Exercitação II — Sobre o escritor da Epístola aos Hebreus
Exercitação II — Sobre o escritor da Epístola aos Hebreus
1. O conhecimento do escritor de qualquer parte da Escritura não é necessário — alguns deles foram inteiramente ocultados — a Palavra de Deus confere autoridade àqueles que a transmitem, e não o contrário — os profetas, quando não estavam sendo efetivamente inspirados, estavam sujeitos a erros. 2. Paulo foi o escritor desta Epístola — a hesitação de Orígenes — principais linhas de evidência. 3. Incerteza daqueles que atribuem a Epístola a qualquer outro escritor. 4. Lucas não foi seu escritor. 5. Nem Barnabé — a epístola que leva seu nome é espúria — diversas razões demonstram que ele não escreveu esta Epístola. 6. Nem Apolo. 7. Nem Clemente. 8. Nem Tertuliano. 9. Objeções contra Paulo como escritor — dessemelhança de estilo — reconhecida pelos antigos. 10. Rejeitada a resposta de Orígenes; também as de Clemente, Jerônimo e outros. 11. Em que sentido Paulo era “rude no falar”. 12. Sua eloquência e habilidade. 13. Causas da diferença de estilo entre esta e suas outras epístolas. 14. Coincidência de expressões entre esta Epístola e as demais. 15. A Epístola sem nome de autor. 16. Rejeitada a resposta de Jerônimo. 17. A de Teodoreto. 18. A de Crisóstomo — o preconceito dos judeus contra Paulo não foi a causa de ele omitir seu nome. 19. A verdadeira razão dessa omissão — o estado eclesiástico dos hebreus ainda não havia sido alterado — a fé evangélica é deduzida dos princípios e testemunhos do Antigo Testamento — estes são impostos aos hebreus, e não simplesmente a autoridade apostólica. 20. Respondida a hesitação da igreja latina acerca desta Epístola — removidas outras objeções extraídas da própria Epístola. 21. Argumentos para demonstrar que Paulo foi seu escritor — testemunho de Pedro em 2Pe 3.15–16 — considerações acerca desse testemunho — a segunda Epístola de Pedro foi escrita às mesmas pessoas que a primeira — a primeira foi escrita aos hebreus da dispersão. 22. Paulo escreveu uma epístola às mesmas pessoas às quais Pedro escreveu — trata-se desta Epístola, e não da Epístola aos Gálatas, nem de alguma epístola perdida. 23. Como a “longanimidade de Deus” é declarada “salvação” nesta Epístola. 24. A sabedoria atribuída a Paulo na composição desta Epístola e em que ela se manifesta — sua conexão e coerência — peso desse testemunho. 25. Conformidade desta Epístola com as outras do mesmo autor — quem são juízes competentes nessa matéria — o que se requer para isso. 26. Testemunho das primeiras igrejas, ou tradição católica. 27. Evidências provenientes da própria Epístola — argumento e propósito gerais — método — modo de argumentar — todos concordantes com as demais epístolas de Paulo — conhecimento da erudição, tradições e costumes judaicos, próprio de Paulo — suas prisões e sofrimentos — Timóteo, seu companheiro — seu sinal e marca característicos.
1. Tendo sido vindicada a autoridade divina da Epístola, não é questão de grande importância investigar cuidadosamente quem foi seu escritor. Os escritos que procedem de inspiração divina não recebem acréscimo algum de autoridade da reputação ou estima daqueles por quem foram escritos; e isso o Espírito Santo manifestou suficientemente ao ocultar do conhecimento da igreja, em todas as épocas, os nomes de muitos deles.
A conclusão do Pentateuco possui escritor incerto, a menos que suponhamos, com alguns dos judeus, que Moisés a escreveu depois de sua morte. Os escritores de diversos salmos permanecem ocultos, como também os dos livros inteiros de Josué, Juízes, Samuel, Reis, Rute, Ester e Jó; e quanto aos livros das Crônicas, há apenas conjecturas.
Se disso resultasse qualquer prejuízo à autoridade desses escritos, tal ocultação não teria ocorrido.
Quanto àqueles cujos escritores são conhecidos, não se considerava que seus escritos fossem dados por profecia porque eles já eram reconhecidos como profetas; antes, eram reconhecidos como profetas pela Palavra que transmitiam.
Pois, se a palavra transmitida ou escrita por qualquer dos profetas devesse ser considerada sagrada ou divina simplesmente porque fora transmitida ou escrita por pessoas previamente conhecidas como profetas, então seria necessário que elas fossem conhecidas de algum outro modo como profetas e divinamente inspiradas, seja pela operação de milagres, seja porque, em seus dias, haviam sido recebidas e reconhecidas como tais pela igreja.
Mas nenhuma dessas coisas pode ser afirmada. Pois, assim como não se sabe que qualquer escritor do Antigo Testamento, com a única exceção de Moisés, tenha realizado milagres, também é certo que muitos dos principais entre eles — especialmente os profetas — foram rejeitados e condenados pela igreja dos dias em que viveram.
Portanto, o único meio pelo qual eram demonstrados como profetas era a própria Palavra que transmitiam e escreviam; e sobre ela repousavam a evidência e a certeza de sua inspiração divina (Am 7.14–17; Jr 23.25–31).
Além daquela inspiração efetiva do Espírito Santo que possuíam para declarar e escrever a Palavra de Deus que lhes era particularmente comunicada, os próprios profetas estavam sujeitos a erros. Assim ocorreu com Samuel, quando pensou que Eliabe seria o ungido do Senhor (1Sm 16.6); com Natã, quando aprovou o propósito de Davi de construir o templo (1Cr 17.2); e com o grande Elias, quando julgou que não restava em Israel ninguém, além dele próprio, que adorasse corretamente a Deus (1Rs 19.14, 18).
Foi, portanto, como dissemos, a palavra profética que conferiu aos seus escritores a reputação e a autoridade de profetas; não foi o fato de serem profetas que conferiu autoridade à palavra que declararam ou escreveram como palavra profética.
Daí resulta que uma investigação ansiosa acerca do escritor de qualquer parte da Escritura não é necessária.
Contudo, como não faltam evidências suficientes para descobrir quem foi o escritor desta Epístola, e por meio delas também podem ser definitivamente removidas as objeções levantadas contra sua origem divina, elas serão igualmente consideradas.
Este é um assunto no qual muitos homens eruditos, antigos e recentes, se exercitaram, até que esse único argumento cresceu a ponto de constituir tratados inteiros e extensos. Tomarei apenas o cuidado de que a verdade, já vigorosamente afirmada e vindicada, não seja novamente, por esta revisão, tornada duvidosa ou questionável.
2. Afirmamos que Paulo foi quem escreveu esta Epístola.
Reconhece-se que isso foi tão intensamente questionado na antiguidade que Orígenes, depois de examinar a questão, concluiu: “Qual seja a verdade exata nesta matéria, somente Deus sabe.” Contudo, ele reconheceu que “os antigos” sustentavam que ela fora escrita por Paulo, e acrescenta que não o faziam sem boa razão; ao passo que a atribuição da Epístola a qualquer outro escritor ele apresenta apenas como relato ou tradição.
Não se deve, portanto, esperar que agora, depois de tanto tempo, a verdade de nossa afirmação possa ser demonstrada com evidência tão manifesta que produza satisfação absoluta em todos — objetivo vão para qualquer homem numa questão em que as pessoas supõem possuir liberdade para pensar aquilo que lhes agrada.
Não duvido, entretanto, de que nossa afirmação se mostrará não apenas altamente provável, mas tão superior em evidência a qualquer outra opinião que tenha sido ou venha a ser proposta em concorrência com ela, que alguma espécie de pertinácia censurável poderá ser percebida em sua rejeição.
Tudo aquilo que apresentarei em sua demonstração pode ser reduzido a seis pontos: (1) o manifesto fracasso de todos os que procuraram atribuir a Epístola a qualquer outro escritor; (2) a insuficiência dos argumentos empregados para refutar nossa afirmação; (3) o testemunho dado a ela em outros escritos da Escritura; (4) considerações extraídas do próprio escrito, comparado com outros escritos reconhecidos do mesmo autor; (5) o consenso geral da antiguidade, ou tradição eclesiástica; e (6) razões extraídas de diversas circunstâncias relacionadas com a própria Epístola.
Embora todas essas evidências não sejam da mesma natureza nem possuam igual força, algumas delas se mostrarão muito convincentes; e todas, consideradas conjuntamente, serão plenamente suficientes para livrar nossa afirmação de qualquer objeção ou contestação justa.
3. Em primeiro lugar, a incerteza daqueles que questionam se Paulo foi o escritor desta Epístola, juntamente com a ausência de fundamentos prováveis para atribuí-la a qualquer outro, constitui alguma razão para deixá-la com aquele a quem desde a antiguidade se considerava pertencê-la.
Pois, uma vez que os homens começaram a tomar para si liberdade de conjecturar nessa matéria, não puderam nem pôr termo às próprias conjecturas nem estabelecer limites à imaginação dos outros.
Uma vez perdido seu verdadeiro autor, nenhum outro poderia ser afirmado com evidência ou, na verdade, com probabilidade tais que não permitissem imediatamente atribuí-la, com fundamentos e razões igualmente bons, a vinte outros.
Assim, diversas pessoas foram nomeadas, todas pelo mesmo fundamento: alguém julgou conveniente nomeá-las. E por que, nessa matéria, a autoridade de um homem deveria valer mais do que a de outro?
4. Orígenes, conforme preservado por Eusébio, afirma que alguns supunham que Lucas fosse o autor desta Epístola; mas ele próprio não aprova essa opinião nem informa quais razões eram alegadas em seu favor. Acrescenta também que alguns consideravam que ela fora escrita por Clemente de Roma.
Clemente de Alexandria reconhece Paulo como autor, mas supõe que a Epístola possa ter sido traduzida por Lucas, porque, segundo ele, seu estilo não é diferente daquele encontrado nos Atos dos Apóstolos.
Mais recentemente, Grócio sustenta, pela mesma razão, que Lucas foi seu autor. Contudo, os exemplos que apresenta demonstram antes a coincidência de algumas palavras e expressões do que uma semelhança de estilo, coisas que são muito diferentes.
Jerônimo também nos informa que, “segundo alguns, parece ter sido de Lucas, o evangelista”; informação que recebeu de Clemente, Orígenes e Eusébio. Contudo, nada menciona sobre a semelhança de estilo com Lucas; ao contrário, posteriormente afirma que, em seu juízo, existe grande conformidade de estilo entre esta Epístola e a de Clemente de Roma.
Nenhum deles nos informa quem foram os autores ou defensores dessa conjectura, nem eles próprios lhe atribuem qualquer crédito. Tampouco relatam razão alguma para essa opinião, exceto aquela indicada por Clemente: a concordância do estilo com o dos Atos dos Apóstolos — concordância que nem mesmo Jerônimo admite. E, com base nisso, Clemente não atribui a Lucas a composição, mas apenas a tradução da Epístola.
Somente Grócio sustenta que Lucas foi seu autor, e o faz com este único argumento: diversas palavras são usadas no mesmo sentido por Lucas e pelo escritor desta Epístola. Mas posteriormente demonstraremos que essa observação não possui peso.
Essa opinião, portanto, pode ser rejeitada com segurança como conjectura sem fundamento, de origem obscura e desconhecida, não suficientemente confirmada nem por testemunho nem pelas circunstâncias da questão.
Se abandonarmos uma convicção estabelecida sobre tantas considerações importantes — como demonstraremos ser a de que Paulo escreveu esta Epístola — e confirmada por tantos testemunhos, em razão de toda conjectura arbitrária e sem fundamento, podemos estar certos de que jamais encontraremos repouso em qualquer coisa acerca da qual estejamos corretamente persuadidos.
Acrescentarei, porém, uma consideração que colocará a opinião de Grócio inteiramente fora dos limites da probabilidade.
Por consenso geral, esta Epístola foi escrita enquanto Tiago ainda vivia e presidia à igreja dos hebreus em Jerusalém; e posteriormente demonstrarei que assim ocorreu. Qual era sua autoridade como apóstolo e qual sua reputação naquela igreja é conhecido, em geral, pela própria natureza de seu ofício e, em particular, é indicado pelas Escrituras (At 12.17; 15.13; Gl 2.9).
Esses eram os hebreus cuja instrução é principalmente pretendida nesta Epístola e, por meio deles, também a de seus irmãos dispersos pelo Oriente.
Seria razoável imaginar que alguém que não fosse apóstolo, mas apenas discípulo e seguidor dos apóstolos, fosse empregado para escrever àquela igreja na qual residia e efetivamente presidia tão grande apóstolo, uma das “colunas” entre eles; e isso acerca de assunto de tão enorme importância, oferecendo argumentos contra uma prática na qual todos eles estavam envolvidos e até aquele próprio apóstolo, como aparece em Gl 2.12?
Se então havia alguém vivo de maior estima e reputação na igreja do que os demais, certamente este seria o mais adequado para tal encargo; e posteriormente veremos quão perfeitamente todas as circunstâncias dessa natureza concordam com Paulo.
5. Alguns atribuíram a composição desta Epístola a Barnabé. Clemente, Orígenes e Eusébio não fazem menção dele. Tertuliano foi o originador dessa opinião, e Jerônimo a registra como proveniente dele. Filástrio também menciona essa tradição. Mais recentemente, ela foi defendida por Cameron, assim como a opinião acerca de Lucas o foi por Grócio.
A única base dessa opinião é a autoridade de Tertuliano. Mas o livro no qual ele a menciona foi escrito durante o período de sua exaltação montanista, quando não somente essa afirmação, mas outras também lhe escaparam sem a devida cautela. Além disso, ele próprio parece não atribuir grande peso à Epístola, limitando-se a preferi-la ao apócrifo Pastor de Hermas.
Já demonstramos que, durante algum tempo, a igreja latina não estava suficientemente familiarizada com esta Epístola; por isso não causa admiração que um de seus membros tenha se enganado acerca de seu escritor.
Grócio procura refutar essa opinião pela dessemelhança entre o estilo de Hebreus e o da epístola que circula sob o nome de Barnabé, cujo estilo é corrompido e bárbaro. Essa observação, porém, possui pouco peso, pois aquela epístola é certamente espúria e de modo algum manifesta a sabedoria ou o espírito daquele a quem vulgarmente foi atribuída.
Que essa epístola, contudo, e não a Epístola aos Hebreus, era o escrito citado por alguns antigos sob o nome de Barnabé é bem demonstrado pelo fato de que nela aparecem nomes mencionados por Jerônimo que em parte alguma se encontram nesta Epístola aos Hebreus.
A chamada Epístola de Barnabé é, na verdade, fruto evidente daquela vaidade que prevaleceu entre muitos por volta do terceiro e quarto séculos da igreja, quando escritores assumiam em seus escritos a identidade de personagens apostólicos, raramente ou nunca preservando de maneira apropriada o caráter daqueles que procuravam personificar.
Quanto à questão presente, a razão anteriormente apresentada contra a opinião relativa a Lucas possui a mesma força contra esta; e outras de igual peso podem ser acrescentadas.
Barnabé não era apóstolo em sentido próprio e estrito, nem possuía missão ou autoridade apostólica; antes, parece ter sido um dos setenta discípulos, segundo afirma Epifânio. Eusébio, menos crédulo do que ele, embora reconheça que não se pode fornecer um catálogo certo e verdadeiro daqueles discípulos, coloca Barnabé em primeiro lugar entre aqueles acerca dos quais havia concordância.
Não atribuirei, contudo, grande peso a isso, pois é evidente que os catálogos dos setenta discípulos transmitidos pelos antigos não passam de coleções rudimentares de nomes encontrados nos livros do Novo Testamento, aplicados sem razão ou testemunho suficientes. Mas Barnabé, propriamente falando, não era apóstolo.
Diversas circunstâncias também concorrem para afastar essa conjectura. A Epístola foi escrita na Itália (Hb 13.24), e não consta que Barnabé tenha estado ali. O fabuloso autor da rapsódia chamada Reconhecimentos de Clemente, é verdade, afirma que Barnabé foi a Roma, levando Clemente consigo, e que, ao regressar à Judeia, encontrou Pedro em Cesareia. Lucas, porém, apresenta nos Atos uma narrativa diferente tanto da localização como das atividades de Barnabé naquele período: enquanto Pedro estava em Cesareia (At 10.1ss.), Barnabé estava em Jerusalém (At 9.26–27), sendo pouco depois enviado pelos apóstolos a Antioquia (At 11.22).
Além disso, Timóteo era companheiro do escritor desta Epístola (Hb 13.23); e, pelo que consta, era desconhecido de Barnabé, pois foi recebido na companhia de Paulo depois da divergência e separação entre ambos (At 15.37–39; 16.1–3).
O escritor desta Epístola também havia estado preso ou encarcerado (Hb 10.34), circunstância da qual, naquela época, nada sabemos acerca de Barnabé, enquanto as prisões de Paulo eram conhecidas de todos.
Por fim, não muito antes da composição desta Epístola, Barnabé estava tão distante daquela compreensão clara da natureza, do uso e da expiração dos ritos judaicos que aqui se manifesta, que facilmente foi induzido a um erro prático em sua observância (Gl 2.13).
Embora alguns tenham procurado livrar Pedro e seus companheiros de qualquer falta pecaminosa naquele episódio — chegando a contrariar diretamente o testemunho de Paulo, que afirma que Pedro “era repreensível” naquele particular (Gl 2.11) —, o texto torna evidente que Barnabé ainda não havia alcançado firmeza prática quanto às instituições mosaicas.
Devemos então supor que aquele que, pouco antes, diante da chegada de alguns poucos irmãos da igreja de Jerusalém enviados por Tiago, não ousou afirmar e manter sua própria liberdade pessoal, mas abandonou seu exercício, não sem dissimulação censurável (Gl 2.13), viesse agora, com tão grande autoridade, escrever àquela mesma igreja, a Tiago e a todos os hebreus do mundo, contrariando-os em juízo e prática precisamente acerca daquilo em que ele próprio, por consideração a eles, havia particularmente falhado?
Essa tarefa certamente correspondia antes a Paulo, cuja luz e firmeza na doutrina transmitida nesta Epístola, bem como seu empenho em defendê-la acima dos demais apóstolos, são conhecidos pela narrativa de Atos e por seus outros escritos.
6. Alguns supuseram que Apolo fosse o escritor desta Epístola, porque ela corresponde à descrição que dele é feita; pois se diz que era “homem eloquente, poderoso nas Escrituras”, fervoroso de espírito e alguém que “refutava poderosamente os judeus” mediante as próprias Escrituras (At 18.24, 28), características que se manifestam ao longo de todo este discurso.
Essa conjectura, porém, não recebe qualquer apoio da antiguidade. Não se faz menção de nenhuma epístola escrita por Apolo, nem de qualquer outro escrito seu; por isso, Jerônimo não o inclui entre os escritores eclesiásticos, nem aqueles que posteriormente interpolaram aquela obra com alguns fragmentos provenientes de Sofrônio.
Tampouco Clemente, Orígenes ou Eusébio relatam que alguém o tenha considerado autor desta Epístola.
Confesso, entretanto, que a observação mencionada poderia parecer possuir algum peso se as qualidades atribuídas a Apolo lhe fossem peculiares; ou, ao menos, se todas elas não fossem também encontradas em Paulo, e nele de maneira e em grau mais eminentes. Sendo esse o caso, desaparece o fundamento dessa conjectura.
7. Orígenes, Eusébio e Jerônimo, nos lugares anteriormente citados, mencionam uma tradição segundo a qual alguns atribuíam esta Epístola a Clemente de Roma. Nenhum deles, contudo, oferece apoio a essa opinião ou indica qualquer fundamento para tal suposição.
Jerônimo apenas afirma que existe alguma semelhança entre o estilo desta Epístola e o de Clemente, o que deu ocasião à suspeita de que ele a tivesse traduzido, assunto de que trataremos posteriormente.
Erasmo retomou posteriormente essa tradição e parece atribuir-lhe algum crédito, mas nada acrescentou, seja de argumento, seja de testemunho, para confirmá-la.
Clemente foi, sem dúvida, homem digno e santo, e bispo da igreja de Roma. Contudo, nenhum dos antigos dotados de erudição ou discernimento atribuiu peso a essa conjectura.
Pois que relação tinha ele, convertido dentre os gentios, com as igrejas dos hebreus? Que autoridade possuía para intervir naquilo que lhes dizia respeito de maneira peculiar? De onde se pode demonstrar que possuía aquele conhecimento da natureza, do uso e do fim dos ritos e instituições mosaicos que o escritor desta Epístola revela possuir?
Nem sua epístola à igreja de Corinto, que ainda existe e é excelente em seu gênero, permite-nos pensar que ele escrevesse por inspiração divina.
Além disso, o autor desta Epístola tinha desejo e propósito de ir aos hebreus; mais ainda, pede que seja “restituído” a eles, como alguém que anteriormente estivera entre eles (Hb 13.19, 23). Mas, assim como não consta que Clemente tenha alguma vez estado na Palestina, ninguém pode imaginar que razão teria ele para abandonar naquele momento seu próprio encargo a fim de ir até lá.
E, para encerrar esta discussão desnecessária, em sua própria epístola autêntica ele emprega as palavras e a autoridade desta Epístola aos Hebreus, como Eusébio há muito observou.
8. Sisto de Sena afirma que alguns atribuíram a obra cujo autor investigamos a Tertuliano. É uma imaginação insensata e absurda, na qual nenhum homem de discernimento e sobriedade poderia seriamente incorrer.
Esta Epístola já era conhecida nas igrejas antes do nascimento de Tertuliano; ele próprio a atribui a Barnabé; e afirma-se que algumas passagens dela haviam sido corrompidas por certo Teódoto muito antes de seu tempo.
Da incerteza dessas conjecturas e da evidência das razões e circunstâncias pelas quais são refutadas, parecem resultar duas coisas: primeiro, que delas não pode surgir objeção alguma contra nossa afirmação; segundo, que, se Paulo não for reconhecido como escritor desta Epístola, toda a igreja de Deus permanece, e sempre permaneceu, inteiramente sem saber a quem atribuí-la.
E pode razoavelmente esperar-se que a fraqueza dessas conjecturas, ainda que não acrescente força às razões e testemunhos que serão apresentados em favor de Paulo, ao menos faça sobressair sua credibilidade.
9. Devemos considerar agora, segundo a ordem proposta, as objeções levantadas por alguns contra nossa atribuição desta Epístola a Paulo. Percorrê-las-ei com toda a brevidade possível, sem, contudo, faltar à defesa que nos propusemos fazer.
Em primeiro lugar, insiste-se principalmente na dessemelhança de estilo e de modo de escrever entre esta Epístola e aqueles empregados por Paulo em suas outras epístolas. Na verdade, essa é praticamente toda a objeção que, com alguma aparência de razão, é utilizada nesta questão.
Os antigos admitiam essa diferença. A elegância, a propriedade da linguagem e, algumas vezes, a elevação que aparecem nesta Epístola a distinguem, segundo eles, dos escritos de Paulo.
Por essa razão, Ecumênio afirma: “Parece não ser de Paulo por causa do estilo, ou caráter da linguagem.”
Clemente de Alexandria, pela mesma razão, supôs que ela tivesse sido escrita em hebraico e traduzida para o grego por Lucas, o evangelista, porque, segundo ele, seu estilo se assemelha ao empregado nos Atos dos Apóstolos.
Contudo, todos reconhecem que Atos foi escrito em grego puro, ao passo que esta Epístola é acusada de estar repleta de hebraísmos. Tão pouco peso se deve atribuir a essas censuras críticas, nas quais homens eruditos contradizem continuamente uns aos outros.
Orígenes também reconhece que a Epístola não possui a peculiaridade de linguagem própria de Paulo, o qual declara acerca de si mesmo ser “rude no falar” (2Co 11.6). Esta Epístola, diz ele, é, em sua composição verbal, de um grego mais elegante em comparação com os escritos de Paulo; diferença que, se acreditarmos nele, qualquer pessoa capaz de discernir entre estilos reconhecerá.
Jerônimo também afirma que Paulo “escrevera aos hebreus em hebraico, isto é, em sua própria língua, com grande eloquência, e que aquilo que fora eloquentemente escrito em hebraico fora traduzido ainda mais eloquentemente para o grego”; e apresenta essa circunstância como razão pela qual esta Epístola parece diferir das demais epístolas de Paulo.
Nisso, porém, ele não fala com sua costumeira segurança. Em outro lugar afirma que o estilo desta Epístola parece semelhante ao de Clemente.
Erasmo insiste fortemente nessa objeção: “Restat jam argumentum illud quo non aliud certius, stylus ipse et orationis character, qui nihil habet affinitatis cum phrasi Paulina”; isto é: “Resta aquele argumento, mais seguro do que qualquer outro: o próprio estilo e caráter do discurso, que nada têm de afinidade com a maneira de expressão de Paulo.”
Essa consideração também levou Calvino à mesma opinião e é igualmente insistida por Cameron e Grócio com o mesmo propósito.
A essência da objeção é esta: Paulo era “rude no falar”, como se manifesta em suas outras epístolas; o estilo desta, porém, é puro, elegante e florido, sem afinidade com o seu. Portanto, ele não pode ser considerado seu escritor.
10. Assim como essa objeção foi observada pelos antigos e sua matéria admitida como verdadeira, também, porque eles continuaram firmes em atribuir a Epístola a Paulo, ofereceram diferentes respostas a ela.
Orígenes apresenta o seguinte juízo: o sentido e a matéria desta Epístola procedem de Paulo, são excelentes e em nada inferiores aos encontrados em qualquer de suas outras epístolas, como reconhecerá qualquer pessoa familiarizada com sua leitura; mas a estrutura e a forma de expressão seriam obra de algum outro, que, tomando os ensinamentos de seu mestre, teria a partir deles composto esta Epístola.
Essa resposta, porém, de modo algum pode ser admitida ou acomodada a qualquer escrito dado por inspiração divina; pois não somente a matéria, mas as próprias palavras de seus escritos foram sugeridas aos escritores pelo Espírito Santo, para que o conjunto não sofresse influência alguma da fragilidade ou falibilidade humana. É isso somente que torna sagrada e divina a autoridade de seus escritos.
A hipótese de Orígenes faria a verdade desta Epístola depender do cuidado e da diligência daquele que recebeu o pensamento de Paulo e, a partir dele, compôs o escrito; tarefa na qual estaria sujeito a erros, a menos que suponhamos, sem fundamento, que ele também fosse inspirado.
Por isso, aqueles que admitiam a objeção geralmente lhe davam a resposta anteriormente mencionada, a saber: que a Epístola fora originalmente escrita em hebraico por Paulo e traduzida para o grego por outra pessoa.
Assim afirma Ecumênio: “A causa da alteração ou diferença de estilo nesta Epístola é manifesta; pois se diz que ela foi escrita aos hebreus em sua própria língua e posteriormente traduzida.”
Jerônimo e Clemente também se inclinam para essa opinião e resposta. Teofilato, embora, seguindo Teodoreto, refute vigorosamente aqueles que negavam que Paulo fosse o autor desta Epístola, argumentando a partir da excelência, eficácia, poder irresistível e autoridade que a acompanham, ainda assim admite essa objeção e responde, juntamente com outros, que ela foi traduzida por Lucas ou Clemente.
Somente Crisóstomo, sem se deter na alegada dessemelhança de estilo, atribui-a diretamente a Paulo.
Para essa mesma resposta inclina-se também, de modo geral, grande número dos teólogos da igreja romana, embora Estius e alguns outros dentre eles a rejeitem.
O que se deve pensar dessa hipótese será considerado posteriormente, numa dissertação destinada especificamente ao assunto.
Por ora, afirmamos que ela de modo algum é necessária como resposta à objeção que temos diante de nós, como passaremos agora a demonstrar mais particularmente.
11. O fundamento dessa objeção está na declaração de Paulo de que era “rude no falar” (2Co 11.6). Orígenes insiste nisso, e Jerônimo aproveita a ocasião para censurar sua habilidade em sua língua materna; pois o grego era a língua daqueles que nasciam em Tarso da Cilícia, e esse foi o lugar do nascimento de Paulo. O mesmo Jerônimo, contudo, com base em não sei qual tradição, afirma que ele nasceu em Giscala, cidade da Galileia, de onde posteriormente teria ido com seus pais para Tarso; afirmação contrária ao testemunho expresso do próprio apóstolo: “Na verdade, nasci em Tarso, cidade da Cilícia” (At 22.3).
Mas isso parece constituir fundamento muito fraco para a objeção em questão.
Naquela passagem, Paulo está tratando com os coríntios acerca dos falsos mestres que os desviavam da simplicidade do evangelho. O método empregado por eles para enredá-los consistia numa eloquência vã e afetada e em artifícios retóricos impróprios à obra que professavam realizar. Inflados por essa singularidade, desprezavam Paulo como homem rude e sem habilidade, inteiramente incapaz de rivalizar com suas belas declamações.
Em resposta a isso, ele primeiro lhes declara que não lhe convinha fazer uso daquela “sabedoria de palavras” (1Co 1.17) com que os oradores adornavam seus discursos, nem das “palavras ensinadas pela sabedoria humana” (1Co 2.13), isto é, de uma composição artificial de palavras destinada a seduzir; aquilo que chama de “excelência de palavra” (1Co 2.1).
E apresenta muitas razões pelas quais não lhe convinha empregar tais recursos como seu propósito deliberado, à maneira dos sedutores e falsos apóstolos.
Além disso, naquele lugar ele responde mediante concessão: “Ainda que eu seja rude no falar” — isto é: suponhamos que eu seja, ou fosse, rude ou inábil no discurso; depende disso esta questão? Não vos é manifesto que não sou assim quanto ao conhecimento do mistério do evangelho?
“Ele não confessa que realmente o seja”, diz Agostinho, “mas concede isso para convencê-los.” Nesse mesmo sentido concordam Ecumênio, Tomás de Aquino, Nicolau de Lira, Catarino, Clário, Capelo e muitos outros ao comentarem a passagem.
Se, portanto, por “falar” se entende aqui aquela retórica sedutora e persuasiva mediante a qual os falsos mestres enredavam os afetos de seus ouvintes inexperientes, podemos admitir que Paulo talvez fosse inábil nela — e estamos certos de que não desejava empregá-la. Mas negamos que qualquer vestígio dela apareça nesta Epístola.
Se, por outro lado, se entende alguma eloquência sólida, convincente e sem adornos artificiais, é evidente que Paulo nem confessou, nem poderia justamente confessar, ser desconhecedor dela. Apenas concedeu, para efeito do argumento, a objeção formulada contra ele pelos falsos mestres, a fim de demonstrar que dela não poderiam obter vantagem alguma.
12. Tampouco as demais epístolas de Paulo foram escritas em estilo tão baixo e vulgar como se pretende.
Crisóstomo, falando dele, afirma que “sua língua resplandeceu mais do que o sol” e que, por sua eloquência, foi considerado Mercúrio pelos gentios.
Algo já foi dito anteriormente sobre essa questão. Acrescentarei agora apenas as palavras de alguém que não era juiz incompetente em matérias dessa natureza:
“Quum orationis ipsius totam indolem et characterem propius considero, nullam ego in ipso Platone similem grandiloquentiam, quoties illi libuit Dei mysteria detonare; nullam in Demosthene parem deinoteta comperisse me fateor, quoties animos vel metu divini judicii perterrefacere, vel commonefacere, vel ad contemplandam Dei bonitatem attrahere, vel ad pietatis ac misericordiae officia constituit adhortari: nullam denique vel in ipso Aristotele et Galeno, praestantissimis alioquin artificibus, magis exactam docendi methodum invenio.”
Isto é: “Quando considero atentamente toda a índole e o caráter do discurso e do estilo desse apóstolo, confesso que nunca encontrei, nem mesmo em Platão, grandeza semelhante à sua quando troveja os mistérios de Deus; nem em Demóstenes gravidade e veemência iguais às suas quando se propõe a aterrorizar as mentes dos homens com o temor dos juízos de Deus, adverti-los, atraí-los à contemplação de sua bondade ou exortá-los aos deveres da piedade e da misericórdia; nem encontro, sequer em Aristóteles e Galeno, mestres eminentíssimos em seus campos, método de ensino mais exato do que o seu.”
E assim é manifestamente. Assim testemunham, quase de comum acordo, os pais gregos; assim também a maioria dos latinos; assim os mais eruditos entre os críticos posteriores; e assim essa afirmação pode ser defendida contra qualquer oposição.
O próprio Jerônimo, que se permite maior liberdade do que outros para censurar o estilo de Paulo, em outros lugares chega a esquecer de tal modo sua própria temeridade nesse assunto que protesta contra aqueles que, segundo sua expressão, “sonhavam” que Paulo não conhecia plenamente as propriedades da linguagem.
E aquele que primeiro disse algo acerca de um suposto defeito dessa espécie, embora tão capaz de julgar quanto qualquer outro que depois formulou censura semelhante, incorreu em erro evidente justamente no exemplo que escolheu para confirmar sua observação.
Esse foi Irineu, um dos primeiros e mais eruditos pais gregos. Afirmando que existem muitos hipérbatos no estilo de Paulo, tornando-o irregular e difícil, procura confirmar sua afirmação com 2Co 4.4: “nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos”. Segundo ele, a ordem natural das palavras deveria ser: “nos quais Deus cegou o entendimento daqueles que, neste século, não creem”.
Assim, para evitar um sofisma insensato dos valentinianos, seria necessário supor um hipérbato no estilo do apóstolo, quando, na verdade, não há ali sequer aparência disso.
Sobre toda essa matéria, portanto, afirmarei com confiança que não há qualquer deficiência nos escritos de Paulo e que tudo — considerada a matéria e sua natureza, a Pessoa em cujo nome ele falava e aqueles a quem escrevia — é expresso exatamente como convinha ao fim proposto, e não de outra maneira.
Daí resulta que, em razão da variedade das matérias tratadas e da diversidade das pessoas a quem escreveu, também existe variedade em seu modo e maneira de expressar-se nas diferentes epístolas. E em muitas delas se manifesta tal eloquência sólida e tal pureza de expressão que encontrá-las em qualquer escrito está muito longe de constituir argumento de que esse escrito não seja seu.
13. Pode-se, portanto, admitir — embora isso não tenha sido provado — que exista alguma dessemelhança de estilo entre esta Epístola e as demais epístolas de Paulo; e as razões dessa diferença são suficientemente manifestas.
O assunto tratado nesta Epístola difere daquele tratado na maioria das outras; muitas circunstâncias daqueles a quem escreve são singulares; a origem de seus raciocínios e seu modo de argumentar são peculiarmente ajustados à matéria em questão e à condição daqueles a quem se dirige.
Além disso, ao escrever esta Epístola, havia nele uma disposição e um impulso especiais de espírito, ocasionados por muitas circunstâncias relacionadas com o assunto.
Seu intenso amor e sua estreita relação segundo a carne com aqueles a quem escrevia — lembrados afetuosamente por ele próprio e expressos de maneira inimitável em Rm 9.1–3 — sem dúvida se fizeram sentir quando tratava daquilo que dizia respeito aos interesses mais altos e mais imediatos deles.
Também estavam presentes em sua consideração os preconceitos e a hostilidade que alguns deles nutriam contra ele, registrados em diversas passagens de Atos e recordados por ele próprio em algumas de suas outras epístolas.
Grande parte da matéria que tratava era objeto de controvérsia, a ser debatida a partir da Escritura, e aqueles com quem tratava julgavam poder discordar dele sem que disso resultasse prejuízo à sua fé ou obediência.
A própria condição deles necessariamente devia afetá-lo profundamente. Não estavam apenas sob tribulações, perigos e temores presentes, mas positi inter sacrum et saxum, colocados entre o sagrado e a pedra, às próprias portas da ruína, caso não fossem libertados do laço de uma adesão obstinada às instituições mosaicas.
Aqueles que não sabem que alterações essas circunstâncias podem produzir no estilo e no modo de escrever de pessoas capazes de expressar as concepções de sua mente e os afetos que as acompanham nada compreendem dessa matéria.
E nenhuma outra diferença entre esta e as demais epístolas de Paulo foi até agora descoberta — nem pode ser — que não se veja manifestamente proceder dessas causas ou de outras semelhantes.
E, apesar da alegada elegância de seu estilo, demonstraremos, ao percorrermos a Epístola, que ela está tão repleta de hebraísmos quanto qualquer outra epístola do mesmo autor; hebraísmos que alguém dotado de habilidade tão grande na língua grega como o escritor desta Epístola evidentemente possuía poderia ter evitado, se assim julgasse conveniente.
14. Tampouco se deve omitir que existe tamanha coincidência, em muitas frases, no uso de palavras e expressões, entre esta Epístola e as demais epístolas de Paulo, que não nos permite admitir discrepância de estilo tão grande como alguns imaginam.
Muitas dessas correspondências já foram reunidas por outros; por isso, indicarei apenas as passagens das quais são extraídas:
Hb 1.1–2 com 2Co 13.3; Hb 2.14 com Gl 1.16 e Ef 6.12; Hb 2.11 com Ef 5.26; Hb 3.1 com Fp 3.14 e 2Tm 1.9; Hb 3.6 com Rm 5.2; Hb 5.14 com 1Co 2.6, Fp 3.15 e Ef 4.13; Hb 5.13 com 1Co 3.2; Hb 6.11 com Cl 2.2 e 1Ts 1.5; Hb 7.18 com Rm 8.3 e Gl 4.9; Hb 8.6–7 com Gl 3.19–20 e 1Tm 2.5; Hb 10.1 com Cl 2.17; Hb 10.22 com 2Co 7.1; Hb 10.23, expressão peculiar e comum em Paulo; Hb 10.33 com 1Co 4.9; Hb 10.36 com Gl 3.22; Hb 10.39 com 1Ts 5.9 e 2Ts 2.13; Hb 12.1 com 1Co 9.24; Hb 13.10 com 1Co 9.13 e 10.18; Hb 13.15–16 com Rm 12.1 e Fp 4.18; Hb 13.20 com Rm 15.33; 16.20; 2Co 13.11; Fp 4.9 e 1Ts 5.23.
Muitas dessas passagens haviam sido anteriormente observadas por outros e foram reunidas nessa ordem por Spanheim; e muitas outras de natureza semelhante poderiam ser acrescentadas.
Estas, contudo, são suficientes para contrabalançar os exemplos apresentados do outro lado, constituídos por algumas palavras e expressões que Paulo não emprega em nenhum outro lugar; algo que provavelmente poderia ser igualmente observado em relação a qualquer de suas outras epístolas.
De todas essas considerações torna-se evidente quão pouca força possui essa objeção.
15. Em segundo lugar, objeta-se que a Epístola é anepígrafa, isto é, que o nome de Paulo não lhe foi prefixado, como ocorre, dizem alguns, em todas as epístolas por ele escritas.
E esta, de fato, foi o ventre no qual todas as demais objeções foram concebidas; pois, uma vez notada e admitida como objeção, as restantes não passaram de frutos da diligência desnecessária dos homens em procurar dar-lhe algum apoio.
Essa objeção é antiga e, entre alguns dos antigos, foi a única à qual se deu verdadeira atenção; pois é considerada por Clemente, Orígenes, Eusébio, Crisóstomo, Teodoreto, Teofilato, Ecumênio e, em geral, por todos os que disseram alguma coisa acerca do escritor desta Epístola.
Sua força não reside meramente no fato de a Epístola não possuir inscrição; pois também assim ocorre com a Epístola de João, acerca da qual nunca se duvidou de que ele fosse seu autor. A dificuldade está, antes, no costume constante de Paulo de prefixar seu nome a todas as outras epístolas.
Assim, a menos que se possa apresentar razão justa para que, ao escrever esta, ele se afastasse de seu costume, pode-se razoavelmente supor que ela não seja sua.
Ora, por esse título ausente pode-se entender uma de duas coisas: ou a simples superscrição titular — “Epístola de Paulo, o Apóstolo, aos Hebreus” —, ou a inscrição de seu nome, acompanhada da saudação apostólica, dentro da própria Epístola.
Quanto à primeira, é incerto quão antigas são as superscrições titulares de qualquer das epístolas; mas é absolutamente certo que não lhes pertenciam originalmente e, por isso, não possuem autoridade alguma.
São elementos sobre os quais os copistas talvez tenham exercido alguma liberdade, assim como sobre as subscrições de algumas epístolas, relativas ao lugar de onde foram enviadas e às pessoas por meio das quais foram remetidas.
Portanto, ainda que essa superscrição faltasse nesta Epístola — e há alguma variedade a esse respeito tanto nos antigos exemplares do original como nas traduções, embora a maioria a reconheça e retenha —, isso não teria importância alguma, visto que não sabemos de onde nem de quem procedem tais títulos.
A objeção, portanto, deve ser tomada da ausência da costumeira saudação apostólica, que deveria estar dentro da Epístola e fazer parte dela. E nisso consiste a substância de tudo o que, por essa razão, é alegado contra nossa afirmação.
16. Diversas respostas foram dadas a essa objeção, algumas delas não mais válidas do que a própria objeção.
Jerônimo responde: “Nenhum nome de homem lhe foi prefixado; portanto, com a mesma razão poderíamos dizer que não foi escrita por homem algum como dizer que não foi escrita por Paulo.”
Embora esse argumento seja aprovado por Beza e por outros homens eruditos, e embora Erasmo não o tenha respondido satisfatoriamente mediante um exemplo contrário, ele, na verdade, não possui valor; pois, sendo a Epístola escrita, necessariamente foi escrita por alguém, ainda que talvez não por Paulo.
Alguns imaginaram que a inscrição de que tratamos estivesse originalmente prefixada e que, por algum meio, tenha posteriormente se perdido.
Mas, além de existirem muitos argumentos e evidências que demonstram a fraqueza dessa imaginação, o próprio começo e entrada da Epístola são de tal natureza que não admitem conexão alguma com uma saudação semelhante à empregada nas outras epístolas; o mesmo ocorre com a Epístola de João. Portanto, essa conjectura não pode ter lugar aqui.
17. Alguns dos antigos, e principalmente Teodoreto, insistem na distribuição peculiar do trabalho apostólico entre Paulo e os demais.
Paulo era, de modo especial, o apóstolo dos gentios; e, se ao escrever aos hebreus tivesse prefixado seu nome à Epístola, poderia parecer que transgredia os limites de sua esfera de atuação.
E, ainda que não seja absolutamente certo que os apóstolos, por comum acordo, tenham distribuído entre si campos distintos de trabalho, aos quais cada um se dedicaria especialmente — embora os antigos geralmente concordem que assim ocorreu, e não faltassem razões para isso —, é certo que houve convenção e acordo especiais entre Tiago, Pedro e João, de um lado, e Paulo e Barnabé, de outro, para que aqueles se dedicassem ao ministério da circuncisão e estes ao dos gentios.
Daí se concluiu que Paulo, julgando necessário escrever aos hebreus, não teria prefixado seu nome acompanhado de saudação apostólica, a fim de não parecer invadir a esfera de outros ou ultrapassar os limites de sua própria missão.
Devo reconhecer, contudo, que, apesar do peso atribuído a essa razão por Teodoreto e por alguns outros, ela não me parece suficientemente convincente para o fim a que é proposta.
Primeiro, a comissão dada pelo Senhor Cristo aos seus apóstolos era universal e não possuía outros limites senão toda a criação de Deus capaz de receber instrução (Mt 28.19; Mc 16.15). E a comissão dada a todos em geral foi igualmente dada a cada um em particular, tornando cada apóstolo plenamente participante de todo o direito e autoridade nela conferidos.
Nenhum acordo posterior, estabelecido por conveniência e para facilitar o exercício de seu trabalho, poderia privar qualquer deles do exercício de sua autoridade e do cumprimento de seu dever para com quaisquer dos filhos dos homens, conforme a ocasião o exigisse.
Daí vemos que, apesar do acordo mencionado, Pedro ensinou os gentios e Paulo trabalhou pela conversão dos judeus.
Além disso, nessa hipótese, Paulo, ao escrever esta Epístola, teria realmente feito aquilo que se afirma não lhe ser conveniente fazer — isto é, teria entrado na esfera de outro homem —, apenas ocultando seu nome para não parecer praticar algo irregular e injustificável.
Se é adequado atribuir semelhante procedimento ao apóstolo, é fácil julgar.
Portanto, assim como é certo que Paulo, ao escrever esta Epístola, não fez nada além daquilo que era seu dever fazer e daquilo que a autoridade recebida de Cristo lhe permitia fazer, também não se pode, sem considerável temeridade, atribuir-lhe a ocultação de seu nome simplesmente para que não parecesse haver feito algo irregular.
18. Há outra resposta a essa objeção que parece sólida e satisfatória e na qual repousa a maioria dos antigos: Paulo teria tido razões para não declarar seu nome no início desta Epístola aos Hebreus em virtude dos preconceitos que muitos deles nutriam contra ele.
Clemente, segundo Eusébio, insiste nesse ponto: “Procedeu sabiamente”, diz ele, “ao ocultar seu nome, por causa da opinião preconcebida que tinham contra ele.”
Crisóstomo desenvolve amplamente essa razão e é seguido por Teofilato, Ecumênio e inúmeros outros.
A facção perseguidora da nação judaica considerava Paulo desertor da causa à qual anteriormente se dedicara e alguém que ensinava apostasia da Lei de Moisés; mais ainda, julgavam que ele colocava o mundo inteiro contra eles e contra todas as coisas das quais se gloriavam.
E todos sabem quanta hostilidade costuma surgir em circunstâncias dessa natureza; o próprio exemplo de Paulo é demonstração suficiente disso.
Acrescentava-se ainda outra circunstância, à qual Crisóstomo atribui, com razão, grande peso: Paulo não era homem comum, mas pessoa dotada de extraordinárias capacidades, fato que aumentava enormemente a provocação contra ele.
Aqueles dentre os judeus que, juntamente com a profissão do evangelho, desejavam continuar observando as instituições mosaicas e impô-las aos outros viam nele a pessoa que mais havia frustrado seu propósito (At 15.1–2). E isso também costuma ser causa não pequena de ira e ódio.
Esse mesmo espírito, possuindo posteriormente os ebionitas, levou-os a desprezar Paulo como grego e desertor da Lei.
Até os melhores dentre eles, que continuavam no culto do templo, seja pelo exercício de sua liberdade, seja por alguma indulgência que lhes fora concedida, mantinham olhos desconfiados sobre ele, receando que não tivesse por Moisés a estima que eles julgavam dever conservar (At 21.20–21).
É fácil imaginar quão grande preconceito contra sua doutrina e seus argumentos esses pensamentos e suspeitas poderiam produzir se, logo no início de seu trato com eles, Paulo tivesse prefixado seu nome e sua saudação costumeira.
Sendo essa a condição das coisas em relação a Paulo — e não em relação a qualquer outro escritor conhecido do Espírito Santo ou discípulo eminente de Cristo naqueles dias —, a ausência de inscrição, como observa Beza, constitui antes indício de que a Epístola seja dele do que de qualquer outra pessoa.
Reconheço que algumas respostas podem ser dadas a essa explicação, tanto em razão da identificação que ele faz de si mesmo no fim da Epístola como da grande probabilidade de que os hebreus, ao recebê-la, procurassem diligentemente descobrir quem a havia escrito.
Ainda assim, julgo essa resposta inteiramente suficiente para remover a objeção em questão, embora talvez ela não contenha a verdadeira causa, ou ao menos toda a causa, da ausência de saudação apostólica em sua abertura.
19. Se, portanto, quisermos conhecer a causa verdadeira e própria da omissão do nome do autor e da menção de sua autoridade apostólica no início desta Epístola, devemos considerar primeiro quais eram as razões pelas quais tais elementos eram prefixados às suas outras epístolas.
Crisóstomo, no prólogo da Epístola aos Romanos, apresenta como única razão para se mencionar o nome do escritor no início de uma epístola — diferentemente do que Moisés e os evangelistas fizeram em seus escritos — o fato de que estes escreviam para pessoas presentes e, portanto, não tinham necessidade de mencionar seus próprios nomes, suficientemente conhecidos sem que fossem apresentados no início de seus escritos; enquanto aqueles que escreviam epístolas a pessoas ausentes precisavam prefixar seus nomes, para que os destinatários soubessem de quem procediam.
Essa razão, porém, não é absolutamente satisfatória. Pois aqueles que não prefixaram seus nomes aos escritos não escreveram apenas para uso e benefício das pessoas presentes que os conheciam, mas também para todas as gerações posteriores, que não os conheciam.
Além disso, muitos daqueles que prefixaram seus nomes aos escritos pregaram e escreveram a Palavra do Senhor para pessoas que viviam com eles e os conheciam, como fizeram os antigos profetas; e alguns que escreveram epístolas a pessoas ausentes omitiram seus nomes, como João e o autor desta Epístola.
A verdadeira razão, portanto, para que alguns apóstolos prefixassem seus nomes aos escritos era simplesmente introduzir, juntamente com esses nomes, seus títulos de apóstolos de Jesus Cristo e, por meio deles, indicar a autoridade com a qual escreviam.
Essa foi, portanto, a verdadeira e única razão pela qual Paulo prefixou seu nome às suas epístolas.
Em algumas ocasiões, de fato, esse título é omitido quando escreve a igrejas nas quais era bem conhecido e sua autoridade apostólica era suficientemente reconhecida, especialmente quando associa consigo na saudação outras pessoas que não eram apóstolos, como ocorre na Epístola aos Filipenses e na Segunda Epístola aos Tessalonicenses.
Nas demais, porém, ele prefixa constantemente esse título, declarando assim que era alguém autorizado a revelar os mistérios do evangelho, de maneira que aqueles a quem escrevia deveriam aquiescer em sua autoridade e fundamentar sua fé na revelação da vontade de Deus feita a ele e por meio dele, visto que a igreja deve ser “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas”.
Daí também ocorre que, quando alguma coisa por ele ensinada era questionada e combatida, ao escrever em defesa dela e para estabelecer na verdade aqueles a quem anteriormente havia instruído, ele menciona de maneira singular e enfática essa autoridade logo no início de seu escrito: “Paulo, apóstolo, não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl 1.1).
Com isso indicava a obediência absoluta devida à doutrina por ele revelada.
Por meio desse título, portanto, dirige aqueles a quem escreve para que fundamentem seu assentimento na autoridade de Cristo falando nele, a qual lhes apresenta como prova e fundamento dos mistérios nos quais eram instruídos.
Ao tratar com os hebreus, porém, o caso era muito diferente.
Aqueles dentre eles que criam jamais haviam abandonado o antigo fundamento, ou estado eclesiástico estabelecido sobre as Escrituras, embora, mediante sua fé em Jesus Cristo como o Messias agora manifestado, tivessem recebido uma nova adição de privilégios.
Por isso, ele não trata com eles como com pessoas cuja fé estivesse fundada absolutamente sobre autoridade e revelação apostólicas, mas sobre os princípios comuns do Antigo Testamento, nos quais ainda permaneciam e dos quais era deduzida a fé evangélica.
Daí o começo da Epístola: nele, o autor apela para as Escrituras como o fundamento sobre o qual pretendia construir e como a autoridade que desejava apresentar aos hebreus; e isso ocupa o lugar daquela declaração de autoridade apostólica que ele emprega em outras ocasiões.
E serve precisamente ao mesmo propósito.
Pois, assim como nas demais epístolas Paulo apresenta sua autoridade apostólica como razão imediata para o assentimento e a obediência de seus leitores, nesta ele apresenta as Escrituras do Antigo Testamento.
Esta é, portanto, a verdadeira e própria causa pela qual se tornou desnecessário prefixar sua autoridade apostólica, que necessariamente teria acompanhado seu nome: tal autoridade seria inútil para o modo de argumentação que ele pretendia empregar nesta questão.
Quanto à sua própria identidade, ele declara suficientemente, no encerramento da Epístola, quem era; pois, ainda que alguém imagine que para nós não seja absolutamente certo quem ele era com base no que ali diz acerca de si mesmo, ninguém pode ser tão insensato a ponto de duvidar que, por essas indicações, fosse conhecido daqueles a quem escrevia.
Portanto, também esta objeção não contém peso ou importância reais.
20. Em terceiro lugar, já tratamos anteriormente da hesitação da igreja latina, que alguns, especialmente Erasmo, apresentam como objeção, e expusemos suas razões, mostrando que ela não possui força para enfraquecer nossa afirmação.
Acrescentarei agora apenas isto: depois que esta Epístola foi recebida entre eles como canônica, nenhum homem erudito nem qualquer sínodo da antiguidade voltou a questionar se Paulo era ou não seu autor; antes, todos, de comum acordo, atribuíram-na a ele, como outros demonstraram amplamente.
As objeções restantes apresentadas por alguns são extraídas de certas passagens da própria Epístola, principalmente de Hb 2.3, onde seu escritor parece incluir-se entre aqueles que não pertenciam ao número dos apóstolos, mas ao de seus ouvintes [e sobreviventes].
Contudo, sendo certo e evidente que a Epístola foi escrita antes da destruição do templo — sim, antes mesmo do início das guerras que nela terminaram e antes da morte de Tiago, quando diversos dos apóstolos ainda estavam vivos —, não pode ser que seu escritor realmente se colocasse entre a geração que lhes sucedeu.
Por isso, as palavras necessariamente admitem outra interpretação, como será demonstrado em seu devido lugar. E, visto que tanto essa como outras questões semelhantes deverão ser examinadas nas próprias passagens em que ocorrem, não anteciparei aqui aquilo que necessariamente deverá ser tratado a seu tempo, especialmente considerando quão pequena é a importância das objeções delas extraídas.
E isto resume tudo o que, até agora, foi objetado por alguém contra nossa atribuição desta Epístola a Paulo. Pela consideração dessas objeções, o leitor estará em condições de formar juízo acerca dos argumentos e testemunhos que apresentaremos em confirmação de nossa afirmação; e a eles passamos agora, segundo as diversas linhas propostas no início de nosso discurso.
21. (1.) Entre os argumentos habitualmente apresentados para demonstrar que esta Epístola foi escrita por Paulo, o testemunho que Pedro lhe dá merece ser considerado em primeiro lugar e, de fato, é por si mesmo suficiente para decidir a investigação.
Suas palavras, para esse propósito, em 2Pe 3.15–16, são: “E considerai a longanimidade de nosso Senhor como salvação, assim como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; como também em todas as suas epístolas, falando nelas acerca destas coisas, entre as quais há algumas difíceis de compreender, que os ignorantes e instáveis torcem, como também fazem com as demais Escrituras, para sua própria destruição.”
Para esclarecer esse testemunho, algumas coisas devem ser observadas nele e a respeito dele.
Primeiro, Pedro escreveu essa segunda epístola às mesmas pessoas — isto é, às mesmas igrejas e ao mesmo povo — às quais havia escrito a primeira. O próprio Pedro o declara, omitindo-se outras evidências: “Amados, esta é agora a segunda epístola que vos escrevo” (2Pe 3.1). Não era apenas, em sentido absoluto, sua segunda epístola, mas a segunda escrita às mesmas pessoas, tratando em ambas do mesmo argumento geral, como afirma nas palavras seguintes.
Segundo, sua primeira epístola foi escrita aos judeus ou hebreus da dispersão na Ásia: “aos eleitos, estrangeiros da dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1Pe 1.1); isto é, às “doze tribos que se encontram na dispersão”, como Tiago denomina as mesmas pessoas (Tg 1.1), os hebreus pertencentes às doze tribos de Israel espalhados entre as nações.
Esses “estrangeiros da dispersão”, ou aqueles “na dispersão”, são os mesmos que os judeus de Jerusalém chamavam de “dispersão entre os gregos” (Jo 7.35), isto é, os membros de sua nação espalhados entre os gentios.
Referiam-se especialmente àqueles que se encontravam nos territórios do império grego. Chamavam-nos de “dispersão” ou “espalhamento de Israel”, quando eram peneirados entre todas as nações “como se peneira com uma peneira” (Am 9.9). No Sl 147.2 também são chamados os dispersos de Israel; e a Septuaginta, segundo a linguagem corrente em seus dias, os denomina “as dispersões de Israel”. Isaías emprega expressões semelhantes (Is 27.13).
Não resta, portanto, dúvida de que esses eram aqueles a quem Pedro chama de dispersão do Ponto, Galácia e demais regiões, assim como Tiago, estendendo sua saudação ao mesmo povo em todos os lugares, os chama de “as doze tribos da dispersão”.
Além disso, muitas das coisas tratadas por Pedro nessas epístolas pertenciam de maneira peculiar aos hebreus, que constituíam também objeto especial de seu cuidado. Vejam-se 1Pe 1.10–12; 2.9, 21; 3.5–6; 4.7, 17; 2Pe 1.19–21; 2.1; 3.10–14; e muitas outras passagens particulares da mesma natureza poderiam ser observadas.
Para resumir nossa evidência nesse ponto: Pedro, sendo de maneira especial apóstolo da circuncisão, ou dos hebreus (Gl 2.7); tendo convertido, mediante seu primeiro sermão, muitos desses estrangeiros da Capadócia, do Ponto e da Ásia (At 2.9–11, 41); atribuindo àqueles a quem escreveu o título que era sua designação habitual e própria em todo o mundo — “a dispersão de Israel” (Tg 1.1; Jo 7.35) —; e tratando com eles, na maior parte, de assuntos que lhes diziam respeito de modo especial, mediante argumentos e princípios peculiarmente conhecidos por eles, como demonstram as passagens anteriormente citadas, não deixa fundamento razoável para dúvida de que eram hebreus aqueles a quem escreveu.
As objeções levantadas contra essa evidência não possuem importância suficiente sequer para merecer recordação por parte daqueles que não desejam prolongar seus discursos insistindo em coisas desnecessárias.
22. Ora, nesse testemunho afirma-se claramente que Paulo escreveu uma epístola particular àqueles mesmos a quem Pedro escreveu as suas; isto é, aos hebreus: “ele vos escreveu; como também em todas as suas epístolas”.
Isto é: além de suas outras epístolas dirigidas a outras igrejas e pessoas, escreveu também uma a vós.
Portanto, se o testemunho de Pedro pode ser recebido, Paulo indubitavelmente escreveu uma epístola aos hebreus.
“Mas”, dizem alguns, “pode tratar-se de outra epístola, e não desta da qual tratamos; particularmente da Epístola aos Gálatas, que trata de costumes e do culto judaicos.”
Entretanto, a epístola mencionada por Pedro foi escrita particularmente aos hebreus, em distinção dos gentios; ao passo que a Epístola aos Gálatas foi escrita peculiarmente aos gentios, em oposição aos judaizantes. Dificilmente poderia ter sido escolhido exemplo menos apropriado.
Além disso, Paulo não trata em Gálatas das coisas aqui mencionadas por Pedro, que, na verdade, constituem matéria principal da Epístola aos Hebreus.
“Mas”, dizem outros, “Paulo pode realmente ter escrito uma epístola aos hebreus que se perdeu, enquanto esta que possuímos pode ter sido escrita por outra pessoa.”
Não sei de onde poderia proceder semelhante resposta, senão de uma resolução de resistir à luz e à convicção.
Se dermos lugar a conjecturas tão temerárias e presunçosas, em pouco tempo nada nos restará inteiro ou estável. Pois por que alguém não poderia igualmente dizer: “É verdade que Moisés escreveu cinco livros; porém eles se perderam, e aqueles que possuímos sob seu nome foram escritos por outra pessoa”?
Certamente não é menos intolerável que alguém, sem fundamento, prova ou testemunho, afirme que a igreja perdeu uma epístola escrita por Paulo aos hebreus e recebeu em seu lugar outra, escrita por ninguém sabe quem.
Isso não corresponde à santa reverência com que nos convém tratar as coisas de Deus.
23. (2.) Pedro declara que Paulo, naquela epístola que escreveu aos hebreus, havia mostrado que a “longanimidade de Deus”, acerca da qual ele os advertira, era “salvação”. Devemos, portanto, considerar o que era essa “longanimidade de Deus”, em que sentido era “salvação” e como Paulo havia demonstrado que assim era.
[1.] A longanimidade, paciência ou tolerância de Deus pode ser absoluta, em relação à humanidade em geral, ou especial, em relação a certa classe de homens ou a determinados pecados e provocações existentes entre eles.
A primeira não é aquela que aqui se pretende; tampouco havia razão para Pedro dirigir os judeus particularmente às epístolas de Paulo a fim de aprenderem acerca da longanimidade de Deus em geral, visto que ela é abundantemente revelada em toda a Escritura, tanto no Antigo como no Novo Testamento, e é mencionada por Paulo apenas ocasionalmente.
Havia, portanto, uma longanimidade especial de Deus que, naquele tempo, ele exercia para com os judeus, aguardando a conversão e a reunião de seus eleitos antes que sobreviesse àquela igreja e àquele estado a destruição total e final que haviam merecido.
Pedro compara isso à “longanimidade de Deus nos dias de Noé”, enquanto este pregava arrependimento ao mundo (1Pe 3.20). Pois, assim como aqueles que obedeceram à sua pregação — somente sua própria família — foram salvos na arca da destruição geral que veio sobre o mundo pelas águas, assim também aqueles que se tornassem obedientes à pregação do evangelho durante esse novo período da especial longanimidade de Deus seriam salvos, mediante o batismo, ou separação dos judeus incrédulos pela profissão da fé, da destruição que haveria de vir sobre eles pelo fogo.
Os judeus incrédulos, não compreendendo que essa “longanimidade de Deus” era particular, zombavam dela e daqueles que os ameaçavam com tal desfecho (2Pe 3.4). Isso levou o apóstolo a declarar a natureza e o fim dessa longanimidade, que eles ignoravam (2Pe 3.9).
[2.] E assim essa particular “longanimidade de Deus” para com os judeus, enquanto o evangelho lhes era pregado antes de sua desolação final, era “salvação”, pois Deus os “poupava” e lhes permitia permanecer ainda por algum tempo na observância de seu antigo culto e de suas cerimônias, concedendo-lhes, entretanto, benditos meios de luz e instrução para conduzi-los à salvação.
[3.] E isso é declarado por Paulo nesta Epístola. Não que essa seja, formalmente e em termos expressos, a doutrina principal da Epístola, mas porque, real e efetivamente, ele lhes dá a conhecer o propósito do Senhor em sua longanimidade para com eles e serve de modo peculiar a essa longanimidade de Cristo mediante sua instrução.
Depois de lhes ensinar a verdadeira natureza, o uso e o fim de todas as instituições mosaicas, que ainda lhes era permitido observar em virtude da especial paciência de Deus indicada por Pedro, e depois de convencê-los da necessidade da fé em Cristo e da profissão de seu evangelho, ele encerra todos os seus argumentos lembrando-lhes o fim que em breve seria posto àquela “longanimidade de Deus” então exercida para com eles (Hb 12.25–29).
Portanto, também esta constitui uma característica eminente da Epístola à qual Pedro dá testemunho.
24. (3.) Ao mencionar a composição da epístola de que fala, Pedro parece atribuir a Paulo uma eminência especial de sabedoria: ela foi escrita “segundo a sabedoria que lhe foi dada”.
Assim como Paulo exercitou a graça da sabedoria em todas as suas outras epístolas, também o fez naquela que escreveu aos hebreus. Sem dúvida, nela também exerceu outras graças — conhecimento, zelo e amor —; contudo, Pedro assinala de maneira eminente sua sabedoria nessa epístola.
Não é à sabedoria espiritual de Paulo em geral, em seu conhecimento da vontade de Deus e dos mistérios do evangelho, que Pedro aqui se refere, mas àquela prudência santa e especial que ele exerceu na composição desta Epístola e na defesa da verdade acerca da qual tratou com os hebreus.
E procuraremos demonstrar, com a assistência de Deus, em nossa Exposição, quão eminentemente essa característica pertence também a esta Epístola.
Seu entendimento especial de todos os mistérios do Antigo Testamento, nos quais a verdade estava envolvida em grande obscuridade; sua exposição de coisas ocultas desde a fundação do mundo; sua aplicação delas, mediante diversos testemunhos e argumentos, ao mistério de “Deus manifestado na carne”; o entrelaçamento variado de raciocínios e exortações ao longo da Epístola; sua condescendência para com a capacidade, os preconceitos e os afetos daqueles a quem escreveu, pressionando-os constantemente mediante seus próprios princípios e concessões — todas essas coisas, entre muitas outras, manifestam a singular sabedoria que Pedro indica ter sido empregada nesta obra.
(4.) Também se pode observar que, ao afirmar Pedro que entre as coisas acerca das quais Paulo escreveu havia “algumas difíceis de compreender”, Paulo, de maneira especial, reconhece que algumas das coisas de que deveria tratar nesta Epístola eram “difíceis de explicar”, de declarar ou de desenvolver e, portanto, certamente difíceis de compreender (Hb 5.11).
Em nosso progresso demonstraremos que isso não foi dito sem causa grande e urgente, e que se aplica a diversos pontos, especialmente àquele indicado pelo próprio escritor acerca de Melquisedeque.
Assim, também isso fornece outra característica distintiva da epístola à qual Pedro dá testemunho.
Insisti mais longamente nesse testemunho porque, em meu juízo, ele é por si só suficiente para decidir esta controvérsia, e não encontrei qualquer objeção de importância levantada contra ele.
Contudo, como não nos faltam outras confirmações de nossa afirmação — cada uma delas, tomada separadamente, também superior às conjecturas apresentadas contra ela —, acrescentaremos igualmente essas confirmações em sua devida ordem.
25. A comparação desta Epístola com as demais do mesmo apóstolo fornece evidência adicional em favor de nossa afirmação. Suponho que se reconhecerá que somente são juízes competentes nessa matéria aqueles que estão bem exercitados e familiarizados com seus escritos. Portanto, apenas ao juízo destes apelamos.
Ora, a semelhança entre esta e as outras epístolas de Paulo é tríplice.
(1.) Há semelhança nas palavras, frases e maneiras de expressão. Muitos exemplos dessa espécie poderiam ser apresentados, e neles se manifesta tal coincidência de linguagem como não costuma ser observada entre escritos de autores diversos.
Não insistirei aqui particularmente nisso, em parte porque outros já o fizeram amplamente, e em parte porque todos esses casos serão observados no curso de nossa Exposição. Tampouco convém ao propósito presente entrar numa discussão acerca de palavras e expressões particulares.
Não atribuo a essa observação força maior do que a seguinte: ela é suficiente para manifestar a fraqueza das objeções apresentadas por alguns para provar que a Epístola não é de Paulo com base no emprego de umas poucas palavras que ele não utiliza em outro lugar, ou que aqui aparecem em sentido no qual não são empregadas em seus demais escritos; pois os exemplos alegados por eles não podem, em número, ser comparados com os que apontam na direção contrária.
E, para evidenciar a inutilidade daquela parte da objeção que se funda no emprego peculiar de certas palavras nesta Epístola, basta observar que uma única palavra, empregada três vezes nesta mesma Epístola, possui em cada ocorrência significação peculiar e diferente.
(2.) Existe também coincidência quanto à matéria ou às doutrinas transmitidas nesta e nas demais epístolas de Paulo.
Tampouco insistirei muito nessa consideração; pois Paulo não estava, em nenhuma epístola, restrito apenas às coisas que havia ensinado em outro lugar, nem obrigado a evitar sua repetição quando a ocasião a exigisse. Da mesma forma, os outros escritores do Espírito Santo não estavam impedidos de tratar daquilo que Paulo havia ensinado, assim como os evangelistas não estavam impedidos de escrever a mesma história.
Contudo, essa observação não é destituída de toda eficácia para fortalecer nossa afirmação, considerando que havia certas doutrinas nas quais Paulo insistia de maneira peculiar; e o observador diligente pode perceber um mesmo veio delas percorrendo esta e todas as suas demais epístolas.
(3.) Aquilo em que desejo insistir principalmente sob este ponto é a consideração do espírito, gênio, caráter e modo de escrever que procedem dos escritos deste apóstolo e lhe são peculiares em todas as suas epístolas.
Muitas coisas são necessárias para capacitar alguém a julgar corretamente essa matéria. É necessário, como diz Bernardo, “beber do espírito de Paulo”, ou tornar-se participante, segundo sua medida, do mesmo Espírito que nele operava, para compreender seus escritos.
Sem esse Espírito e sua luz salvadora, todos eles são obscuros, intrincados, sem vigor e sem sabor; mas, para aqueles em quem ele habita, são doces, cheios de graça e, em alguma medida, abertos, claros e poderosos.
Também é necessário grande e constante exercício para adquirir familiaridade com a disposição de espírito do apóstolo ao escrever. A menos que um homem contraia, por assim dizer, familiaridade com ele mediante constante convivência com seus escritos, nenhuma habilidade crítica em palavras ou frases o tornará juiz competente nessa matéria.
Foi esse tipo de familiaridade que permitiu a César formar juízo correto acerca dos escritos de Cícero. E aquele que estiver assim familiarizado com este apóstolo será capaz de discernir seu espírito, como Agostinho diz que sua mãe, Mônica, discernia revelações divinas, nescio quo sapore — “por não sei que sabor”, isto é, por uma percepção espiritual inexprimível.
Também se requer experiência do poder e da eficácia de seus escritos. Aquele cujo coração foi moldado segundo a forma da doutrina por ele transmitida receberá prontas impressões do espírito que se manifesta em qualquer de seus escritos.
Quem estiver assim preparado encontrará nesta Epístola aquela elevação celestial e clareza na exposição dos mais profundos mistérios do evangelho; aquela peculiar exaltação de Jesus Cristo em sua pessoa, ofício e obra; aquela persuasão espiritual; aquele transcendente modo de argumentar e raciocinar; aquela sábia introdução e aplicação comovente de exortações bem fundamentadas; aquele amor, ternura e afeição pelas almas dos homens; aquele zelo por Deus e autoridade no ensino que vivificam e adornam todas as suas demais epístolas — e os encontrará brilhando aqui, de maneira eminente, do princípio ao fim.
E esta consideração, qualquer que seja o juízo de outros acerca dela, é aquela que, acima de todas as demais alegadas nesta controvérsia, me dá satisfação na atribuição desta Epístola a Paulo.
26. Também pode ser alegado nesta questão o testemunho das primeiras igrejas das quais ainda nos resta qualquer registro, juntamente com o consenso sucessivo das pessoas mais instruídas das gerações seguintes.
Deixando de lado a limitação desse testemunho quanto a alguns membros da igreja latina — limitação cujos fundamentos e ocasiões já admitimos e explicamos —, esse testemunho deve ser reconhecido como católico, isto é, universal, quanto às demais igrejas do mundo.
Um erudito recente enumerou e registrou as palavras de mais de trinta pais gregos e cinquenta latinos que transmitiram essa tradição primitiva.
Não perturbarei o leitor com um catálogo de seus nomes nem com a repetição de suas palavras, porque aquilo que afirmamos em geral acerca da igreja oriental é reconhecido.
Foi entre eles que esta Epístola primeiro se tornou pública; e eles dispunham de vantagens muito maiores para descobrir a verdade dessa questão de fato do que quaisquer membros da igreja romana ou aqueles que, em outros lugares, lhes sucederam em épocas posteriores poderiam possuir.
Tampouco tinham qualquer coisa além da convicção e da evidência da própria verdade que os induzisse a receber essa persuasão.
E aquele que considerar a condição das primeiras igrejas sob perseguição, as dificuldades que enfrentavam para comunicar os escritos apostólicos entregues a qualquer uma delas e, ainda, o obstáculo especial à difusão desta Epístola entre os hebreus, do qual já tratamos, não poderá conceber racionalmente esse fato de outra maneira senão como fruto eminente da boa providência de Deus: que ela recebesse tão cedo testemunho tão público por parte das primeiras igrejas, como manifestamente ocorreu.
27. A própria Epístola revela seu autor de diversas maneiras. Mencionaremos brevemente algumas delas.
(1.) Seu argumento e propósito gerais declaram que ela pertence a Paulo.
Neles há duas partes. A primeira é a exaltação da pessoa, do ofício e da graça de nosso Senhor Jesus Cristo, juntamente com a excelência do evangelho e do culto nele ordenado e por ele revelado.
A segunda é a exposição da natureza, do uso e da expiração das instituições mosaicas, de sua presente inutilidade e do término de sua obrigação quanto à obediência.
Podemos admitir que a primeira parte tenha sido igualmente o propósito de todos os apóstolos, embora a encontremos tratada de maneira peculiar nos escritos de Paulo. A segunda, porém, constituía seu trabalho e empreendimento especiais.
Nesse trabalho ele esteve empenhado por todo o mundo, em parte deliberadamente e em parte em razão das ocasiões produzidas pela oposição dos judeus.
Os apóstolos da circuncisão, segundo a sabedoria que lhes fora dada e de maneira adequada à natureza de seu trabalho, acomodaram-se mais às opiniões preconcebidas dos professantes judeus; e os demais apóstolos tiveram pouca ocasião de tratar com eles ou com outros acerca desse assunto.
Paulo, de maneira eminente, carregou o peso daquele dia nessa questão.
Depois de haver estabelecido devidamente as demais igrejas perturbadas nessa controvérsia por alguns dos judeus, ele finalmente trata diretamente com os próprios hebreus nesta Epístola, apresentando-lhes aquilo que em outros lugares havia pregado e ensinado acerca desse assunto e os fundamentos sobre os quais procedia.
E isso não ocorreu sem grande sucesso, como demonstra o sepultamento da controvérsia judaica pouco tempo depois.
(2.) O método de seu procedimento é o mesmo que encontramos em suas outras epístolas, e também lhe era peculiar.
Na maior parte delas — sim, em todas aquelas cujo curso não é regulado por alguma ocasião particular — seu método consiste primeiro em expor os mistérios doutrinários do evangelho, vindicando-os das oposições e objeções; depois, descer às exortações à obediência deduzidas dessas doutrinas, acompanhadas da enumeração daqueles deveres morais especiais dos quais os destinatários necessitavam ser lembrados.
Esse é o método geral de suas Epístolas aos Romanos, Efésios, Colossenses, Filipenses e da maior parte das demais. E o mesmo método é observado nesta Epístola.
Há somente esta diferença: tendo ele consideração especial pela apostasia de alguns dos hebreus, ocasionada pela perseguição que então começava a intensificar-se contra eles, sempre que algum argumento ou testemunho, no curso de sua exposição, lhe oferece ocasião para insistir numa exortação à perseverança e para dissuadi-los de retroceder, ele se apodera dessa ocasião e passa imediatamente a inferências práticas com esse propósito, antes de chegar às exortações gerais próximas do fim da Epístola.
Excetuada essa diferença ocasionada pelas circunstâncias, o método desta Epístola é o mesmo empregado nas demais epístolas de Paulo e que lhe era peculiar.
(3.) Seu modo de argumentar nesta e em suas outras epístolas é o mesmo.
Esse modo, como veremos, é sublime e místico, acomodado antes à razão espiritual dos crentes do que às regras artificiais dos filósofos.
Que nesta Epístola ele abunde mais do que nas outras em testemunhos e citações das Escrituras do Antigo Testamento era necessariamente exigido tanto pela matéria da qual tratava como pelas pessoas a quem escrevia.
(4.) Muitas coisas nesta Epístola manifestam evidentemente que seu escritor não era apenas “poderoso nas Escrituras”, mas também extraordinariamente versado e habilidoso nos costumes, práticas, opiniões, tradições, exposições e aplicações da Escritura então recebidas na igreja judaica, como demonstraremos plenamente no curso de nossa exposição.
Ora, entre os discípulos de Cristo daqueles dias, quem poderia ser esse senão Paulo?
Pois, assim como fora educado aos pés de um dos melhores e mais célebres mestres dos judeus daquele tempo e havia progredido no conhecimento da religião que então professavam acima de seus contemporâneos, também, por falta desse tipo de instrução, os judeus consideravam os principais entre os outros apóstolos, Pedro e João, homens sem instrução e iletrados.
(5.) Diversos pormenores próximos do final e no próprio encerramento da Epístola proclamam abertamente que Paulo foi seu escritor.
[1.] O primeiro é a menção que faz de suas “prisões” e da “compaixão” que os hebreus demonstraram para com ele em seus sofrimentos e enquanto estava preso (Hb 10.34).
Assim como as prisões de Paulo posteriormente se tornaram conhecidas em Roma (Fp 1.13), também nada havia, em relação à igreja de Deus naqueles dias, mais notório do que os sofrimentos que padeceu na Judeia e dos quais aqui os recorda.
Com que ardor, furor e tumulto os governantes e o corpo do povo buscaram sua destruição; quão publicamente e com que solenidade sua causa foi diversas vezes ouvida e debatida; e o período de prisão que se seguiu — tudo isso é amplamente relatado em Atos.
Ninguém pode imaginar que, enquanto esse grande defensor de sua profissão defendia tão publicamente sua causa e se expunha a tamanho perigo por ela, todos os crentes daquela região não estivessem profundamente preocupados com sua condição, como estiveram com Pedro em circunstância semelhante, e não lhe prestassem toda assistência e encorajamento de que fossem capazes.
Essa “compaixão” da parte deles e suas próprias “prisões”, como evidência de sua fé e do amor mútuo que tinham no evangelho, ele agora lhes recorda.
Não temos fundamento para conjecturar que isso possa ser dito de qualquer outra pessoa senão Paulo. E os sofrimentos e a compaixão aqui mencionados certamente não parecem ter sido “coisas feitas num canto”.
Assim, essa única circunstância é capaz, por si mesma, de enfraquecer todas as objeções apresentadas contra sua identificação como autor desta Epístola.
[2.] A menção de Timóteo, querido e constante companheiro de Paulo, possui igual importância (Hb 13.23).
Que Timóteo estava em Roma com Paulo durante suas prisões é expressamente declarado (Fp 1.13–14; 2.19–24). Que o próprio Timóteo também havia sido preso com Paulo é aqui indicado pela menção de sua libertação.
É, portanto, dificilmente crível que qualquer outro, estando na Itália, onde Paulo então se encontrava e de onde havia sido recentemente libertado, escrevesse às igrejas dos hebreus, mencionasse nessa carta suas próprias prisões e as de Timóteo — homem que eles conheciam por intermédio de Paulo — e não fizesse qualquer menção à condição de Paulo.
As objeções de alguns — como a de que Paulo costumava chamar Timóteo de “filho”, ao passo que o escritor desta Epístola o chama de “irmão”, quando, na verdade, Paulo nunca o chama de “filho” ao falar dele, mas apenas ao escrever a ele; ou a hipótese de que pudesse haver outro Timóteo, quando o escritor fala expressamente daquele que era amplamente conhecido pelas igrejas de Deus como um dos principais evangelistas — não merecem consideração.
E certamente é inteiramente incrível que esse Timóteo — “filho” de Paulo por ter sido gerado por ele na fé e objeto de contínua afeição paternal; seu conhecido e constante companheiro no trabalho e nos sofrimentos pelo evangelho; seu auxiliar pessoal, continuamente empregado por ele no serviço de Cristo e das igrejas; conhecido dos hebreus por intermédio dele; honrado por ele com duas epístolas dirigidas à sua pessoa e com a associação de seu nome ao do próprio Paulo na inscrição de diversas outras — estivesse agora de tal maneira separado dele que aparecesse unido a outro homem em suas viagens e ministério.
[3.] O sinal e marca constantes das epístolas de Paulo, que ele próprio havia publicamente declarado serem seus (2Ts 3.17), são acrescentados também a esta: “A graça seja com todos vós.”
Não há fundamento para duvidar de que originalmente essa expressão tenha sido escrita pela própria mão de Paulo; e assim parece ser porque ela efetivamente foi escrita, e ele declara ser seu costume acrescentar com a própria mão essa saudação.
O fato de ter sido escrita por sua própria mão constituía evidência para aqueles aos quais primeiro chegou o exemplar original da Epístola; para os que possuíam apenas cópias transcritas, naturalmente, não poderia constituir tal evidência.
A própria saudação, contudo, era para eles o sinal característico, por ser peculiar a Paulo, e encontra-se, entre as demais, anexada também a esta Epístola.
Todas essas circunstâncias receberão ainda confirmação adicional quando considerarmos o tempo em que esta Epístola foi escrita, assunto do qual trataremos em seguida.
