Ir para o conteúdo principal

JSON Variables

Hebreus 11 (BECE)

Fé, Testemunho e Compreensão da Criação

11 Ora, a afé é a brealidade das coisas esperadas, a cprova das coisas não vistas.1 2 Pois, por meio dela, os dantigos receberam etestemunho.2 3 Pela fé, compreendemos que o funiverso foi formado pela gpalavra de Deus, de modo que haquilo que é visto não veio a existir a partir de coisas visíveis.3

“A fé é a realidade das coisas esperadas, a prova das coisas não vistas” — ὑπόστασις, ἔλεγχος e a caracterização inicial da fé

Crítica textual. O NTG-EV lê Ἔστιν δὲ πίστις ἐλπιζομένων ὑπόστασις, πραγμάτων ἔλεγχος οὐ βλεπομένων. Em lugar da sequência ὑπόστασις, πραγμάτων, 𝔓13 apresenta πραγμάτων ἀπόστασις, combinando dois fenômenos: transposição de πραγμάτων e substituição de ὑπόστασις por ἀπόστασις. A forma variante produziria uma construção semanticamente muito distinta, aproximadamente “afastamento/renúncia das coisas”, e encontra apoio isolado. Mantém-se, portanto, ὑπόστασις, πραγμάτων, também impressa por SBLGNT e NA28. A vírgula entre os dois membros pertence à pontuação editorial; não constitui, em si mesma, uma variante manuscrita.

Filologia e sintaxe. Ἔστιν δέ introduz a unidade por uma construção copulativa: πίστις (“fé”) é o sujeito, enquanto ὑπόστασις e ἔλεγχος formam os dois predicativos paralelos. Os genitivos ἐλπιζομένων e πραγμάτων οὐ βλεπομένων especificam, respectivamente, aquilo que é esperado e aquilo que não é visto. O versículo, portanto, possui uma arquitetura equilibrada: πίστις → ὑπόστασις → ἐλπιζόμενα; πίστις → ἔλεγχος → πράγματα οὐ βλεπόμενα. A segunda expressão não é mera repetição estilística da primeira, pois “não visto” possui alcance mais amplo do que simplesmente “futuro” (Attridge, 1989: 308–310; Moffatt, 1924: 159–160).

Ὑπόστασις possui campo semântico amplo. Pode designar aquilo que está subjacente, realidade, substância, base, garantia ou confiança, conforme o contexto. Hebreus já empregou o mesmo substantivo em 1.3, onde a BECE o verteu por “realidade”, e em 3.14, em contexto distinto. A recorrência do lexema não exige uma única tradução mecânica em todas as ocorrências. Para 11.1, Attridge (1989: 308–310) favorece o valor objetivo de “realidade”; Moffatt (1924: 159–160), por sua vez, entende o termo mais proximamente como “confiança” ou “segurança”. deSilva (2000: 383–384) observa que o vocábulo podia igualmente possuir conotações de “garantia” ou mesmo de documento que assegura uma posse e considera impossível demonstrar que apenas uma dessas associações semânticas estivesse ativa para os primeiros ouvintes.

A opção “realidade das coisas esperadas” conserva deliberadamente o polo objetivo da expressão. Ela evita transformar ὑπόστασις numa descrição exclusivamente psicológica do estado interior daquele que crê, como se o substantivo significasse apenas “sentimento de certeza”. Ao mesmo tempo, “realidade” não deve ser lida aqui como definição metafísica técnica: o contexto imediatamente seguinte mostrará a fé operando em ações concretas e orientando pessoas em relação a realidades que ainda não se encontram disponíveis à percepção ordinária (Attridge, 1989: 308–310; deSilva, 2000: 383–384).

Ἔλεγχος também admite mais de uma nuance. O termo pode indicar prova, demonstração, evidência ou convicção produzida por uma demonstração. Em ambientes argumentativos e forenses, pode designar aquilo que estabelece uma questão ou torna uma afirmação demonstrável. deSilva (2000: 384) chama atenção para esse componente objetivo e compara o uso com a linguagem da argumentação antiga; Moffatt (1924: 159–160) acentua mais o resultado subjetivo, “convicção”. A BECE emprega “prova” porque mantém perceptível o valor objetivo do substantivo, enquanto a nota registra “convicção” como alternativa semanticamente real.

Exegese. Hebreus 11.1 não funciona adequadamente como uma definição abstrata e exaustiva de πίστις separada do discurso que a precede e do catálogo que a seguirá. A discussão emerge diretamente de 10.35–39, onde “fé” é contraposta ao recuo e vinculada à perseverança. Em 11.1, o autor caracteriza essa fé segundo sua relação com duas esferas que dominarão o capítulo: aquilo que é esperado e aquilo que não é visto. Os exemplos seguintes concretizarão essa caracterização em comportamentos, decisões e expectativas históricas (Moffatt, 1924: 158–160; deSilva, 2000: 381–384).

“As coisas esperadas” e “as coisas não vistas” se sobrepõem, mas não são equivalentes. Algumas realidades não vistas pertencem ao futuro; outras são apresentadas no capítulo como presentes embora inacessíveis à visão — sobretudo Deus, chamado implicitamente de “o invisível” em 11.27. O contraste visível/invisível, portanto, possui simultaneamente dimensões temporais e perceptivas, e será retomado já no v. 3 na relação entre o mundo percebido e sua origem não perceptível (Attridge, 1989: 309–310).

Versões comparadas. A NAA e a ARA representam ὑπόστασις e ἔλεγχος por “certeza” e “convicção”, privilegiando uma formulação subjetiva. A ARC conserva a tradição “firme fundamento” e “prova”. A NRSV utiliza assurance e conviction; a KJV, substance e evidence; e a YLT, confidence e conviction. A diversidade não decorre de variante textual nesse ponto, mas da amplitude semântica dos dois substantivos gregos. “Realidade [...] prova”, na BECE, procura preservar o caráter objetivo dos dois predicativos sem excluir, na análise, as dimensões de confiança e convicção.

Função argumentativa. O δέ inicial liga a formulação ao argumento precedente em vez de iniciar um tratado independente sobre a fé. O final de 10.39 introduziu explicitamente a πίστις como alternativa ao recuo; 11.1 caracteriza sua relação com o esperado e o invisível, 11.2 apresenta seu resultado na história dos “antigos”, e 11.3 oferece o primeiro exemplo de uma apreensão pela fé, antes que o catálogo passe a Abel, Enoque e Noé. A unidade 11.1–3 funciona, assim, como abertura programática do desenvolvimento iniciado em 10.35–39 (Moffatt, 1924: 158–161).

“Por meio dela, os antigos receberam testemunho” — ἐν ταύτῃ, ἐμαρτυρήθησαν e οἱ πρεσβύτεροι

Crítica textual. O NTG-EV lê ἐν ταύτῃ γὰρ ἐμαρτυρήθησαν οἱ πρεσβύτεροι. 𝔓13 apresenta αὐτῇ em lugar de ταύτῃ. A diferença substitui o demonstrativo (“esta”) pelo pronome (“ela”), mas não modifica substancialmente a referência contextual à πίστις de 11.1. Mantém-se ταύτῃ, leitura também adotada pelo SBLGNT e NA28.

Filologia e sintaxe. Ἐν ταύτῃ retoma imediatamente πίστις e emprega ἐν com valor instrumental ou de esfera: “por meio dela”, “nela”. A tradução “por meio dela” torna explícita a relação segundo a qual a fé é o meio pelo qual ocorre a ação expressa em ἐμαρτυρήθησαν. O γάρ apresenta o v. 2 como fundamentação ou esclarecimento do v. 1: a caracterização recém-oferecida não permanece abstrata; a experiência dos antigos fornece sua primeira confirmação narrativa.

Ἐμαρτυρήθησαν é aoristo passivo de μαρτυρέω. O verbo pode significar “receber testemunho”, “ser atestado”, “ser reconhecido” ou, contextualmente, “receber aprovação”. O valor favorável é inequívoco no fluxo do capítulo, particularmente em 11.4–5 e novamente em 11.39, mas o adjetivo “bom” não está lexicalmente presente em 11.2. Por isso, a BECE conserva a passiva relativamente formal “receberam testemunho”, deixando a natureza favorável desse testemunho ser estabelecida pelo contexto. O grupo μαρτυρ- formará um importante fio lexical dentro da unidade (Moffatt, 1924: 161; deSilva, 2000: 385–386).

Οἱ πρεσβύτεροι não designa aqui ocupantes do ofício comunitário de “presbíteros”. O substantivo aponta retrospectivamente para os predecessores veneráveis cuja história será percorrida a partir de Abel. “Os antigos” evita importar para o versículo uma estrutura eclesiástica ausente do contexto e preserva o caráter coletivo e retrospectivo da expressão. O próprio termo podia possuir conotação honorífica, adequada a personagens cuja memória é apresentada como testemunho favorável (Moffatt, 1924: 161; deSilva, 2000: 385–386).

Exegese. O passivo ἐμαρτυρήθησαν não nomeia expressamente seu agente no v. 2. Os exemplos subsequentes esclarecerão a relação: em 11.4 Deus é apresentado como aquele que testemunha a respeito dos dons de Abel, e em 11.5 Enoque possui, antes de sua translação, o testemunho de ter agradado a Deus. Ao mesmo tempo, as próprias narrativas escriturísticas funcionam no discurso de Hebreus como registro duradouro desse testemunho. Convém, portanto, não inserir “por Deus” no texto principal do v. 2, embora o desenvolvimento do capítulo torne a referência divina central para o conceito (deSilva, 2000: 385–386).

Versões comparadas. NAA e ARA explicitam a valoração com “bom testemunho”; a ARC conserva a expressão mais formal “alcançaram testemunho”. A NRSV reorganiza semanticamente a oração mediante received approval, enquanto a KJV traz obtained a good report. A YLT permanece particularmente próxima da forma passiva, were [...] testified of. A BECE evita acrescentar “bom” ao texto traduzido, mas registra na exegese que o testemunho é inequivocamente favorável no contexto.

Função argumentativa. O v. 2 constitui a ponte entre 11.1 e o catálogo histórico. A fé foi caracterizada pela relação com o esperado e o invisível; agora ela é associada ao testemunho recebido pelos antigos. A partir de 11.4, a repetição anafórica de Πίστει (“pela fé”) mostrará, caso a caso, como esse princípio se manifesta na narrativa das Escrituras. A retomada de μαρτυρέω em 11.39 encerrará o catálogo mediante uma inclusão temática: todos os personagens, apesar de suas diferenças, são reunidos pelo testemunho recebido “por meio da fé”.

“O universo foi formado pela palavra de Deus” — τοὺς αἰῶνας, ῥῆμα θεοῦ e a origem do visível

Crítica textual. No encerramento do versículo, o NTG-EV lê τὸ βλεπόμενον, singular, com 𝔓13, א, A, D*, P, 0285, 33, 81, 1241, 1739 e 1881, além de testemunhos patrísticos como Clemente de Alexandria e Atanásio. D2, K, L, Ψ, 104, 365, 630, 1175, 1505 e a tradição majoritária, com apoio latino e siríaco, apresentam o plural τὰ βλεπόμενα. Mantém-se o singular τὸ βλεπόμενον, igualmente adotado por SBLGNT e NA28. A distinção é perceptível na tradução: “aquilo que é visto”, e não “as coisas que são vistas”.

Filologia e sintaxe. Πίστει ocupa enfaticamente a primeira posição e introduz a fórmula que dominará o capítulo. O dativo pode ser representado naturalmente por “pela fé”, indicando a esfera ou o meio segundo o qual ocorre νοοῦμεν (“compreendemos”). É significativo que o primeiro sujeito explícito dessa série seja a primeira pessoa do plural: antes de narrar a fé de Abel, Enoque, Noé ou Abraão, o autor inclui a si mesmo e seus ouvintes numa afirmação de conhecimento fundamentado em fé (Moffatt, 1924: 161–162).

Νοοῦμεν deriva de νοέω, verbo de percepção intelectual, compreensão ou apreensão. Seu complemento é a oração infinitiva κατηρτίσθαι τοὺς αἰῶνας ῥήματι θεοῦ. Κατηρτίσθαι é infinitivo perfeito passivo de καταρτίζω, verbo que pode significar ajustar, pôr em ordem, preparar, formar ou estabelecer adequadamente. O perfeito contempla a ordem criada como resultado de uma ação já realizada. “Foi formado” oferece em português uma representação suficientemente ampla sem transformar o verbo em simples sinônimo lexical de “criar”.

Τοὺς αἰῶνας, literalmente “as eras”, pode abranger a ordem cósmica organizada no tempo e não apenas uma sucessão cronológica. A mesma expressão apareceu em Hebreus 1.2, onde a BECE já adotou “universo”. A repetição da mesma solução em 11.3 preserva a coerência lexical interna do projeto e evita que “as eras” seja compreendido em português apenas como períodos históricos. A alternativa “mundos”, preservada em várias versões antigas e modernas, é lexicalmente possível, mas pode sugerir ao leitor contemporâneo uma pluralidade de universos que não é exigida pelo texto.

Ῥήματι θεοῦ emprega o dativo para indicar o meio: “pela palavra de Deus”. Ῥῆμα pode designar palavra, enunciado ou pronunciamento. No contexto da criação, a expressão evoca naturalmente o padrão de Gênesis 1, em que a ordem criada surge repetidamente depois do pronunciamento divino, e encontra paralelo particularmente próximo em Salmo 33.6,9 [32.6,9 LXX], onde criação e palavra divina estão diretamente associadas. Hebreus, porém, não introduz nenhuma dessas passagens por fórmula de citação e não reproduz literalmente uma sentença isolada delas. A relação é de eco e síntese escriturística, não de citação formal (Moffatt, 1924: 161–162).

Intertextualidade — criação pela palavra. Gênesis 1 fornece o padrão narrativo fundamental: Deus fala e elementos da ordem criada passam a existir ou recebem sua organização. Salmo 32.6,9 LXX [33.6,9 MT] concentra esse motivo ao relacionar os céus com a palavra do Senhor e afirmar que ele falou e as coisas vieram a existir. Hebreus 11.3 combina essa concepção com sua própria formulação: os αἰῶνες foram καταρτίζω por ῥῆμα θεοῦ. A proximidade temática é inequívoca, mas a terminologia não constitui reprodução verbal de um único texto-fonte.

O membro final exige especial cautela. Εἰς τὸ introduz o resultado ou consequência: “de modo que”. A negação μή pertence à construção μὴ ἐκ φαινομένων [...] γεγονέναι: aquilo que é visto não veio a existir “a partir de coisas que aparecem”. Φαινόμενα e βλεπόμενον pertencem ao mesmo campo perceptivo, mas não são o mesmo lexema: φαίνομαι enfatiza aquilo que aparece ou se manifesta, enquanto βλέπω exprime ver. “Coisas visíveis” oferece uma formulação portuguesa natural para φαινομένων, mas a nota preserva a diferença lexical.

A frase não deve ser silenciosamente reescrita como se o autor tivesse dito explicitamente “do nada”. Em 2Macabeus 7.28 encontra-se uma formulação mais direta, οὐκ ἐξ ὄντων, “não de coisas existentes”, frequentemente evocada na discussão antiga da criação. Hebreus 11.3, porém, emprega μὴ ἐκ φαινομένων, estabelecendo primariamente uma oposição entre aquilo que é perceptível e a origem que não se apresenta como perceptível. A doutrina de criação ex nihilo pode ser discutida no horizonte histórico mais amplo, mas não deve ser introduzida como se fosse equivalência lexical imediata desta expressão (Moffatt, 1924: 161–162).

Versões comparadas. NAA, ARA e NVI empregam “universo” para τοὺς αἰῶνας, enquanto ARC preserva “mundos”; NRSV e KJV igualmente usam worlds, e a YLT conserva literalmente ages. No membro final, a ARA fala de coisas “que não aparecem”, a ARC daquilo “que é aparente”, enquanto NAA, NVI e NRSV explicitam a oposição em termos de “visível”. A YLT conserva mais diretamente a linguagem de manifestação mediante things appearing. A BECE mantém “universo” por coerência com 1.2 e traduz φαινομένων por “coisas visíveis”, registrando a forma mais literal “coisas que aparecem” na análise.

Exegese. O v. 3 fornece uma primeira aplicação da caracterização do v. 1. A própria origem da ordem visível não é objeto de observação humana direta; ela é compreendida mediante a relação entre fé e palavra divina. O versículo não coloca fé e compreensão em oposição: Πίστει νοοῦμεν une explicitamente as duas. A fé é apresentada como condição da apreensão de uma realidade cuja causa não está disponível à observação ordinária, o que antecipa a sequência do capítulo, na qual decisões são orientadas repetidamente por promessas, realidades ou agentes não acessíveis à visão imediata (Attridge, 1989: 309–310; Moffatt, 1924: 161–162).

Função argumentativa. A progressão de 11.1–3 é cuidadosamente construída. O v. 1 caracteriza a fé; o v. 2 relaciona-a ao testemunho dos antigos; o v. 3 inclui autor e ouvintes numa primeira afirmação introduzida por Πίστει. A partir do v. 4, a mesma fórmula passará a governar uma série de personagens. Assim, 11.3 não é uma digressão cosmológica independente: demonstra, antes do catálogo histórico, como a relação com o não visto já estrutura a própria compreensão que o grupo possui da ordem visível.

A Fé nas Primeiras Gerações

4 Pela ifé, jAbel ofereceu a Deus um ksacrifício maior que o de Caim; por meio dela, recebeu testemunho de ser ljusto, Deus dando testemunho a respeito de suas mofertas; e, por meio dela, mesmo depois de morto, nainda fala.4 5 Pela fé, oEnoque foi trasladado para pnão ver a morte e não foi encontrado, porque Deus o trasladou; pois, antes da trasladação, recebeu testemunho de ter qagradado a Deus.5 6 rSem fé, porém, é impossível agradar a Deus, pois quem sse aproxima de Deus deve crer que tele existe e que se torna urecompensador dos que vo buscam.6 7 Pela fé, wNoé, tendo recebido uma advertência divina acerca de coisas xainda não vistas, movido por yreverência, construiu uma zarca para a aasalvação de sua casa; por meio dela, abcondenou o mundo e tornou-se acherdeiro da justiça segundo a fé.7

“Abel ofereceu a Deus um sacrifício maior que o de Caim” — πλείονα θυσίαν, testemunho e a ambiguidade de δι’ ἧς

Crítica textual. O NTG-EV lê προσήνεγκεν τῷ θεῷ (“ofereceu a Deus”); 𝔓13 omite τῷ θεῷ. A presença da expressão é mantida também por SBLGNT e NA28 e fundamenta sua representação explícita na tradução. Mais adiante, o texto-base lê μαρτυροῦντος ἐπὶ τοῖς δώροις αὐτοῦ τοῦ θεοῦ, com αὐτοῦ τοῦ θεοῦ apoiado por 𝔓13*, 𝔓46, א2, D1, K, L, P, Ψ, 0285, 81, 104, 365, 630, 1175, 1241, 1505, 1739, 1881 e 𝔐. א*, A, D* e 33, entre outros, apresentam αὐτοῦ τῷ θεῷ, enquanto 𝔓13c lê αὐτῷ τοῦ θεοῦ. Na leitura adotada, τοῦ θεοῦ é o sujeito do genitivo absoluto μαρτυροῦντος: “Deus dando testemunho”.

No encerramento do versículo, o NTG-EV lê λαλεῖ (“fala”), apoiado por 𝔓13, 𝔓46, א, A, P, 0285, 6, 33, 81, 104, 365, 1241, 1505, 1739 e 1881. D, K, L, Ψ, 630, 1175 e 𝔐 apresentam λαλεῖται. A diferença é relevante para a tradução: λαλεῖ mantém Abel como sujeito da ação — “ainda fala” —, enquanto a forma média/passiva pode favorecer “ainda é mencionado/falado”. A BECE segue o verbo ativo do NTG-EV.

Filologia e sintaxe. Πίστει ocupa novamente a posição inicial e inaugura a anáfora que estruturará grande parte do capítulo. Πλείονα é o comparativo de πολύς e significa fundamentalmente “maior”, “mais”, podendo adquirir, conforme o contexto, valor qualitativo. Por isso, “sacrifício maior” é deliberadamente menos interpretativo que “sacrifício mais excelente”: o texto afirma uma superioridade, mas não determina lexicalmente se πλείονα deve ser entendido segundo quantidade, qualidade ou valor. A própria história interpretativa de Gênesis procurou explicar de maneiras diferentes por que a oferta de Abel foi aceita e a de Caim não foi (Attridge, 1989: 315–316; deSilva, 2000: 388).

Παρά com acusativo estabelece a comparação: πλείονα θυσίαν [...] παρὰ Κάϊν, literalmente “um sacrifício maior [...] que Caim”. O português necessita recuperar o elemento comparado, daí “maior que o de Caim”; o segmento em itálico é suplemento sintático exigido pelo português, não substantivo independente no original.

O primeiro δι’ ἧς é gramaticalmente ambíguo, porque tanto πίστις (“fé”) quanto θυσία (“sacrifício”) são femininos em grego. Assim, Abel pode ter recebido testemunho “por meio da fé” ou “por meio do sacrifício”. A mesma ambiguidade reaparece em δι’ αὐτῆς no final do versículo. O paralelismo com a fórmula Πίστει e com construções semelhantes nesta unidade favorece πίστις como antecedente; essa é a análise adotada por Attridge (1989: 316) e Moffatt (1924: 163–164). Por isso, em português, “por meio dela” retoma “fé”. A alternativa “por meio do sacrifício” permanece gramaticalmente possível e não deve ser convertida em variante textual.

Intertextualidade — Gênesis 4.3–10. Hebreus não cita formalmente Gênesis 4, mas sua dependência da narrativa é direta. Gênesis 4.4 LXX afirma que Deus voltou sua atenção para Abel e para “suas ofertas”, empregando ἐπὶ [...] τοῖς δώροις αὐτοῦ, expressão retomada de maneira particularmente próxima em Hebreus. Gênesis, contudo, não atribui explicitamente a diferença entre os irmãos à πίστις nem chama Abel nesse episódio de δίκαιος. Hebreus relê a narrativa a partir da categoria introduzida em 10.38–39 e 11.1–2, enquanto a designação de Abel como “justo” possui paralelos posteriores em Mt 23.35 e 1Jo 3.12 (Attridge, 1989: 315–317; deSilva, 2000: 388–389).

A afirmação “ainda fala” retoma naturalmente Gn 4.10, onde o sangue de Abel “clama” do solo. Hebreus voltará explicitamente à voz do sangue em 12.24, ao mencionar “o sangue da aspersão, que fala melhor do que Abel”. O v. 4 não esclarece em que sentido preciso Abel continua falando. Foram propostas a voz de seu sangue, o testemunho permanente de sua história e outras elaborações posteriores; o texto apenas atribui a Abel, mesmo morto, uma atividade expressa pelo presente λαλεῖ (Attridge, 1989: 316–317; Moffatt, 1924: 164).

Exegese. Nada em Hebreus autoriza concluir que a oferta de Abel foi superior simplesmente porque consistia em animais e a de Caim em produtos agrícolas. O autor não oferece essa explicação. Seu acréscimo interpretativo decisivo é Πίστει: ele insere a ação de Abel no catálogo da fé e associa essa fé ao testemunho de justiça recebido. A natureza exata da superioridade do sacrifício permanece aberta, e essa reserva deve ser mantida na tradução e no comentário (Attridge, 1989: 315–316; deSilva, 2000: 388).

Versões comparadas. A diversidade das Bíblias do acervo revela precisamente a dificuldade de πλείονα. A NAA traz “um sacrifício mais excelente”, a ARA “mais excelente sacrifício”, a ARC “maior sacrifício” e a Bíblia de Jerusalém “um sacrifício melhor”. A NRSV interpreta more acceptable sacrifice, embora registre em nota que o grego é “greater”; a KJV emprega more excellent sacrifice e a YLT 1863 a better sacrifice. A BECE prefere “um sacrifício maior” porque mantém a amplitude do comparativo sem inserir no texto principal a explicação de sua superioridade.

As versões também resolvem de modo diferente δι’ ἧς. NAA, ARA e ARC usam construções como “pelo qual”, fazendo do sacrifício o antecedente imediato. A Bíblia de Jerusalém emprega “graças a ela”, retomando a fé; a YLT mantém a ambiguidade do inglês com through which. A diferença é interpretativa, não textual. A BECE segue a relação com πίστις considerada mais provável na análise acima.

Função argumentativa. Abel é o primeiro personagem individual do catálogo. O v. 3 havia empregado Πίστει para incluir autor e ouvintes na compreensão da criação; o v. 4 passa à história narrada nas Escrituras e inicia a repetição de Πίστει aplicada aos personagens. Ao mesmo tempo, ἐμαρτυρήθη (“recebeu testemunho”) retoma diretamente o ἐμαρτυρήθησαν de 11.2. O primeiro exemplo concretiza, portanto, os dois termos programáticos já estabelecidos: fé e testemunho.

“Enoque foi trasladado para não ver a morte” — μετατίθημι, Gênesis 5.24 LXX e a interpretação da trasladação

Crítica textual. Antes de μεμαρτύρηται, o NTG-EV lê πρὸ γὰρ τῆς μεταθέσεως (“pois, antes da trasladação”), apoiado por 𝔓13, 𝔓46, א*, A, D*, P, 0285vid, 6, 33, 81, 365, 1241, 1739, 1881, lat e bo. א2, D1, K, L, Ψ, 104, 630, 1175, 1505 e 𝔐 acrescentam αὐτοῦ, produzindo “antes de sua trasladação”. O pronome não é necessário para identificar Enoque como referente e não é representado na tradução, seguindo o NTG-EV, SBLGNT e NA28.

Filologia e sintaxe. Μετετέθη, μετέθηκεν e μεταθέσεως repetem a mesma família lexical de μετατίθημι, “transferir, deslocar, trasladar”. A repetição é deliberadamente preservada por “foi trasladado [...] Deus o trasladou [...] antes da trasladação”. Variar estilisticamente entre “levado”, “arrebatado” e “transportado” apagaria uma ligação lexical explícita do grego.

Τοῦ μὴ ἰδεῖν θάνατον é uma construção com infinitivo articulado e expressa o resultado/finalidade associado à trasladação: literalmente, “para não ver a morte”. “Ver a morte” é uma expressão idiomática para experimentá-la, mas a BECE mantém a imagem do original no texto principal. Οὐχ ηὑρίσκετο é imperfeito passivo de εὑρίσκω; a fórmula descreve Enoque como não encontrado após a ação atribuída a Deus. Μεμαρτύρηται, perfeito passivo de μαρτυρέω, volta ao vocabulário de testemunho de 11.2 e 11.4 e apresenta esse testemunho como vigente no registro utilizado pelo autor.

Intertextualidade — Gênesis 5.22–24 LXX. A formulação de Hebreus depende especialmente da Septuaginta. Onde o texto hebraico diz que Enoque “andou com Deus”, a LXX formula a tradição em termos de εὐαρεστέω, “agradar”: Enoque “agradou a Deus”. A LXX também contém a sequência “não era encontrado, porque Deus o trasladou”, praticamente reproduzida em Hebreus. A principal explicitação de Hebreus é τοῦ μὴ ἰδεῖν θάνατον — “para não ver a morte” —, que interpreta o significado da trasladação em vez de simplesmente repetir a narrativa de Gênesis (Attridge, 1989: 317–318; deSilva, 2000: 389–390).

Tradições judaicas do período do Segundo Templo desenvolveram extensamente a figura de Enoque e sua transferência para a esfera celeste. Hebreus, contudo, não mobiliza aqui os detalhes característicos dessas expansões. Sua argumentação permanece estreitamente vinculada à formulação grega de Gn 5.24 e acrescenta apenas aquilo que necessita para o tema da unidade: a trasladação é explicitada como não experimentar a morte e é atribuída à fé de Enoque (Attridge, 1989: 317).

Exegese. A cláusula final prepara diretamente o v. 6. O texto de Gênesis fornece a afirmação de que Enoque agradou a Deus; Hebreus acrescenta a fé como explicação e, em seguida, transforma essa relação numa proposição geral: se Enoque agradou a Deus e sem fé é impossível agradar, sua ação deve ser compreendida sob a categoria de πίστις. O movimento é, portanto, exegético e argumentativo, não uma informação adicional extraída da narrativa de Gênesis (Attridge, 1989: 317–318).

Versões comparadas. A NAA prefere “Enoque foi levado” e explicita “a fim de não passar pela morte”. A ARA e a ARC conservam “foi trasladado para não ver a morte”, preservando mais diretamente tanto μετατίθημι quanto a expressão ἰδεῖν θάνατον. A Bíblia de Jerusalém traz “foi levado, a fim de escapar da morte”. A NRSV oferece was taken so that he did not experience death. A YLT 1863 é especialmente formal: was translated—not to see death, repetindo depois God translated him. A BECE conserva “trasladado [...] trasladou [...] trasladação” para manter visível a cadeia lexical do grego.

Função argumentativa. Abel havia demonstrado que a morte não encerra o testemunho associado à fé; Enoque fornece uma configuração diferente, na qual a narrativa escriturística é interpretada como não experimentar a morte. Os dois exemplos não são idênticos, mas aproximam fé, testemunho, aprovação e morte antes que o v. 6 formule o princípio que torna Enoque pertinente ao catálogo.

“Sem fé [...] é impossível agradar a Deus” — aproximação, existência e recompensa

Crítica textual. O NTG-EV lê τὸν προσερχόμενον τῷ θεῷ (“aquele que se aproxima de Deus”), com τῷ θεῷ apoiado por 𝔓46, א2, A, D*, K, L, P, Ψ, 0285, 81, 104, 365, 630, 1175, 1505, 1739, 1881 e 𝔐. א*, D1, I, 33, 326 e 1241, além de Epifânio, omitem τῷ θεῷ. Mantém-se a forma expressa no NTG-EV. No segmento seguinte, ἐκζητοῦσιν (“buscam, procuram diligentemente”) é a leitura adotada; 𝔓13 e P apresentam a forma simples ζητοῦσιν. A variante não modifica o referente, mas reduz a composição verbal.

Filologia e sintaxe. Χωρὶς δὲ πίστεως coloca “sem fé” em posição inicial contrastiva. Εὐαρεστῆσαι não possui objeto expresso no v. 6; “a Deus” é recuperado da oração imediatamente anterior, εὐαρεστηκέναι τῷ θεῷ, em 11.5. Por essa razão, a BECE marca a Deus em itálico: o referente é contextualmente inequívoco, mas não possui equivalente lexical independente neste ponto do texto grego.

Πιστεῦσαι γὰρ δεῖ introduz necessidade mediante o impessoal δεῖ: “pois [...] deve crer”. O sujeito lógico aparece no acusativo τὸν προσερχόμενον τῷ θεῷ, “quem se aproxima de Deus”. Προσέρχομαι é especialmente importante em Hebreus e designa repetidamente a aproximação a Deus ou ao santuário (4.16; 7.25; 10.1,22). Assim, a formulação não descreve simplesmente uma opinião intelectual abstrata, mas situa a crença no contexto daquele que se aproxima de Deus (Attridge, 1989: 318).

Ὅτι ἔστιν afirma simplesmente “que ele existe/é”. O versículo não desenvolve uma definição da natureza divina nem uma demonstração de sua existência; apresenta a existência de Deus como primeira condição da ação daquele que se aproxima. A segunda proposição é καὶ τοῖς ἐκζητοῦσιν αὐτὸν μισθαποδότης γίνεται. Μισθαποδότης significa “recompensador”, “aquele que dá recompensa” e pertence à mesma família de μισθαποδοσία, empregada em 2.2, 10.35 e 11.26. O verbo é γίνεται, não ἐστίν; “se torna recompensador” procura preservar essa construção predicativa sem reduzi-la simplesmente a “é recompensador” (Attridge, 1989: 318; Moffatt, 1924: 167–168).

Ἐκζητέω contém o mesmo radical de ζητέω acrescido de ἐκ-. Conforme o contexto, a forma composta pode intensificar a ideia de busca, daí traduções possíveis como “buscar diligentemente” ou “procurar seriamente”. Como a intensidade do prefixo não deve ser mecanicamente maximizada em cada composto, a BECE mantém a forma natural “os que o buscam” e registra aqui a estrutura lexical.

Exegese. O versículo nasce diretamente da referência a Enoque, não de uma interrupção doutrinária independente. O dado escriturístico é que Enoque agradou a Deus; a inferência de Hebreus é que a fé constitui condição necessária para esse agrado. O autor então explicita dois conteúdos associados a essa fé: a existência daquele a quem se aproxima e sua função como recompensador dos que o buscam. Attridge (1989: 318) observa que os dois elementos correspondem bem ao horizonte de 11.1: uma realidade invisível e um bem que se espera receber. A formulação, porém, não pretende esgotar o conteúdo de πίστις no restante da obra.

A linguagem de recompensa deve ser lida dentro do próprio vocabulário de Hebreus. Μισθαποδοσία apareceu em 10.35, onde a “confiança” possui grande recompensa, e reaparecerá em 11.26 na caracterização de Moisés. O tema, portanto, não é importado de uma teoria externa de mérito, mas pertence à arquitetura lexical do discurso: determinadas ações são avaliadas em relação a um resultado futuro (deSilva, 2000: 390).

Versões comparadas. A NAA traduz a última cláusula por “recompensa os que o buscam”, convertendo μισθαποδότης γίνεται numa construção verbal. A ARA preserva mais componentes da superfície grega com “se torna galardoador”; a ARC traz “é galardoador”. A Bíblia de Jerusalém também emprega “recompensa”. A NRSV lê he rewards those who seek him. A YLT 1863 apresenta He is a rewarder; significativamente, a revisão posterior de Young adotaria He becometh a rewarder. A BECE emprega “se torna recompensador”, representando tanto μισθαποδότης quanto γίνεται e evitando o arcaísmo “galardoador”.

Função argumentativa. O v. 6 explica retrospectivamente o exemplo de Enoque e prospectivamente prepara os demais exemplos. A fé do catálogo não é apresentada como ação sem referente: ela pressupõe confiança na realidade de Deus e orientação do comportamento por uma recompensa que ainda não está disponível à percepção. Esse princípio será imediatamente dramatizado por Noé, cuja conduta responde a “coisas ainda não vistas”.

“Noé [...] acerca de coisas ainda não vistas” — advertência divina, reverência, arca e justiça segundo a fé

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV não registra, em 11.7, variante que exija alteração da tradução. A unidade é, portanto, traduzida segundo o texto-base: Πίστει χρηματισθεὶς Νῶε [...] τῆς κατὰ πίστιν δικαιοσύνης ἐγένετο κληρονόμος. Questões como o referente de δι’ ἧς pertencem à sintaxe e à interpretação, não à crítica textual.

Filologia e sintaxe. Χρηματισθείς é particípio aoristo passivo de χρηματίζω. Em contextos bíblicos, particularmente na voz passiva, o verbo pode designar receber comunicação, instrução ou advertência de origem divina. “Tendo recebido uma advertência divina” procura conservar essa especificidade; o texto não apresenta Noé como alguém que simplesmente deduziu o perigo a partir de sinais observáveis.

Περὶ τῶν μηδέπω βλεπομένων, “acerca de coisas ainda não vistas”, retoma de maneira transparente πραγμάτων [...] οὐ βλεπομένων de 11.1. Aqui, porém, o referente do “não visto” é mais determinado: trata-se do acontecimento futuro anunciado a Noé. Assim, o capítulo passa da formulação abstrata do v. 1 para um caso narrativo no qual uma ação presente é governada por informação acerca de um evento ainda indisponível à visão (Attridge, 1989: 319; deSilva, 2000: 390–391).

Εὐλαβηθείς é particípio de εὐλαβέομαι. O campo lexical envolve cautela, temor reverente e consideração respeitosa. Traduzir simplesmente por “teve medo” pode sugerir que a motivação apresentada por Hebreus seja pânico diante do dilúvio. No contexto, porém, o termo caracteriza a resposta apropriada à comunicação divina. Tanto Moffatt (1924: 168) quanto Attridge (1989: 319) consideram “reverência” mais adequada que medo ou terror. “Movido por reverência” preserva essa distinção sem eliminar completamente o componente de cautela pertencente ao lexema.

Κατεσκεύασεν κιβωτόν significa “construiu/preparou uma arca”. O verbo κατασκευάζω já ocorre em Hebreus para preparação ou construção (3.3–4; 9.2,6). Εἰς σωτηρίαν introduz o resultado/finalidade, “para a salvação”, e τοῦ οἴκου αὐτοῦ significa literalmente “de sua casa”. Οἶκος pode designar a edificação ou, metonimicamente, o grupo doméstico; aqui o relato de Gênesis torna inequívoco o segundo valor. A BECE conserva “sua casa” para manter a terminologia do substantivo, enquanto “sua família” constitui a explicitação encontrada em algumas versões.

Δι’ ἧς é novamente ambíguo. Tanto πίστις (“fé”) quanto κιβωτός (“arca”) são femininos em grego e podem funcionar formalmente como antecedente. A proximidade imediata favorece “arca”, mas a repetição de Πίστει e a estrutura argumentativa do catálogo favorecem “fé”; esta é a análise de Moffatt (1924: 168), e Attridge (1989: 319) igualmente considera a fé o antecedente mais provável. O português “por meio dela” mantém uma parcela da ambiguidade porque “fé” e “arca” são também femininos, razão pela qual não se acrescentou o substantivo no texto traduzido.

Intertextualidade — Gênesis 6–9. O autor condensa uma extensa narrativa. A advertência pressupõe especialmente Gn 6.13–21; a construção da arca e a resposta obediente remetem a Gn 6.22; a salvação da casa de Noé corresponde ao desenlace narrado em Gn 7; e a caracterização final de “justiça” encontra antecedente em Gn 6.9, onde Noé é denominado justo. Hebreus não apresenta esses elementos como citação contínua e não reproduz uma única sentença de Gênesis. Trata-se de uma síntese interpretativa orientada pela categoria πίστις (Attridge, 1989: 319–320).

“Condenou o mundo”. Κατέκρινεν τὸν κόσμον não significa que Noé tenha formalmente exercido função judicial sobre toda a humanidade. Sua resposta à advertência pode ser entendida como condenação por contraste: a ação de quem confia na comunicação recebida evidencia, por oposição, a resposta dos demais. Há também tradição antiga que apresenta Noé proclamando arrependimento aos contemporâneos, e 2Pe 2.5 o denomina “pregador da justiça”. Essa tradição pode ter contribuído para a formulação, mas Hebreus 11.7 não menciona atividade de pregação; por isso, ela não deve ser introduzida na tradução como dado explícito (Attridge, 1989: 319; deSilva, 2000: 391).

“Herdeiro da justiça segundo a fé”. Τῆς κατὰ πίστιν δικαιοσύνης depende de κληρονόμος: Noé “tornou-se herdeiro da justiça segundo a fé”. Κατά com acusativo estabelece conformidade ou relação — daí “segundo a fé”. Embora a expressão possa lembrar formulações paulinas, seu sentido deve ser determinado a partir de Hebreus. O contexto imediato associa δικαιοσύνη tanto a Abel, que “recebeu testemunho de ser justo” em 11.4, quanto ao “justo” de Hab 2.4 citado em 10.38. Aqui a fé de Noé manifesta-se na resposta reverente e na construção da arca; o autor não introduz uma discussão independente sobre o mecanismo de justificação (Attridge, 1989: 319–320).

Κληρονόμος, “herdeiro”, acrescenta ao bloco o vocabulário de herança que será amplamente desenvolvido na sequência sobre Abraão. Noé encerra a série anterior ao dilúvio tornando-se “herdeiro”; o v. 8 começará com Abraão saindo para um lugar que estava destinado a receber “por herança”. A escolha lexical estabelece, portanto, uma transição entre as duas partes do catálogo (Attridge, 1989: 320).

Versões comparadas. Para εὐλαβηθείς, as versões do acervo distribuem-se entre temor e reverência. A NAA e a ARA usam “sendo temente a Deus”; a ARC diz simplesmente “temeu”. A Bíblia de Jerusalém interpreta a atitude por “levou a sério o oráculo”; a NRSV traz respected the warning, enquanto a YLT 1863 preserva de maneira mais literal having feared. A BECE emprega “movido por reverência”, solução que conserva o componente de εὐλάβεια e evita reduzir a resposta de Noé a medo diante do desastre.

Em δι’ ἧς, ARA e ARC empregam “pela qual”, que, pela proximidade em português, tende a remeter à arca; a NAA neutraliza a conexão com “Assim”; a Bíblia de Jerusalém explicita “Pela fé”; a NRSV utiliza by this e a YLT by which, deixando o antecedente menos determinado. Para κατὰ πίστιν, ARC conserva “segundo a fé”, enquanto NAA e ARA interpretam “justiça que vem da fé” e a Bíblia de Jerusalém “justiça que se obtém pela fé”. A BECE mantém “justiça segundo a fé” para representar diretamente a construção com κατά.

Função argumentativa. Noé encerra a primeira sequência do catálogo — criação, Abel, Enoque e Noé — e reúne diversos termos programáticos. Ele age por πίστις; sua ação responde a algo “ainda não visto”, retomando 11.1; obtém σωτηρία, termo importante no restante de Hebreus; é relacionado à δικαιοσύνη já aplicada a Abel; e se torna κληρονόμος, termo que prepara imediatamente o ciclo de Abraão. O v. 7 funciona, assim, simultaneamente como conclusão da série antediluviana e como transição lexical para 11.8–22.

Abraão: Chamado, Residência Estrangeira e Expectativa da Cidade

8 Pela adfé, Abraão, quando chamado, obedeceu ao chamado para sair para aeum lugar que estava para receber como herança; e afsaiu sem saber para onde ia.8 9 Pela fé, agresidiu como estrangeiro na terra da promessa, como em terra alheia, ahhabitando em tendas com Isaque e Jacó, aicoerdeiros da mesma promessa.9 10 Pois aguardava aja cidade que tem fundamentos, cujo akartífice e construtor é Deus.10

“Abraão, quando chamado, obedeceu [...] e saiu” — καλούμενος, ὑπήκουσεν ἐξελθεῖν e a indeterminação do destino

Crítica textual. O NTG-EV lê καλούμενος Ἀβραὰμ, sem artigo diante do particípio, com א, D2, K, L, P, Ψ, 81, 104, 365, 630, 1175, 1241, 1505 e 𝔐. 𝔓46, A, D*, 33, 1739 e 1881 apresentam ὁ καλούμενος. Com o artigo, a expressão poderia ser entendida substantivamente como “Abraão, aquele que foi chamado”; sem ele, καλούμενος funciona naturalmente como particípio circunstancial associado à ação principal: “Abraão, quando chamado”. Mantém-se a leitura do NTG-EV, também adotada por SBLGNT e NA28 (Attridge, 1989: 321).

Mais adiante, o NTG-EV lê εἰς τόπον, “para um lugar”, com 𝔓46, א*, A, D*, P, Ψ, 33, 81, 104, 365 e 1241. א2, D2, K, L, 630, 1175, 1505, 1739, 1881 e 𝔐 acrescentam o artigo: εἰς τὸν τόπον, “para o lugar”. A ausência do artigo harmoniza-se particularmente bem com a caracterização subsequente da viagem como empreendimento cujo destino ainda não era conhecido por Abraão. A tradução, por isso, mantém “um lugar”, sem converter a variante com artigo em texto principal.

Filologia e sintaxe. Πίστει abre novamente a oração e mantém a anáfora estrutural iniciada em 11.3–4. O particípio presente passivo καλούμενος, “sendo chamado”, é contemporâneo à resposta descrita por ὑπήκουσεν. O verbo ὑπακούω expressa escutar de maneira responsiva e, por extensão, obedecer. O infinitivo ἐξελθεῖν pode ser ligado diretamente ao verbo de obediência — “obedeceu em sair” — e esta análise é sintaticamente preferível; também é possível relacioná-lo mais estreitamente a καλούμενος, “chamado a sair” (Attridge, 1989: 321–322; Moffatt, 1924: 169). A tradução “obedeceu ao chamado para sair” explicita em português essa relação sem acrescentar uma nova ação; “ao chamado” aparece em itálico porque não corresponde a um segundo substantivo grego independente.

Ἢμελλεν λαμβάνειν combina o imperfeito de μέλλω com o infinitivo presente de λαμβάνω e apresenta a posse da herança como prospectiva: era algo que Abraão “estava para receber”. Εἰς κληρονομίαν expressa o resultado ou finalidade dessa recepção, “como herança”. O vocabulário continua uma cadeia já estabelecida em Hebreus: κληρονόμος aparece em 11.7 para Noé, enquanto κληρονομία e os verbos da mesma família foram empregados anteriormente em 1.14; 6.12,17; 9.15. A entrada de Abraão no catálogo, portanto, não inicia um novo tema lexical, mas desenvolve o motivo de promessa e herança.

A frase final combina o aoristo ἐξῆλθεν, “saiu”, com o particípio μὴ ἐπιστάμενος, “não sabendo”, e o presente ἔρχεται, literalmente “vai/está indo”. A mudança de tempo é real no grego. A YLT 1863 a conserva de modo bastante estrito: he went out, not knowing whither he goeth. Em português corrente, “saiu sem saber para onde ia” representa naturalmente a relação temporal sem sugerir que ἔρχεται seja morfologicamente imperfeito. A forma grega permanece registrada aqui para que a normalização idiomática não seja confundida com a estrutura verbal do texto.

Intertextualidade — Gênesis 12.1–7. Hebreus condensa a sequência de Gênesis 12. A ordem divina aparece primeiro sem que o destino seja nomeado: “vai [...] para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12.1); Abraão parte em seguida (Gn 12.4); somente depois de sua chegada a terra é explicitamente vinculada à promessa de descendência (Gn 12.7). Hebreus transforma essa disposição narrativa numa caracterização da fé: Abraão obedece enquanto o destino permanece desconhecido (deSilva, 2000: 393–394; Attridge, 1989: 321–322).

O autor não reproduz uma citação formal de Gênesis. Ele seleciona e reorganiza elementos da narrativa — chamado, saída, destino ainda desconhecido e futura herança — sob a rubrica Πίστει. A caracterização de Abraão como obediente é inferida do próprio desenrolar de Gn 12.1–4; o texto de Gênesis não emprega ali o substantivo πίστις para qualificar sua partida (deSilva, 2000: 393).

Versões comparadas. As Bíblias da pasta do projeto convergem na estrutura geral, mas revelam decisões distintas para καλούμενος e ὑπήκουσεν ἐξελθεῖν. A NAA e a ARA trazem “quando chamado, obedeceu, a fim de ir”; a ARC preserva “sendo chamado, obedeceu, indo”; a Bíblia de Jerusalém reformula a ligação como “respondendo ao chamado, obedeceu e partiu”. A YLT 1863 conserva mais visivelmente a construção do grego: being called, obeyed, to go out. A BECE emprega “quando chamado, obedeceu ao chamado para sair”, procurando manter separados o particípio, o verbo de obediência e o infinitivo.

Também há diferença na representação de μέλλω. NAA e ARA usam “devia receber”; ARC, “havia de receber”; a Bíblia de Jerusalém igualmente “devia receber”; a YLT 1863 explicita o valor prospectivo com was about to receive. “Estava para receber” foi adotado por representar mais diretamente ἤμελλεν sem converter a expressão numa ideia de obrigação.

Exegese. O destaque do v. 8 não repousa simplesmente no deslocamento geográfico. O texto associa três elementos: chamado, obediência e um bem ainda futuro. A fé manifesta-se precisamente no intervalo entre a ordem recebida e o conhecimento pleno de seu resultado. Essa orientação prospectiva retomará a caracterização de 11.1 e será intensificada nos vv. 9–10, nos quais nem mesmo a chegada à terra encerra o movimento de expectativa (Attridge, 1989: 321–322).

Função argumentativa. Abraão recebe tratamento muito mais amplo que Abel, Enoque ou Noé. O v. 8 inicia a primeira fase desse desenvolvimento: a fé produz obediência a uma convocação cujo resultado permanece futuro. A repetição de ἐξέρχομαι — ἐξελθεῖν [...] ἐξῆλθεν — enfatiza a partida e introduz o motivo espacial que dominará 11.8–16: lugar, terra, estrangeiridade, cidade e pátria.

“Res idiu como estrangeiro na terra da promessa” — παροικέω, terra alheia, tendas e coerdeiros

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV utilizado pelo projeto não destaca em 11.9 uma variante selecionada que exija modificação da tradução. O versículo é, portanto, vertido segundo a sequência Πίστει παρῴκησεν [...] τῆς ἐπαγγελίας τῆς αὐτῆς. Isso não significa ausência absoluta de variação na tradição manuscrita, mas apenas que nenhuma variante registrada no aparato-base desta unidade altera a decisão tradutória aqui tomada.

Filologia e sintaxe. Παρῴκησεν deriva de παροικέω. O verbo pode significar morar temporariamente, residir num lugar sem pertencer plenamente a ele ou viver como estrangeiro. A tradução “residiu como estrangeiro” torna explícito o componente de condição estrangeira que o português “habitou” não comunica por si só. Em seguida, ὡς ἀλλοτρίαν qualifica a terra prometida como “como em terra alheia”. Ἀλλότριος designa aquilo que pertence a outro, aquilo que não é próprio; a combinação é deliberadamente paradoxal: a “terra da promessa” é vivida como terra de outro (Attridge, 1989: 322–323).

Παροικέω pode ser contrastado com κατοικέω, verbo empregado no particípio κατοικήσας mais adiante no mesmo versículo. O primeiro frequentemente destaca residência provisória ou estrangeira, enquanto o segundo pode designar simplesmente morar ou residir. A distinção não deve, porém, ser absolutizada: ambos podem funcionar como sinônimos em certos contextos, inclusive nas narrativas bíblicas dos patriarcas (Attridge, 1989: 322).

Ἐν σκηναῖς κατοικήσας, “habitando em tendas”, acrescenta uma imagem espacial concreta à condição de estrangeiro. Σκηνή pode designar tenda ou tabernáculo; neste contexto doméstico-patriarcal, “tendas” é o equivalente português não marcado. A imagem não serve apenas como informação antiquária sobre o modo de vida dos patriarcas. Dentro da argumentação de Hebreus, a habitação móvel e provisória prepara o contraste com a πόλις do v. 10, apresentada como possuidora de fundamentos permanentes (Attridge, 1989: 322–323; Moffatt, 1924: 169–170).

Isaac e Jacó são chamados τῶν συγκληρονόμων, “coerdeiros”. O composto συγκληρονόμος designa pessoas que participam conjuntamente da mesma herança. O complemento τῆς ἐπαγγελίας τῆς αὐτῆς enfatiza que não se trata de promessas independentes: os três patriarcas estão vinculados à “mesma promessa”. A expressão conecta o v. 9 tanto ao vocabulário de herança do v. 8 quanto à reflexão coletiva dos vv. 13–16.

Intertextualidade. A descrição reúne diferentes traços das tradições patriarcais. Abraão se identifica explicitamente como estrangeiro e residente temporário em Gn 23.4; a linguagem da promessa da terra percorre Gn 12.7; 13.14–15; 15.7; 17.8. A residência em tendas corresponde ao modo de vida narrado em passagens como Gn 12.8; 13.3,18; 18.1 e, posteriormente, 26.25. Isaac e Jacó aparecem como continuadores das promessas dadas a Abraão (Gn 26.3–4; 28.13–15). Hebreus combina essas tradições numa única descrição orientada pela categoria da fé.

Contexto histórico-cultural. No mundo mediterrânico antigo, pertença à cidade e à terra de origem possuía consequências jurídicas e sociais importantes. A condição de estrangeiro ou residente sem cidadania plena podia envolver perda de status, maior vulnerabilidade e menor acesso às estruturas locais de honra e proteção. A literatura greco-romana e judaica também testemunha o estigma potencial associado ao exílio e à residência fora da pátria. Nesse horizonte, a caracterização de Abraão como alguém que voluntariamente deixa sua terra e permanece como estrangeiro intensifica socialmente o contraste entre a promessa recebida e sua condição presente (deSilva, 2000: 394–395).

Essa observação não permite reconstruir retrospectivamente cada detalhe da experiência histórica de Abraão segundo instituições cívicas do período romano. Sua função é mais limitada: esclarecer por que, para ouvintes antigos, “residir como estrangeiro” podia comunicar algo mais oneroso do que simplesmente mudar de endereço. deSilva (2000: 394–395) utiliza precisamente esse ambiente social para explicar a força retórica da imagem no discurso dirigido aos ouvintes de Hebreus.

Versões comparadas. A NAA e a ARA representam παρῴκησεν por “peregrinou” e ὡς ἀλλοτρίαν por “como em terra alheia”. A ARC reduz a primeira nuance com “habitou”, embora mantenha “como em terra alheia”. A Bíblia de Jerusalém explicita a condição social: “residiu como estrangeiro na terra prometida”. A YLT 1863 traz sojourned in the land of promise as in a strange country. A BECE adota “residiu como estrangeiro” porque comunica diretamente o valor de παροικέω sem transformar a oração numa descrição de deslocamento contínuo.

No segundo membro, NAA e ARA usam “tendas”; ARC conserva “cabanas”; a Bíblia de Jerusalém também emprega “tendas”; e a YLT 1863 mantém o inglês tradicional tabernacles. Para συγκληρονόμων, a Bíblia de Jerusalém e a YLT representam formalmente o composto por “co-herdeiros”/fellow-heirs, ao passo que NAA, ARA e ARC o expandem como “herdeiros com ele”. A BECE conserva “coerdeiros”, reproduzindo a morfologia composta sem necessidade de paráfrase.

Exegese. O paradoxo narrativo é deliberado: Abraão chega à “terra da promessa”, mas sua chegada não equivale à posse estável que o vocabulário de herança poderia sugerir. Ele permanece nela “como em terra alheia”. Assim, a promessa não é anulada, mas sua plena realização é diferida. Esse descompasso entre promessa e experiência prepara a explicação do v. 10 e, depois, a generalização de 11.13–16 (Attridge, 1989: 322–323).

Função argumentativa. O v. 8 descrevia a saída sem conhecimento do destino; o v. 9 acrescenta que conhecer e alcançar a terra tampouco encerra a condição de expectativa. A anáfora Πίστει, portanto, cobre tanto a partida quanto a permanência. O contraste “terra da promessa” / “terra alheia” e “tendas” / “cidade” desloca progressivamente a atenção da geografia alcançada para a realidade ainda esperada.

“A cidade que tem fundamentos” — expectativa, permanência e Deus como τεχνίτης e δημιουργός

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV utilizado para esta unidade não destaca em 11.10 uma variante selecionada que modifique a tradução. A análise parte, portanto, da sequência ἐξεδέχετο γὰρ τὴν τοὺς θεμελίους ἔχουσαν πόλιν, ἧς τεχνίτης καὶ δημιουργὸς ὁ θεός.

Filologia e sintaxe. Γάρ apresenta o v. 10 como explicação do v. 9: Abraão aceita a residência provisória em tendas porque “aguardava” outra realidade. Ἐξεδέχετο é imperfeito de ἐκδέχομαι e descreve uma expectativa continuada — “aguardava”, “esperava”. A forma não significa que Abraão procurava visualmente uma cidade já localizada no horizonte; expressa espera persistente por algo esperado (Attridge, 1989: 323).

Τὴν τοὺς θεμελίους ἔχουσαν πόλιν significa literalmente “a cidade que tem os fundamentos”. Θεμέλιος designa fundamento ou fundação de uma construção. O artigo τούς não exige que o português produza a expressão marcada “os fundamentos”; “que tem fundamentos” comunica naturalmente a propriedade atribuída à cidade. A imagem estabelece contraste com as σκηναί do v. 9: tendas são habitações móveis; uma cidade assentada sobre fundamentos representa estabilidade e permanência (Attridge, 1989: 322–323; Moffatt, 1924: 170).

Τεχνίτης deriva de τέχνη e designa artesão, artífice ou pessoa habilitada numa arte; conforme o objeto, pode adquirir o sentido de projetista ou arquiteto. Δημιουργός possui história semântica mais ampla: originalmente podia designar trabalhador que exerce uma função pública e, posteriormente, artesão, autor, construtor ou criador. Em literatura filosófica e religiosa grega, tornou-se também designação do responsável pela formação do cosmos. Hebreus reúne os dois substantivos em uma expressão retórica aplicada a Deus (Attridge, 1989: 323–324; Moffatt, 1924: 170).

A tradução “artífice e construtor” mantém os dois substantivos sem impor entre eles uma divisão técnica excessivamente rígida, como se τεχνίτης designasse exclusivamente o arquiteto que projeta e δημιουργός exclusivamente o operário que executa. O contexto afirma fundamentalmente que a origem e a constituição da cidade pertencem a Deus; a combinação dos termos reforça essa atribuição (Moffatt, 1924: 170).

Intertextualidade e desenvolvimento interno. A “cidade” não aparece como objeto da promessa feita a Abraão no relato de Gn 12.1–7. Trata-se de uma interpretação introduzida por Hebreus. A imagem de uma cidade com fundamentos pode evocar descrições bíblicas da estabilidade de Sião/Jerusalém, como Sl 87.1 [86.1 LXX], Is 33.20 e Is 54.11, mas o autor não cita formalmente nenhuma dessas passagens (Attridge, 1989: 323).

O próprio discurso elimina a possibilidade de identificar simplesmente essa cidade com a Jerusalém terrestre. Em 11.14–16, a expectativa dos patriarcas será explicada em termos de uma “pátria melhor”, isto é, “celestial”, e o v. 16 concluirá que Deus “lhes preparou uma cidade”. Em 12.22, o destino será nomeado como “cidade do Deus vivo, Jerusalém celestial”; em 13.14, a comunidade será novamente caracterizada como não possuindo aqui “cidade permanente”, mas buscando a futura. A identificação da cidade de 11.10 deve, portanto, ser feita a partir dessa rede interna, não mediante uma leitura isolada do versículo (Attridge, 1989: 323–324).

Contexto histórico-literário. A expectativa de uma Jerusalém transcendente ou previamente preparada encontra paralelos em tradições judaicas do Segundo Templo. Textos apocalípticos podiam conceber uma cidade celestial preparada por Deus, e tradições posteriores chegaram a associar sua revelação a personagens patriarcais. Paralelos desse tipo ajudam a situar a linguagem de Hebreus, mas não demonstram dependência literária direta. A formulação do autor deve ser explicada primeiramente pelo desenvolvimento interno de seu próprio contraste entre o transitório e o permanente (Attridge, 1989: 323–324).

Versões comparadas. A NAA traduz “a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor”. A ARA mantém a primeira expressão, mas prefere “arquiteto e edificador”. A ARC oferece “artífice e construtor”, enquanto a Bíblia de Jerusalém lê “cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus”. A YLT 1863 conserva uma distinção formal particularmente próxima dos substantivos gregos: the city having the foundations, whose artificer and constructor is God. A BECE adota “artífice e construtor”, evitando tanto fundir os termos quanto atribuir a τεχνίτης uma especialização arquitetônica que o lexema não exige por si só.

Quanto a ἐξεδέχετο, NAA e ARA usam “aguardava”, ARC “esperava”, Bíblia de Jerusalém “esperava” e YLT 1863 was looking for; o próprio material autoral de Young esclarece esse último como expectativa — was expecting / was waiting for. “Aguardava” representa adequadamente o aspecto durativo do imperfeito e evita a leitura espacial de “procurava”.

Exegese. O v. 10 fornece a razão pela qual a situação do v. 9 não constitui contradição interna para o argumento. A terra prometida é alcançada, mas a existência em tendas permanece provisória porque a expectativa atribuída a Abraão ultrapassa aquela ocupação territorial. Hebreus interpreta, assim, a narrativa patriarcal em direção a uma realidade futura e estável que só será explicitada como celestial nos vv. 14–16 (Attridge, 1989: 323; deSilva, 2000: 393–394).

Função argumentativa. A sequência dos três versículos produz uma progressão precisa: no v. 8, Abraão parte em direção a um lugar ainda desconhecido; no v. 9, chega à terra da promessa, mas vive nela como estrangeiro; no v. 10, explica-se essa permanência provisória pela expectativa de uma cidade estável cuja origem é divina. “Lugar” → “terra” → “cidade” constitui, portanto, uma progressão espacial, enquanto chamado → promessa → expectativa constitui a progressão argumentativa correspondente. O bloco abre o desenvolvimento que culminará na “pátria melhor” de 11.16.

Abraão e Sara: A Promessa da Descendência

11 Pela fé, também com alSara, [Abraão] recebeu poder para gerar descendência, mesmo além da idade própria, pois amconsiderou fiel aquele que havia prometido.11 12 Por isso, também de um só — e esse anjá como morto — nasceram [descendentes], aocomo as estrelas do céu em número e como a areia incontável à beira do mar.12

“Também com Sara, [Abraão] recebeu poder para gerar descendência” — αὐτῇ Σάρρᾳ e a difícil sintaxe de Hebreus 11.11

Crítica textual. O NTG-EV lê καὶ αὐτῇ Σάρρᾳ, tomando αὐτῇ Σάρρᾳ no dativo, e não contém στεῖρα, “estéril”. A tradição que não apresenta στεῖρα inclui 𝔓13vid, א, A, D2, K, L, 33, 630, 1175 e 𝔐. A questão é especialmente delicada porque, na escrita uncial, o iota que distinguiria graficamente o dativo nem sempre era representado; consequentemente, a sequência ΑΥΤΗ ΣΑΡΡΑ pôde ser interpretada editorialmente tanto como nominativo αὐτὴ Σάρρα quanto como dativo αὐτῇ Σάρρᾳ. O NTG-EV adota a segunda análise. A NA28, como controle externo, imprime αὐτὴ Σάρρα στεῖρα, fazendo de Sara o sujeito expresso. A dificuldade da tradição é reconhecida também pela crítica textual moderna, que registra como possibilidade real a análise de αὐτῇ Σάρρᾳ como dativo de acompanhamento (Metzger, 1994: 672–673; Attridge, 1989: 324–325).

A tradição apresenta ainda expansões que procuram tornar a frase mais explícita. Depois de ἔλαβεν, D*, P, 81, 1505, b, vgms e syh acrescentam εἰς τὸ τεκνῶσαι, “para gerar/dar à luz”; depois de ἡλικίας, א2, D2, K, L, P, 104, 365, 630, 1175, 1241, 1505, 𝔐, b e sy acrescentam ἔτεκεν, “deu à luz”. O NTG-EV conserva em ambos os lugares a forma mais breve. Essas diferenças são tradutoriamente importantes: a presente versão não introduz “estéril” nem “deu à luz” no corpo do texto, porque nenhum dos dois elementos pertence à leitura-base adotada.

Filologia e sintaxe. A opção αὐτῇ Σάρρᾳ permite compreender o dativo como acompanhamento: Abraão, sujeito recuperado do contexto precedente, recebe a capacidade “também com Sara”. Αὐτός com um dativo desse tipo pode acompanhar a pessoa associada à ação sem necessariamente carregar a ênfase forte que “a própria Sara” produziria em português. A tradução “também com Sara” procura, portanto, representar a função sintática da leitura adotada sem transformar Sara no sujeito da oração (Attridge, 1989: 325).

O nome “[Abraão]” aparece entre colchetes porque não é repetido lexicalmente no v. 11. Ele é recuperado como sujeito a partir dos vv. 8–10 e torna-se novamente explícito conceitualmente no v. 12 por ἀφ’ ἑνός, “de um só”. A explicitação editorial evita que o português, pela simples proximidade de “Sara” ao verbo, leve o leitor a reconstruir justamente a sintaxe nominativa que o NTG-EV não adotou.

A expressão δύναμιν εἰς καταβολὴν σπέρματος ἔλαβεν é decisiva. Καταβολὴ σπέρματος é uma expressão grega regularmente associada ao papel masculino na geração: literalmente, a “deposição de semente”. É por isso que a construção se torna difícil quando Sara é tomada como sujeito. Explicações antigas e modernas que atribuem à mulher uma “semente” própria ou que entendem a expressão como capacidade de reter a semente foram propostas, mas não fornecem uma solução lexical tão natural quanto manter Abraão como sujeito (Attridge, 1989: 324–325; Metzger, 1994: 672–673).

“Gerar descendência” representa a função de εἰς καταβολὴν σπέρματος sem reproduzir mecanicamente “depositar semente”, expressão que em português moderno poderia sugerir uma imagem mais específica do que o contexto exige. Σπέρμα pode designar tanto “semente” em sentido físico quanto descendência. O v. 12 mostra que o resultado que interessa ao argumento é precisamente a multiplicação dos descendentes.

Καὶ παρὰ καιρὸν ἡλικίας acrescenta o obstáculo da idade. Παρά com acusativo pode indicar ultrapassagem de um limite, enquanto καιρός é o período apropriado ou oportuno e ἡλικία designa idade ou estágio da vida. “Mesmo além da idade própria” procura transmitir o sentido da combinação sem acrescentar ao texto a menção explícita à menopausa, esterilidade ou qualquer outra descrição fisiológica ausente do NTG-EV. A tradição patriarcal apresenta tanto Abraão quanto Sara como avançados em idade quando a promessa do filho é reiterada (Gn 17.17; 18.11–13; 21.7), e fontes judaicas antigas também podiam apresentar ambos como além do período normal para a geração (Attridge, 1989: 325–326).

Intertextualidade. O v. 11 condensa elementos de Gn 17–21: a promessa de um filho por Sara (Gn 17.15–21), a idade avançada do casal (Gn 17.17; 18.11–13) e o nascimento de Isaque como realização dessa promessa (Gn 21.1–7). Não há aqui uma citação formal de Gênesis; Hebreus reconta e interpreta o episódio mediante o vocabulário de πίστις e ἐπαγγελία.

A frase πιστὸν ἡγήσατο τὸν ἐπαγγειλάμενον, “considerou fiel aquele que havia prometido”, também cria uma correspondência interna importante com Hb 10.23: “fiel é aquele que prometeu”. O atributo πιστός recai sobre quem faz a promessa, e ἡγέομαι descreve a avaliação que fundamenta a ação. A mesma lógica de promessa e confiabilidade já aparecera no tratamento de Abraão em 6.13–15 (Attridge, 1989: 326).

Versões comparadas. As versões da pasta Bíblias ilustram diretamente o efeito da decisão textual. A NAA lê “a própria Sara [...] recebeu poder para ser mãe”; a ARA, “a própria Sara recebeu poder para ser mãe”; a ARC, “a mesma Sara recebeu a virtude de conceber e deu à luz”; e a Bíblia de Jerusalém, “também Sara [...] se tornou capaz de ter uma descendência”. A YLT 1863 igualmente apresenta Sara como sujeito: Sarah herself received power to conceive seed, and she bare. Essas versões refletem a análise nominativa e, em alguns casos, elementos textuais ausentes do NTG-EV.

A diferença da BECE não deriva, portanto, de preferência estilística contra essas traduções. Ela decorre diretamente do texto-base: αὐτῇ Σάρρᾳ é lido como dativo de acompanhamento, στεῖρα não integra o texto e ἔτεκεν não é adotado. Por isso, “também com Sara, [Abraão] recebeu poder para gerar descendência” preserva uma configuração sintática que as versões citadas não procuram representar.

Exegese. Com a leitura do NTG-EV, o v. 11 não interrompe a sequência centrada em Abraão iniciada no v. 8. O mesmo personagem que obedeceu ao chamado, viveu como estrangeiro e aguardou a cidade é apresentado agora em relação à promessa de descendência. Sara não desaparece do quadro: o dativo associa explicitamente o casal ao cumprimento da promessa, mas a construção mantém continuidade entre o sujeito dos vv. 8–10 e o “um só” do v. 12 (Attridge, 1989: 324–326).

Função argumentativa. O v. 11 introduz uma realização concreta da promessa dentro da própria vida patriarcal. Isso cria uma tensão produtiva com 11.13, onde os patriarcas morrerão “sem receber as promessas” em seu sentido pleno. Hebreus distingue, portanto, realizações particulares — como o nascimento e a descendência — da consumação mais ampla que permanece futura. O motivo dominante continua sendo a capacidade da promessa de ultrapassar aquilo que, na experiência humana, parece inviabilizar seu cumprimento.

“De um só — e esse já como morto — nasceram [descendentes]” — do indivíduo à multidão incontável

Crítica textual. O NTG-EV lê ἐγεννήθησαν, “foram gerados/nasceram”, com א, D1, L, Ψ, 630, 1241, 1505, 1739, 1881, 𝔐 e sy. 𝔓46, A, D*, K, P, 6, 33, 81, 104, 326, 365, 1175 e testemunhos latinos apresentam ἐγενήθησαν, “vieram a existir”. A forma de γεννάω adotada pelo NTG-EV é particularmente adequada ao contexto imediato de geração e descendência; a variante pode resultar da perda de um ν, embora a tradição permaneça dividida (Attridge, 1989: 320–321).

Mais adiante, a expressão ἡ παρὰ τὸ χεῖλος é omitida por 𝔓46*, D* e Ψ. O NTG-EV conserva o texto mais longo: ἡ ἄμμος ἡ παρὰ τὸ χεῖλος τῆς θαλάσσης, literalmente “a areia que está junto à borda do mar”. A tradução “a areia [...] à beira do mar” representa a imagem sem conservar o antropomorfismo lexical de χεῖλος, “lábio/borda”.

Filologia e sintaxe. Διό introduz uma inferência: “por isso”, isto é, em consequência do que foi afirmado sobre a promessa e sua confiabilidade. Ἀφ’ ἑνός é literalmente “de um só”. O masculino singular remete a Abraão e cria deliberadamente um contraste numérico: uma única origem humana produz uma multidão incontável (Attridge, 1989: 326).

Καὶ ταῦτα é uma construção idiomática enfática, aproximadamente “e isso ainda”, “e isso apesar de”. Ela introduz νενεκρωμένου, particípio perfeito passivo de νεκρόω. O verbo significa propriamente “tornar morto”, mas aqui descreve hiperbolicamente a condição reprodutiva de Abraão. O perfeito apresenta esse estado como já estabelecido. “Já como morto” preserva a força da metáfora sem afirmar que Abraão estivesse literalmente morto quando a descendência foi gerada.

A gradação das versões mostra a dificuldade. A NAA interpreta “praticamente morto”; a ARA e a ARC empregam o tradicional “já amortecido”; a Bíblia de Jerusalém diz “já marcado pela morte”; a YLT 1863 conserva de modo mais duro one who had become dead. A formulação “já como morto” mantém a imagem de νεκρόω e simultaneamente sinaliza seu caráter comparativo no contexto fisiológico. deSilva observa que o grego é mais forte que muitas traduções que suavizam a expressão para “quase morto”, pois a linguagem apresenta enfaticamente a passagem da “morte” para a vida numerosa (deSilva, 2000: 398–399).

Ἐγεννήθησαν está no plural, mas seu sujeito não é lexicalmente expresso. O contexto fornece os descendentes como referente natural. Por isso, “[descendentes]” aparece entre colchetes: trata-se de um suplemento exigido para evitar que o português deixe sem identificação aquilo que “nasceu”. O suplemento não introduz um novo referente; explicita o que a sequência e as comparações seguintes pressupõem.

Intertextualidade. A linguagem da multiplicação da descendência provém diretamente do ciclo de promessas a Abraão. Gn 15.5 compara sua descendência às estrelas; Gn 22.17 reúne estrelas do céu e areia junto à beira do mar, com formulação particularmente próxima de Hebreus; Gn 32.12 retoma a comparação com a areia do mar. Hebreus não introduz uma fórmula de citação, de modo que a passagem deve ser classificada como reutilização lexical muito forte da linguagem de Gênesis, não como citação formal.

O movimento “de um só” para uma multidão possui também paralelo expressivo em Is 51.2, que convida a olhar para Abraão: ele era “um só” quando chamado, mas foi abençoado e multiplicado. A proximidade conceitual é significativa, embora Hebreus não forneça marcas suficientes para afirmar dependência textual direta.

Exegese. A ênfase do v. 12 está na desproporção entre origem e resultado: ἀφ’ ἑνός, “de um só”, contrapõe-se às estrelas e à areia incontável. A condição daquele único indivíduo é agravada por νενεκρωμένου. Assim, a multiplicação não é apresentada apenas como grande em termos quantitativos; ela surge de uma origem descrita como incapaz de produzi-la. O mesmo motivo de vida surgindo de uma situação caracterizada em termos de morte reaparecerá em 11.17–19, quando Abraão raciocina que Deus pode levantar Isaque dentre os mortos (Attridge, 1989: 326; deSilva, 2000: 398–399).

O paralelo com Rm 4.19 é especialmente próximo no vocabulário: Paulo também emprega νεκρόω ao descrever o corpo de Abraão e menciona simultaneamente a condição de Sara. Isso não demonstra dependência literária de Hebreus em relação a Romanos; indica, antes, que a caracterização do casal em termos de capacidade reprodutiva “morta” circulava como forma interpretativa da narrativa de Gênesis (Attridge, 1989: 325–326).

Versões comparadas. NAA e ARA transformam o plural implícito numa “posteridade”; a ARC explicita “descenderam tantos”; a Bíblia de Jerusalém formula “nasceu a multidão”; e a YLT preserva a construção passiva: also of one were begotten. A BECE conserva o plural verbal mediante “nasceram [descendentes]”, usando colchetes para tornar transparente a explicitação exigida pelo português.

Na comparação final, a NAA e a ARA utilizam “tão numerosa [...] e inumerável”; a ARC também desenvolve a ideia quantitativa; a Bíblia de Jerusalém fala em “multidão comparável à dos astros”; e a YLT conserva a estrutura mais formal, as the stars of the heaven in multitude, and as sand which is by the sea-shore—the innumerable. A tradução da BECE mantém mais de perto os dois membros do grego: “como as estrelas do céu em número e como a areia incontável à beira do mar”.

Função argumentativa. Os vv. 11–12 ligam a promessa de um único filho à multiplicação de uma linhagem. O resultado fornece a ponte para o plural οὗτοι πάντες de 11.13, “todos estes”: o discurso deixa de focalizar apenas Abraão para refletir sobre o conjunto dos patriarcas. Ao mesmo tempo, a imagem da descendência numerosa recorda que algumas dimensões da promessa começaram a realizar-se, enquanto a unidade seguinte insistirá que a realização última ainda permanecia à distância.

Estrangeiros na Terra e a Pátria Celestial

13 apNa fé morreram todos estes, sem terem aqrecebido as promessas, mas, tendo-as arvisto de longe e saudado, e tendo confessado que são asestrangeiros e residentes temporários sobre a terra.13 14 Pois os que dizem tais coisas manifestam que atbuscam uma pátria.14 15 E se, de fato, têm em mente aquela de onde ausaíram, teriam oportunidade de retornar.15 16 Mas, de fato, aspiram a uma pátria avmelhor, isto é, celestial. Por isso, awDeus não se envergonha deles, de ser chamado Deus deles, pois lhes preparou axuma cidade.16

“Na fé morreram todos estes” — Κατὰ πίστιν, promessas não recebidas e a confissão de estrangeiridade

Crítica textual. O NTG-EV lê μὴ λαβόντες τὰς ἐπαγγελίας, “sem terem recebido as promessas”. Λαβόντες é apoiado por 𝔓46, א2, D, K, L, Ψ, 104, 630, 1175, 1505, 1739, 1881 e 𝔐. א*, I, P, 33, 81, 326, 365 e 1241 apresentam κομισάμενοι, “tendo recebido/obtido”, verbo particularmente frequente na linguagem de obtenção de Hebreus; A apresenta προσδεξάμενοι, “tendo esperado/acolhido”. Mantém-se λαβόντες, também adotado por SBLGNT e NA28. A diversidade parece refletir tentativas de acomodar a expressão ao vocabulário empregado em outros lugares da obra (Attridge, 1989: 328).

O NTG-EV não contém, entre ἰδόντες e ἀσπασάμενοι, uma expressão correspondente a “tendo sido persuadidos/crendo nelas”. Essa diferença torna-se perceptível na comparação das versões do acervo: a ARC inclui “crendo nelas”, e a YLT 1863, having been persuaded, ao passo que NAA, ARA e Bíblia de Jerusalém não apresentam esse elemento. A BECE traduz exclusivamente a sequência do NTG-EV: ἰδόντες καὶ ἀσπασάμενοι, “tendo-as visto [...] e saudado”.

Filologia e sintaxe. Κατὰ πίστιν substitui aqui a fórmula Πίστει que estruturou os exemplos anteriores. Κατά com acusativo pode indicar norma, conformidade ou esfera segundo a qual algo ocorre; no contexto, a expressão descreve a condição sob a qual “todos estes morreram”. “Na fé” evita a artificialidade de “segundo a fé” no português corrente, ao mesmo tempo que a nota preserva a diferença formal entre Κατὰ πίστιν e o dativo Πίστει (Attridge, 1989: 328; Moffatt, 1924: 173).

Οὗτοι πάντες, “todos estes”, possui referência retrospectiva. Em sentido máximo poderia alcançar os exemplos anteriormente mencionados, mas Enoque não pode ser incluído literalmente entre aqueles que “morreram”, pois 11.5 afirmou precisamente que foi trasladado para não ver a morte. O comentário subsequente concentra-se de modo particular nos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, cuja situação de residência estrangeira fornece a base das inferências dos vv. 13–16 (Attridge, 1989: 328–329).

Μὴ λαβόντες τὰς ἐπαγγελίας não significa que nenhuma dimensão das promessas tenha sido realizada. Os vv. 11–12 acabaram de apresentar a geração e multiplicação da descendência como realização concreta. O plural ἐπαγγελίαι pode designar as promessas ou, metonimicamente, aquilo que elas prometiam. Nesta unidade, o foco muda para aquilo que continuava não possuído: a pátria/cidade que será identificada como celestial. A afirmação não contradiz, portanto, o nascimento de Isaque nem Hb 6.15; distingue realizações parciais da meta ainda não alcançada (Attridge, 1989: 328–329).

Πόρρωθεν αὐτὰς ἰδόντες significa “tendo-as visto de longe”. O texto não descreve percepção visual ordinária das promessas como objetos; prolonga a linguagem de 11.1 sobre realidades ainda não vistas e representa metaforicamente a expectativa de um bem futuro. Ἀσπάζομαι significa saudar, cumprimentar, acolher com saudação. A imagem é particularmente adequada a alguém que reconhece à distância aquilo para o qual se dirige. “Saudado” é, portanto, mais formalmente próximo do verbo que “abraçado” ou “alegrado-se” (Moffatt, 1924: 173; Attridge, 1989: 329).

Ὁμολογήσαντες introduz uma declaração reconhecida ou confessada publicamente. O conteúdo da confissão permanece no presente: ξένοι καὶ παρεπίδημοί εἰσιν, literalmente “são estrangeiros e residentes temporários”. Por isso, a BECE conserva “confessado que são”, em vez de normalizar automaticamente para “que eram”. A forma conecta lexicalmente a unidade à importância de ὁμολογία em Hebreus, embora o conteúdo da confissão patriarcal seja distinto da confissão dos destinatários em 3.1; 4.14 e 10.23 (Attridge, 1989: 329–330).

Ξένος designa o estrangeiro, alguém que não pertence ao grupo ou lugar em questão. Παρεπίδημος descreve quem reside temporariamente fora de sua terra própria e podia funcionar como designação de residente estrangeiro. “Peregrino”, tradicional em português, pode hoje sugerir prioritariamente alguém em viagem religiosa. “Residente temporário” procura preservar a condição espacial e social da palavra sem acrescentar esse sentido posterior (Attridge, 1989: 329–330).

Intertextualidade. A confissão combina e generaliza linguagem das narrativas patriarcais. Abraão declara em Gn 23.4 LXX ser πάροικος καὶ παρεπίδημος, “estrangeiro residente e temporário”, entre os filhos de Hete. Jacó caracteriza os anos de sua vida como anos de sua παροικία diante do faraó em Gn 47.9. Fórmulas semelhantes reaparecem em 1Cr 29.15 e Sl 39.13 [38.13 LXX], onde a condição de estrangeiro é aplicada mais amplamente à existência humana diante de Deus. Hebreus substitui πάροικος por ξένος e amplia a localização: não simplesmente estrangeiros em Canaã, mas estrangeiros “sobre a terra” (Attridge, 1989: 329–330; Moffatt, 1924: 173–174).

Contexto histórico-cultural. A condição de estrangeiro no Mediterrâneo antigo podia implicar status social inferior, menor segurança e ausência de determinados direitos ligados à cidadania local. A linguagem, portanto, possuía uma carga social mais concreta do que a moderna metáfora religiosa de “peregrinação”. Hebreus utiliza essa linguagem para caracterizar os patriarcas e, retoricamente, aproximá-los da experiência de destinatários que haviam sofrido perda pública de honra e de bens (10.32–34). Isso não permite concluir que os destinatários fossem juridicamente estrangeiros; a analogia pode ser social e retórica sem ser uma identificação de status legal (deSilva, 2000: 401–403; Attridge, 1989: 330).

Versões comparadas. A NAA lê “Todos estes morreram na fé” e representa ἀσπασάμενοι por “se alegraram com elas”; a ARA preserva “vendo-as [...] e saudando-as”; a Bíblia de Jerusalém também mantém a imagem: “visto e saudado de longe”. A ARC apresenta a forma mais longa: “vendo-as de longe, e crendo nelas, e abraçando-as”, enquanto a YLT 1863 igualmente contém having been persuaded antes de having saluted them. A BECE não incorpora esse elemento adicional porque ele não pertence ao NTG-EV.

NAA, ARA, ARC e Bíblia de Jerusalém usam “estrangeiros e peregrinos”. A YLT 1863 tem strangers and sojourners. A BECE prefere “estrangeiros e residentes temporários”, registrando em nota que “peregrinos” representa uma tradição tradutória consolidada, mas é semanticamente menos precisa para παρεπίδημοι no português contemporâneo.

Função argumentativa. O v. 13 interrompe temporariamente a sucessão de exemplos individuais para oferecer uma interpretação conjunta da experiência patriarcal. A fé não é caracterizada aqui pela obtenção imediata do prometido, mas pela permanência até a morte diante de uma promessa vista apenas “de longe”. Essa reflexão transforma as narrativas anteriores em paradigma para os vv. 14–16 e prepara a retomada do catálogo em 11.17.

“Buscam uma pátria” — ἐμφανίζουσιν, ἐπιζητοῦσιν e a inferência a partir da confissão

Crítica textual. O NTG-EV lê ἐπιζητοῦσιν, forma composta apoiada pela tradição adotada no SBLGNT e NA28. 𝔓46, D* e 629 apresentam a forma simples ζητοῦσιν. A diferença não altera o objeto da busca, πατρίδα, mas remove o prefixo ἐπι-. A forma composta é mantida no texto-base.

Filologia e sintaxe. Γάρ transforma o v. 14 numa inferência explicativa do v. 13: “pois”. Οἱ [...] λέγοντες é um particípio substantivado, “os que dizem tais coisas”. Τοιαῦτα retoma a confissão imediatamente anterior e não a totalidade das palavras ou ações dos patriarcas.

Ἐμφανίζουσιν significa tornar manifesto, mostrar, revelar claramente. O verbo descreve a conclusão que pode ser extraída da linguagem dos patriarcas: chamar-se estrangeiro implica que o lugar onde se reside não é reconhecido como a pátria definitiva. “Manifestam” preserva o verbo sem acrescentar um advérbio independente.

Πατρίς é terra paterna, terra natal, pátria ou lugar ao qual alguém pertence. Não é mero sinônimo de γῆ, “terra”, empregado no v. 13. A progressão lexical é significativa: vivem sobre a γῆ, mas procuram uma πατρίς. Ἐπιζητέω pode expressar busca, procura ou busca insistente; a presença do prefixo ἐπι- não exige, porém, que cada tradução introduza um advérbio como “intensamente”. “Buscam” conserva a ação sem superinterpretar o composto (Attridge, 1989: 330–331).

Exegese. O autor extrai uma conclusão que não é formulada explicitamente nas narrativas de Gênesis. Abraão chama a si mesmo de estrangeiro em Canaã, mas Gênesis não afirma que essa autodescrição significava busca por uma pátria celestial. Hebreus transforma a confissão histórica de estrangeiridade numa indicação do verdadeiro objeto de expectativa dos patriarcas. Trata-se, portanto, de uma interpretação autoral da narrativa, não de mera repetição de seu sentido explícito (Attridge, 1989: 330–331).

Versões comparadas. NAA e ARA apresentam “manifestam estar procurando uma pátria”; a ARC, “claramente mostram que buscam uma pátria”; a Bíblia de Jerusalém, “demonstram claramente que estão à procura de uma pátria”. A YLT 1863 usa make manifest that they seek a country, traduzindo πατρίς por country. A BECE mantém “manifestam que buscam uma pátria”, preservando tanto ἐμφανίζω quanto o sentido específico de πατρίς sem acrescentar “claramente”, que já está semanticamente contido no verbo.

Função argumentativa. O v. 14 converte a autodescrição dos patriarcas em evidência. A condição de estrangeiros do v. 13 não é tratada como acidente biográfico; é interpretada como sinal de uma busca. O v. 15 testará então uma possível explicação concorrente: talvez a pátria buscada fosse simplesmente a terra que haviam abandonado.

“Se [...] têm em mente aquela de onde saíram” — μνημονεύουσιν e a condição contrafactual no NTG-EV

Crítica textual. O NTG-EV lê μνημονεύουσιν, presente indicativo, com 𝔓46, א*, Ψ, 81, 1505 e 1739*. 33 e 104 apresentam o aoristo ἐμνημόνευσαν; א2, A, D2, K, L, P, 365, 630, 1175, 1241, 1739c, 1881, 𝔐 e syh apresentam o imperfeito ἐμνημόνευον. Neste ponto, SBLGNT e NA28 divergem: o NTG-EV segue o presente do SBLGNT, enquanto NA28 adota ἐμνημόνευον.

A diferença é sintaticamente perceptível. Com ἐμνημόνευον, a sequência εἰ [...] ἐμνημόνευον [...] εἶχον ἂν [...] produz uma condição contrafactual passada muito regular: “se tivessem em mente [...], teriam oportunidade”. Com μνημονεύουσιν, o primeiro verbo permanece presente, enquanto a apódose contém εἶχον ἄν. A leitura é mais marcada e não deve ser silenciosamente transformada no imperfeito apenas para produzir uma condição portuguesa mais convencional.

O NTG-EV lê ainda ἐξέβησαν, “saíram/partiram”, com 𝔓46vid, א*, A, D*, P, 33, 81, 1241, 1739 e 1881. א2, D2, K, L, Ψ, 104, 365, 630, 1175, 1505 e 𝔐 apresentam ἐξῆλθον. Ambas as formas podem ser representadas naturalmente por “saíram” em português; a variante modifica o lexema grego, mas praticamente não exige diferença no texto traduzido.

Filologia e sintaxe. Μνημονεύω pode significar lembrar-se, mencionar ou manter algo em mente. Aqui o sentido “ter em mente” ajusta-se melhor ao argumento: o autor não pergunta simplesmente se recordavam cognitivamente sua terra de origem, mas se ela permanecia como objeto de sua orientação e desejo (Attridge, 1989: 331; Moffatt, 1924: 175).

Ἐκείνης é pronome demonstrativo feminino e retoma πατρίς: “aquela [pátria]”. Não há necessidade de repetir “pátria” no texto português. Ἀφ’ ἧς ἐξέβησαν especifica sua origem: “de onde saíram”. Καιρός, seguido do infinitivo ἀνακάμψαι, indica tempo ou oportunidade apropriada para realizar uma ação; aqui “oportunidade de retornar” representa a construção sem acrescentar motivo ou impedimento inexistente no texto.

Exegese. O v. 15 funciona como argumento por exclusão. Se “pátria” significasse simplesmente o lugar ancestral abandonado por Abraão, o retorno continuava possível. O fato de a narrativa não ser interpretada como retorno demonstra, para o autor, que a busca mencionada no v. 14 possui outro objeto. A conclusão será apresentada no v. 16 (Attridge, 1989: 331).

O argumento não afirma que Abraão ou seus descendentes fossem fisicamente incapazes de regressar. Pelo contrário, εἶχον ἂν καιρόν pressupõe a possibilidade prática. O ponto é que a terra anterior não explica a direção de sua expectativa. Tradições antigas também podiam enfatizar que Abraão não retornou apesar das dificuldades associadas à nova condição, mas Hebreus utiliza esse dado apenas para esclarecer a identidade da pátria buscada (Moffatt, 1924: 175; deSilva, 2000: 401–402).

Versões comparadas. Aqui a diferença do NTG-EV torna-se particularmente visível. A NAA lê “se [...] se lembrassem”; ARA, “se lembrassem”; ARC, “se lembrassem”; Bíblia de Jerusalém, “se lembrassem”; e a YLT 1863, if [...] they had been mindful. Todas apresentam uma formulação passada e contrafactual compatível com a leitura ἐμνημόνευον ou com uma normalização idiomática da condição.

A BECE, entretanto, traduz o presente μνημονεύουσιν do NTG-EV: “se, de fato, têm em mente aquela de onde saíram, teriam oportunidade de retornar”. A construção é mais marcada em português, mas evita substituir silenciosamente o texto-base pela leitura adotada em NA28 ou pela forma pressuposta pelas versões comparadas.

Função argumentativa. O v. 15 elimina a pátria terrestre de origem como referente de πατρίς. O argumento depende precisamente da disponibilidade do retorno: se a meta fosse simplesmente recuperar o que ficou para trás, a trajetória dos patriarcas poderia ser revertida. O v. 16 contrapõe a essa hipótese uma pátria “melhor” e “celestial”.

“Uma pátria melhor, isto é, celestial” — κρείττων, ἐπουράνιος e a cidade preparada por Deus

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV utilizado para esta unidade não destaca em 11.16 variante que exija modificação da tradução. O versículo é, portanto, traduzido segundo a sequência νῦν δὲ κρείττονος ὀρέγονται [...] ἡτοίμασεν γὰρ αὐτοῖς πόλιν.

Filologia e sintaxe. Νῦν δέ funciona aqui primariamente como contraposição lógica ao cenário hipotético do v. 15, e não precisa indicar simplesmente “neste momento cronológico”. “Mas, de fato” procura reproduzir essa passagem da possibilidade rejeitada para a situação que o autor considera efetiva. A tradução tradicional “mas agora” continua possível, porém pode sugerir uma mudança temporal que não constitui o ponto principal da oração (Attridge, 1989: 331; Moffatt, 1924: 176).

Κρείττονος é o comparativo “melhor”, um dos termos característicos de Hebreus. O substantivo πατρίς permanece elíptico, recuperado do v. 14. Por isso, a BECE escreve “uma pátria melhor”: “pátria” aparece em itálico como elemento exigido por um português mais natural, sem equivalente lexical novamente expresso neste ponto.

Ὀρέγομαι rege genitivo e significa estender-se em direção a algo, aspirar, desejar intensamente. O verbo é mais forte que uma preferência abstrata: descreve orientação do desejo. Τοῦτ’ ἔστιν introduz explicação explícita — “isto é” — e ἐπουρανίου identifica a qualidade que torna essa pátria κρείττων: ela é “celestial”. O adjetivo ἐπουράνιος pertence ao vocabulário recorrente de Hebreus para realidades vinculadas à esfera celestial (3.1; 6.4; 8.5; 9.23; 12.22) (Attridge, 1989: 331–332).

“Deus não se envergonha deles”. Οὐκ ἐπαισχύνεται αὐτούς possui paralelo verbal importante em 2.11, onde aquele que santifica “não se envergonha” de chamar os santificados irmãos. No presente versículo, o infinitivo θεὸς ἐπικαλεῖσθαι αὐτῶν especifica a forma dessa associação: Deus aceita ser publicamente designado em relação a eles — “Deus deles”. A expressão pode ser compreendida em termos de reconhecimento e associação honorífica, e não apenas como descrição de um sentimento psicológico de vergonha (deSilva, 2000: 401–402; Attridge, 1989: 332).

Intertextualidade. A formulação evoca as autodesignações divinas das narrativas patriarcais. Em Gn 28.13, Deus se apresenta a Jacó como “o Deus de Abraão [...] e o Deus de Isaque”; em Êx 3.6, a fórmula é ampliada: “Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó”. Hebreus interpreta essa identificação relacional como reconhecimento dos patriarcas por Deus. A mesma fórmula é mobilizada em Mc 12.26–27 e Mt 22.32 em discussão sobre os mortos e sua relação com Deus (Moffatt, 1924: 176; Attridge, 1989: 332).

Ἡτοίμασεν γὰρ αὐτοῖς πόλιν, “pois lhes preparou uma cidade”, fecha a unidade retomando diretamente a πόλις de 11.10. A relação é deliberada: a cidade que Abraão aguardava é a cidade que Deus preparou. A unidade 11.13–16 identifica ainda essa meta como pátria celestial, e 12.22 posteriormente a nomeará “cidade do Deus vivo, Jerusalém celestial”. Hebreus 13.14 retomará a mesma estrutura de busca: “não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura” (Attridge, 1989: 332).

Contexto histórico-cultural. No sistema de honra do mundo greco-romano, ser reconhecido publicamente por uma figura de status superior podia conferir honra ao reconhecido. A formulação “Deus não se envergonha deles” funciona nesse horizonte como reversão da possível desonra social ligada à condição de estrangeiro: aqueles que não possuem plena pertença à ordem terrestre são publicamente associados a Deus, e sua meta é descrita como uma cidade por ele preparada (deSilva, 2000: 401–403).

A analogia não exige supor que os destinatários de Hebreus tenham perdido formalmente cidadania romana ou municipal. O que a própria obra atesta é experiência de exposição pública, sofrimento, solidariedade com presos e espoliação de bens (10.32–34). A linguagem cívica e de pátria/cidade fornece uma estrutura retórica para reavaliar essas perdas em comparação com a meta apresentada pelo autor (deSilva, 2000: 401–403).

Versões comparadas. A NAA verte κρείττονος por “uma pátria superior”; a ARA também emprega “pátria superior”; a Bíblia de Jerusalém traz “uma pátria melhor”; a ARC mantém a elipse mais próxima do grego: “desejam uma melhor, isto é, a celestial”. A YLT 1863 faz o mesmo: they desire a better, that is, an heavenly. A BECE explicita pátria em itálico para evitar a aspereza de “uma melhor” sem transformar a palavra recuperada do contexto em equivalente lexical expresso no v. 16.

Quanto a νῦν δέ, NAA e ARA utilizam “Mas, agora”; a ARC igualmente “Mas, agora”; a Bíblia de Jerusalém reorganiza a relação com “Eles aspiram, com efeito”; a YLT mantém but now. A BECE emprega “Mas, de fato” porque entende νῦν neste contraste como primordialmente lógico, posição também reconhecida na análise exegética especializada (Attridge, 1989: 331; Moffatt, 1924: 176).

Exegese. A qualificação ἐπουράνιος resolve a questão aberta pelos vv. 14–15. A πατρίς procurada não é a terra ancestral abandonada nem simplesmente a Canaã histórica em que os patriarcas residiram como estrangeiros. Dentro da lógica explícita desta unidade, ela pertence à esfera celestial. A cidade preparada por Deus fornece a expressão urbana da mesma meta anteriormente apresentada como “pátria” (Attridge, 1989: 331–332).

Função argumentativa. Os vv. 13–16 formam um comentário interpretativo entre duas partes do catálogo. O v. 13 estabelece a distância entre promessa e obtenção; o v. 14 infere da condição estrangeira uma busca por pátria; o v. 15 exclui a antiga terra como objeto dessa busca; e o v. 16 identifica positivamente a meta como celestial e encerra o movimento com a cidade preparada por Deus. O catálogo retorna à fórmula Πίστει no v. 17, agora com a natureza da expectativa patriarcal já explicitada (Attridge, 1989: 327–332).

Abraão, Isaque e a Promessa diante da Morte

17 Pela ayfé, Abraão azofereceu Isaque, sendo posto à prova, e estava oferecendo o ba[filho] único, ele que havia bbrecebido as promessas.17 18 A respeito de quem foi dito: bc“Em Isaque será chamada a sua descendência”.18 19 Considerando que bdDeus é capaz até de ressuscitar dentre os mortos; por isso, também beo recebeu de volta em figura.19

Em Isaque será chamada a sua descendência.

Gênesis 21.12

“Abraão ofereceu Isaque [...] e estava oferecendo o [filho] único” — perfeito, imperfeito e a singularidade de Isaque

Crítica textual. O NTG-EV lê Πίστει προσενήνοχεν Ἀβραὰμ τὸν Ἰσαὰκ πειραζόμενος. A sequência Ἀβραὰμ τὸν Ἰσαὰκ πειραζόμενος é apoiada por א, A, K, L, P, 33, 81, 104, 365, 630, 1175, 1241, 1739, 1881 e 𝔐. A tradição manifesta instabilidade sobretudo na presença e posição de Ἀβραάμ: 𝔓46vid apresenta Ἰσαὰκ πειραζόμενος; Ψ, b e vgms conservam τὸν Ἰσαὰκ πειραζόμενος sem o nome de Abraão; D desloca Ἀβραάμ para depois do particípio; 1505 apresenta τὸν Ἰσαὰκ Ἀβραὰμ πειραζόμενος. Mantém-se a ordem do NTG-EV, igualmente impressa no SBLGNT e NA28.

Filologia e sintaxe. O versículo coloca lado a lado duas formas de προσφέρω que não são morfologicamente idênticas. Προσενήνοχεν é perfeito indicativo: literalmente, Abraão “ofereceu” Isaque, sendo o acontecimento contemplado como ação registrada e estabelecida na narrativa. Em seguida, προσέφερεν é imperfeito e pode ser compreendido conativamente: Abraão “estava oferecendo”, isto é, iniciou e levou adiante a ação até o ponto em que foi interrompida. A distinção é particularmente apropriada à narrativa de Gn 22, em que o sacrifício é efetivamente empreendido, embora a morte de Isaque não se consume (Attridge, 1989: 333–334; Moffatt, 1924: 176).

A BECE procura tornar essa diferença visível: “ofereceu Isaque [...] e estava oferecendo”. Traduzir os dois verbos simplesmente por “ofereceu” é idiomaticamente possível e amplamente atestado nas versões, mas elimina a oposição aspecto-temporal que o texto grego mantém. Não se deve, contudo, transformar o perfeito em indicação de que Isaque foi realmente morto; a própria continuação e a narrativa de Gênesis excluem essa leitura.

Πειραζόμενος é particípio presente passivo de πειράζω, “testar, pôr à prova”. A formulação retoma diretamente Gn 22.1 LXX, onde Deus “pôs Abraão à prova”. Neste contexto, o verbo não significa solicitação para o mal, mas teste mediante uma exigência cuja execução ameaça precisamente o meio pelo qual a promessa de descendência deveria realizar-se (Attridge, 1989: 333; deSilva, 2000: 404).

“O [filho] único” — μονογενής. Τὸν μονογενῆ é um adjetivo substantivado. O substantivo “filho” não é repetido no grego; por isso, aparece entre colchetes na tradução. Μονογενής pode designar alguém que é único em sua categoria, singular ou filho único. A expressão não pode ser entendida de maneira puramente aritmética, como se Hebreus desconhecesse a existência de Ismael. Isaque é “único” no sentido decisivo para o argumento: ele é o filho ao qual está vinculada a promessa explicitada no v. 18 (Attridge, 1989: 333; deSilva, 2000: 404).

Há também uma diferença textual significativa em relação à Septuaginta corrente de Gn 22.2, que chama Isaque de ἀγαπητός, “amado”. Μονογενής, contudo, não constitui criação exclusiva de Hebreus: a mesma designação de Isaque aparece em tradições gregas antigas, inclusive Aquila e Josefo. Assim, a palavra pode ser situada dentro da história antiga de interpretação do episódio sem necessidade de pressupor aqui uma tipologia cristológica específica (Attridge, 1989: 333).

“Ele que havia recebido as promessas”. Ὁ τὰς ἐπαγγελίας ἀναδεξάμενος é uma construção participial substantivada cujo sujeito é Abraão. Ἀναδέχομαι pode significar receber, acolher ou aceitar. O verbo é raro no Novo Testamento e não exige por si mesmo a ideia adicional de alegria. A BECE, portanto, usa “havia recebido as promessas”, sem acrescentar um advérbio valorativo (Attridge, 1989: 333).

Intertextualidade — Gênesis 22 e a Aqedah. Hebreus condensa o relato do “atamento de Isaque” de Gn 22.1–18, conhecido posteriormente na tradição judaica como Aqedah. O próprio Gênesis apresenta o acontecimento como teste de Abraão, e tradições judaicas anteriores ou contemporâneas ao cristianismo primitivo também tratavam o episódio como demonstração excepcional de fidelidade: Sir 44.20; 1Mac 2.52; Jub 17.15–18.16; 4Mac 16.18–20, além de Josefo e Fílon (Attridge, 1989: 332–334; deSilva, 2000: 404).

Hebreus, porém, seleciona um aspecto próprio da narrativa. Seu interesse não está em desenvolver todos os temas encontrados nas releituras antigas da Aqedah, mas em resolver a tensão entre a ordem de oferecer Isaque e a promessa que dependia de Isaque. Essa tensão explica a inserção integral de Gn 21.12 no v. 18 e a interpretação fornecida pelo particípio λογισάμενος no v. 19 (deSilva, 2000: 404).

Versões comparadas. A NAA e a ARA começam “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque”, tratando προσενήνοχεν como pretérito simples. A ARC igualmente traz “ofereceu Abraão a Isaque”. A Bíblia de Jerusalém lê “Abraão, tendo sido provado, ofereceu Isaac”. A YLT 1863 é a que mais explicitamente preserva a diferença formal entre os dois verbos: Abraham hath offered up Isaac [...] and the only begotten he offered up. A BECE não reproduz o perfeito inglês de Young, mas distingue o primeiro verbo do imperfeito seguinte mediante “ofereceu [...] estava oferecendo”.

Para ἀναδεξάμενος, a NAA diz que Abraão “acolheu as promessas”; a ARA amplia para “acolheu alegremente as promessas”; ARC e Bíblia de Jerusalém empregam formas de “receber”. A YLT 1863 também traz simplesmente received the promises. Como o advérbio “alegremente” não possui equivalente independente no NTG-EV e não é exigido pelo verbo, a BECE mantém “havia recebido”.

Função argumentativa. O v. 17 retoma o catálogo depois do comentário parentético de 11.13–16. A situação de Abraão é agora mais aguda do que nos vv. 8–12: não se trata apenas de agir antes de ver o cumprimento, mas de obedecer quando a ação parece colocar em risco o próprio meio estabelecido para o cumprimento da promessa. O v. 18 explicitará essa tensão e o v. 19 fornecerá a racionalidade que Hebreus atribui a Abraão.

“Em Isaque será chamada a sua descendência” — citação de Gênesis 21.12 e a concentração da promessa em Isaque

Intertextualidade — citação formal. Ἐν Ἰσαὰκ κληθήσεταί σοι σπέρμα reproduz Gn 21.12 LXX e constitui uma citação escriturística propriamente dita, não mera alusão. Hebreus a introduz por πρὸς ὃν ἐλαλήθη ὅτι, “a respeito de quem foi dito”, retomando Isaque como aquele em relação ao qual a palavra da promessa fora pronunciada (Attridge, 1989: 333–334).

A mesma sentença de Gn 21.12 aparece em Rm 9.7, mas com função argumentativa diferente. Em Hebreus, ela serve imediatamente para estabelecer o problema criado pela ordem de Gn 22: o filho que Abraão está prestes a oferecer é exatamente aquele por meio de quem a descendência prometida deve ser identificada. O texto não permite substituir Isaque por qualquer outro descendente sem romper a própria formulação da promessa (Attridge, 1989: 334).

Filologia. Σπέρμα é singular morfológico, mas pode funcionar coletivamente para “descendência”. Κληθήσεται é futuro passivo de καλέω. Na expressão bíblica, “ser chamada” não significa simplesmente receber um nome pessoal; indica que a linhagem reconhecida de Abraão será vinculada a Isaque. O dativo σοι pode ser expresso naturalmente em português por um possessivo: “a sua descendência”.

Ἐν Ἰσαάκ é formalmente “em Isaque”. Várias versões modernas explicitam a relação como “por meio de Isaque”, solução semanticamente inteligível, mas mais interpretativa. A BECE preserva “Em Isaque” porque a expressão pertence a uma citação formal e porque não há dificuldade real de compreensão que obrigue a substituir a preposição do texto-fonte.

Versões comparadas. A NAA verte a citação como “A sua descendência virá por meio de Isaque”, explicitando o valor relacional de ἐν. A ARA conserva a estrutura “Em Isaque será chamada a tua descendência”; a ARC apresenta praticamente a mesma formulação. A Bíblia de Jerusalém usa “É por Isaac que uma descendência te será assegurada”. A YLT 1863 mantém de maneira fortemente formal In Isaac shall a seed be called to thee. A BECE aproxima-se aqui da estrutura preservada por ARA, ARC e YLT: “Em Isaque será chamada a sua descendência”.

Exegese. A citação transforma o episódio de Gn 22 numa tensão entre duas palavras divinas: a ordem relativa a Isaque e a promessa relativa a Isaque. Hebreus não resolve essa tensão alegando que a promessa deixou de valer ou que outro filho poderia substituí-lo. A solução atribuída a Abraão aparece no v. 19: ele considera que a capacidade divina alcança inclusive a ressurreição dos mortos (deSilva, 2000: 404).

Função argumentativa. O v. 18 é indispensável à lógica dos vv. 17–19. Sem a citação de Gn 21.12, a oferta de Isaque seria apenas um teste extremo. Com ela, o teste torna-se um conflito aparente entre o ato exigido e o futuro prometido. É essa configuração que permite a Hebreus interpretar a ação de Abraão como raciocínio sobre a capacidade de Deus diante da morte.

“Deus é capaz até de ressuscitar dentre os mortos” — λογισάμενος, ἐγείρειν e ἐν παραβολῇ

Crítica textual. O NTG-EV lê ἐγείρειν, infinitivo presente, enquanto A, P, 33, 81, 326 e 1241, com Cirilo de Jerusalém, apresentam o aoristo ἐγεῖραι. A diferença aspectual não altera o núcleo semântico da afirmação — a capacidade de levantar dos mortos —, mas o NTG-EV mantém o infinitivo presente, também adotado por SBLGNT e NA28.

Logo depois, o NTG-EV lê simplesmente δυνατός, “capaz/poderoso”, com 𝔓46, א, D*, D2, K, L, 33, 81, 104, 365, 630, 1175, 1241, 1739, 1881 e 𝔐. P expande para δυνατὸς ἐστιν, explicitando o verbo “é”; A, D1, Ψ, 1505 e d, além de testemunhos patrísticos, apresentam δύναται, “pode”. A tradução portuguesa necessita de uma cópula — “Deus é capaz” —, mas esse “é” corresponde à sintaxe nominal do grego, não à adoção da expansão textual δυνατὸς ἐστιν.

Filologia e sintaxe. Λογισάμενος é particípio aoristo médio de λογίζομαι, “considerar, calcular, raciocinar, chegar a uma conclusão”. O termo é importante porque o autor não descreve a ação de Abraão como irracional ou desprovida de inferência. Ele atribui ao patriarca um raciocínio: a promessa deve cumprir-se por Isaque; Isaque está sendo oferecido; portanto, o cumprimento continuaria possível se Deus fosse capaz de levantá-lo dentre os mortos (Attridge, 1989: 334; deSilva, 2000: 404).

Καὶ ἐκ νεκρῶν ἐγείρειν coloca καί em função intensiva: “até dentre os mortos”. O objeto do infinitivo não é lexicalmente expresso. O contexto torna Isaque o referente imediato, mas o grego formula a capacidade de Deus em termos gerais. Por isso, “Deus é capaz até de ressuscitar dentre os mortos” conserva a ausência de objeto explícito em vez de acrescentar “[Isaque]”.

Δυνατός é adjetivo de capacidade ou poder. A linguagem pertence a um campo bíblico amplo que descreve Deus como capaz de realizar aquilo que ultrapassa a capacidade humana. Dentro da própria história de Abraão, Rm 4.21 utiliza δυνατός em conexão com a capacidade divina de realizar o que prometeu. Hebreus aplica essa mesma lógica especificamente à possibilidade de ressurreição (Attridge, 1989: 334).

Exegese e história da interpretação. Gênesis 22 não afirma que Abraão esperava a ressurreição de Isaque. Essa motivação é uma inferência própria de Hebreus. O autor procura explicar como Abraão poderia obedecer sem considerar a promessa anulada e encontra a resposta na capacidade divina de levantar os mortos. Nesse ponto, Hebreus vai além dos dados explícitos da narrativa de Gênesis (Attridge, 1989: 334; deSilva, 2000: 404).

A crença em Deus como aquele que levanta os mortos também aparece em formulações judaicas antigas e posteriormente cristãs. Tradições da Aqedah chegaram a desenvolver mais extensamente a relação entre Isaque e ressurreição; contudo, Hebreus não afirma que Isaque tenha efetivamente morrido. Seu argumento depende precisamente de uma morte virtual ou iminente, da qual Abraão o recebe de volta (Attridge, 1989: 334).

“Por isso [...] o recebeu de volta”. Ὅθεν pode ter valor local, “de onde”, ou inferencial, “por isso/daí”. No uso de Hebreus, o valor lógico é frequente e ajusta-se melhor à sequência: porque Abraão considerou Deus capaz de levantar dos mortos, recebeu Isaque de volta. A BECE usa “por isso”, evitando sugerir que ὅθεν designe literalmente o domínio dos mortos como lugar de onde Isaque retornou, visto que o texto não afirma sua morte efetiva (Attridge, 1989: 334; Moffatt, 1924: 177).

Ἐκομίσατο é aoristo médio de κομίζω e pode significar receber, obter ou receber de volta aquilo que pertence a alguém. Aqui, após a oferta interrompida, “recebeu de volta” representa naturalmente o valor contextual. A expressão não remete ao nascimento inicial de Isaque, mas ao retorno do filho que Abraão já havia, em termos da ação narrativa, entregue à morte (Attridge, 1989: 334).

“Em figura” — ἐν παραβολῇ. Παραβολή pode designar comparação, analogia, figura ou representação. Em Hebreus, o substantivo já apareceu em 9.9 para uma realidade que funciona representativamente. Aqui não designa uma “parábola” narrativa contada por Abraão. A expressão qualifica o modo pelo qual ele recebe Isaque de volta: o resgate de uma situação de morte iminente funciona como figura ou representação de retorno da morte (Attridge, 1989: 334).

Isso não autoriza identificar automaticamente Isaque, neste versículo, como símbolo exclusivo de Cristo. Tal desenvolvimento tornou-se comum em interpretação patrística, mas não é explicitado por Hebreus 11.19. O referente imediato da figura é a relação entre a libertação de Isaque da morte iminente e a capacidade divina de ressuscitar os mortos (Attridge, 1989: 334).

Versões comparadas. A NAA explicita o objeto: “Deus era poderoso até para ressuscitar Isaque dentre os mortos”; a ARA igualmente usa “ressuscitá-lo dentre os mortos”. A ARC traz “Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar”. A Bíblia de Jerusalém formula mais genericamente: “Deus é capaz também de ressuscitar os mortos”. A YLT 1863 conserva de modo especialmente próximo a ausência de objeto explícito: even from the dead God is able to raise up. A BECE mantém essa característica do NTG-EV: “Deus é capaz até de ressuscitar dentre os mortos”.

Para ἐν παραβολῇ, NAA e ARA utilizam “figuradamente”; ARC e YLT 1863 preservam “em figura”/in a figure; a Bíblia de Jerusalém interpreta “como um símbolo”. A BECE adota “em figura” porque mantém aberta a função representativa de παραβολή sem transformar a expressão numa identificação tipológica específica.

Função argumentativa. O v. 19 resolve a tensão criada pelos vv. 17–18. A fé de Abraão não é apresentada como desprezo pela promessa, mas como raciocínio segundo o qual nem mesmo a morte necessariamente inviabilizaria seu cumprimento. O tema prolonga a progressão do capítulo: em 11.11–12, vida e descendência emergem de uma condição descrita como morte reprodutiva; em 11.17–19, a promessa é pensada como capaz de sobreviver à própria morte de seu portador; mais adiante, 11.35 falará explicitamente de pessoas que receberam seus mortos mediante ressurreição (deSilva, 2000: 403–404).

A Fé Voltada para as Gerações Futuras

20 Pela fé, também a respeito de bfcoisas futuras, bgIsaque abençoou Jacó e Esaú.20 21 Pela fé, bhJacó, ao morrer, abençoou bicada um dos filhos de José e bjse prostrou sobre a extremidade do seu bordão.21 22 Pela fé, bkJosé, ao morrer, fez menção do blêxodo dos filhos de Israel e deu ordens a respeito de bmseus ossos.22

“Também a respeito de coisas futuras” — καί, περὶ μελλόντων e a bênção de Isaque

Crítica textual. O NTG-EV lê Πίστει καὶ περὶ μελλόντων. Καί é apoiado por 𝔓46, A, D*, 6, 33, 81, 1241, 1739, 1881 e testemunhos latinos; א, D2, K, L, P, Ψ, 104, 365, 630, 1505, 𝔐, vgms e testemunhos siríacos o omitem. Mantém-se καί, leitura também adotada por SBLGNT e NA28. A variante é pequena em extensão, mas afeta a articulação da frase: com καί, a orientação da bênção para “coisas futuras” recebe destaque adicional.

Filologia e sintaxe. Πίστει retoma a fórmula dominante do catálogo. A sequência καὶ περὶ μελλόντων antecede enfaticamente εὐλόγησεν e pode ser representada por “também a respeito de coisas futuras”. Μέλλω, aqui substantivado pelo particípio plural, designa aquilo que está para acontecer ou aquilo que pertence ao futuro. Não há substantivo expresso depois de μελλόντων; “coisas” é exigido pela substantivação portuguesa e corresponde à função do neutro plural.

Καί tem sido relacionado de maneiras diferentes à oração. É possível entendê-lo como simples acréscimo à sequência dos exemplos — “também Isaque” —, mas sua colocação imediatamente antes de περὶ μελλόντων favorece a ligação com essa expressão: a bênção dizia respeito “também a coisas futuras”. Essa análise explica melhor a posição incomum da conjunção (Attridge, 1989: 335–336; Moffatt, 1924: 178).

Εὐλογέω significa abençoar, falar favoravelmente ou pronunciar bênção. No contexto patriarcal, a bênção possui conteúdo prospectivo: as palavras de Isaque descrevem destinos que ultrapassam o momento em que são pronunciadas. O texto de Hebreus, porém, não reproduz o conteúdo das bênçãos nem discute os meios pelos quais Jacó recebeu a primeira delas. Seu interesse está precisamente no fato de que Isaque falou “acerca de coisas futuras” (Attridge, 1989: 335; deSilva, 2000: 404).

Intertextualidade — Gênesis 27. A referência principal é Gn 27.27–29, onde Isaque pronuncia sobre Jacó uma bênção relativa à fertilidade, povos e domínio, e Gn 27.38–40, onde Esaú recebe igualmente uma palavra concernente ao seu futuro. Hebreus comprime os dois episódios numa única oração e omite os elementos narrativos de disfarce, engano e conflito entre os irmãos. A seleção é orientada pelo argumento do capítulo: interessa a projeção das bênçãos para acontecimentos ainda futuros (Attridge, 1989: 335; deSilva, 2000: 404).

A ordem “Jacó e Esaú” acompanha o desenvolvimento de Gn 27: Jacó recebe primeiro a bênção principal e Esaú, depois, uma palavra própria. Hebreus 12.16–17 retomará Esaú sob outro aspecto da mesma tradição, mas o presente versículo não comenta moralmente as circunstâncias da bênção nem desenvolve a questão da primogenitura.

Exegese. A fé de Isaque é localizada no caráter prospectivo de sua bênção. A bênção é proferida no presente, mas seu conteúdo repousa no futuro dos descendentes. Dessa maneira, o v. 20 prolonga a lógica dos vv. 13–19: a ação da fé continua orientada por uma realização que ultrapassa o horizonte imediato e, agora, também a vida individual dos próprios patriarcas (Moffatt, 1924: 178).

Versões comparadas. A NAA lê “Pela fé, igualmente Isaque abençoou Jacó e Esaú, a respeito de coisas que ainda estavam para vir”; a ARA apresenta praticamente a mesma construção. A ARC traz “no tocante às coisas futuras”, sem representar καί por um “igualmente” explícito. A Bíblia de Jerusalém formula “Foi pela fé, ainda, que Isaac abençoou Jacó e Esaú, em vista do futuro”. A YLT 1863 conserva a expressão de maneira formal: By faith, concerning coming things, Isaac blessed Jacob and Esau, mas não representa καί por um equivalente independente. A BECE mantém a conjunção do NTG-EV e a liga à expressão que imediatamente a segue: “também a respeito de coisas futuras”.

Função argumentativa. O v. 20 inicia três exemplos muito breves ligados ao fim da era patriarcal. Isaque, Jacó e José orientam suas últimas ações relevantes para acontecimentos posteriores às próprias vidas. A fé passa, assim, da preservação da promessa diante da morte em 11.17–19 para a transmissão dessa expectativa às gerações seguintes (deSilva, 2000: 404–405; Moffatt, 1924: 178).

“Jacó, ao morrer [...] se prostrou sobre a extremidade do seu bordão” — Gênesis 48 e a forma da Septuaginta de Gênesis 47.31

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV utilizado nesta unidade não destaca em 11.21 variante que exija alteração da tradução. A principal questão textual e filológica não se encontra, portanto, na tradição manuscrita de Hebreus, mas na forma do texto de Gênesis que o autor reutiliza.

Filologia e sintaxe. Ἀποθνῄσκων é particípio presente de ἀποθνῄσκω, “morrer”. O contexto de Gn 48 apresenta Jacó consciente da proximidade de sua morte; “ao morrer” representa a circunstância sem transformá-la num acontecimento já concluído.

Ἕκαστον τῶν υἱῶν Ἰωσήφ é literalmente “cada um dos filhos de José”. Ἕκαστος individualiza Efraim e Manassés, em vez de simplesmente tratá-los como um par. A escolha é coerente com Gn 48.13–20, onde Jacó impõe as mãos sobre cada filho e lhes atribui posições diferenciadas na bênção. Hebreus, contudo, não comenta a inversão das mãos nem a precedência concedida ao filho mais jovem (Attridge, 1989: 335; deSilva, 2000: 404).

Προσεκύνησεν é aoristo de προσκυνέω. O verbo pode descrever prostrar-se, prestar homenagem ou adorar, dependendo do objeto e do contexto. Nenhum objeto de culto é lexicalmente expresso nesta oração. Por essa razão, a BECE traduz “se prostrou”, preservando a ação corporal sem inserir “a Deus” no corpo do texto. A leitura de que Deus é o objeto implícito da ação é contextualmente plausível e considerada provável por Attridge (1989: 335–336), mas permanece uma inferência.

Ἐπὶ τὸ ἄκρον τῆς ῥάβδου αὐτοῦ é literalmente “sobre a extremidade do seu bordão”. Ἄκρον designa extremidade, ponta ou parte terminal; ῥάβδος pode ser vara, bastão ou bordão. “Bordão” representa adequadamente neste contexto um objeto no qual o patriarca idoso pode apoiar-se, sem atribuir-lhe valor simbólico adicional.

Intertextualidade — duas cenas de Gênesis reunidas. A primeira parte do versículo resume Gn 48.8–22, especialmente a bênção de Efraim e Manassés. A segunda reproduz de maneira muito próxima Gn 47.31 LXX: καὶ προσεκύνησεν Ἰσραὴλ ἐπὶ τὸ ἄκρον τῆς ῥάβδου αὐτοῦ. Hebreus, portanto, coloca lado a lado dois episódios que em Gênesis não são contíguos na mesma ordem argumentativa: a prostração de Gn 47.31 e a bênção dos filhos de José em Gn 48 (Attridge, 1989: 335–336; deSilva, 2000: 404–405).

LXX e texto hebraico. Neste ponto, a diferença entre a Septuaginta e o texto massorético é particularmente importante. A forma consonantal hebraica מטה pode receber vocalizações diferentes. O TM a vocaliza מִטָּה, miṭṭâ, “cama”, produzindo “Israel se inclinou sobre a cabeceira da cama”. A LXX pressupõe a vocalização מַטֶּה, maṭṭeh, “bordão”, e traduz ἐπὶ τὸ ἄκρον τῆς ῥάβδου αὐτοῦ, “sobre a extremidade do seu bordão”. Hebreus acompanha inequivocamente a forma grega (Attridge, 1989: 335–336; deSilva, 2000: 404–405).

Essa diferença não deve ser descrita simplesmente como se Hebreus tivesse alterado “cama” para “bordão”. O autor está utilizando uma tradição textual grega já existente. Tampouco o bordão precisa receber significado alegórico. Interpretações antigas relacionaram-no a símbolos messiânicos ou outros significados figurativos, mas a sintaxe e o contexto de Hebreus não exigem tais construções (Attridge, 1989: 335–336).

Exegese. O episódio é selecionado como ação de Jacó às proximidades da morte. A bênção dos filhos de José projeta a promessa para outra geração, enquanto a prostração retirada da forma grega de Gn 47.31 caracteriza sua disposição final. O interesse do autor não repousa nos mecanismos de transmissão da primogenitura ou na inversão entre Efraim e Manassés, mas na ação orientada para um futuro que Jacó não viveria para ver (Moffatt, 1924: 178).

Versões comparadas. A NAA explicita fortemente a interpretação: “apoiado sobre a extremidade do seu bordão, adorou a Deus”. “A Deus” não corresponde a um objeto expresso no NTG-EV. A ARA diz “apoiado sobre a extremidade do seu bordão, adorou”, deixando o objeto implícito. A ARC apresenta “adorou encostado à ponta do seu bordão”. A Bíblia de Jerusalém evita explicitar culto e lê “se prostrou apoiado na ponta do seu bastão”. A YLT 1863 é ainda mais formal: bowed down, upon the top of his staff. A BECE opta por “se prostrou sobre a extremidade do seu bordão”, conservando a ação e a preposição sem introduzir um objeto não lexicalizado.

Função argumentativa. O v. 21 repete e intensifica o padrão do v. 20. Isaque abençoa filhos a respeito do futuro; Jacó, já morrendo, abençoa os netos. A promessa é assim apresentada não como posse encerrada em um patriarca individual, mas como expectativa transmitida através das gerações (deSilva, 2000: 404–405).

“José, ao morrer, fez menção do êxodo [...] e deu ordens a respeito de seus ossos” — expectativa do retorno a Canaã

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV utilizado para 11.22 não assinala variante selecionada que exija mudança da tradução. As principais questões do versículo são lexicais e intertextuais.

Filologia e sintaxe. Τελευτῶν é particípio presente de τελευτάω, verbo que pode significar chegar ao fim e, no contexto da vida, morrer. Embora a tradução “ao morrer” coincida em português com a solução usada para ἀποθνῄσκων no v. 21, os dois verbos gregos são distintos. Hebreus aproxima deliberadamente dois patriarcas em suas ações finais, mas não repete o mesmo lexema.

Περὶ τῆς ἐξόδου τῶν υἱῶν Ἰσραήλ significa “a respeito do êxodo dos filhos de Israel”. Ἔξοδος é literalmente saída ou partida. No contexto, designa a futura saída coletiva do Egito. O termo também pode ser utilizado no grego para a saída da própria vida, mas essa não é sua função aqui: o complemento “dos filhos de Israel” e Gn 50.24 tornam o referente inequívoco (Attridge, 1989: 336).

Ἐμνημόνευσεν, aoristo de μνημονεύω, pode significar lembrar, ter em mente ou fazer menção. Como o êxodo ainda pertencia ao futuro na cena de Gn 50, “lembrou-se do êxodo” poderia sugerir impropriamente a recordação de um acontecimento já ocorrido. “Fez menção do êxodo” representa melhor a função discursiva do verbo: José fala a respeito da futura partida de Israel (Attridge, 1989: 336; deSilva, 2000: 405).

Περὶ τῶν ὀστέων αὐτοῦ repete περὶ e muda do acontecimento coletivo para uma instrução concreta: “a respeito de seus ossos”. Ἐνετείλατο é aoristo médio de ἐντέλλομαι, dar ordem, instruir ou prescrever. O conteúdo da ordem não é repetido por Hebreus; a narrativa de Gn 50.25 fornece a explicação de que os ossos deveriam ser levados do Egito quando Deus visitasse Israel.

Intertextualidade — Gênesis 50.24–25. O versículo resume duas declarações consecutivas de José. Primeiro, Gn 50.24 afirma que Deus visitaria os filhos de Israel e os faria subir do Egito para a terra prometida a Abraão, Isaque e Jacó. Em seguida, Gn 50.25 registra o juramento exigido por José: quando Deus os visitasse, deveriam levar seus ossos dali. Hebreus reúne previsão e instrução sob a rubrica Πίστει (Attridge, 1989: 336–337; deSilva, 2000: 405).

A narrativa posterior registra a execução da ordem: Moisés leva consigo os ossos de José na saída do Egito (Êx 13.19), e Js 24.32 relata seu sepultamento em Siquém. A menção dos ossos, portanto, não é detalhe funerário isolado; dentro da narrativa pentateucal, constitui um vínculo material entre a morte de José no Egito e a expectativa de retorno à terra prometida (Attridge, 1989: 336–337).

Contexto histórico-literário. A preocupação com o lugar de sepultamento possui papel significativo nas narrativas patriarcais. Abraão adquire em Canaã uma propriedade funerária para Sara (Gn 23), Jacó exige ser sepultado com seus ancestrais (Gn 49.29–32), e José determina que seus próprios restos não permaneçam definitivamente no Egito. Hebreus seleciona este último gesto porque ele concretiza corporalmente uma expectativa voltada para além da morte do próprio personagem.

Não é necessário atribuir aos ossos qualquer função simbólica ou poder religioso. Hebreus não oferece uma interpretação desse tipo. A ordem interessa porque expressa confiança na futura partida de Israel e na continuidade da promessa após a morte de José (Attridge, 1989: 336–337).

Versões comparadas. A NAA lê “José, próximo do seu fim, fez menção do êxodo dos filhos de Israel, bem como deu ordens a respeito de seus próprios ossos”; a ARA apresenta quase a mesma formulação. A ARC prefere “fez menção da saída dos filhos de Israel e deu ordem acerca de seus ossos”. A Bíblia de Jerusalém emprega “evocou o êxodo dos filhos de Israel” e substitui o concreto “ossos” por “restos mortais”. A YLT 1863 mantém uma correspondência particularmente formal: concerning the going out of the children of Israel made mention, and concerning his bones gave command. A BECE conserva “êxodo” e “ossos”, evitando tanto reduzir ὀστέων ao mais geral “restos mortais” quanto completar no corpo o conteúdo da ordem.

Exegese. José constitui um exemplo particularmente forte da orientação prospectiva desta pequena série. Morre em posição elevada e estabelecida no Egito, mas sua última instrução significativa pressupõe que o Egito não é o destino final da família. A expectativa de Gn 50.24–25 prolonga, portanto, o motivo de estrangeiridade e pátria desenvolvido em 11.9,13–16 (deSilva, 2000: 405).

Função argumentativa. O v. 22 encerra a seção patriarcal e simultaneamente abre a transição para o Êxodo. Isaque olha para o futuro de seus filhos; Jacó para o futuro dos filhos de José; José para a futura saída de todo Israel. O substantivo ἔξοδος prepara narrativamente os vv. 23–29, nos quais Moisés e os acontecimentos da libertação do Egito passarão ao primeiro plano (deSilva, 2000: 405).

Moisés: Status, Solidariedade e Reavaliação da Riqueza

23 Pela fé, bnMoisés, depois de nascer, foi escondido por três meses por seus pais, porque viram que a bocriança era bela e bpnão temeram o decreto do rei.23 24 Pela fé, bqMoisés, ao tornar-se adulto, recusou ser chamado brfilho da filha de Faraó,24 25 preferindo bssofrer maus-tratos juntamente com o povo de Deus a ter o btprazer passageiro do pecado,25 26 considerando o buopróbrio de Cristo riqueza maior do que os bvtesouros do Egito, pois mantinha o olhar voltado para bwa recompensa.26

“Foi escondido por três meses por seus pais” — o sujeito Moisés, a fé dos pais e o decreto real

Crítica textual. O NTG-EV encerra o versículo em βασιλέως, “rei”. D* e vgms acrescentam depois desse termo a expansão πίστει μέγας γενόμενος Μωϋσῆς ἀνεῖλεν τὸν Αἰγύπτιον κατανοῶν τὴν ταπείνωσιν τῶν ἀδελφῶν αὐτοῦ, aproximadamente “pela fé, tendo-se tornado adulto, Moisés matou o egípcio, observando a humilhação de seus irmãos”. A expansão introduz na sequência o episódio de Êx 2.11–12, também utilizado em At 7.24. O NTG-EV mantém a forma breve, em concordância com SBLGNT e NA28; consequentemente, a morte do egípcio não integra a tradução de Hb 11.23.

Filologia e sintaxe. Embora Μωϋσῆς seja gramaticalmente o sujeito da oração passiva ἐκρύβη, “foi escondido”, a fé exemplificada pertence aos agentes expressos por ὑπὸ τῶν πατέρων αὐτοῦ. Πατέρες, literalmente “pais”, pode funcionar em grego como designação genérica dos dois genitores e não exige que a ação seja atribuída apenas a figuras masculinas. “Por seus pais” representa, portanto, a construção sem substituir o substantivo por uma identificação nominal não fornecida pelo versículo (Attridge, 1989: 338–339).

Γεννηθείς é particípio aoristo passivo de γεννάω, “nascer/ser gerado”. “Depois de nascer” torna explícita a relação temporal natural entre o nascimento e o esconderijo, sem pressupor intervalo específico. Τρίμηνον funciona como expressão de duração, “por três meses”. Hebreus cria aqui um adjetivo temporal compacto, enquanto Êx 2.2 LXX formula o período como “três meses” mediante substantivo e numeral (Attridge, 1989: 338–339).

Ἀστεῖος possui uma história semântica que parte de “urbano, refinado” e se desenvolve para “belo, agradável, atraente”. No contexto infantil de Êx 2.2, “bela” representa a qualidade visual sem importar interpretações posteriores segundo as quais a aparência de Moisés sinalizaria necessariamente uma vocação extraordinária. At 7.20 utiliza o mesmo adjetivo ao caracterizar Moisés (Attridge, 1989: 338–339).

Διάταγμα significa decreto, ordenança ou determinação oficial. No ambiente romano podia funcionar como termo técnico para um decreto, mas em Hebreus refere-se retrospectivamente à ordem do governante egípcio. O autor emprega βασιλεύς, “rei”, e não Φαραώ neste ponto. A BECE conserva “decreto do rei”, sem harmonizar a designação com “Faraó” do v. 24.

Intertextualidade — Êxodo 1–2. O pano de fundo imediato é a ordem de lançar no Nilo os meninos hebreus (Êx 1.22) e o esconderijo de Moisés durante três meses (Êx 2.2–3). O texto hebraico de Êxodo focaliza a mãe; a forma grega da narrativa atribui a ação de ocultar de modo mais amplo, e Hebreus fala explicitamente dos “pais”. O autor acrescenta ainda uma avaliação que não aparece como tal em Êx 2.2: eles “não temeram o decreto do rei” (Attridge, 1989: 338–339; Moffatt, 1924: 179).

A ausência de temor aproxima a ação dos pais de Moisés de outras formas de resistência ao decreto real no próprio Êxodo. As parteiras hebreias haviam desobedecido à política de Faraó porque “temeram a Deus” (Êx 1.17,21). Hebreus não declara explicitamente que esse seja o raciocínio dos pais de Moisés, mas contrapõe claramente sua ação de fé ao medo da autoridade real (Attridge, 1989: 339).

Tradições antigas sobre Moisés. Fílon e Josefo também ampliam a infância de Moisés e atribuem significado especial à sua aparência e preservação. Hebreus, porém, é relativamente sóbrio: não reproduz as elaboradas narrativas sobre sonhos, sinais ou destinos extraordinários encontradas em algumas tradições judaicas. Seu acréscimo interpretativo decisivo é a ausência de medo diante do decreto (deSilva, 2000: 406–407).

Versões comparadas. A NAA lê “Moisés, depois de nascer, foi escondido por seus pais durante três meses” e traduz ἀστεῖον por “menino bonito”. A ARA traz “Moisés, apenas nascido, foi ocultado por seus pais” e “criança [...] formosa”. A ARC diz “Moisés, já nascido, foi escondido três meses por seus pais” e igualmente “menino formoso”. A Bíblia de Jerusalém usa “depois do seu nascimento, foi escondido durante três meses pelos seus pais” e “sua beleza”. A YLT 1863 conserva formalmente a arquitetura participial: Moses, having been born, was hid three months by his parents, chamando a criança de comely. A BECE emprega “depois de nascer”, “foi escondido” e “bela”, mantendo a estrutura sem reproduzir o registro arcaizante de “formosa”.

Função argumentativa. A seção sobre Moisés começa antes de ele poder agir por si mesmo. O primeiro ato de fé é dos pais e consiste em contrariar um comando estatal potencialmente letal. Esse início introduz um motivo que continuará nos vv. 24–27: a fé é apresentada em tensão com o medo, o status e as sanções associados ao poder real (Attridge, 1989: 338–339).

“Ao tornar-se adulto, recusou ser chamado filho da filha de Faraó” — μέγας γενόμενος, identidade e status

Crítica textual. O aparato-base do NTG-EV não registra em 11.24 variante selecionada que exija mudança na tradução. A forma é traduzida segundo Πίστει Μωϋσῆς μέγας γενόμενος ἠρνήσατο λέγεσθαι υἱὸς θυγατρὸς Φαραώ.

Filologia e sintaxe. Μέγας γενόμενος significa literalmente “tendo-se tornado grande”. Em contexto biográfico, a expressão idiomática descreve chegada à maturidade. Ela ecoa Êx 2.11 LXX, onde a mesma sequência introduz a saída de Moisés para observar a situação dos hebreus. At 7.23 explicita a tradição afirmando que ele tinha quarenta anos. “Ao tornar-se adulto” representa o valor contextual sem importar para Hebreus a idade específica registrada em Atos (Attridge, 1989: 339–340).

Ἠρνήσατο é aoristo médio de ἀρνέομαι e significa negar, recusar ou rejeitar para si determinada identificação. O infinitivo passivo λέγεσθαι, “ser chamado”, mostra que o foco está numa designação pública: υἱὸς θυγατρὸς Φαραώ, “filho da filha de Faraó”. Hebreus não afirma simplesmente que Moisés abandonou um endereço ou conforto material; enquadra sua escolha mediante a recusa de um status nominal e social.

Intertextualidade — Êxodo 2. Êx 2.10 relata que, depois de criado, Moisés foi levado à filha de Faraó e “tornou-se filho dela”. Em Êx 2.11, já adulto, ele sai para observar seus “irmãos” e seus trabalhos. Hebreus combina esses elementos e interpreta a aproximação aos hebreus como recusa de continuar sendo identificado pelo status recebido na casa de Faraó. Essa “recusa” não é narrada explicitamente em Êxodo; é uma inferência interpretativa de Hebreus (Attridge, 1989: 339–340).

Contexto histórico-cultural. Ser identificado como filho da filha do governante implicaria, dentro da lógica narrativa e das releituras helenísticas de Moisés, acesso excepcional a honra, proteção e recursos. Fílon e Josefo ampliam esse motivo e chegam a associar Moisés ao futuro da casa real. Essas expansões não devem ser retroprojetadas como dados históricos de Hebreus, mas ajudam a mostrar por que escritores antigos podiam perceber a posição egípcia de Moisés como socialmente elevada (deSilva, 2000: 406–408).

Hebreus não relata o episódio tradicional segundo o qual Moisés, ainda criança, teria rejeitado a coroa de Faraó. A narrativa é conhecida em Josefo, mas o autor mantém sua descrição extremamente breve: a recusa ocorre quando Moisés chegou à maturidade. A distinção é importante para não confundir a composição de Hebreus com tradições posteriores ou paralelas (Moffatt, 1924: 179–180).

Versões comparadas. A NAA traduz μέγας γενόμενος por “sendo homem feito”; a ARA, “quando já homem feito”; a ARC, “sendo já grande”; a Bíblia de Jerusalém, “na idade adulta”. A YLT 1863 mantém literalmente having become great. A BECE prefere “ao tornar-se adulto”: registra o valor idiomático da expressão sem conservar a estranheza lexical de “tornar-se grande”.

NAA, ARA e ARC conservam “filho da filha de Faraó”; a Bíblia de Jerusalém apresenta “filho de uma filha do faraó”, enquanto a YLT usa a son of the daughter of Pharaoh. O grego não contém artigo diante de υἱός, mas a construção predicativa não exige em português a introdução de “um”. A BECE mantém a forma tradicional e sintaticamente natural “ser chamado filho da filha de Faraó”.

Função argumentativa. O v. 24 introduz a primeira ação de fé atribuída diretamente a Moisés adulto. O v. 23 opunha os pais ao decreto do rei; o v. 24 apresenta Moisés recusando a identidade oferecida pela própria casa real. Os vv. 25–26 explicarão positivamente o que ele escolheu em lugar desse status.

“Sofrer maus-tratos juntamente com o povo de Deus” — συγκακουχεῖσθαι, prazer passageiro e a alternativa construída pelo autor

Crítica textual. O aparato-base do NTG-EV não registra em 11.25 variante que afete a presente tradução. A análise parte da sequência μᾶλλον ἑλόμενος συγκακουχεῖσθαι τῷ λαῷ τοῦ θεοῦ ἢ πρόσκαιρον ἔχειν ἁμαρτίας ἀπόλαυσιν.

Filologia e sintaxe. Ἑλόμενος é particípio aoristo médio de αἱρέω na forma média, “escolher, preferir”. Μᾶλλον [...] ἤ constrói uma alternativa comparativa: escolher uma opção “antes” ou “em vez” da outra. “Preferindo [...] a” representa a relação sem necessidade de repetir um segundo verbo finito.

Συγκακουχεῖσθαι é um composto raro formado de σύν, “com”, e κακουχέω, “maltratar, afligir”. O prefixo συν- é semanticamente significativo: Moisés não escolhe simplesmente sofrer, mas sofrer em associação com outro grupo. “Sofrer maus-tratos juntamente com o povo de Deus” preserva esse componente associativo (Attridge, 1989: 339–340).

Hebreus substitui aqui a expressão narrativa “filhos de Israel” de Êx 2.11 por τῷ λαῷ τοῦ θεοῦ, “o povo de Deus”. Essa mudança integra os hebreus oprimidos ao vocabulário mais amplo da própria obra, na qual λαός é termo recorrente para a comunidade vinculada a Deus. A designação também aumenta a relevância paradigmática da escolha de Moisés para os destinatários (Attridge, 1989: 339–340).

Πρόσκαιρος significa temporário, passageiro, limitado a uma ocasião. O adjetivo modifica ἀπόλαυσιν, “desfrute, prazer, fruição”. A expressão ἁμαρτίας ἀπόλαυσιν pode ser analisada como “prazer do pecado” ou, com o genitivo tomado descritivamente, “prazer pecaminoso”. A BECE conserva “prazer passageiro do pecado”, deixando a relação entre os substantivos mais próxima da superfície grega (Attridge, 1989: 340).

Exegese. Êxodo não formula a decisão de Moisés nos termos explícitos de uma escolha entre sofrimento e prazer. Hebreus constrói essa antítese a partir da identificação de Moisés com os hebreus oprimidos e de sua posição na casa real. O texto reinterpreta, portanto, material narrativo em termos deliberativos: duas formas de pertença e dois resultados são colocados lado a lado (deSilva, 2000: 408–409).

O sentido preciso de “pecado” é debatido. Em leitura ampla, a expressão pode simplesmente designar o desfrute pecaminoso associado à alternativa rejeitada. Outros intérpretes relacionam ἁμαρτία mais especificamente à recusa de solidariedade com o povo de Deus — isto é, a permanecer ligado ao status egípcio em vez de compartilhar os sofrimentos de seus irmãos. O contexto favorece uma relação estreita com a alternativa do versículo, mas o substantivo não deve ser reduzido lexicalmente a uma única definição especializada (deSilva, 2000: 408–409; Moffatt, 1924: 180).

Contexto retórico. A oposição entre vantagem temporária e benefício duradouro pertence a formas amplamente atestadas de argumentação moral antiga. Hebreus já empregou contraste semelhante em 10.34–35, onde a perda de bens presentes é confrontada com uma posse “melhor e permanente” e com a recompensa futura. Isso torna a decisão atribuída a Moisés particularmente adequada à situação retórica da obra (deSilva, 2000: 408–409).

Versões comparadas. A NAA lê “preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado”. A ARA é praticamente idêntica, com “prazeres transitórios do pecado”. A ARC preserva uma construção mais nominal: “ser maltratado com o povo de Deus do que [...] ter o gozo do pecado”. A Bíblia de Jerusalém diz “Preferiu ser maltratado com o povo de Deus a gozar por um tempo do pecado”. A YLT 1863 mantém de modo bastante formal to be afflicted with the people of God, than to have sin's pleasure, which is for a season. A BECE traduz o composto por “sofrer maus-tratos juntamente com” e mantém o singular ἀπόλαυσις em “prazer passageiro”.

Função argumentativa. O v. 25 começa a explicar a recusa do v. 24 mediante uma escolha positiva de solidariedade. A alternativa não é apenas “Egito versus Israel” em termos geográficos, mas status individual versus associação com um grupo submetido a sofrimento. O v. 26 aprofundará a mesma avaliação substituindo as categorias sofrimento/prazer pelas categorias opróbrio/riqueza.

“O opróbrio de Cristo” — ὀνειδισμός, Χριστός, os tesouros do Egito e a recompensa

Crítica textual. O NTG-EV lê τῶν Αἰγύπτου θησαυρῶν, literalmente “os tesouros do Egito”, leitura também encontrada em SBLGNT, NA28, WH e RP. O Textus Receptus, representado por Stephanus e Scrivener, lê τῶν ἐν Αἰγύπτῳ θησαυρῶν, “os tesouros no Egito”. A BECE segue o texto-base sem ἐν. A diferença explica também parte da tradição tradutória inglesa que traz “treasures in Egypt”.

Filologia e sintaxe. Μείζονα πλοῦτον [...] τὸν ὀνειδισμόν forma uma construção predicativa: Moisés considerou “o opróbrio” como “riqueza maior”. Ἡγησάμενος é particípio aoristo médio de ἡγέομαι, empregado aqui no sentido de avaliar, considerar ou julgar algo de determinada maneira. A construção é paralela, em função, a λογισάμενος em 11.19: nos dois episódios o autor explicita o cálculo que atribui ao personagem (Attridge, 1989: 340–341).

Πλοῦτος, “riqueza”, e θησαυρός, “tesouro”, pertencem ao mesmo campo semântico, mas não são sinônimos formais. A frase é deliberadamente paradoxal: aquilo que socialmente aparece como ὀνειδισμός, “opróbrio, insulto, desonra”, é avaliado como riqueza maior que os tesouros egípcios.

Ἀπέβλεπεν é imperfeito de ἀποβλέπω. O verbo pode descrever dirigir ou manter o olhar afastado de uma coisa em direção a outra. O imperfeito favorece uma orientação continuada. “Mantinha o olhar voltado para a recompensa” conserva a metáfora visual e a duração sem reduzir o verbo a uma avaliação puramente intelectual (Attridge, 1989: 341; Moffatt, 1924: 180–181).

Μισθαποδοσία significa retribuição ou recompensa e já apareceu em Hb 2.2 e 10.35; em 11.6, a mesma família lexical ocorre em μισθαποδότης, “recompensador”. O texto não especifica aqui o conteúdo concreto da recompensa. Sua função é apresentar um bem futuro em relação ao qual Moisés avalia as vantagens e desvantagens presentes (Attridge, 1989: 341).

“Opróbrio de Cristo”. Τὸν ὀνειδισμὸν τοῦ Χριστοῦ é uma das expressões mais difíceis da unidade. O genitivo τοῦ Χριστοῦ admite mais de uma explicação, e o texto não explicita como Moisés, personagem anterior ao período cristão, se relaciona historicamente com “Cristo”. A tradução “opróbrio de Cristo” preserva essa relação genitiva sem convertê-la numa interpretação dentro do texto principal.

Uma possibilidade é entender a expressão retrospectivamente a partir do horizonte cristão do autor: ao identificar-se com o povo de Deus e aceitar sua desonra, Moisés participa do tipo de opróbrio que o discurso associa a Cristo e aos seus seguidores. Essa interpretação encontra apoio na conexão interna com Hb 10.33, onde os destinatários sofreram “opróbrios”, e sobretudo 13.13, que os conclama a sair “levando o opróbrio dele” (deSilva, 2000: 410–411).

Outra proposta relaciona a formulação a Sl 89.51–52 [88.51–52 LXX], onde aparecem próximos o vocabulário de “opróbrio” e a referência ao “ungido”. Também se propôs que Χριστός fosse usado genericamente para um “ungido”, que o povo de Deus fosse concebido coletivamente como ungido, ou ainda que Hebreus atribuísse a Moisés alguma consciência profética do Cristo futuro. Nenhuma dessas propostas resolve todas as dificuldades, e o próprio contexto não especifica qual mecanismo conceitual deveria ligar Moisés a Cristo (Attridge, 1989: 340–341; deSilva, 2000: 410–411).

Por isso, não se deve transformar o versículo numa afirmação histórica de que Moisés possuía necessariamente conhecimento explícito e detalhado de Jesus. Essa conclusão ultrapassa o que a construção lexical estabelece. O dado seguro é autoral: Hebreus caracteriza retrospectivamente a desonra aceita por Moisés mediante a expressão “opróbrio de Cristo”.

Intertextualidade e contexto argumentativo. A imagem do opróbrio encontra correspondência especialmente forte dentro da própria carta. Os destinatários haviam suportado publicamente “opróbrios e tribulações” (10.33), e 13.13 utiliza novamente a linguagem do opróbrio em associação explícita com Cristo. Moisés funciona, portanto, como personagem antigo cuja avaliação é formulada no vocabulário da experiência que o autor deseja interpretar para sua audiência (deSilva, 2000: 410–411).

A relação com 11.1 e 11.6 também é lexicalmente importante. Moisés troca uma riqueza visível por uma recompensa ainda futura; sua avaliação corresponde ao padrão estabelecido no início do capítulo, em que a ação presente é orientada por realidades ainda não vistas. O movimento será retomado em 11.27 mediante a descrição do “Invisível”.

Contexto histórico-cultural. Dentro de uma cultura fortemente estruturada por honra e desonra, ser associado à casa real egípcia representa, na composição de Hebreus, posição de elevado prestígio, enquanto solidarizar-se com um grupo escravizado representa perda de status. A linguagem de “opróbrio” e “riqueza” inverte essa avaliação pública: o autor apresenta Moisés como alguém que reclassifica honra, riqueza e sofrimento segundo uma recompensa futura (deSilva, 2000: 406–411).

Versões comparadas. A NAA interpreta significativamente a expressão: “ser desprezado por causa de Cristo”. Essa redação transforma o genitivo em relação causal. A ARA conserva “o opróbrio de Cristo”, assim como a ARC, com o termo tradicional “vitupério de Cristo”. A Bíblia de Jerusalém traduz “a humilhação de Cristo”. A YLT 1863 mantém a forma marcada the reproach of the Christ. A BECE prefere “o opróbrio de Cristo”, porque conserva a relação gramatical sem decidir no corpo da tradução se o genitivo é associativo, possessivo, causal ou possui outra nuance.

Para τῶν Αἰγύπτου θησαυρῶν, NAA, ARA, ARC e Bíblia de Jerusalém usam “tesouros do Egito”, correspondendo ao NTG-EV. A YLT 1863 lê the treasures in Egypt, formulação compatível com a tradição que contém ἐν. A diferença é textual, e não simplesmente estilística.

Na cláusula final, a NAA usa “contemplava a recompensa”, a ARA “contemplava o galardão”, a ARC “tinha em vista a recompensa”, a Bíblia de Jerusalém “tinha os olhos fixos na recompensa” e a YLT 1863 looked to the recompense of reward. A BECE emprega “mantinha o olhar voltado para a recompensa”, preservando a imagem verbal e o aspecto durativo do imperfeito.

Função argumentativa. Os vv. 24–26 formam uma única cadeia de avaliação. Moisés recusa uma designação honorífica, escolhe solidariedade com um grupo maltratado, compara prazer passageiro com sofrimento e, finalmente, compara tesouros visíveis com opróbrio e recompensa. O ponto culminante não é a pobreza por si mesma, mas uma reclassificação do valor das alternativas à luz do resultado futuro. Isso prepara diretamente 11.27, onde sua perseverança será explicada mediante referência ao “Invisível”.

Moisés e Israel: O Invisível, a Páscoa e a Travessia do Mar

27 Pela fé, bxdeixou o Egito, sem temer bya ira do rei, pois perseverou como quem vê bzo Invisível.27 28 Pela fé, cacelebrou a Páscoa e cbo derramamento do sangue, para que aquele que destruía ccos primogênitos não tocasse neles.28 29 Pela fé, cdatravessaram o Mar Vermelho como por ceterra seca; os egípcios, ao tentarem, cfforam tragados.29

“Deixou o Egito, sem temer a ira do rei” — qual saída do Egito e a visão do Invisível

Crítica textual. O aparato-base do NTG-EV utilizado nesta unidade não assinala em 11.27 variante selecionada que exija modificação da tradução. A dificuldade principal do versículo é exegética: identificar a saída do Egito à qual κατέλιπεν Αἴγυπτον se refere e explicar sua relação com a afirmação de que Moisés não temeu a ira do rei.

Filologia e sintaxe. Κατέλιπεν é aoristo de καταλείπω, “deixar, abandonar, deixar para trás”. A tradução “deixou o Egito” preserva a neutralidade do verbo e não determina antecipadamente se o referente é a fuga para Midiã ou a saída posterior no êxodo.

Μὴ φοβηθείς é particípio aoristo passivo de φοβέομαι com valor circunstancial: “sem temer”, “não tendo temido”. Θυμός pode designar ira, cólera ou furor. “A ira do rei” representa literalmente τὸν θυμὸν τοῦ βασιλέως e retoma o contraste já presente em 11.23, onde os pais de Moisés “não temeram o decreto do rei”.

A cláusula explicativa τὸν γὰρ ἀόρατον ὡς ὁρῶν ἐκαρτέρησεν contém uma justaposição deliberadamente paradoxal entre ἀόρατος, “invisível”, e ὁράω, “ver”. Ἀόρατος está substantivado pelo artigo: “o Invisível”. O adjetivo é empregado em outros textos para Deus ou para sua condição de não ser acessível à visão ordinária (Rm 1.20; Cl 1.15; 1Tm 1.17). O contexto identifica aqui o referente como Deus (Attridge, 1989: 342–343).

Ὡς ὁρῶν admite uma ambiguidade real. Pode significar “como quem vê” ou, em formulação mais hipotética, “como se visse”. A primeira solução deixa aberta a linguagem visionária sem afirmar que Moisés tenha percebido Deus fisicamente; a segunda enfatiza o caráter figurado da visão. A BECE adota “como quem vê o Invisível”, pois conserva a tensão retórica sem decidir dentro da tradução a natureza dessa percepção (Attridge, 1989: 342–343).

Ἐκαρτέρησεν deriva de καρτερέω, “perseverar, manter-se firme, suportar”. O verbo ocorre somente aqui no Novo Testamento. A ação não é mera sobrevivência passiva: caracteriza constância diante da oposição. A relação com ὡς ὁρῶν explica essa perseverança mediante a orientação para uma realidade não visível, retomando diretamente a caracterização da fé em 11.1 (Attridge, 1989: 343).

Intertextualidade — Êxodo 2.14–15 e a dificuldade cronológica. A identificação mais imediata de κατέλιπεν Αἴγυπτον seria a fuga de Moisés para Midiã depois da morte do egípcio. Êx 2.14–15, porém, afirma explicitamente que Moisés “teve medo” quando percebeu que o homicídio se tornara conhecido e que Faraó procurava matá-lo. At 7.29 também associa sua fuga ao episódio. Hebreus, em contraste, declara que ele deixou o Egito “sem temer a ira do rei” (Attridge, 1989: 342; Moffatt, 1924: 181–182).

Uma segunda possibilidade é identificar a saída com o êxodo nacional. Essa leitura harmonizaria mais facilmente a ausência de medo diante de Faraó, mas produz uma inversão cronológica, pois o v. 28 menciona em seguida a Páscoa, que precedeu a partida do Egito. A cronologia do catálogo não é absolutamente rígida, mas a sequência continua sendo uma dificuldade para essa interpretação (Attridge, 1989: 342).

Uma terceira abordagem evita exigir uma identificação demasiado precisa. deSilva (2000: 412) observa que o interesse retórico pode estar simplesmente no ato de “deixar o Egito para trás”, como abandono do ambiente de status e segurança descrito nos vv. 24–26. A falta de precisão do próprio texto recomenda cautela: a tradução deve preservar “deixou o Egito” sem inserir “fugiu para Midiã” ou “conduziu Israel no êxodo”.

Tradições antigas sobre Moisés. Algumas releituras judaicas procuraram reduzir a tensão de Êx 2.14–15, representando a saída de Moisés como demonstração de prudência ou coragem, em vez de medo. Josefo, por exemplo, desloca a iniciativa hostil para Faraó e transforma a fuga numa ocasião de resistência. Essas tradições mostram que o contraste de Hebreus com Êxodo não era necessariamente isolado, mas não provam dependência literária direta (deSilva, 2000: 412).

Versões comparadas. A NAA traz “Moisés abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a ira do rei”; a ARA, “ele abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a cólera do rei”; a ARC, “deixou o Egito, não temendo a ira do rei”; a Bíblia de Jerusalém, “deixou o Egito, sem temer o furor do rei”. A YLT 1863 emprega he forsook Egypt, not having been afraid of the wrath of the king. A BECE prefere o semanticamente menos carregado “deixou o Egito”, preservando aberta a identificação histórica da partida.

Na cláusula final, NAA e ARA dizem “como quem vê aquele que é invisível”; ARC, “como vendo o invisível”; Bíblia de Jerusalém, “como se visse o Invisível”; e YLT, as seeing the Invisible One. A BECE adota “como quem vê o Invisível”, mantendo tanto a substantivação do adjetivo quanto a ambiguidade de ὡς.

Função argumentativa. O v. 26 havia descrito Moisés mantendo o olhar voltado para a recompensa; o v. 27 intensifica a metáfora visual ao apresentá-lo “vendo o Invisível”. O visível — Egito, corte e ira real — é colocado em contraste com aquilo que não é acessível à visão ordinária. A unidade retoma, assim, diretamente o eixo programático de 11.1 e prepara a ação ritual do v. 28.

“Celebrou a Páscoa e o derramamento do sangue” — πεποίηκεν, πρόσχυσις e a proteção dos primogênitos

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV utilizado para 11.28 não registra variante selecionada que modifique a presente tradução. A análise parte, portanto, de Πίστει πεποίηκεν τὸ πάσχα καὶ τὴν πρόσχυσιν τοῦ αἵματος.

Filologia e sintaxe. Πεποίηκεν é perfeito de ποιέω. A expressão ποιεῖν τὸ πάσχα é idiomática no grego bíblico e significa realizar, observar ou celebrar a Páscoa. O perfeito não exige em português “tem celebrado”; pode funcionar narrativamente de modo próximo a um aoristo, como ocorre também em 11.17. “Celebrou a Páscoa” representa o evento histórico sem impor ao perfeito um valor resultativo artificial (Attridge, 1989: 343; Moffatt, 1924: 182).

Πρόσχυσις é extremamente raro e ocorre somente aqui no corpus bíblico grego conservado. Deriva de προσχέω, verbo empregado para derramar ou verter um líquido sobre algo, inclusive em contextos rituais de aplicação de sangue. Por isso, “derramamento do sangue” representa mais diretamente sua formação lexical do que o tradicional “aspersão”, embora a ação histórica de Êx 12 envolva a aplicação do sangue às ombreiras e à verga das casas (Attridge, 1989: 343).

A palavra não é o termo técnico ῥαντισμός, “aspersão”, utilizado em Hb 12.24, nem formas de ῥαντίζω encontradas anteriormente em 9.13,19,21. A distinção lexical deve ser preservada. “Derramamento”, neste contexto, não designa simplesmente o ato de matar a vítima e fazer seu sangue correr, mas a utilização ritual do sangue conforme Êx 12.7,22–23.

“Aquele que destruía os primogênitos”. Ὁ ὀλοθρεύων é particípio presente substantivado de ὀλοθρεύω, “destruir”. Τὰ πρωτότοκα funciona como seu objeto direto: “aquele que destruía os primogênitos”. A construção não diz literalmente “o anjo destruidor”, embora tradições interpretativas possam identificar o agente dessa maneira. A BECE não introduz “anjo” no texto principal porque o substantivo não está presente em Hebreus.

Θίγῃ rege genitivo, e αὐτῶν é seu complemento: literalmente, “não tocasse neles”. Assim, τὰ πρωτότοκα deve ser ligado a ὀλοθρεύων, não a αὐτῶν. Algumas traduções tornam a relação explícita como “não tocasse nos primogênitos deles”, mas isso reorganiza a sintaxe. A BECE conserva a estrutura: “para que aquele que destruía os primogênitos não tocasse neles” (Attridge, 1989: 343).

Intertextualidade — Êxodo 12. A referência é ao primeiro rito pascal e à aplicação do sangue nas casas israelitas. Êx 12.21–23 relaciona explicitamente o sangue à passagem do agente destruidor sem permitir-lhe entrar nas casas para ferir. Hebreus comprime a narrativa em dois atos: celebração da Páscoa e derramamento/aplicação do sangue.

A linguagem de sangue possui evidente ressonância com a exposição anterior de Hebreus, especialmente 9.12–14,18–22. Contudo, o v. 28 não formula uma tipologia explícita da Páscoa nem identifica diretamente o sangue pascal com o sangue de Cristo. Essa associação pode ocorrer em outros textos cristãos, como 1Co 5.7, mas não deve ser importada para a exegese de Hb 11.28 como se estivesse lexicalmente expressa aqui (Attridge, 1989: 343).

Exegese. O último exemplo individual de fé atribuído a Moisés retorna a uma ação ritual. Assim como Abraão no v. 17 agiu diante de uma ameaça que envolvia morte, Moisés realiza uma ação prescrita cuja finalidade é evitar a destruição dos primogênitos. A fé é apresentada concretamente como execução de uma instrução antes do acontecimento contra o qual essa ação oferece proteção.

Versões comparadas. A NAA e a ARA traduzem “celebrou a Páscoa e o derramamento do sangue”. A ARC emprega “celebrou a Páscoa e a aspersão do sangue”; a Bíblia de Jerusalém igualmente fala em “aspersão do sangue”. A YLT 1863 traz kept the passover, and the sprinkling of the blood. A BECE segue “celebrou” para a expressão idiomática ποιεῖν τὸ πάσχα, mas prefere “derramamento” para πρόσχυσις, distinguindo-o do vocabulário específico de aspersão empregado em outros pontos de Hebreus.

Na oração final, as versões frequentemente explicitam o referente: NAA e ARA dizem que o exterminador não tocasse “nos primogênitos dos israelitas”; a ARC formula “para que o destruidor dos primogênitos lhes não tocasse”; a Bíblia de Jerusalém diz “para que o Exterminador não ferisse os primogênitos de Israel”; e a YLT, lest He who is destroying the first-born touch them. A BECE aproxima-se aqui da estrutura sintática representada pela ARC e pela YLT.

Função argumentativa. O v. 28 encerra a sequência de atos individuais de Moisés. A última palavra pronominal, αὐτῶν, já aponta para o grupo protegido e facilita a transição para o plural explícito διέβησαν do v. 29. O foco passa de Moisés para Israel como coletividade agente da fé (Attridge, 1989: 343).

“Atravessaram o Mar Vermelho como por terra seca” — mudança de sujeito, γῆς e a tentativa dos egípcios

Crítica textual. O NTG-EV lê διὰ ξηρᾶς γῆς, “por terra seca”. Γῆς é apoiado por 𝔓13, 𝔓46, א, A, D*, Ψ, 0227, 33, 81, 104, 365, 1241, 1505, 1739, 1881, testemunhos latinos e siríacos. D2, K, L, P, 630 e 𝔐 omitem γῆς, deixando apenas διὰ ξηρᾶς, substantivação que ainda pode significar “pelo seco”. O NTG-EV mantém γῆς, como SBLGNT e NA28.

Filologia e sintaxe. Διέβησαν é terceira pessoa do plural e marca a mudança de sujeito. Desde o v. 24, Moisés vinha funcionando como personagem central; agora a ação pertence aos israelitas coletivamente. O antecedente do plural é preparado por αὐτῶν no final do v. 28 e pelo contexto do êxodo (Attridge, 1989: 343).

Τὴν ἐρυθρὰν θάλασσαν é literalmente “o Mar Vermelho”. Ἐρυθρός significa “vermelho”, e Ἐρυθρὰ Θάλασσα é a designação convencional da Septuaginta para o mar associado ao êxodo. O hebraico de Êxodo emprega יַם־סוּף, tradicionalmente analisado como “Mar de Juncos”. Como Hebreus utiliza a forma grega ἐρυθρὰ θάλασσα, a BECE traduz o texto efetivamente citado pela tradição grega: “Mar Vermelho”, sem retroverter a expressão para a forma hebraica.

Ὡς διὰ ξηρᾶς γῆς significa “como por terra seca”. Ξηρός descreve aquilo que é seco, árido ou sem água. A comparação preserva o caráter paradoxal da cena: a travessia ocorre através do mar, mas a condição do percurso é comparada à terra seca.

“Os egípcios, ao tentarem”. Πεῖραν λαμβάνειν é uma expressão idiomática antiga. Conforme o contexto, pode significar fazer uma tentativa, experimentar ou provar algo. Aqui a ação dos egípcios consiste em tentar realizar a mesma travessia. “Ao tentarem” representa a expressão sem acrescentar no corpo “[fazer o mesmo]”, que seria uma explicitação editorial desnecessária (Moffatt, 1924: 183).

O pronome relativo ἧς é formalmente ambíguo porque tanto θάλασσα, “mar”, quanto γῆ, “terra”, são femininos. Assim, a construção pode ser entendida como “o mar que os egípcios tentaram atravessar” ou como referência à experiência de passar pela “terra seca”. O resultado sintático é o mesmo: os egípcios tentaram reproduzir a travessia e fracassaram. A tradução “ao tentarem” evita resolver desnecessariamente o antecedente (Attridge, 1989: 343).

Κατεπόθησαν é aoristo passivo de καταπίνω, literalmente “foram engolidos/tragados”. O verbo oferece uma imagem mais concreta do que simplesmente “afogaram-se”. A forma possui correspondência com Êx 15.4 na tradição grega, onde os egípcios são descritos como tragados pelo Mar Vermelho. A BECE conserva “foram tragados”.

Intertextualidade — Êxodo 14–15. O episódio deriva da travessia narrada em Êx 14. Israel atravessa pelo meio do mar sobre solo seco, enquanto as forças egípcias entram atrás deles e são cobertas pelas águas. Êx 15 retoma poeticamente a destruição do exército. Hebreus comprime a narrativa numa antítese: a mesma passagem é atravessada com sucesso pelos israelitas e termina em destruição para os egípcios.

Essa diferença não é explicada por habilidade física distinta nem por uma propriedade natural do percurso. A rubrica Πίστει transforma a travessia israelita em exemplo de fé, enquanto a tentativa egípcia funciona como contraponto. O texto não diz explicitamente que os egípcios agiram “por incredulidade”; essa conclusão pertence à lógica do contraste, não à formulação lexical do versículo (Attridge, 1989: 343).

Israel e a tradição da travessia. A atribuição de fé coletiva aos israelitas é notável porque Hebreus 3–4 havia enfatizado a incredulidade e desobediência da geração do deserto. Não há contradição necessária: 11.29 seleciona uma ação específica da narrativa do êxodo, enquanto 3–4 avalia a resposta posterior da geração durante a caminhada no deserto. O catálogo não pretende fornecer uma avaliação uniforme de toda a trajetória de cada personagem ou grupo (Attridge, 1989: 343).

Versões comparadas. A NAA traduz “os israelitas atravessaram o mar Vermelho como por terra seca. Quando os egípcios tentaram fazer o mesmo, foram engolidos pelo mar”. A ARA lê “atravessaram o mar Vermelho como por terra seca; tentando-o os egípcios, foram tragados de todo”. A ARC apresenta “passaram o mar Vermelho, como por terra seca; o que intentando os egípcios, se afogaram”. A Bíblia de Jerusalém traz “atravessaram o mar Vermelho como se fosse terra enxuta, ao passo que os egípcios, tentando-o também, foram engolidos”. A YLT 1863 conserva they passed through the Red Sea as through dry land, which the Egyptians having tried, were swallowed up.

A BECE não acrescenta “os israelitas” ao texto principal porque o sujeito plural não está lexicalmente expresso e pode ser recuperado do contexto. Também evita “tentaram fazer o mesmo”, embora seja uma explicação correta, para preservar a concisão de πεῖραν λαβόντες. “Foram tragados” conserva ainda a imagem verbal de καταπίνω, presente no NTG-EV.

Função argumentativa. O v. 29 amplia o catálogo do indivíduo para a coletividade. A mesma fórmula Πίστει que introduziu Abraão, Moisés e outros personagens agora qualifica uma ação de Israel como povo. Ao mesmo tempo, a contraposição entre a passagem bem-sucedida e a tentativa fatal dos egípcios encerra a seção do êxodo com um exemplo em que a ação externa é semelhante, mas o resultado é radicalmente distinto. O v. 30 deslocará a narrativa para a entrada em Canaã.

Jericó e Raabe: A Queda das Muralhas e o Acolhimento dos Espias

30 Pela fé, cgas muralhas de Jericó caíram, depois de terem sido chrodeadas durante sete dias.30 31 Pela fé, ciRaabe, a prostituta, não pereceu juntamente com cjos desobedientes, tendo ckacolhido os espias em paz.31

“As muralhas de Jericó caíram” — ἔπεσαν, a circunvalação por sete dias e a condensação de Josué 6

Crítica textual. O NTG-EV lê ἔπεσαν, terceira pessoa do plural, leitura atestada por 𝔓13, א e A e adotada por SBLGNT e NA28. 𝔓46 apresenta ἔπεσεν, singular, forma também representada no RP; o Textus Receptus apresenta ἔπεσε. Mantém-se o plural do NTG-EV, gramaticalmente concordante com τὰ τείχη, “as muralhas”. A variante singular pode ser explicada como acomodação da forma verbal a uma concepção coletiva das fortificações ou como simplificação da concordância.

Filologia e sintaxe. Τὰ τείχη é plural de τεῖχος, termo empregado para muro ou muralha defensiva de uma cidade. “Muralhas” representa melhor o contexto fortificado de Jericó que o mais genérico “muros”. Ἰεριχώ permanece indeclinável, como frequentemente ocorre com topônimos semíticos no grego bíblico.

Ἔπεσαν é aoristo de πίπτω, “cair”. Hebreus não explicita agente humano nem descreve o mecanismo da queda; a ação é simplesmente apresentada sob a rubrica Πίστει. O sujeito gramatical são as próprias muralhas, não os israelitas. Isso distingue formalmente o v. 30 do v. 29, em que um sujeito humano plural realiza a travessia.

Κυκλωθέντα é particípio aoristo passivo de κυκλόω, “cercar, rodear, circundar”. O particípio concorda com τὰ τείχη e significa literalmente que as muralhas foram “rodeadas”. Na narrativa de Josué, naturalmente, são a cidade e suas fortificações que os israelitas circundam. Hebreus comprime a ação mediante uma construção na qual as próprias muralhas aparecem como objeto da circunvalação.

Ἐπὶ ἑπτὰ ἡμέρας expressa duração: “durante sete dias”. Josué 6 fornece uma sequência mais precisa: a cidade é circundada uma vez por dia durante seis dias, enquanto no sétimo dia é circundada sete vezes antes do grito e da queda das muralhas (Js 6.3–5,14–16,20). Hebreus resume todo esse procedimento como circunvalação “durante sete dias”, sem reproduzir a distinção entre os seis primeiros dias e o sétimo (Attridge, 1989: 344).

Intertextualidade — Josué 6. O v. 30 resume Js 6.1–20, particularmente os vv. 14–16 e 20. A narrativa associa a queda da muralha ao cumprimento das instruções recebidas por Josué: marcha ao redor da cidade, sacerdotes, trombetas, arca e o grito final. Hebreus elimina quase todos esses componentes e retém apenas três elementos: fé, muralhas e circunvalação de sete dias.

Essa seleção é exegética. Josué 6 não chama explicitamente a marcha de ato de πίστις. Hebreus interpreta a execução de uma estratégia militar incomum como manifestação de confiança na promessa ligada às instruções recebidas. O resultado é semelhante ao procedimento empregado ao longo do capítulo: ações narradas nas Escrituras são reorganizadas sob a categoria programática Πίστει (Attridge, 1989: 344; deSilva, 2000: 415).

Natureza da ação. A linguagem de Hebreus não descreve um cerco militar convencional. Na narrativa de Josué não são mencionadas máquinas de assédio, rampas ou ataque às muralhas durante os sete dias; a ação consiste primordialmente numa procissão ritual em torno da cidade segundo instruções específicas. Por isso, a BECE prefere “rodeadas” a “cercadas” ou “depois de um cerco de sete dias”, expressões que podem introduzir uma imagem militar mais específica do que o verbo κυκλόω exige (Moffatt, 1924: 183).

Exegese. O versículo contém uma mudança importante no catálogo: nenhuma personagem é nomeada. Nem Josué nem os sacerdotes nem Israel aparecem como sujeito gramatical. As “muralhas de Jericó” tornam-se o elemento focal e sua queda funciona como resultado associado à ação coletiva pressuposta. Essa concisão antecipa a forma ainda mais abreviada da enumeração de 11.32–38.

A ausência de Josué é especialmente notável, já que o episódio pertence diretamente à sua narrativa. O texto, contudo, não pretende oferecer uma lista sistemática de dirigentes de Israel. O princípio de seleção é retórico: a queda das muralhas, e não a biografia do comandante, fornece o exemplo imediatamente útil à sequência (Moffatt, 1924: 183).

Versões comparadas. A NAA lê “Pela fé, ruíram as muralhas de Jericó, depois de rodeadas por sete dias”; a ARA apresenta a mesma formulação fundamental. A ARC prefere “caíram os muros de Jericó, sendo rodeados durante sete dias”. A Bíblia de Jerusalém diz “as muralhas de Jericó caíram, depois de um cerco de sete dias”. A YLT 1863 traduz formalmente the walls of Jericho fell, having been surrounded for seven days.

A BECE combina “muralhas”, lexicalmente apropriado a τείχη, com “caíram”, representação direta de ἔπεσαν, e “depois de terem sido rodeadas durante sete dias”, que preserva tanto o particípio passivo quanto a duração expressa por ἐπί. Evita-se “cerco” porque o substantivo militar não está lexicalizado no texto.

Função argumentativa. O v. 30 desloca o cenário do êxodo para a conquista da terra. O período intermediário do deserto é omitido — precisamente o período que Hebreus 3–4 havia utilizado extensamente como exemplo negativo de desobediência. O catálogo retoma a sequência onde encontra uma ação que pode ser apresentada positivamente sob a rubrica da fé: a queda de Jericó (Attridge, 1989: 344; deSilva, 2000: 415).

“Raabe, a prostituta, não pereceu juntamente com os desobedientes” — πόρνη, ἀπειθέω e o acolhimento dos espias

Crítica textual. O NTG-EV lê Ῥαὰβ ἡ πόρνη, “Raabe, a prostituta”. א* e syh acrescentam ἐπιλεγομένη entre o artigo e πόρνη, produzindo aproximadamente “Raabe, chamada prostituta”. Mantém-se a leitura mais breve de SBLGNT e NA28. A expansão suaviza ou distancia a designação, transformando-a parcialmente numa alcunha pela qual Raabe seria conhecida; essa mediação não pertence ao texto-base.

Na cláusula seguinte, o NTG-EV lê τοῖς ἀπειθήσασιν, com 𝔓13, א e A, leitura adotada por SBLGNT e NA28. 𝔓46 apresenta τοῖς ἀπιστήσασιν, “os que não creram / foram infiéis”. A variante é significativa porque ἀπιστέω tornaria explícito o polo oposto de πίστις. O NTG-EV mantém, porém, ἀπειθέω, cujo campo principal é desobedecer, recusar-se a ser persuadido ou não se submeter.

Filologia — “a prostituta”. Πόρνη significa prostituta. O termo é explícito e não há motivo filológico para substituí-lo por “hospedeira”, “estalajadeira” ou outro eufemismo no texto traduzido. Algumas releituras antigas suavizaram a profissão de Raabe, mas Hebreus conserva sem atenuação a caracterização encontrada em Js 2.1 e 6.17 (Attridge, 1989: 344–345).

“Prostituta” é preferido a “meretriz” porque corresponde ao mesmo referente sem o registro arcaizante do segundo termo. A designação possui função literária relevante: Raabe entra no catálogo sem que sua posição social ou origem gentílica sejam ocultadas.

“Não pereceu juntamente com”. Συναπόλλυμι é composto de σύν e ἀπόλλυμι e significa perecer ou ser destruído juntamente com outros. O verbo ocorre aqui de forma singular no Novo Testamento. “Não pereceu juntamente com” preserva o prefixo συν- e torna explícito o contraste entre o destino de Raabe e o da população da cidade (Attridge, 1989: 344–345).

Τοῖς ἀπειθήσασιν é particípio aoristo substantivado: “os que desobedeceram”, “os desobedientes”. O mesmo campo lexical é importante dentro de Hebreus. Em 3.18, 4.6 e 4.11, ἀπειθέω e termos relacionados caracterizam a recusa da geração do deserto em responder adequadamente. Traduzir aqui “incrédulos” é contextualmente compreensível, pois desobediência e falta de fé se inter-relacionam na obra; contudo, essa solução apaga a diferença entre ἀπειθέω do NTG-EV e a variante ἀπιστέω de 𝔓46. A BECE conserva “desobedientes”.

Intertextualidade — Josué 2 e 6. O relato-base encontra-se em Js 2.1–21 e 6.17,22–25. Raabe recebe os dois homens enviados para reconhecer Jericó, esconde-os dos agentes do rei, reconhece que YHWH entregou a terra a Israel e auxilia os espias a escapar. Posteriormente, ela e sua casa são preservadas quando a cidade é destruída.

Hebreus não reproduz a longa confissão de Js 2.9–11, mas é provavelmente nela que encontra a base para classificar a conduta de Raabe sob Πίστει. Em Josué, ela declara conhecer o que Deus fizera no êxodo e afirma que o Deus de Israel é Deus “em cima nos céus e embaixo na terra”. O ato de acolher os espias é, portanto, narrativamente ligado à avaliação que ela faz da situação e de seu futuro (Attridge, 1989: 344–345; deSilva, 2000: 415).

“Tendo acolhido os espias em paz”. Δεξαμένη é particípio aoristo médio de δέχομαι, “receber, acolher”. Κατάσκοπος é aquele que observa secretamente uma região, isto é, espia ou explorador. “Espias” preserva o vocabulário tradicional português e continua semanticamente adequado.

Μετ᾽ εἰρήνης significa literalmente “com paz”. A expressão não é reprodução de uma frase específica de Josué e parece ser formulação própria de Hebreus para caracterizar a recepção. Pode significar que os homens foram acolhidos amistosamente, sem hostilidade, e de modo favorável à sua missão. A BECE conserva “em paz”, em vez de reduzir a locução ao advérbio “pacificamente” (Attridge, 1989: 344–345).

Tg 2.25 utiliza o mesmo episódio, mas com objetivo argumentativo diferente: Raabe é apresentada como alguém cuja ação ao acolher os mensageiros e enviá-los por outro caminho demonstra a relação entre ação e justiça. Hebreus seleciona o mesmo comportamento sob a rubrica de πίστις. A coexistência das duas leituras mostra como a mesma narrativa podia funcionar como exemplo em diferentes construções argumentativas antigas.

Contexto social e literário. Raabe encerra a série de exemplos individualizados antes da aceleração retórica do v. 32. Sua posição é marcadamente distinta da de Abraão, Moisés ou dos patriarcas: é mulher, não israelita, habitante da cidade que está prestes a ser destruída e identificada como prostituta. A narrativa de Hebreus não apaga nenhuma dessas características. Ao mesmo tempo, seu destino é separado do dos demais habitantes de Jericó por sua recepção dos representantes de Israel (Attridge, 1989: 344–345).

deSilva (2000: 415) destaca a inversão espacial produzida pela narrativa: as fortificações que parecem oferecer segurança aos habitantes de Jericó não os preservam, enquanto Raabe, ao vincular seu destino ao dos espias, sobrevive à destruição da cidade. Essa observação descreve a lógica retórica da passagem, mas não exige transformar Jericó ou Raabe em símbolos alegóricos.

Versões comparadas. A NAA lê “Raabe, a prostituta, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu os espias com paz”. A ARA emprega “Raabe, a meretriz” e “não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias”. A ARC também usa “meretriz”, mas traduz τοῖς ἀπειθήσασιν por “os incrédulos” e conserva o particípio: “acolhendo em paz os espias”. A Bíblia de Jerusalém apresenta “Raab, a prostituta, não pereceu com os indóceis, porque recebera pacificamente os espiões”. A YLT 1863 lê Rahab the harlot perished not with those who disbelieved, having received the spies with peace.

A BECE adota “prostituta” para πόρνη e “desobedientes” para ἀπειθήσασιν. Esta última decisão é especialmente importante criticamente: traduzir o texto-base por “incrédulos” aproximaria semanticamente a redação da variante ἀπιστήσασιν de 𝔓46 e esconderia uma distinção real do aparato. “Tendo acolhido [...] em paz” conserva ainda a construção participial e a locução μετ᾽ εἰρήνης.

Função argumentativa. Os vv. 30–31 apresentam dois resultados opostos dentro do mesmo episódio: as muralhas que protegiam Jericó caem, enquanto Raabe não perece com os habitantes caracterizados como desobedientes. A mesma narrativa fornece, assim, destruição e preservação. O contraste continua o padrão já observado na Páscoa e no Mar Vermelho: dentro da argumentação de Hebreus, a fé está associada a uma resposta que conduz a destino distinto daquele reservado aos que resistem à ação representada como divina (deSilva, 2000: 415).

Raabe é também o último personagem a receber descrição individual antes da mudança retórica de 11.32. A partir desse ponto, o autor abandona a sucessão relativamente detalhada de episódios e passa a uma enumeração acelerada de nomes, feitos e sofrimentos.

Moisés e Israel: O Invisível, a Páscoa e a Travessia do Mar

27 Pela fé, bxdeixou o Egito, sem temer bya ira do rei, pois perseverou como quem vê bzo Invisível.27 28 Pela fé, cacelebrou a Páscoa e cbo derramamento do sangue, para que aquele que destruía ccos primogênitos não tocasse neles.28 29 Pela fé, cdatravessaram o Mar Vermelho como por ceterra seca; os egípcios, ao tentarem, cfforam tragados.29

“Deixou o Egito, sem temer a ira do rei” — qual saída do Egito e a visão do Invisível

Crítica textual. O aparato-base do NTG-EV utilizado nesta unidade não assinala em 11.27 variante selecionada que exija modificação da tradução. A dificuldade principal do versículo é exegética: identificar a saída do Egito à qual κατέλιπεν Αἴγυπτον se refere e explicar sua relação com a afirmação de que Moisés não temeu a ira do rei.

Filologia e sintaxe. Κατέλιπεν é aoristo de καταλείπω, “deixar, abandonar, deixar para trás”. A tradução “deixou o Egito” preserva a neutralidade do verbo e não determina antecipadamente se o referente é a fuga para Midiã ou a saída posterior no êxodo.

Μὴ φοβηθείς é particípio aoristo passivo de φοβέομαι com valor circunstancial: “sem temer”, “não tendo temido”. Θυμός pode designar ira, cólera ou furor. “A ira do rei” representa literalmente τὸν θυμὸν τοῦ βασιλέως e retoma o contraste já presente em 11.23, onde os pais de Moisés “não temeram o decreto do rei”.

A cláusula explicativa τὸν γὰρ ἀόρατον ὡς ὁρῶν ἐκαρτέρησεν contém uma justaposição deliberadamente paradoxal entre ἀόρατος, “invisível”, e ὁράω, “ver”. Ἀόρατος está substantivado pelo artigo: “o Invisível”. O adjetivo é empregado em outros textos para Deus ou para sua condição de não ser acessível à visão ordinária (Rm 1.20; Cl 1.15; 1Tm 1.17). O contexto identifica aqui o referente como Deus (Attridge, 1989: 342–343).

Ὡς ὁρῶν admite uma ambiguidade real. Pode significar “como quem vê” ou, em formulação mais hipotética, “como se visse”. A primeira solução deixa aberta a linguagem visionária sem afirmar que Moisés tenha percebido Deus fisicamente; a segunda enfatiza o caráter figurado da visão. A BECE adota “como quem vê o Invisível”, pois conserva a tensão retórica sem decidir dentro da tradução a natureza dessa percepção (Attridge, 1989: 342–343).

Ἐκαρτέρησεν deriva de καρτερέω, “perseverar, manter-se firme, suportar”. O verbo ocorre somente aqui no Novo Testamento. A ação não é mera sobrevivência passiva: caracteriza constância diante da oposição. A relação com ὡς ὁρῶν explica essa perseverança mediante a orientação para uma realidade não visível, retomando diretamente a caracterização da fé em 11.1 (Attridge, 1989: 343).

Intertextualidade — Êxodo 2.14–15 e a dificuldade cronológica. A identificação mais imediata de κατέλιπεν Αἴγυπτον seria a fuga de Moisés para Midiã depois da morte do egípcio. Êx 2.14–15, porém, afirma explicitamente que Moisés “teve medo” quando percebeu que o homicídio se tornara conhecido e que Faraó procurava matá-lo. At 7.29 também associa sua fuga ao episódio. Hebreus, em contraste, declara que ele deixou o Egito “sem temer a ira do rei” (Attridge, 1989: 342; Moffatt, 1924: 181–182).

Uma segunda possibilidade é identificar a saída com o êxodo nacional. Essa leitura harmonizaria mais facilmente a ausência de medo diante de Faraó, mas produz uma inversão cronológica, pois o v. 28 menciona em seguida a Páscoa, que precedeu a partida do Egito. A cronologia do catálogo não é absolutamente rígida, mas a sequência continua sendo uma dificuldade para essa interpretação (Attridge, 1989: 342).

Uma terceira abordagem evita exigir uma identificação demasiado precisa. deSilva (2000: 412) observa que o interesse retórico pode estar simplesmente no ato de “deixar o Egito para trás”, como abandono do ambiente de status e segurança descrito nos vv. 24–26. A falta de precisão do próprio texto recomenda cautela: a tradução deve preservar “deixou o Egito” sem inserir “fugiu para Midiã” ou “conduziu Israel no êxodo”.

Tradições antigas sobre Moisés. Algumas releituras judaicas procuraram reduzir a tensão de Êx 2.14–15, representando a saída de Moisés como demonstração de prudência ou coragem, em vez de medo. Josefo, por exemplo, desloca a iniciativa hostil para Faraó e transforma a fuga numa ocasião de resistência. Essas tradições mostram que o contraste de Hebreus com Êxodo não era necessariamente isolado, mas não provam dependência literária direta (deSilva, 2000: 412).

Versões comparadas. A NAA traz “Moisés abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a ira do rei”; a ARA, “ele abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a cólera do rei”; a ARC, “deixou o Egito, não temendo a ira do rei”; a Bíblia de Jerusalém, “deixou o Egito, sem temer o furor do rei”. A YLT 1863 emprega he forsook Egypt, not having been afraid of the wrath of the king. A BECE prefere o semanticamente menos carregado “deixou o Egito”, preservando aberta a identificação histórica da partida.

Na cláusula final, NAA e ARA dizem “como quem vê aquele que é invisível”; ARC, “como vendo o invisível”; Bíblia de Jerusalém, “como se visse o Invisível”; e YLT, as seeing the Invisible One. A BECE adota “como quem vê o Invisível”, mantendo tanto a substantivação do adjetivo quanto a ambiguidade de ὡς.

Função argumentativa. O v. 26 havia descrito Moisés mantendo o olhar voltado para a recompensa; o v. 27 intensifica a metáfora visual ao apresentá-lo “vendo o Invisível”. O visível — Egito, corte e ira real — é colocado em contraste com aquilo que não é acessível à visão ordinária. A unidade retoma, assim, diretamente o eixo programático de 11.1 e prepara a ação ritual do v. 28.

“Celebrou a Páscoa e o derramamento do sangue” — πεποίηκεν, πρόσχυσις e a proteção dos primogênitos

Crítica textual. O aparato conciso do NTG-EV utilizado para 11.28 não registra variante selecionada que modifique a presente tradução. A análise parte, portanto, de Πίστει πεποίηκεν τὸ πάσχα καὶ τὴν πρόσχυσιν τοῦ αἵματος.

Filologia e sintaxe. Πεποίηκεν é perfeito de ποιέω. A expressão ποιεῖν τὸ πάσχα é idiomática no grego bíblico e significa realizar, observar ou celebrar a Páscoa. O perfeito não exige em português “tem celebrado”; pode funcionar narrativamente de modo próximo a um aoristo, como ocorre também em 11.17. “Celebrou a Páscoa” representa o evento histórico sem impor ao perfeito um valor resultativo artificial (Attridge, 1989: 343; Moffatt, 1924: 182).

Πρόσχυσις é extremamente raro e ocorre somente aqui no corpus bíblico grego conservado. Deriva de προσχέω, verbo empregado para derramar ou verter um líquido sobre algo, inclusive em contextos rituais de aplicação de sangue. Por isso, “derramamento do sangue” representa mais diretamente sua formação lexical do que o tradicional “aspersão”, embora a ação histórica de Êx 12 envolva a aplicação do sangue às ombreiras e à verga das casas (Attridge, 1989: 343).

A palavra não é o termo técnico ῥαντισμός, “aspersão”, utilizado em Hb 12.24, nem formas de ῥαντίζω encontradas anteriormente em 9.13,19,21. A distinção lexical deve ser preservada. “Derramamento”, neste contexto, não designa simplesmente o ato de matar a vítima e fazer seu sangue correr, mas a utilização ritual do sangue conforme Êx 12.7,22–23.

“Aquele que destruía os primogênitos”. Ὁ ὀλοθρεύων é particípio presente substantivado de ὀλοθρεύω, “destruir”. Τὰ πρωτότοκα funciona como seu objeto direto: “aquele que destruía os primogênitos”. A construção não diz literalmente “o anjo destruidor”, embora tradições interpretativas possam identificar o agente dessa maneira. A BECE não introduz “anjo” no texto principal porque o substantivo não está presente em Hebreus.

Θίγῃ rege genitivo, e αὐτῶν é seu complemento: literalmente, “não tocasse neles”. Assim, τὰ πρωτότοκα deve ser ligado a ὀλοθρεύων, não a αὐτῶν. Algumas traduções tornam a relação explícita como “não tocasse nos primogênitos deles”, mas isso reorganiza a sintaxe. A BECE conserva a estrutura: “para que aquele que destruía os primogênitos não tocasse neles” (Attridge, 1989: 343).

Intertextualidade — Êxodo 12. A referência é ao primeiro rito pascal e à aplicação do sangue nas casas israelitas. Êx 12.21–23 relaciona explicitamente o sangue à passagem do agente destruidor sem permitir-lhe entrar nas casas para ferir. Hebreus comprime a narrativa em dois atos: celebração da Páscoa e derramamento/aplicação do sangue.

A linguagem de sangue possui evidente ressonância com a exposição anterior de Hebreus, especialmente 9.12–14,18–22. Contudo, o v. 28 não formula uma tipologia explícita da Páscoa nem identifica diretamente o sangue pascal com o sangue de Cristo. Essa associação pode ocorrer em outros textos cristãos, como 1Co 5.7, mas não deve ser importada para a exegese de Hb 11.28 como se estivesse lexicalmente expressa aqui (Attridge, 1989: 343).

Exegese. O último exemplo individual de fé atribuído a Moisés retorna a uma ação ritual. Assim como Abraão no v. 17 agiu diante de uma ameaça que envolvia morte, Moisés realiza uma ação prescrita cuja finalidade é evitar a destruição dos primogênitos. A fé é apresentada concretamente como execução de uma instrução antes do acontecimento contra o qual essa ação oferece proteção.

Versões comparadas. A NAA e a ARA traduzem “celebrou a Páscoa e o derramamento do sangue”. A ARC emprega “celebrou a Páscoa e a aspersão do sangue”; a Bíblia de Jerusalém igualmente fala em “aspersão do sangue”. A YLT 1863 traz kept the passover, and the sprinkling of the blood. A BECE segue “celebrou” para a expressão idiomática ποιεῖν τὸ πάσχα, mas prefere “derramamento” para πρόσχυσις, distinguindo-o do vocabulário específico de aspersão empregado em outros pontos de Hebreus.

Na oração final, as versões frequentemente explicitam o referente: NAA e ARA dizem que o exterminador não tocasse “nos primogênitos dos israelitas”; a ARC formula “para que o destruidor dos primogênitos lhes não tocasse”; a Bíblia de Jerusalém diz “para que o Exterminador não ferisse os primogênitos de Israel”; e a YLT, lest He who is destroying the first-born touch them. A BECE aproxima-se aqui da estrutura sintática representada pela ARC e pela YLT.

Função argumentativa. O v. 28 encerra a sequência de atos individuais de Moisés. A última palavra pronominal, αὐτῶν, já aponta para o grupo protegido e facilita a transição para o plural explícito διέβησαν do v. 29. O foco passa de Moisés para Israel como coletividade agente da fé (Attridge, 1989: 343).

“Atravessaram o Mar Vermelho como por terra seca” — mudança de sujeito, γῆς e a tentativa dos egípcios

Crítica textual. O NTG-EV lê διὰ ξηρᾶς γῆς, “por terra seca”. Γῆς é apoiado por 𝔓13, 𝔓46, א, A, D*, Ψ, 0227, 33, 81, 104, 365, 1241, 1505, 1739, 1881, testemunhos latinos e siríacos. D2, K, L, P, 630 e 𝔐 omitem γῆς, deixando apenas διὰ ξηρᾶς, substantivação que ainda pode significar “pelo seco”. O NTG-EV mantém γῆς, como SBLGNT e NA28.

Filologia e sintaxe. Διέβησαν é terceira pessoa do plural e marca a mudança de sujeito. Desde o v. 24, Moisés vinha funcionando como personagem central; agora a ação pertence aos israelitas coletivamente. O antecedente do plural é preparado por αὐτῶν no final do v. 28 e pelo contexto do êxodo (Attridge, 1989: 343).

Τὴν ἐρυθρὰν θάλασσαν é literalmente “o Mar Vermelho”. Ἐρυθρός significa “vermelho”, e Ἐρυθρὰ Θάλασσα é a designação convencional da Septuaginta para o mar associado ao êxodo. O hebraico de Êxodo emprega יַם־סוּף, tradicionalmente analisado como “Mar de Juncos”. Como Hebreus utiliza a forma grega ἐρυθρὰ θάλασσα, a BECE traduz o texto efetivamente citado pela tradição grega: “Mar Vermelho”, sem retroverter a expressão para a forma hebraica.

Ὡς διὰ ξηρᾶς γῆς significa “como por terra seca”. Ξηρός descreve aquilo que é seco, árido ou sem água. A comparação preserva o caráter paradoxal da cena: a travessia ocorre através do mar, mas a condição do percurso é comparada à terra seca.

“Os egípcios, ao tentarem”. Πεῖραν λαμβάνειν é uma expressão idiomática antiga. Conforme o contexto, pode significar fazer uma tentativa, experimentar ou provar algo. Aqui a ação dos egípcios consiste em tentar realizar a mesma travessia. “Ao tentarem” representa a expressão sem acrescentar no corpo “[fazer o mesmo]”, que seria uma explicitação editorial desnecessária (Moffatt, 1924: 183).

O pronome relativo ἧς é formalmente ambíguo porque tanto θάλασσα, “mar”, quanto γῆ, “terra”, são femininos. Assim, a construção pode ser entendida como “o mar que os egípcios tentaram atravessar” ou como referência à experiência de passar pela “terra seca”. O resultado sintático é o mesmo: os egípcios tentaram reproduzir a travessia e fracassaram. A tradução “ao tentarem” evita resolver desnecessariamente o antecedente (Attridge, 1989: 343).

Κατεπόθησαν é aoristo passivo de καταπίνω, literalmente “foram engolidos/tragados”. O verbo oferece uma imagem mais concreta do que simplesmente “afogaram-se”. A forma possui correspondência com Êx 15.4 na tradição grega, onde os egípcios são descritos como tragados pelo Mar Vermelho. A BECE conserva “foram tragados”.

Intertextualidade — Êxodo 14–15. O episódio deriva da travessia narrada em Êx 14. Israel atravessa pelo meio do mar sobre solo seco, enquanto as forças egípcias entram atrás deles e são cobertas pelas águas. Êx 15 retoma poeticamente a destruição do exército. Hebreus comprime a narrativa numa antítese: a mesma passagem é atravessada com sucesso pelos israelitas e termina em destruição para os egípcios.

Essa diferença não é explicada por habilidade física distinta nem por uma propriedade natural do percurso. A rubrica Πίστει transforma a travessia israelita em exemplo de fé, enquanto a tentativa egípcia funciona como contraponto. O texto não diz explicitamente que os egípcios agiram “por incredulidade”; essa conclusão pertence à lógica do contraste, não à formulação lexical do versículo (Attridge, 1989: 343).

Israel e a tradição da travessia. A atribuição de fé coletiva aos israelitas é notável porque Hebreus 3–4 havia enfatizado a incredulidade e desobediência da geração do deserto. Não há contradição necessária: 11.29 seleciona uma ação específica da narrativa do êxodo, enquanto 3–4 avalia a resposta posterior da geração durante a caminhada no deserto. O catálogo não pretende fornecer uma avaliação uniforme de toda a trajetória de cada personagem ou grupo (Attridge, 1989: 343).

Versões comparadas. A NAA traduz “os israelitas atravessaram o mar Vermelho como por terra seca. Quando os egípcios tentaram fazer o mesmo, foram engolidos pelo mar”. A ARA lê “atravessaram o mar Vermelho como por terra seca; tentando-o os egípcios, foram tragados de todo”. A ARC apresenta “passaram o mar Vermelho, como por terra seca; o que intentando os egípcios, se afogaram”. A Bíblia de Jerusalém traz “atravessaram o mar Vermelho como se fosse terra enxuta, ao passo que os egípcios, tentando-o também, foram engolidos”. A YLT 1863 conserva they passed through the Red Sea as through dry land, which the Egyptians having tried, were swallowed up.

A BECE não acrescenta “os israelitas” ao texto principal porque o sujeito plural não está lexicalmente expresso e pode ser recuperado do contexto. Também evita “tentaram fazer o mesmo”, embora seja uma explicação correta, para preservar a concisão de πεῖραν λαβόντες. “Foram tragados” conserva ainda a imagem verbal de καταπίνω, presente no NTG-EV.

Função argumentativa. O v. 29 amplia o catálogo do indivíduo para a coletividade. A mesma fórmula Πίστει que introduziu Abraão, Moisés e outros personagens agora qualifica uma ação de Israel como povo. Ao mesmo tempo, a contraposição entre a passagem bem-sucedida e a tentativa fatal dos egípcios encerra a seção do êxodo com um exemplo em que a ação externa é semelhante, mas o resultado é radicalmente distinto. O v. 30 deslocará a narrativa para a entrada em Canaã.

Jericó e Raabe: A Queda das Muralhas e o Acolhimento dos Espias

30 Pela fé, cgas muralhas de Jericó caíram, depois de terem sido chrodeadas durante sete dias.30 31 Pela fé, ciRaabe, a prostituta, não pereceu juntamente com cjos desobedientes, tendo ckacolhido os espias em paz.31

“As muralhas de Jericó caíram” — ἔπεσαν, a circunvalação por sete dias e a condensação de Josué 6

Crítica textual. O NTG-EV lê ἔπεσαν, terceira pessoa do plural, leitura atestada por 𝔓13, א e A e adotada por SBLGNT e NA28. 𝔓46 apresenta ἔπεσεν, singular, forma também representada no RP; o Textus Receptus apresenta ἔπεσε. Mantém-se o plural do NTG-EV, gramaticalmente concordante com τὰ τείχη, “as muralhas”. A variante singular pode refletir compreensão coletiva das fortificações ou simplificação da concordância.

Filologia e sintaxe. Τὰ τείχη é plural de τεῖχος, termo usado para muro ou muralha defensiva de uma cidade. “Muralhas” representa melhor o contexto fortificado de Jericó que o mais genérico “muros”. Ἰεριχώ permanece indeclinável, como frequentemente ocorre com topônimos semíticos no grego bíblico.

Ἔπεσαν é aoristo de πίπτω, “cair”. Hebreus não explicita agente humano nem descreve o mecanismo da queda; a ação é simplesmente apresentada sob a rubrica Πίστει. O sujeito gramatical são as próprias muralhas, não os israelitas. Isso distingue formalmente o v. 30 do v. 29, em que um sujeito humano plural realiza a travessia.

Κυκλωθέντα é particípio aoristo passivo de κυκλόω, “cercar, rodear, circundar”. O particípio concorda com τὰ τείχη e significa literalmente que as muralhas foram “rodeadas”. Na narrativa de Josué, naturalmente, são a cidade e suas fortificações que os israelitas circundam. Hebreus comprime a ação mediante uma construção na qual as próprias muralhas aparecem como objeto da circunvalação.

Ἐπὶ ἑπτὰ ἡμέρας expressa duração: “durante sete dias”. Josué 6 apresenta uma sequência mais precisa: a cidade é circundada uma vez por dia durante seis dias e, no sétimo, sete vezes antes do grito e da queda das muralhas (Js 6.3–5,14–16,20). Hebreus resume todo esse procedimento como circunvalação “durante sete dias” (Attridge, 1989: 344).

Intertextualidade — Josué 6. O v. 30 resume Js 6.1–20, particularmente os vv. 14–16 e 20. A narrativa associa a queda da muralha ao cumprimento das instruções recebidas por Josué: marcha ao redor da cidade, sacerdotes, trombetas, arca e o grito final. Hebreus elimina quase todos esses elementos e retém apenas três: fé, muralhas e circunvalação de sete dias.

Essa seleção é interpretativa. Josué 6 não chama explicitamente a marcha de πίστις. Hebreus reorganiza a execução da instrução recebida sob a categoria programática do capítulo, Πίστει, exatamente como fez com diversos episódios anteriores (Attridge, 1989: 344; deSilva, 2000: 415).

Natureza da ação. A linguagem de Hebreus não descreve um cerco militar convencional. Na narrativa de Josué não são mencionadas máquinas de assédio, rampas ou ataque às muralhas durante os sete dias; a ação consiste primordialmente numa procissão ritual em torno da cidade segundo instruções específicas. Por isso, a BECE prefere “rodeadas” a “depois de um cerco de sete dias”, expressão que introduziria uma categoria militar mais específica do que κυκλόω exige (Moffatt, 1924: 183).

Exegese. O versículo contém uma mudança significativa no catálogo: nenhuma personagem é nomeada. Nem Josué nem os sacerdotes nem Israel aparecem como sujeito gramatical. As “muralhas de Jericó” tornam-se o elemento focal e sua queda funciona como resultado associado à ação coletiva pressuposta. A concisão antecipa a enumeração ainda mais acelerada de 11.32–38.

A ausência de Josué é especialmente notável, já que o episódio pertence diretamente à sua narrativa. O texto, contudo, não pretende oferecer uma lista sistemática dos dirigentes de Israel. O princípio de seleção é retórico: a queda das muralhas, e não a biografia do comandante, constitui o elemento pertinente para a sequência (Moffatt, 1924: 183).

Versões comparadas. A NAA lê “Pela fé, ruíram as muralhas de Jericó, depois de rodeadas por sete dias”; a ARA apresenta a mesma formulação fundamental. A ARC prefere “caíram os muros de Jericó, sendo rodeados durante sete dias”. A Bíblia de Jerusalém diz “as muralhas de Jericó caíram, depois de um cerco de sete dias”. A YLT 1863 traz the walls of Jericho fell, having been surrounded for seven days. :chatgpt-content-reference{index="4"} :chatgpt-content-reference{index="5"} :chatgpt-content-reference{index="6"} :chatgpt-content-reference{index="7"} :chatgpt-content-reference{index="8"}

A BECE combina “muralhas”, lexicalmente apropriado a τείχη, com “caíram”, representação direta de ἔπεσαν, e “depois de terem sido rodeadas durante sete dias”, que preserva tanto o particípio passivo quanto a duração expressa por ἐπί. Evita-se “cerco” porque o substantivo militar não está lexicalizado no texto.

Função argumentativa. O v. 30 desloca o cenário do êxodo para a conquista da terra. O período intermediário do deserto é omitido — precisamente o período que Hebreus 3–4 havia utilizado extensamente como exemplo negativo de desobediência. O catálogo retoma a sequência onde encontra uma ação que pode ser apresentada positivamente sob a rubrica da fé: a queda de Jericó (Attridge, 1989: 344; deSilva, 2000: 415).

“Raabe, a prostituta, não pereceu juntamente com os desobedientes” — πόρνη, ἀπειθέω e o acolhimento dos espias

Crítica textual. O NTG-EV lê Ῥαὰβ ἡ πόρνη, “Raabe, a prostituta”. א* e syh acrescentam ἐπιλεγομένη entre o artigo e πόρνη, produzindo aproximadamente “Raabe, chamada prostituta”. Mantém-se a leitura mais breve de SBLGNT e NA28. A expansão suaviza a designação ao transformá-la parcialmente numa alcunha pela qual Raabe seria conhecida; essa mediação não pertence ao texto-base.

Na cláusula seguinte, o NTG-EV lê τοῖς ἀπειθήσασιν, com 𝔓13, א e A, leitura adotada por SBLGNT e NA28. 𝔓46 apresenta τοῖς ἀπιστήσασιν, “os que não creram / foram infiéis”. A variante é significativa porque ἀπιστέω tornaria explícito o polo oposto de πίστις. O NTG-EV mantém, porém, ἀπειθέω, cujo campo semântico principal é desobedecer, recusar-se a ser persuadido ou não se submeter.

Filologia — “a prostituta”. Πόρνη significa prostituta. Não há motivo filológico para substituí-lo por “hospedeira”, “estalajadeira” ou outro eufemismo no corpo da tradução. Algumas releituras antigas suavizaram a profissão de Raabe, mas Hebreus conserva sem atenuação a caracterização encontrada em Js 2.1 e 6.17 (Attridge, 1989: 344–345).

“Prostituta” é preferido a “meretriz” porque corresponde ao mesmo referente sem o registro arcaizante do segundo termo. A designação possui função literária relevante: Raabe entra no catálogo sem que sua posição social ou origem gentílica sejam apagadas.

“Não pereceu juntamente com”. Συναπόλλυμι é composto de σύν e ἀπόλλυμι e significa perecer ou ser destruído juntamente com outros. O verbo é um hapax no Novo Testamento. “Não pereceu juntamente com” preserva o valor do prefixo συν- e torna explícito o contraste entre o destino de Raabe e o dos demais habitantes da cidade (Attridge, 1989: 344–345).

Τοῖς ἀπειθήσασιν é particípio aoristo substantivado: “os que desobedeceram”, “os desobedientes”. O mesmo campo lexical é importante em Hebreus. Em 3.18, 4.6 e 4.11, ἀπειθέω e formas relacionadas caracterizam a recusa da geração do deserto. Traduzir aqui “incrédulos” é contextualmente compreensível, mas apagaria a diferença entre ἀπειθέω do NTG-EV e a variante ἀπιστέω de 𝔓46. A BECE mantém “desobedientes”.

Intertextualidade — Josué 2 e 6. O relato-base encontra-se em Js 2.1–21 e 6.17,22–25. Raabe recebe os dois homens enviados para reconhecer Jericó, esconde-os dos agentes do rei, reconhece que YHWH entregou a terra a Israel e auxilia os espias em sua fuga. Posteriormente, ela e sua casa são preservadas quando a cidade é destruída.

Hebreus não reproduz a longa declaração de Js 2.9–11, mas ela fornece a base narrativa mais evidente para qualificar sua conduta como πίστις. Raabe declara conhecer o que Deus fizera no êxodo e reconhece o domínio do Deus de Israel. Seu acolhimento dos espias é, portanto, narrativamente ligado à avaliação que ela faz da situação e do futuro de Jericó (Attridge, 1989: 344–345; deSilva, 2000: 415).

“Tendo acolhido os espias em paz”. Δεξαμένη é particípio aoristo médio de δέχομαι, “receber, acolher”. Κατάσκοπος é quem observa secretamente uma região, isto é, espia ou explorador. “Espias” conserva o vocabulário português tradicional sem alterar a função do termo.

Μετ᾽ εἰρήνης significa literalmente “com paz”. A expressão não reproduz uma frase específica de Josué e parece ser formulação própria de Hebreus para caracterizar a recepção. Pode indicar acolhimento amistoso e não hostil. A BECE conserva “em paz”, em vez de reduzir a locução ao advérbio “pacificamente” (Attridge, 1989: 344–345).

Tg 2.25 reutiliza o mesmo episódio com função argumentativa diferente: Raabe é apresentada em conexão com sua ação de acolher os mensageiros e enviá-los por outro caminho. Hebreus seleciona o mesmo comportamento sob a rubrica de πίστις. A comparação mostra como a mesma narrativa podia ser empregada em construções argumentativas distintas.

Contexto social e literário. Raabe encerra a série de exemplos individualizados antes da aceleração retórica de 11.32. Sua posição difere marcadamente da de Abraão, Moisés e dos patriarcas: é mulher, não israelita, habitante da cidade destinada à destruição e identificada como prostituta. Hebreus não elimina nenhuma dessas características. Ao mesmo tempo, seu destino é separado do dos demais habitantes por sua recepção dos representantes de Israel (Attridge, 1989: 344–345).

A contraposição espacial também é significativa: as fortificações de Jericó, que representam segurança para seus habitantes, não impedem a destruição; Raabe, ao associar-se aos espias, é preservada. Essa relação descreve a lógica narrativa empregada pelo autor, sem exigir que Jericó ou Raabe sejam convertidas em símbolos alegóricos (deSilva, 2000: 415).

Versões comparadas. A NAA lê “Raabe, a prostituta, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu os espias com paz”. A ARA emprega “Raabe, a meretriz” e mantém “desobedientes”. A ARC também usa “meretriz”, mas traduz τοῖς ἀπειθήσασιν por “os incrédulos”. A Bíblia de Jerusalém apresenta “Raab, a prostituta, não pereceu com os indóceis, porque recebera pacificamente os espiões”. A YLT 1863 lê Rahab the harlot perished not with those who disbelieved, having received the spies with peace. :chatgpt-content-reference{index="9"} :chatgpt-content-reference{index="10"} :chatgpt-content-reference{index="11"} :chatgpt-content-reference{index="12"} :chatgpt-content-reference{index="13"}

A BECE adota “prostituta” para πόρνη e “desobedientes” para ἀπειθήσασιν. Esta última decisão é criticamente relevante: “incrédulos” aproximaria semanticamente a tradução da variante ἀπιστήσασιν de 𝔓46 e ocultaria uma diferença real do aparato. “Tendo acolhido [...] em paz” preserva ainda a construção participial e a locução μετ᾽ εἰρήνης.

Função argumentativa. Os vv. 30–31 apresentam dois resultados opostos dentro do mesmo episódio: as muralhas que protegiam Jericó caem, enquanto Raabe não perece com os habitantes caracterizados como desobedientes. A mesma narrativa fornece, portanto, destruição e preservação. O contraste prolonga o padrão observado na Páscoa e no Mar Vermelho: ações diferentes diante daquilo que o discurso apresenta como ação divina conduzem a destinos diferentes (deSilva, 2000: 415).

Raabe é também a última personagem a receber descrição individual antes da mudança formal de 11.32. A partir daí, o autor abandona a sucessão relativamente detalhada de episódios e passa a uma enumeração acelerada de nomes, feitos e sofrimentos.

Os Feitos da Fé na História de Israel

32 E que mais direi? Pois o tempo me faltará ao narrar a respeito de clGideão, cmBaraque, cnSansão, coJefté, cpDavi, bem como cqSamuel e cros profetas,32 33 os quais, por meio da fé, csconquistaram reinos, ctpraticaram a justiça, cuobtiveram promessas, cvfecharam bocas de leões,33 34 cwextinguiram o poder do fogo, cxescaparam ao fio da espada, cyforam fortalecidos a partir da fraqueza, cztornaram-se fortes na guerra, dafizeram recuar exércitos estrangeiros.34

“E que mais direi?” — mudança de ritmo, fórmula retórica e enumeração não cronológica

Crítica textual. O NTG-EV lê ἐπιλείψει με γάρ, “pois o tempo me faltará”, com א, A, D*, 33 e outros testemunhos. 𝔓13, 𝔓46, D2, I, a tradição bizantina e testemunhos das versões apresentam γὰρ με, invertendo a posição da conjunção e do pronome; Ψ e alguns outros testemunhos apresentam a forma abreviada sem γάρ. Mantém-se με γάρ, leitura adotada também por SBLGNT e NA28. A variação afeta primordialmente a ordem das palavras, não o conteúdo da oração.

A enumeração dos nomes também apresenta variação. O NTG-EV lê Βαράκ, Σαμψών Ἰεφθάε sem conjunções entre Baraque, Sansão e Jefté, leitura apoiada por 𝔓13, 𝔓46, א, A, I, 33, 1241, 1739, 1881 e outros testemunhos. Ψ e a tradição bizantina apresentam expansões com τε καί e καί; K, 104, 365 e outros acrescentam parcialmente esses conectores. Mantém-se a enumeração mais breve do NTG-EV.

Filologia e sintaxe. Καὶ τί ἔτι λέγω; é uma pergunta deliberativa: “E que mais direi?”. Λέγω é formalmente ambíguo entre indicativo e subjuntivo, mas a natureza retórica da pergunta favorece aqui o valor deliberativo. O autor não solicita informação; anuncia que não desenvolverá individualmente todos os exemplos disponíveis (Attridge, 1989: 347).

Ἐπιλείψει [...] ὁ χρόνος apresenta χρόνος, “tempo”, como sujeito: literalmente, “o tempo me faltará”. Διηγούμενον é particípio presente de διηγέομαι, verbo que significa narrar, relatar ou expor em sequência. “O tempo me faltará ao narrar a respeito de” conserva a construção pessoal do grego sem reduzi-la a uma simples declaração de falta de tempo.

Fórmulas nas quais “o tempo” ou “o dia” faltaria ao orador constituem um lugar-comum retórico grego empregado para interromper uma enumeração e, paradoxalmente, sugerir a abundância de exemplos ainda disponíveis (Attridge, 1989: 347; deSilva, 2000: 416).

Estrutura retórica. O v. 32 marca mudança formal importante. Até 11.31 predominavam personagens ou episódios individualizados introduzidos repetidamente por Πίστει. Agora seis nomes são acumulados numa única frase e, a partir do v. 33, os agentes deixam de ser identificados individualmente. O discurso passa a uma sucessão de feitos e experiências.

A fórmula διὰ πίστεως, “por meio da fé”, em 11.33 substitui a anáfora Πίστει e reaparecerá em 11.39. Assim, a seção final do catálogo é formalmente distinguida da sequência anterior (Attridge, 1989: 346–347).

A técnica pode ser descrita como paraleipsis: o orador afirma que não dispõe de tempo para desenvolver os exemplos e, na própria afirmação, continua a enumerá-los. O efeito é produzir a impressão de uma série potencialmente muito maior que aquela efetivamente registrada (deSilva, 2000: 416).

Os personagens. Gideão, Baraque, Sansão e Jefté pertencem ao período dos juízes; Davi é o único rei explicitamente nomeado; Samuel combina funções proféticas e judiciais e faz a transição para a monarquia. “Os profetas” amplia finalmente o horizonte da enumeração para um grupo indeterminado de personagens posteriores (Attridge, 1989: 347).

A sequência não segue a cronologia bíblica. A ordem histórica seria aproximadamente Baraque (Jz 4–5), Gideão (Jz 6–8), Jefté (Jz 11–12), Sansão (Jz 13–16), Samuel e Davi. Hebreus apresenta Gideão antes de Baraque, Sansão antes de Jefté e Davi antes de Samuel. Não há evidência suficiente para atribuir a cada inversão um significado específico; a desordem cronológica é compatível com o caráter deliberadamente rápido da enumeração (Attridge, 1989: 347; Moffatt, 1924: 185).

Jefté é particularmente instrutivo para a leitura do catálogo. Sua inclusão não significa aprovação indiscriminada de toda a sua trajetória, assim como a inclusão de Sansão ou Davi não funciona como avaliação global de todos os seus atos. Hebreus seleciona personagens como integrantes de uma história de feitos relacionados à fé sem oferecer aqui uma apreciação moral total de suas biografias.

Versões comparadas. A NAA transforma a expressão em “Certamente me faltará o tempo necessário para falar de”; a ARA, “para referir o que há a respeito de”; a ARC conserva uma estrutura mais próxima: “Faltar-me-ia o tempo contando de”. A Bíblia de Jerusalém lê “Não teria tempo de falar com pormenores de”. A YLT 1863 preserva fortemente a sintaxe: for the time will fail me recounting about Gideon.

A YLT introduz ainda em inglês uma série de conectores — Barak also, and Samson, and Jephthah, David also. O NTG-EV adotado pela BECE possui construção mais assindética entre Baraque, Sansão e Jefté; por isso, a presente tradução não reproduz todos os conectores de Young.

Função argumentativa. O v. 32 funciona como dobradiça entre os relatos relativamente desenvolvidos de 11.1–31 e a enumeração comprimida de 11.33–38. Daqui em diante, o foco desloca-se de episódios particulares para padrões de conquista, livramento, sofrimento e morte.

“Por meio da fé” — reinos, justiça, promessas e bocas de leões

Crítica textual. O texto-base lê κατηγωνίσαντο βασιλείας, “conquistaram reinos”. A tradição manuscrita apresenta testemunho isolado para omissão de κατηγωνίσαντο em 𝔓46, mas a presença do verbo está amplamente atestada e integra NTG-EV, SBLGNT e NA28. Mantém-se o texto do NTG-EV.

Estrutura e sintaxe. Οἳ, “os quais”, retoma os personagens recém-enumerados, mas a série que segue não deve ser distribuída mecanicamente entre apenas esses seis indivíduos. O vocabulário torna-se progressivamente mais amplo e evoca também outros personagens da história de Israel.

Διὰ πίστεως utiliza διά com genitivo: “por meio da fé”. A mudança em relação ao repetido Πίστει é formalmente perceptível e coincide com a transformação do catálogo de uma sucessão de exemplos individualizados numa enumeração coletiva (Attridge, 1989: 346–348).

Os vv. 33–34 apresentam nove cláusulas breves sem conjunções. Elas podem ser agrupadas em três tríades: conquistas político-militares e civis; livramentos de perigos mortais; fortalecimento e vitórias militares. A disposição produz ritmo acumulativo e impede que a leitura se detenha longamente em qualquer episódio individual (Attridge, 1989: 347–348; deSilva, 2000: 417–418).

“Conquistaram reinos”. Κατηγωνίσαντο é aoristo médio de καταγωνίζομαι, “vencer, derrotar, subjugar, conquistar”. O verbo é raro no material bíblico grego. As campanhas dos juízes e de Davi fornecem antecedentes naturais, mas a formulação não identifica uma única conquista nem distribui reinos específicos a cada personagem (Attridge, 1989: 348).

“Praticaram a justiça”. Εἰργάσαντο δικαιοσύνην pode significar genericamente realizar aquilo que é justo. No contexto de feitos políticos, pode evocar particularmente a descrição do governo de Davi em 2Sm 8.15, onde ele administra justiça a todo o povo. A expressão, contudo, permanece mais ampla; por isso, “praticaram a justiça” é preferível a “governaram com justiça” (Attridge, 1989: 348; Moffatt, 1924: 185–186).

“Obtiveram promessas”. Ἐπέτυχον, de ἐπιτυγχάνω, significa alcançar, obter ou conseguir. A expressão não indica simplesmente que receberam novas promessas verbais. Neste contexto, “obter promessas” pode funcionar metonimicamente para obter aquilo que havia sido prometido, como vitórias e outros benefícios anunciados anteriormente (Attridge, 1989: 348).

Isso não contradiz 11.13 e 11.39. Hebreus distingue realizações históricas particulares — “promessas” no plural — da promessa abrangente que permanece não plenamente alcançada pelo conjunto dos personagens.

“Fecharam bocas de leões”. Ἔφραξαν significa fechar, bloquear ou impedir. A alusão mais precisa é Dn 6, onde Daniel é preservado na cova dos leões. A tradição grega do episódio utiliza formulação muito próxima para a ação de fechar as bocas dos animais, e a libertação de Daniel tornou-se exemplo recorrente em textos judaicos posteriores (1Mc 2.60; 4Mc 16.3; 18.13) (Attridge, 1989: 348).

Sansão e Davi também enfrentaram leões (Jz 14.5–6; 1Sm 17.34–37), mas nesses casos os animais são mortos. A correspondência verbal com Daniel torna seu episódio o referente mais provável, sem necessidade de excluir completamente outras associações.

Versões comparadas. A NAA lê “conquistaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas”; a ARA usa “subjugaram reinos”; a ARC, “venceram reinos” e “alcançaram promessas”. A Bíblia de Jerusalém interpreta o terceiro elemento como “viram se realizarem as promessas”. A YLT 1863 traz subdued kingdoms, wrought righteousness, obtained promises. A BECE mantém “obtiveram promessas” no corpo da tradução e deixa sua nuance metonímica para a nota.

Função argumentativa. O v. 33 inicia uma sequência em que os nomes desaparecem e os verbos dominam. A variedade dos feitos, e não a identidade individual de cada agente, passa a constituir o principal efeito retórico.

“Extinguiram o poder do fogo” — livramento, fraqueza transformada e vitória militar

Crítica textual. O NTG-EV lê στόματα μαχαίρης. Μαχαίρης é atestado por 𝔓13, 𝔓46, א e A e é adotado por SBLGNT, NA28 e WH. A tradição bizantina, RP e TR apresentam μαχαίρας. Trata-se de variação flexional no genitivo de μάχαιρα, sem diferença semântica relevante para a tradução.

O NTG-EV lê também ἐδυναμώθησαν, com 𝔓13, 𝔓46, א*, A, D* e outros testemunhos. Ψ e a tradição bizantina, seguida por RP e TR, apresentam ἐνεδυναμώθησαν, com o prefixo ἐν-. Mantém-se a forma sem prefixo de SBLGNT e NA28.

“Extinguiram o poder do fogo”. Ἔσβεσαν é aoristo de σβέννυμι, “apagar, extinguir”. O objeto não é simplesmente πῦρ, “fogo”, mas δύναμιν πυρός, “poder/força do fogo”. O texto, portanto, descreve a neutralização da capacidade destrutiva das chamas. “Extinguiram o poder do fogo” preserva essa relação lexical.

A alusão mais evidente é a libertação dos três companheiros de Daniel na fornalha (Dn 3). Na narrativa, o fogo permanece presente, mas perde a capacidade de feri-los. A formulação de Hebreus resume adequadamente essa experiência como neutralização da δύναμις do fogo (Attridge, 1989: 348).

“Escaparam ao fio da espada”. A expressão grega é ἔφυγον στόματα μαχαίρης, literalmente “escaparam das bocas da espada”. Στόμα, “boca”, pode designar metaforicamente o gume ou fio de uma arma. O plural στόματα, além de incomum, cria correspondência retórica com στόματα λεόντων no v. 33 (Moffatt, 1924: 186).

“Fio da espada” é o equivalente idiomático português e preserva o sentido sem reproduzir uma metáfora que seria pouco natural em português. A cláusula pode recordar diversos livramentos — Davi diante de Saul e Absalão, Elias diante de Jezabel e outros personagens —, razão pela qual não deve ser vinculada exclusivamente a um episódio (Attridge, 1989: 348).

“Foram fortalecidos a partir da fraqueza”. Ἐδυναμώθησαν é aoristo passivo de δυναμόω, “fortalecer, tornar poderoso”. Como o agente não é lexicalmente expresso, a BECE preserva a passiva e não acrescenta “[por Deus]” ao texto.

Ἀπὸ ἀσθενείας significa literalmente “a partir da fraqueza”. Ἀσθένεια pode designar enfermidade física, debilidade ou fraqueza em sentido mais geral. A expressão pode evocar Ezequias e sua enfermidade (Is 38), mas também personagens como Gideão, cuja força militar era inicialmente reduzida, ou Sansão, cuja força havia desaparecido antes de seu último ato. Não há base suficiente para escolher uma única identificação (Attridge, 1989: 348; deSilva, 2000: 417–418).

A Bíblia de Jerusalém restringe a formulação ao traduzir “recobraram saúde na doença”. A BECE preserva o mais abrangente “fraqueza”, deixando abertas as possíveis referências.

“Tornaram-se fortes na guerra”. Ἐγενήθησαν ἰσχυροὶ ἐν πολέμῳ utiliza γίνομαι para descrever mudança de condição: “tornaram-se fortes”. Ἐν πολέμῳ significa literalmente “na guerra”. A cláusula pode abranger numerosos juízes, reis e outros líderes militares posteriores.

“Fizeram recuar exércitos estrangeiros”. Παρεμβολή designa originalmente acampamento, mas também pode indicar por metonímia a força militar acampada ou o próprio exército. Ἀλλότριος significa aquilo que pertence a outro e, aplicado a forças militares, “estrangeiro”. Ἔκλιναν, de κλίνω, possui aqui emprego militar no sentido de fazer ceder ou recuar (Attridge, 1989: 348; Moffatt, 1924: 186).

A terminologia dessa última cláusula possui paralelos especialmente fortes na literatura de conflitos militares posteriores, inclusive 1Macabeus. Isso permite que a formulação evoque acontecimentos além do período dos juízes e da monarquia inicial. O texto, contudo, não identifica explicitamente os macabeus, e a interpretação deve permanecer aberta (deSilva, 2000: 418).

Versões comparadas. Para δύναμιν πυρός, NAA e ARA traduzem “violência do fogo”; ARC, “força do fogo”; Bíblia de Jerusalém, “poder do fogo”; YLT 1863, power of fire. A BECE adota “poder do fogo”, correspondência direta a δύναμις.

Em ἔφυγον στόματα μαχαίρης, a NAA interpreta “escaparam de ser mortos à espada”; ARA e ARC usam “fio da espada”; Bíblia de Jerusalém também preserva “fio da espada”; Young mantém literalmente escaped the mouth of the sword. A BECE usa a expressão idiomática portuguesa “escaparam ao fio da espada”.

Para ἐδυναμώθησαν ἀπὸ ἀσθενείας, NAA e ARA trazem “da fraqueza tiraram força”; ARC, “da fraqueza tiraram forças”; Bíblia de Jerusalém, “recobraram saúde na doença”; YLT 1863, were made powerful out of infirmities. A BECE mantém a voz passiva e a amplitude lexical: “foram fortalecidos a partir da fraqueza”.

Finalmente, NAA e ARA traduzem παρεμβολὰς ἔκλιναν ἀλλοτρίων por “puseram em fuga exércitos estrangeiros”; a Bíblia de Jerusalém usa “repeliram exércitos estrangeiros”; a YLT 1863 preserva a estrutura mais concreta: caused to give way the battle-hosts of the aliens. A BECE prefere “fizeram recuar exércitos estrangeiros”, mantendo o movimento expresso por κλίνω sem intensificá-lo para uma fuga necessariamente desordenada.

Função argumentativa. Os vv. 33–34 concentram-se em feitos externamente vitoriosos: conquista, justiça, obtenção, livramento e poder. Essa sequência não constitui, porém, a definição final da fé no capítulo. A partir de 11.35, o discurso introduzirá pessoas que permanecem fiéis sem receber livramento da tortura e da morte. A justaposição impede que vitória visível e fé sejam identificadas como categorias equivalentes (deSilva, 2000: 416–418).

Ressurreição, Tortura e Perseguição dos Fiéis

35 dbMulheres receberam, por ressurreição, os seus mortos; outros, porém, dcforam torturados, não aceitando a libertação, para que alcançassem uma ressurreição melhor.35 36 Outros, porém, ddexperimentaram zombarias e açoites, e ainda decorrentes e prisão.36 37 dfForam apedrejados, serrados ao meio, dgmorreram assassinados pela espada; andaram dhem peles de ovelhas, em peles de cabras, dinecessitados, afligidos, maltratados37 — 38 djdeles o mundo não era digno —, dkerrantes por desertos e montanhas, cavernas e fendas da terra.38

“Mulheres receberam [...] os seus mortos; outros, porém, foram torturados” — a virada entre livramento e morte

Crítica textual. O aparato selecionado do NTG-EV não registra em 11.35 variante que exija alteração da presente tradução. O versículo é, porém, estruturalmente decisivo porque contém duas experiências radicalmente diferentes: primeiro, mortos são devolvidos à vida; em seguida, pessoas recusam a libertação e aceitam a morte na expectativa de uma “ressurreição melhor”.

Estrutura. 11.35 funciona como dobradiça entre as duas metades da enumeração final. A primeira oração ainda pertence à série de resultados favoráveis iniciada em 11.33: pessoas recebem de volta seus mortos. Com ἄλλοι δέ, “outros, porém”, a direção muda. A partir desse ponto, fé já não é associada predominantemente a vitória, preservação ou escape da morte, mas à permanência diante da tortura e da própria morte (deSilva, 2000: 418–420; Attridge, 1989: 349).

“Mulheres receberam, por ressurreição, os seus mortos”. Ἔλαβον γυναῖκες coloca “mulheres” como novo sujeito explícito. Ἐξ ἀναστάσεως é literalmente “a partir de ressurreição”, mas funciona aqui para indicar o meio pelo qual os mortos lhes foram devolvidos. “Por ressurreição” preserva o substantivo ἀνάστασις e evita a paráfrase mais extensa “depois de terem sido ressuscitados”.

Os referentes mais claros são a viúva de Sarepta, cujo filho é restaurado à vida mediante Elias (1Rs 17.17–24), e a sunamita, cujo filho é restaurado mediante Eliseu (2Rs 4.18–37). Em ambos os relatos, uma mulher recebe novamente seu filho vivo. A formulação de Hebreus generaliza os dois episódios e não nomeia nem as mulheres nem os profetas (Attridge, 1989: 349; deSilva, 2000: 418–419).

“Outros, porém, foram torturados”. Ἐτυμπανίσθησαν é aoristo passivo de τυμπανίζω. O verbo está relacionado a τύμπανον, instrumento ou estrutura sobre a qual a vítima podia ser estendida e espancada. Por extensão, o verbo passa a designar tortura severa, frequentemente até a morte. “Foram torturados” evita reconstruir no texto principal um instrumento específico cuja forma exata não é descrita por Hebreus (Attridge, 1989: 349; Moffatt, 1924: 187–188).

A referência mais forte é aos martírios associados à perseguição de Antíoco IV, especialmente Eleazar e a mãe com seus sete filhos em 2Mc 6.18–7.42. O próprio vocabulário aproxima Hebreus dessa tradição: 2Mc 6.19,28 utiliza τύμπανον no relato da tortura de Eleazar, e 2Mc 7 associa repetidamente o sofrimento dos irmãos à expectativa de ressurreição. 4Macabeus desenvolve ainda mais a mesma tradição (deSilva, 2000: 419–420).

Essa relação é altamente provável, mas Hebreus não nomeia Eleazar, Antíoco ou os sete irmãos. A identificação deve, portanto, permanecer como alusão histórico-literária, não como informação explicitamente presente na oração.

“Não aceitando a libertação”. Προσδέχομαι pode significar receber, aceitar ou acolher. Ἀπολύτρωσις possui em outros contextos o sentido de redenção ou resgate, mas aqui o contexto de prisioneiros submetidos a tortura favorece “libertação”, isto é, soltura mediante abandono da posição que provocava o sofrimento (Attridge, 1989: 349).

A tradição macabeia oferece paralelo especialmente próximo. Em 4Mc 9.16 os guardas oferecem libertação das torturas em troca de conformidade, e 4Mc 6.12–23 descreve tentativa semelhante de persuadir Eleazar a salvar-se. A conexão não demonstra dependência literária direta de 4Macabeus, mas esclarece historicamente como “não aceitar a libertação” podia funcionar dentro da tradição desses mártires (deSilva, 2000: 419–420).

“Para que alcançassem uma ressurreição melhor”. Τύχωσιν, de τυγχάνω, significa alcançar ou obter. Κρείττων, “melhor”, pertence ao vocabulário característico de Hebreus. Aqui a comparação é feita com a ἀνάστασις já mencionada na primeira metade do versículo.

O texto não explica formalmente em que consiste a superioridade. A interpretação mais natural contrapõe as restaurações temporárias de 1Rs 17 e 2Rs 4 — nas quais os ressuscitados posteriormente tornariam a morrer — à ressurreição esperada pelos mártires, concebida como participação numa vida que não retorna à mortalidade. Essa compreensão é favorecida pelas expectativas explicitadas em 2Mc 7, embora Hebreus não desenvolva aqui uma teoria da ressurreição (Attridge, 1989: 349–350).

Versões comparadas. NAA e ARA leem “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos”. A Bíblia de Jerusalém explicita o resultado como “reencontraram os seus mortos pela ressurreição”. A YLT 1863 conserva de modo incomum a imagem verbal: Women received by a rising again their dead.

Na segunda oração, NAA e ARA traduzem ἀπολύτρωσις por “resgate”; a ARC prefere “livramento”; a Bíblia de Jerusalém novamente usa “resgate”; Young emprega redemption. A BECE adota “libertação” porque o contexto imediato é soltura da tortura, preservando na nota a amplitude lexical do substantivo.

A NAA e a ARA trazem “superior ressurreição”; ARC e Bíblia de Jerusalém, “melhor ressurreição”; a YLT, a better rising again. A BECE mantém “ressurreição melhor”, alinhando κρείττων ao vocabulário de “melhor” utilizado reiteradamente em Hebreus.

Função argumentativa. O contraste interno do v. 35 impede que fé seja definida apenas pelos livramentos dos vv. 33–34. Alguns são retirados da morte; outros recusam a possibilidade de escapar dela. Nos dois casos, o elemento comum é a orientação para uma realidade que o personagem ainda não possui. Essa passagem prepara diretamente a sequência de perseguição e morte dos vv. 36–38.

“Experimentaram zombarias e açoites [...] correntes e prisão” — πεῖραν ἔλαβον e as formas públicas de perseguição

Crítica textual. O aparato selecionado do NTG-EV não registra em 11.36 variante que afete a tradução. A construção é transmitida como ἕτεροι δὲ ἐμπαιγμῶν καὶ μαστίγων πεῖραν ἔλαβον, ἔτι δὲ δεσμῶν καὶ φυλακῆς.

Filologia e sintaxe. Ἕτεροι δέ continua a diferenciação iniciada por ἄλλοι δέ no v. 35: “outros, porém”. O emprego de ἕτεροι introduz um novo grupo sem implicar necessariamente diferença qualitativa entre duas categorias rigorosamente delimitadas.

Πεῖραν λαμβάνειν é uma expressão idiomática para experimentar ou passar pela experiência de algo. A mesma combinação lexical apareceu em 11.29, onde os egípcios “tentaram” atravessar o mar; o complemento e o contexto determinam a nuance. Aqui os genitivos ἐμπαιγμῶν καὶ μαστίγων mostram que o sentido é “experimentar” ou “sofrer” essas formas de perseguição. A BECE traduz “experimentaram zombarias e açoites”.

Ἐμπαιγμός significa zombaria, escárnio ou ato de ridicularização e é um hapax no Novo Testamento. Μάστιξ designa chicote, açoite ou a ação de açoitar. Na tradição dos mártires macabeus, zombaria e tortura aparecem lado a lado, sobretudo em 2Mc 7 (Attridge, 1989: 350; deSilva, 2000: 420–421).

Ἔτι δέ intensifica ou acrescenta outra categoria: “e ainda”. Δεσμοί são vínculos, correntes ou grilhões; φυλακή, no contexto, é o lugar de custódia, “prisão”. A diferença de número é preservada por “correntes e prisão”: δεσμῶν é plural, φυλακῆς singular.

Referentes possíveis. O vocabulário pode evocar tanto os mártires macabeus quanto os profetas. Jeremias é alvo de zombaria pública (Jr 20.7–8), espancado e encarcerado (Jr 37.15–18), além de sofrer outras formas de detenção. Micaías também é enviado à prisão (1Rs 22.26–27). Hebreus não fornece correspondências individuais, e a sequência parece deliberadamente composta de experiências acumulativas (Attridge, 1989: 350; deSilva, 2000: 421).

Relação com os destinatários. “Correntes e prisão” aproximam o catálogo do vocabulário usado para a própria comunidade. Hebreus 10.32–34 recorda exposição pública a insultos e sofrimentos e solidariedade com prisioneiros; 13.3 ordenará que os encarcerados sejam lembrados. Κακουχέω, que aparecerá em 11.37, reaparece igualmente em 13.3. A enumeração histórica, portanto, utiliza categorias que poderiam ser reconhecidas na experiência recente dos destinatários (Attridge, 1989: 350; deSilva, 2000: 421).

Contexto histórico-cultural. Zombaria pública, açoites, acorrentamento e encarceramento não constituíam apenas dor física. No ambiente antigo, funcionavam também como formas de exposição, subordinação e desonra pública. A sequência reúne, portanto, agressão corporal e degradação social. Essa dimensão torna a linguagem particularmente relevante para uma audiência cuja experiência passada já havia sido descrita em termos de exposição pública (10.33) (deSilva, 2000: 420–421).

Versões comparadas. A NAA lê “passaram pela prova de zombarias e açoites, sim, até de algemas e prisões”; a ARA emprega “escárnios e açoites” e igualmente “algemas e prisões”; a ARC diz “experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões”. A Bíblia de Jerusalém formula “sofreram a provação dos escárnios, experimentaram o açoite, as correntes e as prisões”. A YLT 1863 conserva a construção nominal de modo particularmente formal: of mockings and scourgings received trial, but yet of bonds and imprisonments.

A BECE emprega “experimentaram zombarias e açoites” porque πεῖραν ἔλαβον funciona idiomaticamente como verbo de experiência. Para δεσμοί, “correntes” mantém o caráter material do substantivo melhor que “algemas”, que pode sugerir um dispositivo especificamente moderno.

Função argumentativa. O v. 36 amplia a passagem da morte heroica para formas prolongadas de marginalização e coerção. O catálogo não apresenta apenas pessoas que morrem dramaticamente, mas também aquelas que suportam repetidamente humilhação, violência e perda de liberdade.

“Foram apedrejados, serrados ao meio” — a variante ἐπειράσθησαν e as tradições sobre a morte dos profetas

Crítica textual — ἐπρίσθησαν e ἐπειράσθησαν. O NTG-EV lê ἐπρίσθησαν, “foram serrados”, sem ἐπειράσθησαν, “foram provados/tentados”. A forma breve é atestada por 𝔓46, 1241, 1984, alguns outros testemunhos, syp, sa e testemunhos patrísticos, e é adotada por SBLGNT e NA28.

A tradição é extraordinariamente instável. 𝔓13vid, A, D2, K, 075 e a tradição bizantina apresentam ἐπρίσθησαν, ἐπειράσθησαν; א, L, P, 048, 33, 81, 326 e 2495 invertem os termos: ἐπειράσθησαν, ἐπρίσθησαν. 0150, alguns manuscritos da Vulgata e Clemente possuem ἐπειράσθησαν sem ἐπρίσθησαν. A mobilidade de ἐπειράσθησαν e sua semelhança gráfica com ἐπρίσθησαν favorecem sua secundariedade. A BECE, portanto, não traduz “foram provados” ou “foram tentados”.

Essa decisão é visível na comparação das versões: ARA inclui “provados”, ARC inclui “tentados” e a YLT 1863 possui they were tempted; NAA e Bíblia de Jerusalém omitem esse elemento, em acordo com a forma breve adotada pelo NTG-EV.

Crítica textual — μαχαίρης. O NTG-EV lê μαχαίρης, forma genitiva adotada também por SBLGNT, NA28 e WH. A tradição bizantina, RP e TR apresentam μαχαίρας. A diferença é flexional e não exige alteração semântica na tradução.

“Foram apedrejados”. Ἐλιθάσθησαν é aoristo passivo de λιθάζω. Entre os antecedentes bíblicos mais claros está Zacarias, filho de Joiada, morto por apedrejamento no pátio do templo (2Cr 24.20–22). A perseguição e morte de profetas por apedrejamento também se tornam um motivo generalizado em tradições posteriores e no próprio Novo Testamento (Mt 23.37) (Attridge, 1989: 350).

Tradições judaicas posteriores atribuíam também a Jeremias uma morte por apedrejamento no Egito. Hebreus não identifica o personagem, de modo que Zacarias fornece um referente escriturístico seguro, enquanto a associação com Jeremias pertence à história antiga da interpretação dos profetas (deSilva, 2000: 421–422).

“Serrados ao meio”. Ἐπρίσθησαν deriva de πρίζω, “serrar”. O verbo é um hapax no Novo Testamento. Não existe relato no texto canônico do Antigo Testamento de um profeta morto dessa maneira. A referência tradicionalmente reconhecida é a morte de Isaías durante o reinado de Manassés, preservada em tradições judaico-cristãs como a Ascensão de Isaías 5.1–14 e mencionada posteriormente por autores cristãos antigos (Attridge, 1989: 350; Moffatt, 1924: 188).

A presença dessa alusão é metodologicamente importante: o catálogo não se limita a episódios narrados no corpus canônico hebraico, mas utiliza também tradições antigas sobre o destino de figuras bíblicas. Isso é especialmente evidente nos vv. 35–38, onde histórias macabeias e tradições sobre profetas fornecem parte significativa do material.

“Morreram assassinados pela espada”. Ἐν φόνῳ μαχαίρης ἀπέθανον possui uma construção incomum. Φόνος significa assassinato, matança ou morte violenta; μάχαιρα, espada. A BECE traduz “morreram assassinados pela espada”, procurando representar φόνος em vez de reduzir toda a expressão ao tradicional “morreram ao fio da espada”.

Entre os exemplos escriturísticos, Urias, filho de Semaías, é morto à espada por ordem de Jeoaquim (Jr 26.20–23). Elias também se refere à matança dos profetas pela espada (1Rs 19.10). A formulação permanece plural e genérica, e não deve ser reduzida exclusivamente a Urias (Attridge, 1989: 350; Moffatt, 1924: 188–189).

“Peles de ovelhas [...] peles de cabras”. Μηλωτή designa especificamente pele de ovelha usada como veste; αἴγειος δέρμα é “pele de cabra”. A indumentária lembra de modo especial Elias e Eliseu: a μηλωτή de Elias aparece repetidamente na tradição grega de 1Rs 19 e 2Rs 2. Isso não significa, porém, que todos os personagens desta oração devam ser identificados com esses dois profetas (Attridge, 1989: 350–351).

“Necessitados, afligidos, maltratados”. Os três particípios presentes descrevem condição continuada. Ὑστερούμενοι é “sofrendo falta, necessitados”; θλιβόμενοι, “afligidos, pressionados”; κακουχούμενοι, “maltratados”. O último verbo estabelece conexão lexical importante com 13.3, onde os destinatários são instruídos a lembrar-se dos κακουχούμενοι, “maltratados” (Attridge, 1989: 350–351).

A forma participial também muda a textura da enumeração. Depois de três aoristos que acumulam formas de morte, o discurso passa à condição prolongada daqueles que permaneceram vivos, mas em deslocamento, privação e perseguição.

Versões comparadas. A NAA lê “Foram apedrejados, serrados ao meio, mortos ao fio da espada”; a Bíblia de Jerusalém, “Foram lapidados, foram serrados e morreram assassinados com golpes de espada”. Ambas omitem a variante ἐπειράσθησαν. A ARA, por outro lado, lê “Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio”; a ARC, “Foram apedrejados, serrados, tentados”; e a YLT 1863, they were stoned, they were sawn asunder, they were tempted, refletindo a tradição textual mais longa.

Quanto aos três particípios finais, a NAA traz “passaram por necessidades, foram afligidos e maltratados”; a ARA, “necessitados, afligidos, maltratados”; a ARC usa “desamparados, aflitos e maltratados”; a Bíblia de Jerusalém reorganiza a sequência como “oprimidos e maltratados, sofreram privações”. A BECE conserva a ordem lexical: “necessitados, afligidos, maltratados”.

Função argumentativa. O v. 37 radicaliza a inversão iniciada em 11.35b. Em 11.34 alguns “escaparam ao fio da espada”; três versículos depois, outros “morreram [...] pela espada”. A proximidade das duas expressões torna improvável qualquer definição da fé em termos de um único resultado histórico: o mesmo catálogo inclui escape e morte (deSilva, 2000: 418–422).

“Deles o mundo não era digno” — inversão de valor e a geografia da marginalização

Crítica textual. O NTG-EV lê ἐπὶ ἐρημίαις, com 𝔓13, 𝔓46, א, A, P, 6, 365, 1241, 1739, 1881 e outros testemunhos; D, Ψ, a tradição bizantina, Clemente e Orígenes apresentam ἐν. Mantém-se ἐπί, leitura igualmente adotada por SBLGNT, NA28 e WH.

Ἐπί com ἐρημίαις é uma construção menos esperada que ἐν, sobretudo porque os substantivos subsequentes são naturalmente entendidos de maneira locativa. Isso ajuda a explicar a substituição por ἐν em parte da tradição. O NTG-EV preserva a forma mais difícil.

“Deles o mundo não era digno”. Ὧν é genitivo relativo e antecipa o grupo descrito anteriormente: “deles”. Ἄξιος pertence ao campo de valor, correspondência ou mérito. A ordem grega coloca κόσμος como sujeito: “o mundo não era digno deles”. A formulação inverte a avaliação social implícita nos vv. 36–37. Pessoas tratadas como criminosos, marginalizados e indesejáveis são apresentadas não como indignas do mundo, mas como pessoas das quais o próprio mundo não era digno (Attridge, 1989: 350–351; deSilva, 2000: 421–423).

Κόσμος não precisa ser reduzido aqui ao planeta físico. No contraste retórico, representa a ordem humana na qual esses personagens foram perseguidos, expulsos ou privados de lugar. O autor reverte a escala de honra: a rejeição social não constitui evidência de inferioridade dos perseguidos, mas da inadequação da ordem que os rejeita (deSilva, 2000: 421–423).

“Errantes”. Πλανώμενοι é particípio presente de πλανάω. Em outros contextos de Hebreus o verbo pode ser metafórico, “desviar-se”; aqui a geografia que o acompanha torna necessário o sentido físico: vagar, andar errante. A perseguição acrescenta assim uma nova dimensão ao motivo anterior de estrangeiridade dos patriarcas em 11.9,13–16 (Attridge, 1989: 351).

Desertos, montanhas, cavernas e fendas. Ἐρημία pode designar deserto, região erma ou área não habitada; ὄρος, montanha; σπήλαιον, caverna. Ὀπή é abertura, fenda ou cavidade. Como σπήλαιον já significa “caverna”, traduzir ὀπαί novamente por “cavernas” apagaria a distinção lexical. “Fendas da terra” procura preservar a imagem de aberturas ou cavidades menores.

As imagens possuem numerosos antecedentes. Elias desloca-se pelo deserto e se refugia numa caverna (1Rs 19.4,9); cem profetas são escondidos em cavernas durante a perseguição de Jezabel (1Rs 18.4,13); durante a opressão midianita os israelitas recorrem a cavernas e esconderijos nos montes (Jz 6.2). Davi também utiliza regiões desérticas como refúgio (1Sm 23.14).

A mesma geografia reaparece de maneira especialmente intensa na crise macabeia. Matatias e seus seguidores fogem para os montes (1Mc 2.28–31), Judas e seus homens vivem nas montanhas (2Mc 5.27), e outros grupos procuram esconderijos em cavernas (2Mc 6.11). O texto permite, portanto, que memórias dos profetas e da resistência macabeia se sobreponham sem indicar um único referente (Attridge, 1989: 351; deSilva, 2000: 421–422; Moffatt, 1924: 189–190).

Contexto histórico-cultural. A descrição combina roupa, espaço e status social. Peles de animais, regiões ermas, montanhas e cavernas colocam esses personagens fora dos espaços normais de residência, produção e reconhecimento social. A imagem não é simplesmente de ascetismo voluntário: dentro da sequência, trata-se predominantemente de deslocamento causado por oposição e perseguição (deSilva, 2000: 421–422).

Essa marginalidade espacial completa a marginalidade jurídica e social dos vv. 36–37: pessoas zombadas, açoitados, presas, mortas ou expulsas passam a existir literalmente nos limites da sociedade. O comentário “o mundo não era digno deles” interrompe a descrição justamente para reverter a avaliação associada a essa exclusão.

Versões comparadas. A NAA lê “O mundo não era digno deles. Andaram errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra”. A ARA tem “homens dos quais o mundo não era digno” e “pelas covas, pelos antros da terra”. A ARC usa “homens dos quais o mundo não era digno”, seguido de “covas e cavernas da terra”. A Bíblia de Jerusalém diz “Eles, de quem o mundo não era digno, erravam pelos desertos e pelas montanhas, pelas grutas e cavernas da terra”. A YLT 1863 conserva of whom the world was not worthy; in deserts wandering, and in mountains, and in caves, and in the holes of the earth.

A BECE mantém a relação direta do relativo com os perseguidos: “deles o mundo não era digno”. Na enumeração geográfica, “cavernas e fendas da terra” distingue σπήλαια de ὀπαί, diferença que várias versões portuguesas neutralizam mediante dois termos aproximadamente sinônimos.

Função argumentativa. Os vv. 35–38 produzem uma correção decisiva à primeira metade da enumeração. Fé pode acompanhar ressurreição, vitória e escape, mas também tortura, execução, privação e expulsão. A avaliação do capítulo não depende do resultado imediato experimentado pelo personagem. É precisamente depois da exposição dos casos em que não houve livramento histórico que 11.39 poderá reunir novamente “todos” os exemplos sob a mesma categoria de testemunho recebido por meio da fé.

Testemunho, Promessa e Aperfeiçoamento Conjunto

39 E dltodos, tendo dmrecebido testemunho por meio da fé, não receberam dna promessa,39 40 tendo Deus provido, a nosso respeito, doalgo melhor, para que dpsem nós não fossem dqaperfeiçoados.40

“E todos [...] não receberam a promessa” — καί sem οὗτοι, μαρτυρηθέντες e o singular ἐπαγγελία

Crítica textual — καὶ πάντες. O NTG-EV lê καὶ πάντες, “e todos”, sem o demonstrativo οὗτοι. A leitura breve é sustentada por 𝔓13vid, 𝔓46, 1739, 1881, sa e Clemente e é igualmente adotada pelo SBLGNT. A tradição concorrente acrescenta οὗτοι, produzindo καὶ οὗτοι πάντες, “e todos estes”, leitura representada pela tradição bizantina e adotada por WH e NA28. Mantém-se rigorosamente o NTG-EV.

A diferença é pequena, mas tradutoriamente perceptível. A BECE verte simplesmente “E todos”, sem acrescentar “[estes]”. A referência de πάντες é suficientemente recuperável do catálogo precedente e não exige suplemento editorial.

“Todos”. Πάντες funciona como recapitulação abrangente. O referente não se limita aos perseguidos dos vv. 35–38, mas recolhe a sucessão de personagens e grupos desenvolvida ao longo do capítulo. A formulação retoma especialmente 11.2, onde os antigos são apresentados como aqueles que receberam testemunho, e 11.13, onde οὗτοι πάντες reúne os patriarcas anteriormente mencionados. Aqui, no encerramento, o horizonte é ampliado para o conjunto do catálogo (Attridge, 1989: 351–352; Moffatt, 1924: 190).

“Tendo recebido testemunho”. Μαρτυρηθέντες é particípio aoristo passivo de μαρτυρέω. O verbo pode significar receber testemunho, ser atestado ou ser reconhecido favoravelmente. A BECE mantém “tendo recebido testemunho”, em continuidade lexical com as ocorrências anteriores do mesmo campo verbal em 11.2,4–5.

O grego não possui aqui um adjetivo equivalente a “bom”. “Bom testemunho” é uma explicitação tradicional e semanticamente plausível, já que o testemunho no contexto é favorável, mas não representa um lexema independente do NTG-EV. Por isso, não é incorporado ao corpo da tradução.

Διὰ τῆς πίστεως emprega διά com genitivo, “por meio da fé”. A mesma formulação havia aparecido em 11.33 e ajuda a estruturar a seção conclusiva. O testemunho recebido pelos personagens é apresentado como relacionado à fé que suas ações e experiências exemplificaram (Attridge, 1989: 351).

“Não receberam”. Ἐκομίσαντο é aoristo médio de κομίζω. No médio, o verbo pode significar obter ou receber aquilo que cabe a alguém. A mesma forma lexical apareceu em 11.19, onde Abraão “recebeu de volta” Isaque, mas o complemento modifica a nuance. Aqui οὐκ ἐκομίσαντο τὴν ἐπαγγελίαν significa que eles não receberam aquilo que “a promessa” representa.

A BECE conserva “não receberam”, em vez de “não obtiveram a concretização”, porque “concretização” não possui equivalente lexical independente. A interpretação de que ἐπαγγελία funciona metonimicamente para o benefício prometido pertence à exegese e é explicitada nesta nota, não acrescentada à tradução.

“A promessa” — singular. O singular τὴν ἐπαγγελίαν deve ser distinguido do plural ἐπαγγελίαι empregado em outros pontos do capítulo. Em 11.33, alguns personagens “obtiveram promessas” — isto é, experimentaram realizações particulares de benefícios anteriormente prometidos. Em 11.39, apesar dessas realizações históricas, o conjunto dos personagens não recebeu “a promessa” em seu sentido conclusivo (Attridge, 1989: 351–352).

Não há, portanto, contradição necessária entre ἐπέτυχον ἐπαγγελιῶν, “obtiveram promessas”, em 11.33 e οὐκ ἐκομίσαντο τὴν ἐπαγγελίαν, “não receberam a promessa”, em 11.39. O primeiro enunciado admite cumprimentos particulares dentro da história; o segundo concentra no singular o benefício prometido que permanece como objeto final da expectativa do catálogo (deSilva, 2000: 423–424; Moffatt, 1924: 190).

O enunciado também retoma 11.13, onde os patriarcas morreram sem terem recebido “as promessas”. A repetição no encerramento mostra que a não obtenção durante a vida não funciona no argumento como evidência de deficiência da fé desses personagens; o v. 40 atribui a demora à configuração mais ampla do propósito descrito pelo autor (deSilva, 2000: 423–424).

Versões comparadas. A NAA traz “Todos estes, mesmo tendo obtido bom testemunho por meio da fé, não obtiveram a concretização da promessa”; a ARA igualmente introduz “todos estes”, “bom testemunho” e “concretização da promessa”. A ARC conserva uma redação mais próxima em “tendo tido testemunho pela fé”, mas também possui “todos estes” e traduz o verbo final por “não alcançaram”. A Bíblia de Jerusalém lê “todos eles” e explicita “a realização da promessa”. A YLT 1863 apresenta and these all, having been testified to through the faith, received not the promise.

Há duas razões para a maior concisão da BECE. Primeiro, o NTG-EV não contém οὗτοι, de modo que “estes” não é traduzido. Segundo, nem “bom” nem “concretização” possuem correspondente lexical independente. A redação “E todos, tendo recebido testemunho por meio da fé, não receberam a promessa” mantém essas informações para a camada exegética.

Função argumentativa. O v. 39 reúne numa mesma avaliação personagens que experimentaram resultados históricos muito diferentes: alguns receberam filhos de volta, conquistaram reinos ou escaparam da morte; outros foram torturados, mortos ou expulsos. O denominador comum não é o resultado imediato, mas o testemunho associado à fé. A conclusão prepara assim a explicação do v. 40 e, em seguida, o οὖν de 12.1.

“Tendo Deus provido [...] algo melhor” — προβλέπω, κρεῖττόν τι e o aperfeiçoamento não separado de “nós”

Crítica textual. O aparato selecionado do NTG-EV não registra em 11.40 variante que exija modificação da presente tradução. A principal questão é sintática e semântica: todo o versículo constitui uma construção participial que explica a situação enunciada no v. 39.

Sintaxe — o genitivo absoluto. Τοῦ θεοῦ [...] προβλεψαμένου é um genitivo absoluto. Θεοῦ é o sujeito do particípio προβλεψαμένου, não um genitivo dependente de τὴν ἐπαγγελίαν do versículo anterior. A estrutura deve, portanto, ser entendida como “tendo Deus provido...” e não como “a promessa de Deus [...]”. O particípio fornece a circunstância — provavelmente causal — pela qual os personagens anteriores não receberam a promessa independentemente da geração do autor (Moffatt, 1924: 190–191).

Προβλεψαμένου — prever ou prover? Προβλέπω é composto de πρό, “antes”, e βλέπω, “ver”. Seu sentido básico é ver antecipadamente, prever. No médio, entretanto, pode desenvolver a nuance de tomar providências antecipadamente, providenciar ou prover. É nesse segundo sentido que a construção funciona mais naturalmente: Deus não é simplesmente descrito como conhecendo antecipadamente algo melhor, mas como incorporando esse “algo melhor” ao arranjo que explica o adiamento do aperfeiçoamento (Attridge, 1989: 352; Moffatt, 1924: 190–191).

A BECE traduz, portanto, “tendo Deus provido”. “Tendo previsto” seria lexicalmente possível e é adotado por algumas versões, mas no português atual pode comunicar apenas presciência. “Providenciar/prover” representa melhor a nuance contextual do médio sem apagar na nota a formação semântica do verbo.

“A nosso respeito”. Περὶ ἡμῶν é literalmente “a respeito de nós”, “com relação a nós”. Em contexto favorável, a preposição pode assumir valor próximo de “para nós”. A BECE conserva “a nosso respeito” por permanecer mais próxima da construção e por evitar transformar a relação numa simples posse individual do “algo melhor”.

Ἡμεῖς, “nós”, introduz explicitamente o autor e aqueles com quem se identifica no fechamento do catálogo. A relação entre os antigos exemplos e “nós” já prepara a transição de 12.1: “portanto, também nós”. A conclusão de Hebreus 11 não termina, assim, apenas olhando retrospectivamente para os personagens enumerados; ela incorpora a geração do discurso à mesma linha argumentativa (Attridge, 1989: 352; deSilva, 2000: 424).

“Algo melhor”. Κρεῖττόν τι combina o comparativo κρείττων, “melhor”, com o pronome indefinido τι, “algo”. A expressão é deliberadamente inespecífica: literalmente, “algo melhor”. Κρείττων é uma palavra programática em Hebreus, aplicada, entre outras coisas, a esperança melhor (7.19), aliança melhor (7.22; 8.6), promessas melhores (8.6), sacrifícios melhores (9.23), posse melhor (10.34), pátria melhor (11.16) e ressurreição melhor (11.35).

Essa rede lexical esclarece o horizonte da expressão, mas não autoriza substituir κρεῖττόν τι no texto principal por uma identificação específica como “[a nova aliança]”, “[Cristo]”, “[a salvação]” ou “[a ressurreição]”. Hebreus deixa o objeto indefinido. A tradução deve fazer o mesmo (Attridge, 1989: 352; deSilva, 2000: 423–424).

deSilva (2000: 423–424) distingue adequadamente “a promessa” de “algo melhor”: a primeira designa metonimicamente o benefício final prometido; o segundo pertence ao arranjo mediante o qual esse benefício pode ser alcançado conjuntamente. A sintaxe do versículo não identifica formalmente as duas expressões.

“Para que sem nós não fossem aperfeiçoados”. Τελειωθῶσιν é aoristo passivo subjuntivo de τελειόω. O verbo ocupa posição central em Hebreus e não significa aqui que os personagens anteriores fossem moralmente defeituosos e necessitassem tornar-se eticamente impecáveis. Seu campo no discurso inclui levar ao objetivo, completar, tornar apto e conduzir à condição final pretendida (Attridge, 1989: 352).

A família lexical aparece na exposição anterior em contextos como 2.10; 5.9; 7.19,28; 9.9; 10.1,14 e voltará em 12.23, onde se fala dos “espíritos dos justos aperfeiçoados”. No presente versículo, o passivo aponta para uma consumação que os personagens do catálogo não alcançam χωρὶς ἡμῶν, “sem nós” (Attridge, 1989: 352).

Χωρίς significa separado de, à parte de ou sem. O texto, portanto, não afirma simplesmente que “nós” também seremos aperfeiçoados; afirma negativamente que o aperfeiçoamento daqueles personagens não ocorreria “sem nós”. A formulação produz uma relação corporativa entre os antigos exemplos e a geração do autor. A BECE não acrescenta “juntos”, porque não existe advérbio equivalente no grego, embora a ideia de uma consumação não separada esteja implicada pela própria construção.

O versículo não fornece, porém, uma descrição detalhada do estado intermediário dos mortos, de sua percepção temporal ou do mecanismo cronológico dessa relação. Inferências sobre esses temas ultrapassam a informação lexical disponível. O ponto formulado é mais restrito: o objetivo final dos personagens anteriores não é concebido como uma realização independente daqueles representados por “nós”.

“Aperfeiçoamento” dentro do argumento. O emprego de τελειόω conecta a conclusão do catálogo a um dos principais campos lexicais da carta. A obra já relacionou “aperfeiçoamento” ao acesso efetivo ao objetivo que os antigos arranjos não podiam produzir (7.19; 9.9; 10.1) e ao efeito atribuído à ação de Cristo (10.14). Em 11.40, o vocabulário é aplicado conjuntamente aos personagens anteriores e à geração do autor (Attridge, 1989: 351–352).

É por isso que “plena realização”, como na Bíblia de Jerusalém, esclarece parte da nuance contextual, mas deixa de reproduzir a ligação lexical com τελειόω nas demais ocorrências de Hebreus. A BECE conserva “aperfeiçoados” para tornar visível essa rede terminológica.

Versões comparadas. A NAA traduz προβλεψαμένου por “Deus tinha previsto algo melhor para nós”; a Bíblia de Jerusalém também usa “previa para nós algo de melhor”. A ARA emprega “por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito”, e a ARC, “provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito”. A YLT 1863 lê God for us something better having provided.

A BECE combina “provido”, que representa a nuance contextual do médio, com “algo melhor”, correspondência direta de κρεῖττόν τι, e “a nosso respeito”, que preserva περὶ ἡμῶν. Evita-se tanto “coisa superior”, que rompe a terminologia recorrente de κρείττων como “melhor”, quanto “para nós”, que é perfeitamente possível como sentido, mas menos formalmente correspondente à preposição.

Na oração final, NAA, ARA e ARC conservam “aperfeiçoados”. A Bíblia de Jerusalém interpreta τελειωθῶσιν por “chegassem à plena realização”; a YLT mantém might not be made perfect. A BECE preserva “aperfeiçoados” justamente para manter a correspondência intratextual com o vocabulário de τελείωσις/τελειόω empregado ao longo da carta.

Função argumentativa e transição para 12.1. Os vv. 39–40 encerram o catálogo reagrupando todos os exemplos numa afirmação comum: receberam testemunho por meio da fé, mas sua expectativa final não é apresentada como consumada independentemente de “nós”. Essa inclusão da geração do autor torna possível a transição imediata de 12.1: “Portanto, também nós...”. Os personagens de Hebreus 11 deixam de ser apenas matéria retrospectiva e passam a constituir o conjunto de testemunhos em relação ao qual a exortação seguinte será formulada (Attridge, 1989: 351–352; deSilva, 2000: 424).

A conclusão, portanto, não opõe simplesmente “eles” a “nós”. Sua formulação final elimina uma consumação isolada dos dois grupos: οὐκ ἐκομίσαντο no v. 39 é explicado por ἵνα μὴ χωρὶς ἡμῶν τελειωθῶσιν no v. 40. É essa ligação sintática e argumentativa que fecha Hebreus 11 e prepara a passagem para a corrida descrita em 12.1–2.

Pro Blogger Templates
-->