apenas, mas representação direta do verbo empregado.
Τοῖς πειραζομένοις (“aos que são provados”) é particípio presente passivo substantivado. O presente sugere uma condição em curso: aqueles que estão sendo submetidos à prova. O contraste verbal é expressivo: Jesus πειρασθείς (“foi provado”), enquanto eles são πειραζόμενοι (“estão sendo provados”). A experiência passada daquele que foi provado fundamenta sua capacidade presente de ajudar aqueles cuja prova continua.
Exegese. A relação causal formulada pelo versículo é específica à sequência argumentativa de Hebreus: aquele que foi aperfeiçoado mediante sofrimentos (2.10), tornou-se semelhante aos irmãos (2.17) e ocupa a função de sumo sacerdote misericordioso e fiel é precisamente aquele que agora δύναται (“é capaz”) de auxiliar os que estão sob prova. A experiência de sofrimento e a posição sacerdotal não constituem explicações rivais; pertencem ao mesmo desenvolvimento argumentativo.
Versões comparadas. A ARA traduz “Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados”. A forma “naquilo que” preserva materialmente ἐν ᾧ, e “tentado” segue uma leitura moral tradicional de πειράζω. A NAA torna a relação mais temporal: “naquilo que ele mesmo sofreu, quando foi tentado”. A BJ oferece “tendo ele mesmo sofrido pela tentação, é capaz de socorrer os que são tentados”, formulação que pode sugerir que a tentação seja causa do sofrimento.
A NRSV opta significativamente por tested: Because he himself was tested by what he suffered, he is able to help those who are being tested. Essa versão torna explícita a relação entre prova e sofrimento, embora interprete πειρασθείς como prova produzida “pelo que sofreu”. A YLT conserva a sequência mais rigidamente: for in that he suffered, himself being tempted, he is able to help those who are tempted.
A presente tradução — “Pois, uma vez que ele próprio sofreu ao ser provado, é capaz de ajudar os que são provados” — prefere “provado” para preservar a amplitude de πειράζω e “uma vez que” para tornar audível, sem duplicação causal em português, a relação de ἐν ᾧ γάρ com o sumo sacerdócio misericordioso de 2.17.
Função argumentativa. Hebreus 2 termina retomando o tema do sofrimento com que 2.9–10 abriu a seção e convertendo-o em fundamento para auxílio presente. A trajetória completa do capítulo é, portanto, circular e progressiva: Jesus sofre e morre → é coroado → é aperfeiçoado mediante sofrimentos → compartilha a condição dos irmãos → torna-se sumo sacerdote → pode ajudar aqueles que continuam sendo provados. Essa última afirmação prepara diretamente a retomada do título sacerdotal em 3.1 e, mais adiante, sua elaboração em 4.14–16.
Referências cruzadas. Mt 4.1–11; 26.36–46; Hb 2.9–10,17; 4.14–16; 5.7–9; 7.25; 12.2–4.
