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Exercitação I

Exercitação I — A autoridade canônica da Epístola aos Hebreus

1. A autoridade canônica da Epístola aos Hebreus. 2. Significação da palavra kaneh: uma cana de medir; o travessão de uma balança. 3. Daí, kanōn, de significação semelhante. 4. Metaforicamente, uma regra moral — em que sentido rectum e canon significam o mesmo — a Escritura como regra — canônica. 5. Antiguidade dessa designação. 6. O cânon da Escritura. 7. O que é necessário para tornar um livro canônico — todos os livros da Sagrada Escritura são iguais quanto à sua origem divina. 8. Refutação da distinção feita pelos judeus entre os livros do Antigo Testamento quanto ao modo de sua composição. 9. Todos são igualmente canônicos — não existe livro canônico de segunda espécie ou grau. 10. A Epístola aos Hebreus é canônica. 11. Oposição dos antigos hereges contra ela. 12. Não recebida na igreja latina até os dias de Jerônimo. 13. Demonstração contra Barônio. 14. Não rejeitada por ninguém daquela igreja. 15. Apenas não aprovada publicamente — a igreja de Roma não é a única que determina quais livros são canônicos. 16. Causas de sua não admissão em Roma — ousadia de alguns ao rejeitar e corromper a Escritura. 17. Por quem esta Epístola foi contestada em tempos recentes. 18. Resposta à objeção derivada da incerteza acerca de seu escritor. 19. Citações do Antigo Testamento que ali não se encontram — resposta. 20. Citações que não serviriam ao propósito do autor — resposta. 21. Suposto apoio a antigas heresias — resposta. 22. Linhas gerais dos argumentos que demonstram sua autoridade canônica — características pelas quais se distinguem os livros de inspiração divina dos demais. 23. Argumento geral acerca dos livros verdadeiramente canônicos. 24. Matéria. 25. Propósito. 26. Estilo. 27. O estilo dos escritores sagrados. 28. Erros de muitos a esse respeito. 29. A natureza da eloquência. 30. Excelência do estilo da Escritura. 31. Sua energia. 32. Sua autoridade. 33. Sua eficácia. 34. Tradição acerca da autoridade desta Epístola — não sujeita, com justiça, a nenhuma objeção. 35. Argumento derivado do autor. 36. Das circunstâncias. 37. Da matéria. 38. Do estilo. 39. Testemunhos. 40. Conclusão.

1. Tendo a autoridade canônica da Epístola aos Hebreus sido posta em dúvida por alguns, devemos, logo ao entrar em nosso assunto, declarar tanto o que pretendemos significar por essa expressão como o claro direito desta Epístola a essa autoridade; pois este é o fundamento de todos os discursos que se seguirão acerca dela e da exposição que pretendemos fazer dela.

2. A palavra grega kanōn, da qual procede o termo “canônico”, parece derivar-se da palavra hebraica kaneh. Esta, assim como algumas vezes designa uma cana aromática que continha substâncias odoríferas e era empregada no culto de Deus — como em Is 43.24: “Não compraste para mim cana aromática com prata”; pois essa “cana preciosa”, que não crescia em sua própria terra, era trazida de longe (Jr 6.20) —, assim também, em sentido geral, significa qualquer espécie de cana (1Rs 14.15; Is 42.3). Daí uma multidão de homens ferozes e perversos, comparados ao crocodilo devorador, cujo esconderijo se encontra entre as canas ou juncos, serem denominados “as feras dos juncos” (Sl 68.30).

Em particular, a palavra significa uma cana transformada em instrumento com o qual mediam suas construções, de seis côvados de comprimento (Ez 40.7; 42.16); e daí, de maneira geral, passou a significar uma regra ou medida.

Além disso, significa o jugum ou scapus, isto é, o travessão de uma balança juntamente com seu fiel, que mantém os pratos em equilíbrio e revela sua retidão ou inclinação. Assim, em Is 46.6: “Pesam a prata na cana”, isto é, segundo o Targum, “na balança”, tomando-se aquilo que sustenta e regula os pratos pela balança inteira. Os rabinos a chamam “a cana da balança”: aquilo que prova, pesa e atribui a cada coisa seu devido peso.

3. Este também é o sentido primeiro e próprio da palavra grega kanōn, “cânon”. Assim, o escoliasta, ao comentar uma passagem de Aristófanes, diz que kanōn é, propriamente, “aquilo que fica sobre os pratos da balança, trazendo-os” — e também as coisas neles pesadas — “à igualdade”; exatamente o mesmo sentido da palavra hebraica kaneh, da qual procede.

Varino, da mesma forma, afirma que propriamente significa “o fiel da balança” e, no uso, uma medida que não se desvia. Assim também Aristóteles diz: “Por aquilo que é reto conhecemos tanto o próprio reto como aquilo que é torto, pois o cânon é juiz de ambos”; empregando aqui a palavra para qualquer espécie de regra ou medida, em correspondência com a outra significação de kaneh no hebraico.

Rectum e canon — aquilo que é reto e a regra — são, portanto, uma e a mesma coisa; uma expressão designa a natureza de algo, e a outra, seu uso e aplicação.

4. Dessa significação original e própria da palavra deriva-se seu emprego metafórico, que é o mais comum; e, nesse uso, ela significa uma regra moral ou uma medida para direção, prova e julgamento.

Por isso, o filósofo chama a lei de “regra da administração”, ou do governo da comunidade política, isto é, aquilo mediante o qual todas as suas partes são dispostas nos lugares que lhes correspondem, pelo qual são reguladas e segundo o qual todas as coisas nela realizadas são provadas e julgadas.

Nesse mesmo sentido, Paulo aplica a palavra à revelação divina em Gl 6.16: “E a todos quantos andarem segundo esta regra”, ou cânon. Com o mesmo propósito ele emprega novamente a mesma expressão em Fp 3.16.

Pois, assim como as palavras da Escritura são em si mesmas “palavras de verdade”, também o próprio escrito é um “escrito reto”; ou, conforme a Septuaginta, “aquilo que está escrito em retidão”, destinado a ser regra e juiz de todas as coisas. “De retidão” é aqui genitivus adjuncti, e não materiae: declara uma propriedade do escrito, não sua matéria; isto é, declara que ele é canônico. Pois já demonstramos que aquilo que é reto e aquilo que é cânon ou regra significam a mesma coisa.

Daí procede que a Escritura, ou Palavra escrita de Deus, sendo em si mesma absolutamente reta e perfeita em todos os aspectos, e tendo sido designada por ele para ser a regra ou cânon da fé e da obediência da igreja — exigindo-as, provando-as, regulando-as e julgando-as inteira e absolutamente —, veio, por excelência, a ser chamada “canônica” ou regular; da mesma maneira que o livro no qual ela está contida veio a ser chamado “a Bíblia”, embora biblia, em si mesmo, seja o nome comum dos livros.

5. E essa designação é de uso antigo na igreja. O sínodo de Laodiceia, que se supõe haver precedido o concílio de Niceia, faz menção dela como de coisa geralmente admitida; pois seus pais decretaram: “Que nenhum salmo particular deve ser recitado ou lido na igreja, nem quaisquer livros não canônicos, mas somente os livros canônicos do Novo e do Antigo Testamento”, cujos nomes acrescentam em sua devida ordem.

Algum tempo antes, também, os bispos que se uniram à igreja de Antioquia na deposição de Paulo de Samósata acusaram-no de ser alguém que, ao introduzir sua heresia, “se afastara do cânon”, ou regra, da Escritura.

Antes deles, Irineu igualmente a denominara “o cânon imutável da verdade”. Crisóstomo, por sua vez, chama a Escritura de “sentença das leis divinas” e também de “a balança exata, o esquadro ou regra e cânon de todas as verdades e deveres”; expressões nas quais ele evidentemente tem em vista o uso e a significação originais da palavra anteriormente explicados.

Por essa razão, exorta seus ouvintes a deixarem de lado a consideração do que este ou aquele homem diz ou pensa e a buscarem “todas essas coisas nas Escrituras”, que constituem o cânon de nossa fé e obediência.

Agostinho escreve: “Demonstrent ecclesiam suam, non in rumoribus Africorum, sed in praescripto Legis, in Prophetarum praedictis, in Psalmorum cantibus; hoc est, in omnibus canonicis sanctorum librorum auctoritatibus”; isto é: “Que demonstrem sua igreja, não pelos rumores dos africanos, mas pela prescrição da Lei, pelas predições dos Profetas e pelos cânticos dos Salmos; isto é, por todas as autoridades canônicas dos santos livros das Escrituras.”

E em outro lugar ele desenvolve amplamente a mesma metáfora da balança e da medida. Do mesmo modo, o próprio Tomás de Aquino reconhece que a Escritura é chamada canônica porque constitui a regra de nosso entendimento nas coisas de Deus; e é uma regra dotada de autoridade sobre as consciências dos homens, obrigando-os à fé e à obediência, porque foi dada por Deus mediante inspiração para esse propósito.

6. Além disso, assim como a Escritura, pelas razões já mencionadas, é, por excelência, chamada canônica, também existe um cânon ou regra que determina quais livros, em particular, pertencem à Sagrada Escritura e são, por essa razão, canônicos.

Assim, Atanásio nos diz que, por Sagrada Escritura, entende libros certo canone comprehensos, isto é, “os livros compreendidos em seu cânon determinado”. E Rufino, depois de enumerar esses livros, conclui: “Hi sunt quos patres intra canonem concluserunt” — “Estes são aqueles que os pais incluíram no cânon”; isto é, aqueles que pertencem aos livros canônicos da Escritura.

Agostinho, com o mesmo propósito, afirma: “Non sine causa tam salubri vigilantia canon ecclesiasticus constitutus est, ad quem certi prophetarum et apostolorum libri pertinerent” — “Não sem boa razão foi estabelecido, mediante tão salutar vigilância, o cânon eclesiástico, ao qual deveriam pertencer determinados livros dos profetas e dos apóstolos.”

Quanto à determinação desse cânon da Escritura, ou seja, quais livros pertencem à Escritura canônica, houve algumas diferenças na igreja desde o tempo do sínodo de Cartago, confirmado pelo concílio realizado in Trullo, em Constantinopla; pois a igreja antiga estivera suficientemente de acordo acerca deles, excetuada a hesitação de algumas poucas pessoas quanto a um ou dois livros do Novo Testamento.

7. A partir da origem e do uso dessa palavra, torna-se evidente o que se pretende dizer por “autoridade canônica da Escritura”, ou de qualquer livro particular que a ela pertença. Duas coisas estão compreendidas nessa expressão: primeiro, a origem e procedência de um livro, que lhe conferem autoridade; segundo, seu propósito e fim, que o tornam canônico.

Quanto à primeira, é necessário que ele seja dado por inspiração imediata de Deus. Sem isso, nenhum livro ou escrito pode, por qualquer meio — seja pela aceitação ou aprovação da igreja, por sua utilidade, pela semelhança de seu estilo ou modo de escrever com os livros que possuem essa qualidade, ou por sua conformidade de matéria ou doutrina com eles —, participar daquela autoridade que serviria de fundamento para sua recepção no cânon.

É o cunho da autoridade do próprio Deus sobre um escrito, ou o fato de ele proceder imediatamente dele, que é suficiente para esse propósito.

Entretanto, nem mesmo isso, por si só, basta para tornar qualquer revelação ou escrito absolutamente canônico no sentido que explicamos. Pode haver uma revelação especial de Deus, ou um escrito produzido por sua inspiração, como aquele enviado por Elias a Jeorão, rei de Judá (2Cr 21.12), que, estando relacionado apenas a uma ocasião particular e recebendo daí autoridade para um fim e propósito específicos, não tenha sido destinado a servir de regra de fé e obediência para a igreja e, por isso, não pertença ao cânon da Escritura.

Mas quando, à origem proveniente da inspiração divina, acrescenta-se também este fim — que o escrito foi destinado pelo Espírito Santo ao uso e à instrução universais e permanentes da igreja —, então qualquer escrito ou livro se torna absoluta e plenamente canônico.

8. Os judeus de épocas posteriores estabelecem alguma diferença entre os livros do Antigo Testamento quanto à sua origem e procedência, ou quanto ao modo da revelação, embora não façam diferença alguma entre eles quanto ao fato de serem todos canônicos.

Ao Livro da Lei atribuem uma forma peculiar de revelação, que denominam “boca a boca” ou “face a face”, expressão que derivam de Nm 12.8, assunto de que trataremos posteriormente.

Afirmam que outros livros procederam do “dom de profecia”. E, assim como distinguem muitas espécies ou graus desse dom, tomando por base os diferentes meios empregados por Deus ao comunicar-se com os profetas — pertencentes às diversas maneiras da revelação divina mencionadas pelo apóstolo em Hb 1.1 —, também dividem esses livros em duas partes: os “Profetas Anteriores”, que compreendem a maior parte dos livros históricos posteriores à Lei; e os “Profetas Posteriores”, nos quais incluem a maioria daqueles que são propriamente chamados profetas.

A origem dos demais livros atribuem à “inspiração pelo Espírito Santo”, chamando-os particularmente Ketuvim, ou “Escritos”, como se todo o cânon e conjunto dos livros não fosse Escritura ou escrito, e como se a inspiração divina não fosse o único meio pelo qual todos eles foram escritos.

Nisso, porém, procedem como em muitas outras coisas. A divisão dos livros do Antigo Testamento em Lei, Salmos e Profetas era muito antiga em sua igreja. Encontramos menção dela em Lc 24.44: “as coisas escritas na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”; isto é, em toda a Escritura canônica.

E é evidente que essa divisão foi tomada da matéria própria dessas partes principais da Escritura. Não conhecendo, ou negligenciando, a razão dessa divisão que haviam recebido por tradição, imaginaram que sua origem estivesse em diferentes modos de revelação e distribuíram arbitrariamente os livros particulares sob os títulos que lhes pareceram convenientes. Isso se evidencia em vários daqueles que incluem entre os Ketuvim, ou Hagiographa, que entre eles recebem menor estima.

Temos, porém, uma regra mais segura, que ao mesmo tempo derruba essa distinção imaginária e iguala perfeitamente todas as partes da Escritura divina quanto à sua origem e procedência.

Pedro chama o conjunto inteiro de “palavra profética” (2Pe 1.19) e, no versículo 20, de “profecia”. Portanto, ser produzido por profecia não pertence exclusivamente a uma parte particular da Escritura, pois essa é uma propriedade do conjunto inteiro.

Paulo, igualmente, denomina toda a Escritura “Escrituras proféticas”, ou escritos dos profetas (Rm 16.26). E, quando perguntou a Agripa se cria nas Escrituras, formulou a questão da mesma maneira: “Crês nos profetas?” (At 26.27); isto é, nas Escrituras escritas pelo Espírito de profecia, ou pela inspiração do “Espírito de Cristo que estava neles” (1Pe 1.11).

Deus, antigamente, falou “nos profetas” (Hb 1.1), revelando-se a eles e neles; e igualmente falou “pela boca de seus santos profetas desde o princípio” (Lc 1.70).

Assim, não esta ou aquela parte, mas “toda a Escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3.16). E nisso todas as suas partes ou livros são absolutamente iguais; pois, na produção do conjunto inteiro, “homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21).

De modo que, quaisquer que tenham sido os diferentes meios dos quais Deus se serviu em qualquer ocasião para comunicar sua mente e sua vontade a algum dos profetas ou escritores da Escritura, foi essa inspiração divina e o serem movidos pelo Espírito Santo, tanto quanto às coisas como quanto às palavras, que os tornou reveladores infalíveis de Deus para a igreja.

E, assim, o fundamento da autoridade canônica dos livros da Escritura é absolutamente o mesmo em todos eles, sem a menor variação proveniente de qualquer diferença de espécie ou de grau.

9. A mesma é a condição deles quanto ao fato de serem canônicos: todos o são igualmente.

Alguns dos antigos empregaram esse termo de maneira ambígua e, por isso, algumas vezes chamaram de canônicos livros que, em sentido absoluto, não o são, pois não foram escritos por inspiração divina nem dados pelo Espírito Santo para constituir parte da regra da fé e da obediência da igreja.

Assim, o concílio de Constantinopla in Trullo confirma tanto os cânones do sínodo de Laodiceia como os do terceiro concílio de Cartago, embora esses dois concílios não concordem nos catálogos de livros que denominam canônicos. Isso não poderia ocorrer, a menos que se admitisse a ambiguidade do termo, sem que ao mesmo tempo se aceitasse uma contradição clara e manifesta.

O próprio concílio de Cartago torna evidente o sentido em que empregava a palavra em seu apêndice ao cânon no qual enumera os livros da Sagrada Escritura. Diz: “Hoc etiam fratri et consacerdoti nostro Bonifacio, vel aliis earum partium episcopis, pro confirmando isto canone, innotescat, quia a patribus ista accepimus legenda; liceat etiam legi passiones martyrum, cum anniversarii dies celebrantur.”

Eles se expressam de maneira ambígua acerca de sua própria determinação e dão a entender que chamavam de canônicos os livros enumerados apenas no sentido de que podiam ser lidos na igreja; privilégio que concedem também aos relatos dos sofrimentos dos mártires, os quais, contudo, ninguém considerou propriamente canônicos.

Epifânio dá testemunho semelhante acerca das epístolas de Clemente. Entretanto, assim como os livros que aquele sínodo acrescentou ao cânon de Laodiceia foram rejeitados por Melitão, Orígenes, Atanásio, Hilário, Gregório de Nazianzo, Cirilo de Jerusalém, Epifânio, Rufino, Jerônimo, Gregório Magno e outros, também sua leitura e citação são declaradas por eles, de modo geral, como destinadas apenas à orientação dos costumes, e não à confirmação da fé.

Do mesmo modo, Paulo citou um verso iâmbico de Menandro — ou, antes, de Eurípides — em 1Co 15.33; um hemistíquio de Arato em At 17.28; e um hexâmetro completo de Epimênides em Tt 1.12.

Atanásio diz: “Non sunt canonici, sed leguntur catechumenis” — “Não são canônicos, mas são apenas lidos aos catecúmenos.” E Jerônimo afirma que a igreja os lê “ad edificationem plebis, non ad auctoritatem ecclesiasticorum dogmatum confirmandam” — “para a edificação do povo, mas não para a confirmação da autoridade dos dogmas eclesiásticos”.

Embora alguns livros verdadeiramente canônicos tenham sido, entre alguns dos antigos, considerados livros de autoridade discutida, e embora alguns escritos certamente apócrifos e rejeitados tenham sido comumente lidos, nem o erro dos primeiros nem a prática dos segundos pode fornecer fundamento algum para admitir uma segunda espécie, ou diferentes classes, de livros propriamente canônicos.

Pois a participação de qualquer livro ou escrito no cânon da Escritura procede, como já demonstramos, unicamente de sua inspiração divina e de haver sido dado pelo Espírito Santo como regra, medida e padrão de fé e obediência para a igreja.

Portanto, quaisquer vantagens ou qualidades que possam recomendar algum escrito, se ele não possui as propriedades mencionadas de inspiração e confirmação divinas, difere em toda a sua espécie, e não apenas em grau, daqueles que as possuem.

Por isso, tal escrito não pode constituir parte da regula regulans, isto é, da regra que regula; pode, no máximo, ser regulatum, aquilo que é regulado. Não possui credibilidade própria por si mesmo nem autoridade autossuficiente, mas é verdadeiro apenas materialmente, em virtude de sua conformidade com aquilo que é absoluta, universal e perfeitamente verdadeiro.

Isso foi bem observado por Lindano: “Impio sacrilegio se contaminant qui in Scripturarum Christianarum corpore quosdam quasi gradus conantur locare; quod unam eandemque Spiritus Sancti vocem, impio humanae stultitiae discerniculo audent in varias impares discerpere et disturbare auctoritatis classes.”

Isto é: “Contaminam-se com a impiedade do sacrilégio aqueles que procuram introduzir, por assim dizer, diferentes graus no corpo das Escrituras; pois, mediante o ímpio critério da insensatez humana, ousam dividir a única e mesma voz do Espírito Santo em diversas classes de autoridade desigual.”

Assim, quaisquer que sejam as diferenças quanto à matéria, ao modo de escrever e à utilidade presente entre os livros que, escritos por inspiração divina, foram entregues como regra da igreja, todos são iguais quanto à sua autoridade canônica, pois todos participam igualmente daquilo que constitui a razão formal dessa autoridade.

E, da mesma maneira, qualquer utilidade ou estima que outros escritos possam possuir na igreja não lhes pode conferir participação alguma naquela autoridade cuja razão formal não lhes pertence.

10. No sentido agora explicado, afirmamos que a Epístola aos Hebreus é canônica, isto é, própria e estritamente canônica, e pertence ao número daqueles livros que os antigos denominavam genuínos, testamentários, católicos, incontestados e reconhecidos; em todos os aspectos, genuínos e católicos.

Para confirmar essa afirmação, declararemos primeiro por quem esta Epístola foi contestada ou posta em dúvida e, em seguida, quais razões foram alegadas para fazê-lo. Removidas essas objeções do caminho, passaremos aos argumentos pelos quais a verdade de nossa afirmação será demonstrada.

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