Hebreus 1 (BECE)
Deus falou por meio do Filho
1 aEm muitas partes e de muitas maneiras, tendo Deus outrora falado aos pais bpor meio dos profetas,1 2 cnestes últimos dias falou-nos dpor meio do Filho,2 a quem constituiu eherdeiro de todas as coisas e por meio de quem também ffez o universo;3 3 o qual, sendo go resplendor da glória e a expressão exata de sua realidade,4 e hsustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de realizar ia purificação dos pecados,5 jassentou-se à direita da Majestade, nas alturas, 4 tornando-se tanto ksuperior aos anjos quanto mais excelente é lo nome que herdou em comparação com o deles.6
“Em muitas partes e de muitas maneiras” — a abertura cuidadosamente paralela do período
Crítica textual. O texto-base conserva simplesmente τοῖς πατράσιν, tois patrasin (“aos pais”). O aparato do NA28 registra a adição ἡμῶν, hēmōn (“nossos”), após πατράσιν, patrasin (“pais”), em 𝔓12vid, 𝔓46c e parte da tradição versional. O NTG-EV e o texto impresso do NA28 mantêm a forma sem o pronome; por isso, a BECE conserva “aos pais”, sem acrescentar “nossos”. A variante é pequena, mas afeta diretamente o grau de explicitação do referente e, por isso, deve ser registrada.
Filologia e sintaxe. Os advérbios πολυμερῶς, polymerōs (“em muitas partes”), e πολυτρόπως, polytropōs (“de muitas maneiras”), ocupam enfaticamente a abertura do período. O primeiro deriva de μέρος, meros (“parte”, “porção”), e descreve primariamente uma revelação distribuída em partes ou porções; o segundo caracteriza a variedade de modos pelos quais essa comunicação ocorreu. A combinação não exige que πολυμερῶς, polymerōs (“em muitas partes”), seja temporalizado como “muitas vezes”. A construção introduz uma revelação anterior múltipla tanto em sua distribuição quanto em suas formas (Attridge, 1989: 36; Ellingworth, 1993: 90–92).
O particípio aoristo λαλήσας, lalēsas (“tendo falado”), é sintaticamente subordinado ao verbo principal ἐλάλησεν, elalēsen (“falou”), de 1.2. Por isso, 1.1–2 não constitui duas afirmações independentes, mas uma única estrutura contrastiva: a mesma pessoa gramatical, “Deus”, falou anteriormente e falou agora. πάλαι, palai (“outrora”), contrapõe-se a ἐπ’ ἐσχάτου τῶν ἡμερῶν τούτων, ep’ eschatou tōn hēmerōn toutōn (“nestes últimos dias”). O contraste recai, portanto, sobre época e meio da comunicação, e não sobre uma oposição entre dois deuses ou entre revelação autêntica e inautêntica.
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem πολυμερῶς, polymerōs (“em muitas partes”), por “muitas vezes”, concentrando o primeiro advérbio na repetição temporal. A YLT, em contraste, traz “In many parts, and many ways”, distinguindo formalmente os dois advérbios. A diferença é diretamente relevante para a decisão da BECE: “em muitas partes e de muitas maneiras” procura preservar a oposição lexical entre πολυμερῶς, polymerōs (“em muitas partes”), e πολυτρόπως, polytropōs (“de muitas maneiras”).
“Por meio do Filho” — o valor qualitativo da expressão grega
Filologia e sintaxe. O grego traz ἐν υἱῷ, en huiō (“em Filho”), sem artigo diante de υἱός, huios (“filho”). A ausência do artigo não torna a expressão indefinida no sentido de “um filho entre vários”; nesse contexto, a construção possui força qualitativa, enfatizando a condição daquele por meio de quem Deus agora fala: alguém cuja identidade é a de Filho (Attridge, 1989: 39; Ellingworth, 1993: 93).
A correspondência entre ἐν τοῖς προφήταις, en tois prophētais (“por meio dos profetas”), em 1.1, e ἐν υἱῷ, en huiō (“em Filho”), em 1.2 é deliberada. A primeira expressão apresenta uma pluralidade de agentes; a segunda concentra a comunicação em uma figura caracterizada por sua filiação. As orações relativas que seguem — ὃν ἔθηκεν, hon ethēken (“a quem constituiu”), e δι’ οὗ, di’ hou (“por meio de quem”) — desenvolvem precisamente a identidade desse Filho.
Uma reprodução formal como “falou-nos em Filho” conservaria a ausência do artigo, mas produziria uma construção opaca em português; “por meio de um Filho” poderia, por sua vez, sugerir indefinição numérica que o contexto não sustenta. A BECE emprega, portanto, “por meio do Filho”, registrando em nota a força qualitativa da forma anarticular.
Versões comparadas. A NAA normaliza ἐν υἱῷ, en huiō (“em Filho”), como “pelo Filho”. A NRSV explicita a ausência do artigo com “by a Son”, enquanto a YLT preserva também a preposição com “in a Son”. As duas versões inglesas tornam visível um traço formal do grego, mas o artigo indefinido em português sugeriria com facilidade “um filho entre vários”. A BECE mantém “por meio do Filho” e registra em nota a força qualitativa da forma anarticular.
“Fez o universo” — o alcance semântico do plural grego
Crítica textual. O NTG-EV e o NA28 leem ἐποίησεν τοὺς αἰῶνας, epoiēsen tous aiōnas (“fez as eras/o universo”). O aparato do NA28 atribui a ordem transposta τοὺς αἰῶνας ἐποίησεν, tous aiōnas epoiēsen (“as eras fez”), a D1, K, L, P, Ψ e numerosa tradição minúscula, leitura refletida por RP e TR; o texto adotado conta, entre outros, com 𝔓46, א, A, B, D* e 33 e coincide com WH, UBS5, SBLGNT e THGNT. O mesmo aparato registra ainda a omissão de καί, kai (“também”), em 𝔓46, 0150 e parte da tradição copta. A transposição não altera a tradução portuguesa, mas a omissão de καί, kai (“e/também”), eliminaria o “também”; a BECE mantém “também fez” porque traduz o texto-base adotado.
Filologia e sintaxe. O substantivo αἰών, aiōn (“era”, “idade”, “mundo”), no plural τοὺς αἰῶνας, tous aiōnas (“as eras/os mundos”), pode designar mais que mera duração cronológica. No contexto, a expressão corresponde semanticamente a πάντων, pantōn (“todas as coisas”), imediatamente antes, e a τὰ πάντα, ta panta (“todas as coisas”), em 1.3. Por isso, o referente abrange a ordem criada em sua extensão temporal e cósmica (Attridge, 1989: 41; Ellingworth, 1993: 96).
“As eras” seria a correspondência lexical mais imediata, mas em português contemporâneo poderia restringir indevidamente a frase à sucessão do tempo. “Mundos” preservaria um uso histórico de αἰῶνες, aiōnes (“eras/mundos”), porém sugeriria uma pluralidade de universos. “Universo” explicita melhor, neste contexto, a totalidade criada abrangida pelo plural grego. A mesma família lexical reaparece em 1.8 na fórmula εἰς τὸν αἰῶνα τοῦ αἰῶνος, eis ton aiōna tou aiōnos (“para a era da era”), onde a construção idiomática exige em português “para todo o sempre”. A diferença entre “universo” em 1.2 e “para todo o sempre” em 1.8 é, portanto, contextual e sintática, não uma oscilação arbitrária na equivalência de αἰών, aiōn (“era, idade, mundo”).
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem τοὺς αἰῶνας, tous aiōnas (“as eras/os mundos”), por “o universo”; a ARC emprega “o mundo”; a NRSV traz “the worlds”; e a YLT conserva a dimensão temporal com “the ages”. Essas soluções mostram o alcance semântico do plural grego. A BECE prefere “o universo” porque, neste contexto, a expressão abrange a ordem criada em sua extensão cósmica e temporal, sem sugerir uma pluralidade de universos.
“O resplendor da glória e a expressão exata de sua realidade” — brilho, representação e realidade
Crítica textual. No segmento que a BECE verte por “sustentando todas as coisas”, o texto-base lê φέρων, pherōn (“sustentando/carregando”). O aparato do NA28 registra φανερῶν, phanerōn (“manifestando”), em B* e B3. Essa leitura produziria uma alteração lexical efetiva — “manifestando todas as coisas” —, mas permanece restrita à história textual de B; o NTG-EV, o NA28 e as demais edições principais aqui controladas conservam φέρων, pherōn (“sustentando/carregando”). Mantém-se, portanto, “sustentando”.
Filologia e sintaxe. ἀπαύγασμα, apaugasma (“resplendor”, “irradiação”), é um substantivo raro que pode descrever aquilo que emana de uma fonte luminosa; a interpretação histórica “reflexo” também foi defendida, mas “resplendor” representa adequadamente a relação expressa pela imagem sem obrigar o português a decidir mais do que o próprio vocábulo exige (Attridge, 1989: 42–43; Ellingworth, 1993: 99).
χαρακτήρ, charaktēr (“impressão”, “marca”, “representação exata”), designava originalmente a marca produzida por gravação ou estampagem e, por extensão, a reprodução que corresponde ao molde que a produziu. A expressão não significa simplesmente “imagem” em sentido genérico: ela acentua correspondência precisa.
O genitivo τῆς ὑποστάσεως αὐτοῦ, tēs hypostaseōs autou (“de sua realidade”), determina aquilo de que o Filho é χαρακτήρ, charaktēr (“expressão exata”). ὑπόστασις, hypostasis (“realidade”, “substância”, “condição”), possuía um campo semântico mais amplo no grego do período do que o sentido técnico adquirido posteriormente em controvérsias metafísicas. Traduzir automaticamente por “pessoa” introduziria terminologia posterior; “essência” poderia igualmente estreitar em excesso o termo. “Realidade” conserva melhor sua amplitude contextual.
Os particípios ὢν, ōn (“sendo”), e φέρων, pherōn (“sustentando”), estão no presente e apresentam características concomitantes do sujeito, enquanto ποιησάμενος, poiēsamenos (“tendo realizado”), em aoristo, introduz a ação de purificação que precede narrativamente ἐκάθισεν, ekathisen (“assentou-se”). A sequência permite que o período passe de descrições do Filho para uma ação realizada e, finalmente, para sua entronização.
Versões comparadas. A NAA traz “resplendor da glória de Deus” e “expressão exata do seu Ser”; a NRSV verte ἀπαύγασμα, apaugasma (“resplendor/irradiação”), por “reflection” e ὑπόστασις, hypostasis (“realidade/substância”), por “very being”; a YLT emprega “brightness” e “subsistence”. A BECE conserva “resplendor” para a primeira imagem e prefere “realidade” para ὑπόστασις, hypostasis (“realidade/substância”), evitando transformar o vocábulo em uma definição metafísica mais estreita do que o contexto exige.
“Depois de realizar a purificação dos pecados” — texto, aspecto verbal e progressão do período
Crítica textual. Este é o locus mais complexo do capítulo, porque duas variações se sobrepõem imediatamente antes de καθαρισμόν, katharismon (“purificação”). Primeiro, o αὐτοῦ, autou (“seu”), de τῆς δυνάμεως αὐτοῦ, tēs dynameōs autou (“do seu poder”), é omitido por 𝔓46, 0243, 6, 1739 e 1881*. Segundo, antes de καθαρισμόν, 𝔓46, D*, 0278, 365 e 1505 apresentam δι’ αὐτοῦ, di’ autou (“por meio dele”), enquanto D2, Hc, K, L, 0243, 104, 630, 1241, 1739, 1881 e a tradição bizantina apresentam δι’ ἑαυτοῦ, di’ heautou (“por meio de si mesmo”). A leitura sem qualquer expressão preposicional nesse ponto é sustentada por א, A, B, D1, H*, P, Ψ, 33, 81, 629, 1175, 2464 e outros testemunhos.
Consequentemente, 𝔓46 não deve ser descrito como se apenas acrescentasse δι’ αὐτοῦ ao texto corrente: sua sequência é τῆς δυνάμεως, δι’ αὐτοῦ καθαρισμόν, tēs dynameōs, di’ autou katharismon (“do poder, por meio dele, purificação”), sem o αὐτοῦ, autou (“seu/dele”), possessivo depois de δυνάμεως, dynameōs (“poder”). NA28, UBS5, WH e THGNT preservam τῆς δυνάμεως αὐτοῦ, tēs dynameōs autou (“do seu poder”), seguido de καθαρισμόν, katharismon (“purificação”), sem inserção; o SBLGNT lê τῆς δυνάμεως, tēs dynameōs (“do poder”), seguido de δι’ αὑτοῦ καθαρισμόν, di’ hautou katharismon (“por meio de si mesmo, purificação”), ao passo que RP e TR conservam αὐτοῦ, autou (“seu/dele”), e acrescentam δι’ ἑαυτοῦ, di’ heautou (“por meio de si mesmo”). A BECE segue o NTG-EV e o NA28 e, portanto, não introduz “por meio dele” nem “por si mesmo”.
A expansão ἡμῶν, hēmōn (“nossos”), também ocorre em mais de uma disposição. א2, D1, H, 33 e 2464 apresentam τῶν ἁμαρτιῶν ἡμῶν ποιησάμενος, tōn hamartiōn hēmōn poiēsamenos (“tendo realizado [a purificação] dos nossos pecados”), enquanto K, L e ampla tradição posterior deslocam ποιησάμενος, poiēsamenos (“tendo realizado”), e leem, em essência, ποιησάμενος τῶν ἁμαρτιῶν ἡμῶν, poiēsamenos tōn hamartiōn hēmōn (“tendo realizado [a purificação] dos nossos pecados”). O texto-base, apoiado por 𝔓46, א*, A, B, D*, P, Ψ e outros, não contém ἡμῶν, hēmōn (“nossos”). Por isso, a BECE conserva simplesmente “dos pecados”, sem “nossos”.
Filologia e sintaxe. καθαρισμός, katharismos (“purificação”), pertence ao vocabulário de remoção de impureza e será desenvolvido extensamente em Hebreus. A construção καθαρισμὸν ... ποιησάμενος, katharismon ... poiēsamenos (“tendo realizado a purificação”), emprega particípio aoristo e antecede o verbo finito ἐκάθισεν, ekathisen (“assentou-se”). A tradução “depois de realizar” torna explícita em português essa progressão sintática sem transformar o particípio numa oração independente (Ellingworth, 1993: 96–103).
O segmento imediatamente anterior, φέρων τε τὰ πάντα τῷ ῥήματι τῆς δυνάμεως αὐτοῦ, pherōn te ta panta tō rhēmati tēs dynameōs autou (“sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder”), emprega φέρω, pherō (“carregar”, “sustentar”, “conduzir”), em particípio presente. “Sustentar” exprime aqui uma atividade contínua e evita reduzir o verbo ao sentido estático de simplesmente “possuir” todas as coisas (Ellingworth, 1993: 100).
Versões comparadas. A NAA verte τῷ ῥήματι τῆς δυνάμεως αὐτοῦ, tō rhēmati tēs dynameōs autou (“pela palavra do seu poder”), como “pela sua palavra poderosa”, convertendo o genitivo em adjetivo. No mesmo versículo, a ARC lê “havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados”, representando no texto português as expansões “por si mesmo” e “nossos” ausentes do texto crítico adotado pela BECE. A ARA e a NAA, ao contrário, trazem simplesmente a purificação “dos pecados”. Assim, a comparação documenta tanto uma escolha sintática quanto uma diferença de base textual.
“Tornando-se tanto superior aos anjos...” — comparação correlativa, herança e o “nome”
Filologia e sintaxe. O versículo é estruturado pela correlação τοσούτῳ ... ὅσῳ, tosoutō ... hosō (“tanto ... quanto”), que estabelece correspondência entre a superioridade expressa por κρείττων, kreittōn (“superior”, “melhor”), e a excelência comparativa do nome. διαφορώτερον, diaphorōteron (“mais distinto”, “mais excelente”), é comparativo, assim como κρείττων, kreittōn (“superior”). A construção não diz simplesmente que o Filho é superior aos anjos; mede retoricamente essa superioridade pela diferença entre o nome herdado e o deles.
γενόμενος, genomenos (“tornando-se”), é particípio aoristo médio de γίνομαι, ginomai (“tornar-se”, “vir a ser”). Dentro da sequência imediatamente anterior — purificação, assentar-se à direita da Majestade e então superioridade aos anjos — o particípio pertence ao movimento narrativo de entronização e status. O texto não exige que se neutralize o verbo como se significasse simplesmente “sendo”; por isso a BECE preserva “tornando-se” (Ellingworth, 1993: 103–106).
κεκληρονόμηκεν, keklēronomēken (“herdou”), é perfeito ativo: o nome foi recebido por herança e permanece como posse resultante. A referência ao “nome” prepara diretamente a cadeia escriturística iniciada em 1.5, na qual a designação “Filho” ocupa posição decisiva. O versículo funciona, portanto, simultaneamente como conclusão do período de 1.1–4 e como transição para 1.5–14.
A ordem “tornando-se tanto superior aos anjos quanto mais excelente é o nome que herdou em comparação com o deles” preserva os dois comparativos e torna explícito o termo de comparação introduzido por παρ’ αὐτούς, par’ autous (“em comparação com eles/do que eles”), evitando que o termo comparativo interrompa o núcleo “é o nome” na leitura oral. Evita-se assim uma formulação portuguesa em que “quanto herdou” possa parecer relacionar a medida da superioridade ao ato de herdar, e não à excelência do nome herdado.
Versões comparadas. A NAA apresenta “tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles”, redação compacta em que “quanto herdou” pode obscurecer momentaneamente o segundo membro da correlação. A NRSV explicita a estrutura com “as the name he has inherited is more excellent than theirs”, tornando audível que a medida da comparação recai sobre a excelência do nome. A BECE segue essa relação sintática com “quanto mais excelente é o nome que herdou em comparação com o deles”, mantendo audível a correlação sem inserir um inciso entre o verbo e seu sujeito.
O Filho e os anjos
5 Pois a qual dos anjos Deus disse alguma vez:
mTu és meu Filho; eu hoje te gerei?
E novamente:
nEu serei Pai para ele, e ele será Filho para mim?7
6 E ainda, quando introduzir oo Primogênito no mundo habitado,8 diz:
pE prostrem-se diante dele todos os anjos de Deus.9
“Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” e “Eu serei Pai para ele, e ele será Filho para mim” — a dupla fundamentação escriturística da filiação
Crítica textual. Em 1.5, o NTG-EV lê αὐτῷ, autō (“para ele”), na segunda citação, leitura sustentada por 𝔓46, א1, A, B, D, K, L, 056, 0142, 0243, 330, 1022, 1739 e 1799 e adotada também por UBS5, SBLGNT, WH, RP e TR. O NA28 imprime igualmente αὐτῷ, autō (“para ele”), embora seu aparato conciso não registre neste ponto a omissão transmitida pelo aparato mais amplo em א*. Essa distinção é importante: o testemunho da omissão é real, mas não constitui um locus selecionado pelo aparato do NA28. Diante de uma omissão isolada e de apoio antigo e diversificado à leitura longa, mantém-se αὐτῷ, autō (“para ele”).
Exegese. A pergunta Τίνι, Tini (“a qual?”) [...] ποτε, pote (“alguma vez?”) retoma diretamente a comparação iniciada em 1.4. O argumento não é que seres angélicos jamais possam ser chamados coletivamente “filhos de Deus”; a literatura bíblica conhece essa designação coletiva. O ponto retórico é que nenhuma figura angélica individual recebe as duas declarações régias que o autor agora aplica ao Filho. A pergunta espera resposta negativa e introduz a primeira etapa da cadeia de citações de 1.5–14 (Attridge, 1989: 53; Bruce, 1990: 53–54).
A primeira fórmula é reproduzida de Salmo 2.7 LXX sem alteração lexical no segmento citado: Υἱός μου εἶ σύ, ἐγὼ σήμερον γεγέννηκά σε, huios mou ei sy, egō sēmeron gegennēka se (“Tu és meu Filho; eu hoje te gerei”). Hebreus apenas a extrai da moldura do salmo, Κύριος εἶπεν πρός με, Kyrios eipen pros me (“o Senhor disse a mim”). O MT apresenta בְּנִי אַתָּה ... אֲנִי הַיּוֹם יְלִדְתִּיךָ, bənî ʾattâ ... ʾănî hayyôm yəliḏtîḵā (“tu és meu filho ... eu hoje te gerei”), de modo que a LXX conserva aqui, em substância, a mesma relação filial e a mesma referência temporal.
A segunda fórmula coincide verbalmente com 2 Samuel 7.14 LXX: ἐγὼ ἔσομαι αὐτῷ εἰς πατέρα, καὶ αὐτὸς ἔσται μοι εἰς υἱόν, egō esomai autō eis patera, kai autos estai moi eis huion (“eu serei para ele Pai, e ele será para mim Filho”). O MT — אֲנִי אֶהְיֶה־לּוֹ לְאָב וְהוּא יִהְיֶה־לִּי לְבֵן, ʾănî ʾehyeh-lô ləʾāḇ wəhûʾ yihyeh-lî ləḇēn (“eu serei para ele pai, e ele será para mim filho”) — apresenta estrutura correspondente. Assim, em 1.5 o argumento de Hebreus não depende de uma divergência entre LXX e MT, mas da justaposição de duas fórmulas régias e dinásticas em uma mesma catena (Attridge, 1989: 53; Bruce, 1990: 53–55).
O perfeito γεγέννηκά, gegennēka (“gerei”) de γεννάω, gennaō (“gerar”) apresenta uma ação verbalmente completa com estado resultante, mas o valor de “hoje” pertence antes de tudo à formulação do Salmo 2.7. Dentro de Hebreus, a citação não deve ser isolada da apresentação do Filho em 1.1–4, onde sua atuação é situada antes da criação e sua entronização aparece depois da purificação dos pecados. A literatura especializada, por isso, discute se 1.5 reaproveita linguagem originalmente associada à entronização, se a aplica à exaltação ou se a integra a uma cristologia mais ampla de preexistência. O texto não oferece aqui uma explicação sistemática destinada a resolver essas categorias; sua função imediata é escrituristicamente argumentativa: estabelecer a singularidade da filiação em contraste com os anjos (Attridge, 1989: 53–55).
Versões comparadas. A ARA conserva a ordem marcada “eu hoje te gerei”, enquanto a NAA traz “hoje eu gerei você”. A YLT igualmente mantém a posição enfática do pronome em “I to-day have begotten thee” e reproduz rigidamente a reciprocidade da segunda citação: “I will be to him for a father, and he shall be to Me for a son”. A BECE mantém “eu hoje te gerei” e “Eu serei Pai para ele, e ele será Filho para mim” para conservar esses dois traços formais.
Hermenêutica. A unidade deve ser interpretada como argumento escriturístico dentro da comparação entre Filho e anjos. “Filho” não funciona aqui simplesmente como vocábulo ontológico isolado de seus textos de origem: Hebreus mobiliza linguagem régia e dinástica e a reinsere em sua apresentação do Filho. A leitura deve, portanto, conservar simultaneamente o contexto davídico das citações e sua nova função dentro da argumentação do autor.
“E ainda, quando introduzir o Primogênito no mundo habitado” — marcador discursivo, primogenitura e mundo habitado
Crítica textual. O NTG-EV lê εἰσαγάγῃ, eisagagē (“introduza”), com א, A, B, D, K, L, 056, 0142, 0243, 330, 1022, 1739 e 1799; UBS5, SBLGNT, WH, RP e TR apresentam a mesma forma, e o NA28 igualmente a imprime em seu texto. O aparato mais amplo registra 𝔓46vid como possível testemunho de ἀγάγῃ, agagē (“traga”), mas a marca vid indica que a leitura do papiro não é segura; o aparato conciso do NA28 não seleciona essa variante. A formulação deve, portanto, permanecer cautelosa: εἰσαγάγῃ possui apoio amplo e seguro, enquanto ἀγάγῃ, agagē (“conduza/introduza”), depende de uma leitura paleograficamente incerta de 𝔓46.
Exegese. A principal dificuldade não é textual, mas sintática. πάλιν, palin (“novamente/ainda”) pode ser ligado a εἰσαγάγῃ, eisagagē (“introduza”), produzindo o sentido “quando novamente introduzir o Primogênito” e permitindo uma referência a uma segunda entrada; ou pode exercer a função discursiva frequente de introduzir nova citação: “e novamente/ainda”. Esse segundo uso ocorre repetidamente em Hebreus e já aparece no próprio v. 5. Attridge (1989: 55) considera ambas as análises gramaticalmente possíveis, mas observa que o uso de πάλιν, palin (“novamente/ainda”) como marcador de nova citação predomina na obra; Bruce (1990: 56) igualmente entende o advérbio como introdução de outra prova escriturística.
Por essa razão, “E ainda” foi escolhido em vez de “quando novamente introduzir”. A opção não elimina a existência da leitura alternativa, mas evita fazer a tradução decidir antecipadamente que o autor se refere a uma “segunda entrada”. A identificação do acontecimento indicado por “quando introduzir” é discutida: foram propostas encarnação, exaltação e manifestação escatológica. A sintaxe, por si só, não resolve a questão. Attridge (1989: 55–56) considera mais provável uma referência à entrada no mundo na encarnação, enquanto Bruce (1990: 56–57) relaciona a linguagem sobretudo à exaltação e entronização do Filho sobre a οἰκουμένη, oikoumenē (“mundo habitado”). A tradução evita incorporar qualquer dessas identificações ao texto.
Πρωτότοκος, Prōtotokos (“primogênito”) é um título de precedência que possui antecedentes importantes na linguagem régia. No Salmo 88.28 LXX [89.27 MT], o rei davídico é estabelecido por Deus como πρωτότοκος, prōtotokos (“primogênito”) e elevado acima dos reis da terra. Assim, a palavra não deve ser reduzida automaticamente à ideia cronológica de primeiro nascimento. Em Hebreus 1.6 ela funciona dentro do mesmo campo régio aberto pelas citações do v. 5, embora tradições cristãs contemporâneas também empreguem o termo em contextos de preexistência e ressurreição (Attridge, 1989: 55–56; Bruce, 1990: 56).
Οἰκουμένη, Oikoumenē (“mundo habitado”) designa normalmente a terra ou mundo habitado. A tradução “mundo habitado” preserva essa especificidade lexical e permite reconhecer sua retomada em Hebreus 2.5, onde o autor falará do “mundo habitado vindouro” submetido não aos anjos, mas ao personagem que ocupa o centro de sua argumentação.
Versões comparadas. A NAA lê “E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo”, pontuação que trata πάλιν, palin (“novamente/ainda”), como marcador discursivo de nova citação. A YLT, ao contrário, traz “when again He may bring in the first-born to the world”, ligando mais naturalmente again ao verbo “introduzir”. A BECE emprega “E ainda, quando introduzir...” porque considera mais provável o valor discursivo de πάλιν, palin (“novamente/ainda”), mas registra a alternativa na análise.
Hermenêutica. A ambiguidade relativa ao momento da “introdução” não deve ser convertida em certeza histórica pela tradução. O ponto inequivocamente expresso pela oração é funcional: o Primogênito é introduzido como personagem diante de quem os anjos recebem uma ordem de prostração. Esse contraste, e não a determinação cronológica do evento, conduz diretamente ao argumento dos vv. 7–14.
“Prostrem-se diante dele todos os anjos de Deus” — prostração e forma da citação
Crítica textual. O NTG-EV apresenta Καὶ προσκυνησάτωσαν αὐτῷ πάντες ἄγγελοι θεοῦ sem variante registrada em seu aparato conciso para este segmento. Προσκυνησάτωσαν, Proskynēsatōsan (“prostrem-se/adorem”) é aoristo ativo imperativo, terceira pessoa do plural, e formula uma ordem dirigida coletivamente aos anjos.
Exegese. Προσκυνέω, Proskyneō (“prostrar-se, prestar homenagem, adorar”) designa fundamentalmente o gesto de prostração diante de alguém e, conforme objeto e contexto, pode expressar homenagem perante autoridade ou culto. A tradução “prostrem-se diante dele” conserva o gesto codificado pelo verbo sem decidir lexicalmente, antes da análise contextual, entre as categorias portuguesas mais específicas “homenagear” e “adorar”. O fato de os sujeitos serem “todos os anjos de Deus” e de a fórmula proceder de tradição escriturística em que a prostração é dirigida a Deus torna a força da expressão particularmente elevada.
A redação de Hebreus — Καὶ προσκυνησάτωσαν αὐτῷ πάντες ἄγγελοι θεοῦ, kai proskynēsatōsan autō pantes angeloi theou (“e prostrem-se diante dele todos os anjos de Deus”) — não coincide integralmente com uma única linha da LXX de Rahlfs–Hanhart. Deuteronômio 32.43 LXX traz primeiro καὶ προσκυνησάτωσαν αὐτῷ πάντες υἱοὶ θεοῦ, kai proskynēsatōsan autō pantes huioi theou (“e prostrem-se diante dele todos os filhos de Deus”), e pouco depois καὶ ἐνισχυσάτωσαν αὐτῷ πάντες ἄγγελοι θεοῦ, kai enischysatōsan autō pantes angeloi theou (“e fortaleçam-se nele todos os anjos de Deus”). Salmo 96.7 LXX [97.7 MT], por sua vez, lê προσκυνήσατε αὐτῷ, πάντες οἱ ἄγγελοι αὐτοῦ, proskynēsate autō, pantes hoi angeloi autou (“prostrai-vos diante dele, todos os seus anjos”). Hebreus partilha, portanto, componentes formais com ambas as passagens, razão pela qual é mais preciso falar em afinidade textual convergente do que em reprodução mecânica de uma única forma (Bruce, 1990: 56–57).
O MT de Deuteronômio 32.43 é mais curto e não contém o cólon que convoca seres celestes à prostração. 4QDeutq, contudo, preserva והשתחוו לו כל אלהים, wəhištaḥăwû lô kol ʾĕlōhîm (“e prostrem-se diante dele todos os deuses/seres divinos”), demonstrando que uma forma hebraica antiga com esse elemento existiu independentemente da LXX. O manuscrito de Qumran não reproduz a expressão grega “anjos de Deus”; sua importância consiste em confirmar a antiguidade do cólon de prostração ausente do MT (Skehan; Ulrich, 1995: 137–142).
A função da citação dentro da sequência é clara independentemente da discussão sobre sua fonte imediata. As duas citações do v. 5 distinguem o Filho por sua relação filial régia; a do v. 6 introduz explicitamente os anjos como aqueles que recebem a ordem de se prostrar diante dele. Assim, a catena avança da identificação do Filho para a posição relativa dos anjos perante ele. Essa progressão desenvolve em forma escriturística a afirmação programática de 1.4 (Attridge, 1989: 52–56).
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem προσκυνησάτωσαν, proskynēsatōsan (“prostrem-se/prestem homenagem/adorem”), por “adorem”. A YLT traz “let them bow before him”, preservando mais diretamente a imagem corporal do verbo. A BECE escolhe “prostrem-se diante dele” para conservar esse componente gestual sem decidir lexicalmente, no próprio texto traduzido, entre homenagem e culto.
Hermenêutica. A transferência de uma linguagem veterotestamentária de prostração para o Filho é um dado textual que deve ser descrito antes de ser sistematizado. Hebreus não interrompe a catena para explicar conceitualmente a relação entre o referente original da citação e sua aplicação ao Filho; utiliza a própria Escritura como parte do argumento comparativo. A nota deve, portanto, registrar essa operação hermenêutica sem antecipar uma formulação teológica posterior.
7 E, quanto aos anjos, diz:
qAquele que faz de seus anjos ventos10 re de seus ministros uma chama de fogo.
“faz de seus anjos ventos” — Salmo 103.4 LXX [104.4 MT] e a função dos anjos
Crítica textual. O texto adotado lê πνεύματα, pneumata (“ventos/espíritos”), plural. O aparato do NA28 registra precisamente πνεῦμα, pneuma (“vento/espírito”), singular, em D, 326, 2464 e na tradição siríaca peshitta; não há necessidade de ampliar esse apoio com um vago “outros testemunhos”. O mesmo aparato registra ainda a adição αὐτοῦ, autou (“dele”), após τοὺς ἀγγέλους, tous angelous (“os anjos”), em D* isoladamente. A passagem ao singular πνεῦμα pode ter sido favorecida pelo singular φλόγα, phloga (“chama”), da cláusula paralela, mas essa explicação é interna e deve ser mantida como possibilidade, não como certeza. Conserva-se πνεύματα, pneumata (“ventos/espíritos”), no texto.
Filologia e sintaxe. A introdução καὶ πρὸς μὲν τοὺς ἀγγέλους λέγει contém πρὸς, pros (“quanto a/com referência a”) e prepara o contraste com πρὸς δὲ τὸν υἱόν, pros de ton huion (“mas, quanto ao Filho”) no versículo seguinte. Por isso, “quanto aos anjos” representa melhor a relação sintática do que uma formulação que sugerisse necessariamente discurso dirigido diretamente a eles (Ellingworth, 1993: 119).
Na citação, ὁ ποιῶν, ho poiōn (“aquele que faz”) rege duas construções predicativas paralelas: τοὺς ἀγγέλους αὐτοῦ πνεύματα, tous angelous autou pneumata (“seus anjos, ventos”) e τοὺς λειτουργοὺς αὐτοῦ πυρὸς φλόγα, tous leitourgous autou pyros phloga (“seus ministros, uma chama de fogo”). A tradução “faz de seus anjos ventos” explicita em português essa relação. πνεύματα, pneumata (“ventos/espíritos”) pode designar tanto seres espirituais quanto movimentos do ar; aqui, sua associação com πυρὸς φλόγα, pyros phloga (“chama de fogo”) e sua proveniência de Salmo 103.4 LXX favorecem o valor meteorológico “ventos”.
Exegese. Hebreus reproduz exatamente o primeiro membro de Salmo 103.4 LXX [104.4 MT], ὁ ποιῶν τοὺς ἀγγέλους αὐτοῦ πνεύματα, ho poiōn tous angelous autou pneumata (“aquele que faz de seus anjos ventos”). No segundo membro, porém, a LXX lê καὶ τοὺς λειτουργοὺς αὐτοῦ πῦρ φλέγον, kai tous leitourgous autou pyr phlegon (“e de seus ministros fogo ardente”), ao passo que Hebreus apresenta καὶ τοὺς λειτουργοὺς αὐτοῦ πυρὸς φλόγα, kai tous leitourgous autou pyros phloga (“e de seus ministros uma chama de fogo”). A alteração é lexical e sintática, mas preserva a mesma imagem ígnea (Attridge, 1989: 57).
O MT, עֹשֶׂה מַלְאָכָיו רוּחוֹת מְשָׁרְתָיו אֵשׁ לֹהֵט, ʿōśeh malʾāḵāyw rûḥôt məšārəṯāyw ʾēš lōhēṭ (“faz seus mensageiros ventos, seus ministros fogo flamejante”), contém os mesmos campos lexicais básicos, mas sua sequência nominal permite a conhecida discussão sobre a relação entre “mensageiros” e “ventos”. A LXX torna a predicação mais explícita mediante τοὺς ἀγγέλους αὐτοῦ πνεύματα, tous angelous autou pneumata (“seus anjos, ventos”), e é essa configuração grega que Hebreus incorpora diretamente à comparação com os anjos.
O substantivo λειτουργούς, leitourgous (“ministros/servidores”) designa aqui aqueles que executam serviço por determinação de uma autoridade; o contexto não exige sentido exclusivamente cultual (Ellingworth, 1993: 120–121).
Quanto ao significado das imagens, há diferença de ênfase entre os comentaristas. Attridge (1989: 57) entende “vento” e “chama” como contribuindo para o contraste entre a condição mutável dos servidores angelicais e a permanência do Filho desenvolvida em 1.10–12. Ellingworth (1993: 120), porém, considera arriscado fazer da mutabilidade o ponto principal: para ele, o interesse imediato de Hebreus está na condição funcional dos anjos como λειτουργοί, leitourgoi (“ministros/servidores”). Esta segunda cautela impede que a metáfora seja convertida em uma descrição ontológica de anjos literalmente transformados em vento ou fogo.
Versões comparadas. A ARA e a NAA leem “a seus anjos faz ventos”, preservando “anjos” para ἄγγελοι, angeloi (“anjos/mensageiros”), e “ventos” para πνεύματα, pneumata (“ventos/espíritos”). A ARC emprega “de seus anjos faz ventos”, tornando mais transparente em português a relação predicativa. A YLT, por sua vez, traz “making His messengers spirits”, escolhendo os outros dois valores possíveis. A BECE mantém “faz de seus anjos ventos”, combinando a clareza sintática da ARC com as escolhas lexicais favorecidas pelo contexto.
O trono e a permanência do Filho
8 Mas, quanto ao Filho:
sO teu trono, ó Deus, é para todo o sempre;11 te o cetro de retidão é o cetro do teu reino.12 9 uAmaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus — o teu Deus — vte ungiu com óleo de alegria wacima dos teus companheiros.13
“O teu trono, ó Deus” — sintaxe e releitura de Salmo 45.6
Crítica textual. O NTG-EV e o NA28 conservam εἰς τὸν αἰῶνα τοῦ αἰῶνος, eis ton aiōna tou aiōnos (“para a era da era”), expressão idiomática vertida aqui por “para todo o sempre”. O aparato do NA28 registra a omissão de τοῦ αἰῶνος, tou aiōnos (“da era”), em B, 33, itt e manuscritos da Vulgata. A leitura longa possui apoio antigo e amplo; a curta não elimina a ideia de duração, mas reduz a fórmula intensiva. A tradução permanece “para todo o sempre” porque representa o texto-base adotado.
Filologia e sintaxe. A construção ὁ θρόνος σου ὁ θεός, ho thronos sou ho theos (“o teu trono, ó Deus”) admite, isoladamente, mais de uma análise sintática. ὁ θεός, ho theos (“Deus”) está morfologicamente no nominativo, mas o nominativo com artigo pode desempenhar função vocativa no grego bíblico. Dentro de Hebreus, πρὸς δὲ τὸν υἱόν, pros de ton huion (“mas, quanto ao Filho”) estabelece que a citação seguinte é apresentada como palavra relacionada diretamente ao Filho; a continuação em segunda pessoa — σου, sou (“teu”), ἠγάπησας, ēgapēsas (“amaste”), ἐμίσησας, emisēsas (“odiaste”), σε, se (“te”) — favorece a leitura de ὁ θεός, ho theos (“Deus”), como vocativo: “ó Deus” (Attridge, 1989: 58; Ellingworth, 1993: 121–122).
Essa análise não deve ser retrojetada automaticamente para todas as etapas anteriores da história do Salmo 45. No texto hebraico, כִּסְאֲךָ אֱלֹהִים, kissəʾăḵā ʾĕlōhîm (“teu trono, ó Deus”) permite discussão sintática própria, e o salmo é originalmente uma composição régia, provavelmente um epitalâmio real. A forma grega do Salmo 44.7 LXX, entretanto, é precisamente a forma recebida e explorada pelo autor de Hebreus. Seu argumento depende da leitura da Escritura em grego, não da reconstrução de uma suposta intenção cristológica do poema hebraico original (Attridge, 1989: 57–58; Ellingworth, 1993: 124).
Exegese. O μέν...δέ, men...de (“de um lado... mas, de outro”) que estrutura 1.7–8 marca a passagem da caracterização dos anjos para a linguagem régia aplicada ao Filho. O dado novo de 1.8 é o trono e sua duração, que serão desenvolvidos pela continuidade da citação (Ellingworth, 1993: 121; Attridge, 1989: 58).
Versões comparadas. A NAA traduz ὁ θρόνος σου ὁ θεός, ho thronos sou ho theos (“o teu trono, ó Deus”), por “O teu trono, ó Deus”; a ARC antepõe o vocativo: “Ó Deus, o teu trono”. As duas soluções exemplificam a mesma análise sintática de ὁ θεός, ho theos (“Deus”), como vocativo. A BECE mantém “O teu trono, ó Deus”, preservando a ordem do grego sem abandonar essa análise.
“o cetro de retidão é o cetro do teu reino” — governo régio e variante pronominal
Crítica textual. A linha do cetro contém mais de um ponto de variação. Antes da variante pronominal, o aparato do NA28 registra a omissão de καί, kai (“e”), em D2, K, L, P, Ψ e ampla tradição posterior, bem como a ordem ῥάβδος εὐθύτητος ἡ, rabdos euthytētos hē, em D, K, L, P, Ψ e numerosos minúsculos; essas diferenças alteram a forma da linha, mas não exigem mudança material na tradução do texto adotado.
Filologia e sintaxe. εὐθύτης, euthytēs (“retidão, retitude”) pertence ao campo semântico daquilo que é reto, direito ou não desviado. A expressão ῥάβδος τῆς εὐθύτητος, rhabdos tēs euthytētos (“cetro de retidão”) é uma construção genitiva semítica que caracteriza o exercício da autoridade régia. O substantivo ῥάβδος, rhabdos (“bastão/cetro”) funciona aqui como insígnia de governo; por isso, a expressão equivale semanticamente a “governo reto” ou “governo caracterizado pela justiça”, sem necessidade de abandonar a imagem concreta do cetro (Ellingworth, 1993: 122). A manutenção de “retidão” em 1.8 e “justiça” em 1.9 é deliberada: εὐθύτης, euthytēs (“retidão”) e δικαιοσύνη, dikaiosynē (“justiça”) pertencem a campos próximos, mas são lexemas distintos no próprio texto citado. Uniformizá-los como “justiça” apagaria uma diferença lexical preservada pelo grego.
Exegese. Salmo 44.7 LXX [45.6 MT] lê ὁ θρόνος σου, ὁ θεός, εἰς τὸν αἰῶνα τοῦ αἰῶνος, ῥάβδος εὐθύτητος ἡ ῥάβδος τῆς βασιλείας σου, ho thronos sou, ho theos, eis ton aiōna tou aiōnos, rhabdos euthytētos hē rhabdos tēs basileias sou (“o teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de retidão é o cetro do teu reino”). Hebreus conserva integralmente a primeira linha, mas regulariza a segunda como καὶ ἡ ῥάβδος τῆς εὐθύτητος ῥάβδος τῆς βασιλείας σου, kai hē rhabdos tēs euthytētos rhabdos tēs basileias sou (“e o cetro de retidão é o cetro do teu reino”): acrescenta καί, kai (“e”), antepõe o artigo ἡ ao primeiro ῥάβδος, rhabdos (“cetro”) e articula o genitivo τῆς εὐθύτητος, tēs euthytētos (“da retidão”). A estrutura semântica permanece a mesma, mas a linha torna-se sintaticamente mais balanceada em Hebreus.
No fim de 1.8, porém, a variante σου, sou (“teu”), versus αὐτοῦ, autou (“dele”), afeta diretamente o referente. σου, sou (“teu”), é sustentado por A, D, K, L, P, Ψ, 0243, 33, 81, 104, 1739 e ampla tradição posterior e versional e é adotado por NA28, UBS5, SBLGNT, THGNT, RP e TR; αὐτοῦ, autou (“dele”), possui apoio antigo em 𝔓46, א e B e foi preferido por Westcott-Hort. O NTG-EV conserva σου, sou (“teu”). A alternância pode estar relacionada ao movimento entre segunda e terceira pessoas na transmissão do salmo, mas essa explicação permanece secundária diante do dado externo; a BECE traduz o texto adotado: “teu reino”.
Versões comparadas. A NAA e a ARC leem “cetro do teu reino”, acompanhando σου, sou (“teu”), enquanto a ARA traz “cetro do seu reino”, correspondendo materialmente à alternativa αὐτοῦ, autou (“dele/seu”), ou à sua interpretação. Trata-se, portanto, de uma comparação diretamente ligada à variante textual. A BECE mantém “teu reino” porque traduz a leitura adotada no texto-base.
Hermenêutica. A metáfora permanece no horizonte régio do salmo citado: θρόνος, thronos (“trono”), ῥάβδος, rhabdos (“cetro”) e βασιλεία, basileia (“reino”) pertencem à linguagem de governo. Hebreus reutiliza esse vocabulário retoricamente, sem transformá-lo aqui numa teoria política autônoma (Attridge, 1989: 58–59).
“Deus — o teu Deus — te ungiu” — justiça, unção e os “companheiros”
Crítica textual. O NTG-EV e o NA28 leem ἀνομίαν, anomian (“iniquidade”), com apoio de 𝔓46, B, D2, K, L, P, Ψ, 0243 e ampla tradição posterior. D* apresenta a forma genitiva ἀνομίας, anomias, enquanto א, A e 33vid leem ἀδικίαν, adikian (“injustiça”); Tischendorf preferiu esta última. A proximidade semântica entre δικαιοσύνη, dikaiosynē (“justiça”), e ἀδικία, adikia (“injustiça”), pode ter favorecido a substituição, mas não é possível demonstrar o motivo do escriba. Como ἀνομίαν, anomian (“iniquidade”), possui apoio antigo e diversificado e é recebida por NA28, UBS5, SBLGNT, WH, Tregelles, RP e TR, a BECE mantém “iniquidade”.
Filologia e sintaxe. Os aoristos ἠγάπησας, ēgapēsas (“amaste”) e ἐμίσησας, emisēsas (“odiaste”) apresentam a caracterização régia recebida do salmo como um todo. διὰ τοῦτο, dia touto (“por isso”) introduz a consequência: ἔχρισέν σε, echrisen se (“te ungiu”). A sequência ὁ θεός, ho theos (“Deus”), ὁ θεός σου, ho theos sou (“o teu Deus”), admite duas pontuações principais. A mais imediata sintaticamente toma o primeiro ὁ θεός, ho theos (“Deus”), como sujeito e o segundo como aposição: “Deus — o teu Deus — te ungiu”. Em continuidade com o vocativo de 1.8, também é possível pontuar “ó Deus, o teu Deus te ungiu”. Attridge (1989: 59) favorece esta segunda análise; Ellingworth (1993: 123) observa que, isoladamente, a construção nominativa seria a leitura mais natural, embora o paralelo com 1.8 torne o vocativo possível. A tradução da BECE preserva a construção sintaticamente menos marcada e registra a alternativa em nota.
ἔλαιον ἀγαλλιάσεως, elaion agalliaseōs (“óleo de alegria”), significa literalmente “óleo de alegria/exultação”. A imagem pertence ao ambiente da unção régia do salmo; em Hebreus ela funciona dentro da aplicação do texto ao Filho. παρὰ τοὺς μετόχους σου emprega παρά com acusativo em valor comparativo: “acima de teus companheiros”. μέτοχος, metochos (“participante, companheiro, aquele que partilha”) é especialmente importante em Hebreus, reaparecendo para pessoas que compartilham uma vocação, uma realidade ou uma condição (Hebreus 3.1, 14; 6.4). O referente preciso em 1.9 permanece discutido (Ellingworth, 1993: 123). Por isso, a equivalência portuguesa não deve ser mecanicamente fixa: “companheiros” é adequada ao quadro comparativo de 1.9, enquanto em outros contextos de Hebreus “participantes” pode representar melhor o valor relacional de μέτοχος, metochos (“participante/companheiro”). A coerência deve permanecer no campo semântico reconhecível, não numa uniformização que determine antecipadamente o referente.
Exegese. No texto adotado, Hebreus 1.9 coincide quase palavra por palavra com Salmo 44.8 LXX [45.7 MT]: ἠγάπησας δικαιοσύνην καὶ ἐμίσησας ἀνομίαν· διὰ τοῦτο ἔχρισέν σε ὁ θεὸς ὁ θεός σου ἔλαιον ἀγαλλιάσεως παρὰ τοὺς μετόχους σου, ēgapēsas dikaiosynēn kai emisēsas anomian· dia touto echrisen se ho theos ho theos sou elaion agalliaseōs para tous metochous sou (“amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria acima dos teus companheiros”). O MT apresenta a mesma progressão básica, com צֶדֶק, ṣeḏeq (“justiça”), רֶשַׁע, rešaʿ (“maldade/impiedade”), “Deus, teu Deus”, “óleo de alegria” e “companheiros”. A principal diferença lexical é que a LXX representa רֶשַׁע, rešaʿ (“maldade/impiedade”) por ἀνομία, anomia (“iniquidade/transgressão da lei”); Hebreus recebe essa escolha grega sem alteração.
No contexto original do Salmo 45, os “companheiros” são naturalmente figuras pertencentes ao ambiente régio. Na apropriação de Hebreus, duas relações tornam-se possíveis. O contexto imediato da catena favorece uma comparação com os anjos; o uso posterior de μέτοχος, metochos (“participante/companheiro”), porém, aproxima o termo daqueles que participam com o Filho da realidade celeste. Por isso, não é seguro restringir o referente exclusivamente a uma das duas categorias. Attridge (1989: 59–60) considera os anjos o referente imediato mais provável, mas reconhece a possível ressonância com os seguidores do Filho; Ellingworth (1993: 123) igualmente mantém aberta a relação entre o contexto angelológico imediato e o emprego mais amplo de μέτοχος, metochos (“participante/companheiro”), em Hebreus.
Bruce (1990: 60–61), por outro lado, considera improvável que os anjos sejam chamados de “companheiros” precisamente numa seção dedicada a estabelecer sua inferioridade e prefere relacionar o termo aos “muitos filhos” de Hebreus 2.10 e aos μέτοχοι, metochoi (“participantes”) de Hebreus 3.14. A divergência recomenda que a tradução permaneça semanticamente aberta: “companheiros” reproduz o termo sem decidir antecipadamente sua identificação.
Versões comparadas. A ARA e a NAA traduzem παρὰ τοὺς μετόχους σου, para tous metochous sou (“acima dos teus companheiros”), de modo idiomático: “como a nenhum dos teus companheiros”; a ARC traz “mais do que a teus companheiros”; e a YLT conserva a relação comparativa de forma mais direta com “above thy partners”. Para ἀνομίαν, anomian (“iniquidade/transgressão”), as três versões portuguesas empregam “iniquidade”, enquanto a YLT usa “lawlessness”. A BECE escolhe “acima dos teus companheiros” e “iniquidade” para preservar respectivamente o comparativo e a distinção lexical em relação a ἀδικία, adikia (“injustiça”).
Hermenêutica. A função da citação não depende de transferir para o Filho todos os detalhes históricos do casamento régio pressuposto pelo salmo. Hebreus seleciona a linguagem régia para sua própria argumentação; por isso, a distinção entre o contexto histórico do salmo e sua reutilização literária deve permanecer explícita (Attridge, 1989: 57–60; Ellingworth, 1993: 121–124).
10 E:
xTu, Senhor, no princípio, fundaste a terra, e yos céus são obras das tuas mãos.14
11 zEles perecerão, mas tu permaneces; e aatodos envelhecerão como uma veste.
12 abE, como um manto, os enrolarás; como uma veste, também serão mudados. acTu, porém, és o mesmo, e ados teus anos não acabarão.15
“Tu, Senhor, no princípio, fundaste a terra” — o Salmo 101 LXX dirigido ao Filho
Filologia e sintaxe. O καί, kai (“e”) de 1.10 acrescenta a nova citação àquela de 1.8–9 sem repetir sua fórmula introdutória. Sintaticamente, permanece subentendido πρὸς δὲ τὸν υἱόν λέγει, pros de ton huion legei (“mas, quanto ao Filho, diz”): o mesmo interlocutor introduzido em 1.8 continua sendo destinatário da citação de 1.10–12. Por isso, o simples “E:” preserva melhor a coordenação grega do que uma fórmula independente como “e novamente diz” (Ellingworth, 1993: 124–125; Bruce, 1990: 61–62).
Σὺ, Sy (“tu”) é expresso embora já esteja contido na flexão de ἐθεμελίωσας, ethemeliōsas (“fundaste”), recebendo assim destaque discursivo. κατ’ ἀρχάς, kat’ archas (“no princípio”) funciona temporalmente e aproxima a linguagem do campo semântico de ἐν ἀρχῇ, en archē (“no princípio”). ἐθεμελίωσας deriva de θεμελιόω, themelioō (“fundar, estabelecer sobre fundamento”) e representa a criação mediante imagem arquitetônica. Na segunda linha, ἔργα τῶν χειρῶν σου, erga tōn cheirōn sou (“obras das tuas mãos”) complementa a primeira: terra e céus são apresentados conjuntamente como produto da atividade do personagem interpelado (Ellingworth, 1993: 125–126).
Exegese. A base é Salmo 101.26–28 LXX [102.25–27 MT]. Em 1.10, a diferença inicial é apenas de ordem: a LXX lê κατ’ ἀρχὰς σύ, κύριε, kat’ archas sy, kyrie (“no princípio, tu, Senhor”), enquanto Hebreus apresenta Σὺ κατ’ ἀρχάς, κύριε, sy kat’ archas, kyrie (“tu, Senhor, no princípio”). Nos vv. 11–12, Hebreus diverge ainda da forma corrente da LXX em διαμένεις, diameneis (“permaneces”), ἑλίξεις, helixeis (“enrolarás”) e na repetição de ὡς ἱμάτιον, hōs himation (“como uma veste”); esses loci são tratados em detalhe na nota de 1.12.
O MT apresenta לְפָנִים, ləp̄ānîm (“outrora/de há muito”) onde a LXX emprega κατ’ ἀρχάς, kat’ archas (“no princípio”), תַעֲמֹד, taʿămōḏ (“tu permanecerás/estarás de pé”) onde a LXX tem διαμενεῖς, diameneis (“permanecerás”) e תַחֲלִיפֵם, taḥălîp̄ēm (“tu os mudarás”) onde a LXX lê ἀλλάξεις αὐτούς, allaxeis autous (“tu os mudarás”). Assim, a principal inovação do texto de Hebreus em relação à tradição grega corrente não está no contraste criação–permanência, já presente tanto no MT quanto na LXX, mas sobretudo em ἑλίξεις, helixeis (“enrolarás”) e na repetição adicional de ὡς ἱμάτιον, hōs himation (“como uma veste”).
A passagem reproduz Salmo 101.26–28 LXX [102.25–27 MT]. No texto massorético, o salmista dirige sua oração a YHWH e continua falando com ele. A Septuaginta, porém, apresenta na seção imediatamente anterior diferenças de leitura que alteram a configuração discursiva: o hebraico correspondente a “ele o afligiu” foi entendido como “ele lhe respondeu”, e a sequência seguinte pode, assim, ser lida como discurso dirigido a outra personagem. Além disso, κύριε, kyrie (“Senhor”) aparece explicitamente na forma grega de 101.26. Essa configuração ajuda a explicar como Hebreus pode incorporar a passagem como palavra dirigida ao Filho (Bruce, 1990: 61–62; Ellingworth, 1993: 125–126).
Há ainda correspondência direta com o prólogo. Hebreus 1.2 já atribuíra ao Filho participação na criação — δι’ οὗ καὶ ἐποίησεν τοὺς αἰῶνας, di’ hou kai epoiēsen tous aiōnas (“por meio de quem também fez o universo”). Agora a citação descreve seu destinatário como aquele que fundou a terra e cujas mãos produziram os céus. A função de 1.10 dentro da catena, portanto, não reside apenas no título κύριος, kyrios (“Senhor”), mas na retomada e expansão do motivo criacional de 1.2 (Attridge, 1989: 60; Ellingworth, 1993: 125).
Versões comparadas. A ARA e a NAA expandem θεμελιόω, themelioō (“fundar”), com “lançaste os fundamentos da terra”; a ARC traduz de modo mais compacto: “Tu, Senhor, no princípio, fundaste a terra”. A BECE adota esta última estrutura porque conserva o pronome inicial enfático e representa o verbo grego sem paráfrase adicional.
“Como um manto, os enrolarás” — o universo muda; o Filho permanece
Crítica textual. Em 1.11, o texto-base lê διαμένεις, diameneis (“permaneces”), presente do indicativo. O aparato do NA28 registra o futuro διαμενεῖς, diameneis (“permanecerás”), em D2, 0243, 365, 629 e parte da tradição latina. A passagem do presente ao futuro pode ter sido favorecida pela sequência de futuros aplicada à criação, mas a explicação é apenas provável. A BECE mantém “permaneces”, de acordo com o texto-base, preservando o contraste formal com ἀπολοῦνται, apolountai (“perecerão”), παλαιωθήσονται, palaiōthēsontai (“envelhecerão”), e ἀλλαγήσονται, allagēsontai (“serão mudados”).
Em 1.12, o NTG-EV e o NA28 leem ἑλίξεις, helixeis (“enrolarás”). O aparato mais amplo atribui essa leitura a 𝔓46, 𝔓114, A, B, Dc, K, L, P, Ψ e à tradição bizantina, enquanto ἀλλάξεις, allaxeis (“mudarás”), aparece em א*, D*, 327 e 919; o aparato do NA28 registra ainda apoio versional para ἀλλάξεις. Tischendorf preferiu ἀλλάξεις, allaxeis (“mudarás”), mas NA28, UBS5, SBLGNT, WH, RP e TR imprimem ἑλίξεις. A semelhança de ἀλλάξεις, allaxeis (“mudarás”), com o subsequente ἀλλαγήσονται, allagēsontai (“serão mudados”), e com formas da tradição salmódica pode explicar a variante, mas a BECE não depende dessa hipótese para a decisão: conserva “enrolarás” porque traduz o texto-base.
A segunda ocorrência de ὡς ἱμάτιον, hōs himation (“como uma veste”), apresenta uma divisão editorial mais significativa. Ela é atestada por 𝔓46, 𝔓114, א, A, B, D* e 1739 e é impressa por NA28, UBS5, SBLGNT e WH; está ausente em ampla tradição posterior, incluindo K, L, P, Ψ e o texto bizantino, e é omitida por RP, TR e THGNT. A BECE segue o NTG-EV e mantém a expressão. A explicação da omissão por assimilação à forma corrente do Salmo 101 LXX é possível, mas pertence à avaliação interna e não deve ser apresentada como fato demonstrado.
Filologia e sintaxe. Os vv. 11–12 constroem uma antítese extensa. αὐτοὶ ἀπολοῦνται, autoi apolountai (“eles perecerão”) contrapõe-se a σὺ δὲ διαμένεις, sy de diameneis (“mas tu permaneces”); ἀλλαγήσονται, allagēsontai (“serão mudados”) contrapõe-se a σὺ δὲ ὁ αὐτὸς εἶ, sy de ho autos ei (“tu, porém, és o mesmo”). Os pronomes αὐτοί, autoi (“eles”) e αὐτούς, autous (“os”) retomam a terra e os céus de 1.10, isto é, o conjunto da ordem criada, e não apenas os céus (Ellingworth, 1993: 127).
παλαιωθήσονται, palaiōthēsontai (“envelhecerão”), de παλαιόω, palaioō (“envelhecer, tornar velho”), apresenta a criação como uma veste sujeita ao desgaste. περιβόλαιον, peribolaion (“manto, cobertura”) designa aquilo que envolve o corpo e funciona aqui paralelamente a ἱμάτιον, himation (“veste”). A imagem não descreve passivamente apenas o envelhecimento: ἑλίξεις αὐτούς, helixeis autous (“tu os enrolarás”) atribui ao destinatário da citação a ação sobre aquilo que criou. O universo não apenas muda; é ele quem o enrola como se enrola uma peça de roupa (Attridge, 1989: 61; Ellingworth, 1993: 127–128).
A frase σὺ δὲ ὁ αὐτὸς εἶ merece tradução estrita: “tu, porém, és o mesmo”. ὁ αὐτός, ho autos (“o mesmo”) recebe sua força precisamente de ἀλλαγήσονται, allagēsontai (“serão mudados”): aquilo que é criado sofre alteração; o personagem interpelado permanece idêntico através da mudança. A última linha, τὰ ἔτη σου οὐκ ἐκλείψουσιν, emprega ἐκλείπω, ekleipō (“cessar, faltar, chegar ao fim”) e pode ser traduzida literalmente como “os teus anos não acabarão”. A expressão funciona poeticamente como negação de qualquer término de existência (Ellingworth, 1993: 128).
Exegese. A citação articula duas extremidades temporais. Em 1.10, o olhar dirige-se ao princípio: o personagem interpelado já está presente como fundador da terra e autor dos céus. Em 1.11–12, projeta-se para o término ou transformação da ordem criada: ela perece, envelhece, é enrolada e mudada. Entre esses dois polos permanece o repetido σύ, sy (“tu”). O contraste fundamental não é simplesmente duração longa contra duração curta, mas criatura sujeita à mudança contra aquele que permanece através dela (Attridge, 1989: 60–61; Ellingworth, 1993: 125–128).
Versões comparadas. A ARA e a NAA preservam o presente de διαμένεις, diameneis (“permaneces”), com “tu permaneces”, enquanto a ARC traz “tu permanecerás”. Para ἑλίξεις, helixeis (“enrolarás”), ARA, NAA e ARC coincidem em “enrolarás” e mantêm a segunda comparação com vestimenta antes de “serão/se mudarão”. A YLT, porém, lê apenas “as a mantle Thou shall roll them together, and they shall be changed”, sem reproduzir nesse ponto a segunda ocorrência de ὡς ἱμάτιον, hōs himation (“como uma veste”). A BECE conserva o presente “permaneces”, “enrolarás” e a segunda comparação, de acordo com o texto crítico adotado.
Hermenêutica. A imagem da roupa é analógica, não uma descrição física do processo cosmológico futuro: céus e terra são comparados a uma veste que envelhece e pode ser enrolada ou substituída. A oposição decisiva permanece “serão mudados / tu, porém, és o mesmo”.
O Filho entronizado e os anjos ministradores
13 Mas a qual dos anjos alguma vez disse:
aeSenta-te à minha direita, até que eu ponha afos teus inimigos como estrado dos teus pés?16
14 Não são todos eles agespíritos ministradores, ahenviados para serviço aiem favor dos que hão de ajherdar a salvação?17
“Senta-te à minha direita” — a citação conclusiva e a entronização do Filho
Filologia e sintaxe. A pergunta πρὸς τίνα δὲ τῶν ἀγγέλων, pros tina de tōn angelōn (“mas a qual dos anjos”) retoma deliberadamente a fórmula de 1.5, Τίνι γὰρ εἶπέν ποτε τῶν ἀγγέλων, Tini gar eipen pote tōn angelōn (“pois a qual dos anjos disse alguma vez”), formando uma inclusão em torno da catena de 1.5–13. O argumento volta, portanto, ao ponto de partida: procura-se nas Escrituras uma declaração dirigida individualmente a um anjo que corresponda àquela dirigida ao Filho; a forma interrogativa pressupõe resposta negativa (Ellingworth, 1993: 128–130).
Há, porém, uma alteração verbal significativa. Em 1.5 ocorre εἶπεν, eipen (“disse”), aoristo; em 1.13, εἴρηκεν, eirēken (“disse/tem dito”), perfeito ativo. O perfeito apresenta a declaração como pronunciada anteriormente, mas ainda vigente no presente do discurso. A diferença não exige uma tradução artificial como “tem dito alguma vez”; “alguma vez disse” é português mais natural, enquanto a nota registra o valor resultativo do perfeito (Attridge, 1989: 61; Ellingworth, 1993: 130).
Κάθου, Kathou (“senta-te”), é imperativo de κάθημαι, kathēmai (“sentar-se, estar sentado”) e introduz a posição de entronização. ἐκ δεξιῶν μου, ek dexiōn mou (“à minha direita”), explicita a posição concedida. A oração ἕως ἂν θῶ, heōs an thō (“até que eu ponha”) utiliza ἕως ἄν, heōs an (“até que”), com subjuntivo aoristo para indicar um evento futuro que constitui o limite temporal contemplado pela oração principal. O texto não exige, por essa construção isoladamente, a inferência de que a posição concedida cesse quando os inimigos forem submetidos; o interesse imediato está no período que culmina nessa submissão (Ellingworth, 1993: 130).
Em θῶ τοὺς ἐχθρούς σου ὑποπόδιον, thō tous echthrous sou hypopodion (“ponha os teus inimigos como estrado”), τίθημι, tithēmi (“pôr, colocar, fazer”) rege dois acusativos: τοὺς ἐχθρούς σου, tous echthrous sou (“os teus inimigos”) e ὑποπόδιον, hypopodion (“estrado”). ὑποπόδιον, hypopodion (“estrado”), designa literalmente aquilo que fica sob os pés. A tradução “estrado” é preferível ao arcaísmo “escabelo” e preserva de modo imediatamente compreensível a imagem concreta do texto.
Exegese. Hebreus reproduz verbalmente o discurso direto de Salmo 109.1 LXX [110.1 MT]: Κάθου ἐκ δεξιῶν μου, ἕως ἂν θῶ τοὺς ἐχθρούς σου ὑποπόδιον τῶν ποδῶν σου, kathou ek dexiōn mou, heōs an thō tous echthrous sou hypopodion tōn podōn sou (“senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como estrado dos teus pés”). O que Hebreus omite é apenas a moldura do salmo, Εἶπεν ὁ κύριος τῷ κυρίῳ μου, Eipen ho kyrios tō kyriō mou (“o Senhor disse ao meu senhor”). O MT contém uma formulação correspondente — שֵׁב לִימִינִי ... עַד־אָשִׁית אֹיְבֶיךָ הֲדֹם לְרַגְלֶיךָ, šēḇ lîmînî ... ʿaḏ-ʾāšîṯ ʾōyəḇeḵā hăḏōm ləraḡleḵā (“senta-te à minha direita ... até que eu ponha teus inimigos como estrado para teus pés”) —, sem divergência material para o segmento efetivamente citado. A releitura de Hebreus reside, portanto, na identificação do destinatário da fala dentro de sua catena, não numa diferença entre LXX e MT.
Em Hebreus, Salmo 109.1 LXX [110.1 MT] funciona como declaração de entronização dirigida ao Filho. A mesma passagem já havia sido evocada em 1.3, quando o Filho “sentou-se à direita da Majestade”, e reaparecerá em 8.1; 10.12–13 e 12.2 (Bruce, 1990: 62–63; Ellingworth, 1993: 128–130).
A imagem do inimigo colocado sob os pés pertence ao repertório régio antigo de vitória e submissão. Em Hebreus, porém, o texto não identifica esses “inimigos” com os anjos. Essa leitura confundiria os dois movimentos consecutivos: 1.13 fala dos inimigos do personagem entronizado; 1.14 retorna aos anjos e os descreve positivamente como servidores. A passagem sustenta a soberania do Filho, não uma identificação entre anjos e poderes inimigos (Attridge, 1989: 61–62; Ellingworth, 1993: 130–131).
O “até que” de 1.13 prepara ainda um motivo retomado imediatamente em 2.8. A entronização já é apresentada como realidade, enquanto a submissão integral permanece projetada adiante. A citação combina, assim, posição presente e consumação futura dentro da própria estrutura argumentativa de Hebreus (Ellingworth, 1993: 130).
Versões comparadas. A ARA traz “Assenta-te à minha direita” e “estrado dos teus pés”; a NAA atualiza a forma verbal para “Sente-se à minha direita” e conserva “estrado”; a ARC mantém o registro tradicional “Assenta-te à minha destra” e “escabelo de teus pés”. Aqui a diferença é sobretudo de registro, não de análise textual. A BECE prefere “Senta-te à minha direita” e “estrado”, preservando o conteúdo lexical sem reproduzir arcaísmos portugueses.
“Não são todos eles espíritos ministradores?” — a conclusão sobre a função dos anjos
Crítica textual. A principal variante com relevância potencial para tradução encontra-se em εἰς διακονίαν, eis diakonian (“para serviço”). O NTG-EV mantém o acusativo singular διακονίαν; o aparato mais amplo o associa, entre outros, a 𝔓46, א e A, e essa é também a forma impressa por NA28, SBLGNT, WH, THGNT, RP e TR. O aparato do NA28 registra διακονίας, diakonias (“de serviços/serviços”), em B, na tradição saídica e parcialmente em Orígenes. A leitura plural não exige reestruturação substancial da sentença, mas modifica o número do substantivo. Mantém-se “para serviço”, conforme o texto-base singular.
Filologia e sintaxe. A partícula interrogativa negativa οὐχί introduz uma pergunta retórica que espera resposta afirmativa: “sim, todos eles são”. πάντες, pantes (“todos”) recolhe o conjunto dos anjos discutidos desde 1.4 e exclui a necessidade de estabelecer aqui classes de anjos com funções distintas. O versículo não oferece uma taxonomia angelológica; resume a função atribuída ao grupo inteiro (Ellingworth, 1993: 131–132).
λειτουργικὰ πνεύματα é composto de πνεύματα, pneumata (“espíritos”) e do adjetivo λειτουργικός, leitourgikos (“relativo ao serviço, ministrador”). O grupo retoma diretamente 1.7, onde os anjos aparecem como πνεύματα, pneumata (“ventos/espíritos”) e λειτουργοί, leitourgoi (“ministros”). A repetição lexical fecha um arco interno: aquilo que 1.7 exprimira mediante a citação do Salmo 103.4 LXX [104.4 MT] é agora formulado diretamente pelo autor (Attridge, 1989: 62; Bruce, 1990: 64). A repetição de πνεύματα não exige, contudo, a mesma equivalência portuguesa nos dois loci. Em 1.7, πνεύματα ocupa posição predicativa em paralelo com πυρὸς φλόγα, pyros phloga (“chama de fogo”), favorecendo “ventos”; em 1.14, πνεύματα designa diretamente os seres angelicais e é qualificado por λειτουργικά, leitourgika (“ministradores”), favorecendo “espíritos”. Do mesmo modo, λειτουργούς, leitourgous (“ministros”), em 1.7 é substantivo, enquanto λειτουργικά, leitourgika (“ministradores”), em 1.14 é adjetivo; a diferença portuguesa preserva a diferença morfológica sem romper a continuidade lexical.
O campo semântico de λειτουργικός, leitourgikos (“relativo ao serviço/ministrador”), não exige exclusivamente serviço cultual. λειτουργέω, leitourgeō (“servir/exercer serviço”), e seus cognatos podem designar serviço público, religioso ou funcional conforme o contexto. Em Hebreus, a terminologia será frequentemente empregada em ambientes cultuais, mas 1.14 combina λειτουργικά com εἰς διακονίαν, eis diakonian (“para serviço”) e ἀποστελλόμενα, apostellomena (“enviados”), enfatizando a atividade desempenhada pelos anjos mais do que um ofício sacerdotal específico (Ellingworth, 1993: 131–132).
ἀποστελλόμενα é particípio presente passivo de ἀποστέλλω, apostellō (“enviar”) e concorda com πνεύματα, pneumata (“espíritos”). A passiva deixa o agente não expresso; no fluxo do capítulo, Deus é o referente mais natural daquele que envia. εἰς διακονίαν expressa finalidade: são enviados “para serviço”. Já διά, dia (“por/em favor de”), com acusativo em διὰ τοὺς μέλλοντας, dia tous mellontas (“em favor dos que hão de”) indica aqueles em benefício de quem esse serviço é realizado. Por isso, “enviados para serviço em favor dos...” preserva melhor as duas relações do que simplesmente “enviados para servir os...”, que pode sugerir que os destinatários humanos sejam diretamente os senhores dos anjos (Ellingworth, 1993: 132).
Exegese. 1.14 funciona simultaneamente como conclusão de 1.5–13 e transição para 2.1–4. Depois de sucessivas declarações sobre a posição do Filho, o autor faz uma afirmação positiva, porém subordinada, acerca dos anjos: eles possuem uma função real, mas essa função é ministerial. O contraste final é especialmente marcado pela posição: ao Filho é dito “senta-te”; os anjos são caracterizados como aqueles que são “enviados” (Attridge, 1989: 62; Ellingworth, 1993: 131).
A expressão τοὺς μέλλοντας κληρονομεῖν σωτηρίαν significa “os que hão de herdar a salvação”. μέλλω com infinitivo projeta a herança para diante; κληρονομέω, klēronomeō (“herdar, receber como herança”) retoma deliberadamente a família lexical κληρονομ- do prólogo: o Filho foi constituído κληρονόμος πάντων, klēronomos pantōn (“herdeiro de todas as coisas”, 1.2), κεκληρονόμηκεν, keklēronomēken (“herdou”) um nome superior aos anjos em 1.4, e agora outros são descritos como aqueles que κληρονομεῖν, klēronomein (“herdarão”) σωτηρία, sōtēria (“salvação”). As formas portuguesas “herdeiro”, “herdou” e “herdar” preservam conscientemente essa recorrência lexical nas diferentes categorias morfológicas do grego (Ellingworth, 1993: 132–133).
A salvação possui aqui orientação futura explícita: ela ainda será “herdada”. Isso não exige que Hebreus desconheça dimensões presentes da salvação; indica apenas que, neste locus, o substantivo é colocado no horizonte daquilo que ainda deverá ser recebido plenamente. Essa formulação prepara imediatamente 2.3, onde o autor perguntará como será possível escapar caso seja negligenciada “tão grande salvação” (Bruce, 1990: 64–65; Ellingworth, 1993: 132–133).
Versões comparadas. A ARA e a NAA preservam a estrutura nominal de εἰς διακονίαν, eis diakonian (“para serviço”), com “enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação”. A ARC converte o substantivo em verbo: “enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação”. A BECE mantém “para serviço em favor dos...” para distinguir a finalidade expressa por εἰς διακονίαν da ação participial ἀποστελλόμενα, apostellomena (“enviados”).
Hermenêutica. O versículo não descreve como, quando ou em quais circunstâncias anjos intervêm na vida humana; limita-se a afirmar sua função de serviço em benefício dos que herdarão a salvação. Ao introduzir esses beneficiários, 1.14 também prepara a exortação de 2.1–4.
