Amanda
Há dias em que a fé parece caber inteira numa palavra: certeza. Em outros, mal cabe numa oração.
Há dias em que a fé parece caber inteira numa palavra: certeza. Em outros, mal cabe numa oração.
A pessoa continua crendo. Não abandonou Deus, não rejeitou as Escrituras, não deixou de chamar Jesus de Senhor. Mas alguma coisa perdeu o vigor. A oração encurta. O medo cresce. A Bíblia permanece aberta, porém os olhos passam pelas linhas enquanto a mente continua presa ao problema. E cada dificuldade começa a parecer uma pergunta: “Onde Deus está?”
A fé, porém, não é uma lâmpada que permanece acesa sempre com a mesma intensidade.
É mais parecida com fogo.
Há momentos em que a chama sobe, clara e quente. Há outros em que quase tudo parece cinza, e seria fácil concluir que o fogo morreu. Mas basta afastar um pouco as cinzas para encontrar a brasa.
A vida espiritual também conhece essas horas.
Nem sempre a fé desapareceu. Às vezes, ela apenas precisa ser alimentada.
E alimentá-la não significa fabricar uma sensação de certeza, repetir para si mesmo que tudo ficará bem ou sufocar qualquer dúvida antes que ela encontre palavras. A fé bíblica não exige que o coração finja não tremer.
Fortalecer a fé é outra coisa.
É aprender a confiar em Deus quando a emoção não ajuda. É voltar à Palavra quando os pensamentos fazem mais barulho. É orar quando faltam palavras. É obedecer quando ainda não se vê o caminho inteiro. É lembrar quando o medo nos torna esquecidos. É aceitar a mão de outros quando já não conseguimos caminhar sozinhos. É permanecer quando seria mais fácil desistir.
Talvez nenhuma frase da Bíblia descreva melhor essa mistura de fé e fraqueza do que a oração desesperada de um pai diante de Jesus:
“Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Mc 9.24).
Ele não diz: “Eu não creio”.
Também não diz: “Minha fé é perfeita”.
Diz as duas coisas que tantas vezes existem dentro de nós ao mesmo tempo: creio — e ainda preciso de ajuda para crer.
É daí que este estudo começa.
Não da fé triunfante que nunca vacila, mas da fé real: aquela que conhece noites, perguntas, atrasos, lágrimas e silêncios — e, mesmo assim, continua procurando Deus.
A pergunta, então, não é apenas se você tem fé.
É esta:
Como alimentar a fé quando ela começa a enfraquecer?
1. Alimente sua fé com a Palavra de Deus
A fé tem ouvidos.
Paulo escreve que ela vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo (Rm 10.17). Antes de ser coragem para enfrentar o mundo, a fé é atenção: alguém falou, nós ouvimos; Deus prometeu, nós confiamos.
Uma fé alimentada apenas pelas circunstâncias logo passa fome. As circunstâncias mudam depressa. Hoje a porta se abre; amanhã, fecha. Hoje o coração repousa; amanhã, uma notícia basta para inquietá-lo. Se nossa confiança depender somente daquilo que vemos, ela terá a mesma estabilidade do horizonte visto de um barco.
A Palavra introduz outra voz nessa instabilidade.
Donald Whitney considera a assimilação das Escrituras indispensável à saúde da vida cristã, porque é nelas que conhecemos quem Deus é, quem Cristo é, qual é a vontade divina e como devemos viver. Não basta, portanto, possuir a Bíblia; é possível ter muitas Bíblias em casa e pouca Bíblia dentro de nós (Whitney, Spiritual Disciplines for the Christian Life: pp. 22–23).
Mas há uma diferença importante entre passar os olhos pelas Escrituras e permitir que as Escrituras passem por nós.
M. Robert Mulholland distingue a leitura meramente informativa da leitura formativa. Na primeira, aproximamo-nos do texto procurando dados, respostas e conteúdos que possamos dominar e utilizar. Na segunda, abrimo-nos para que a Palavra confronte nossos pressupostos e participe da transformação da vida (Mulholland, Shaped by the Word: pp. 49–53).
A leitura formativa acrescenta uma pergunta à simples compreensão do texto.
Em vez de apenas:
→ O que este texto diz?
podemos avançar:
→ O que este texto revela sobre Deus?
→ O que ele expõe em mim?
→ Que promessa devo aprender a confiar?
→ Que verdade preciso carregar comigo quando fechar a Bíblia?
O Salmo 1 compara aquele que medita na instrução de Deus a uma árvore plantada junto às águas (Sl 1.1–3). A imagem é silenciosa. Não se ouve a raiz crescer. Não há espetáculo debaixo da terra. Mas enquanto ninguém vê, a água sobe, a árvore permanece e, no tempo certo, o fruto aparece.
Nem toda leitura produzirá uma emoção intensa. Nem todo capítulo parecerá extraordinário. Há manhãs em que um versículo nos atravessa; há outras em que lemos e parece que nada aconteceu. Ainda assim, raiz também cresce no silêncio. A formação cristã é frequentemente obra profunda antes de ser obra visível.
Para fortalecer a fé, não leia apenas mais. Leia com permanência.
Faça esse movimento com um trecho curto:
Leia um trecho pequeno com atenção.
Identifique uma verdade sobre Deus.
Guarde uma frase ou ideia central.
Retorne a ela ao longo do dia.
Pergunte como essa verdade deve alterar sua maneira de pensar, temer, esperar ou agir.
Leia → medite → retenha → viva.
Josué deveria meditar na instrução divina “dia e noite” (Js 1.8). O salmista faz o mesmo (Sl 1.2). A repetição não existe porque Deus tenha dificuldade de falar, mas porque nós temos facilidade de esquecer.
Grande parte de nossa fraqueza espiritual começa justamente aí. Esquecemos quem Deus é e depois interpretamos a vida como se ele não fosse aquilo que revelou ser.
Quando o medo disser que tudo está perdido, a Palavra responde. Quando a culpa disser que não há graça, a Palavra responde. Quando a pressa disser que Deus se atrasou, a Palavra responde. Quando o coração fizer de uma circunstância a verdade suprema do universo, a Palavra põe essa circunstância novamente em seu tamanho.
Não se trata de usar versículos como amuletos contra dias difíceis. Trata-se de deixar que a voz de Deus tenha a última palavra sobre aquilo que sentimos.
A fé não vive de olhar continuamente para si mesma. Vive de ouvir aquele em quem confiou.
Quando perceber que sua fé está fraca, antes de medir quanto ainda resta dela, abra novamente a Escritura. Mesmo que a chama esteja pequena, a Palavra continua sendo um dos lugares em que Deus colocou lenha ao alcance de nossas mãos.
2. Transforme sua incredulidade em oração
Há uma oração na Bíblia que parece feita para os dias em que a fé manca. Um pai leva o filho a Jesus, ouve que “tudo é possível àquele que crê” e responde quase num grito: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Mc 9.24).
Ele não espera a incredulidade desaparecer para então orar. Ele transforma a própria incredulidade em oração.
Muitas pessoas imaginam que precisam chegar diante de Deus com a fé já arrumada: sem dúvidas, sem medo, sem hesitação. Como se a oração fosse uma sala reservada aos espiritualmente fortes. O homem de Marcos 9 entra por outra porta. Leva a Jesus exatamente aquilo que lhe falta.
→ Tenho fé — mas ela é pequena.
→ Confio — mas ainda temo.
→ Sei que podes — mas meu coração vacila.
→ Ajuda-me.
A oração começa, muitas vezes, onde termina nossa capacidade de parecer fortes.
Donald Whitney observa que aprender a orar deveria trazer esperança justamente a quem considera sua vida de oração fraca. Ninguém precisa chegar pronto. Assim como uma criança aprende progressivamente a falar, o cristão aprende a orar orando; por isso, a súplica dos discípulos continua tão necessária: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11.1) (Whitney, 2014, pp. 85–86).
Isso libera a oração da necessidade de parecer forte. Você não precisa encontrar palavras extraordinárias, sentir antes aquilo que pretende pedir nem esconder de Deus o medo de que sua oração não seja respondida.
Orações assim não impressionam ninguém. Nem precisam. Deus não pediu que a oração fosse uma apresentação.
Richard Foster chama a oração de caminho de transformação porque nela não apenas levamos pedidos a Deus; também somos levados para mais perto dele. Quanto mais essa aproximação acontece, mais percebemos nossa necessidade e somos conduzidos à conformidade com Cristo (Foster, Celebration of Discipline: p. 33).
Orar não é apenas falar até que Deus mude uma circunstância. Às vezes, enquanto pedimos que a circunstância mude, Deus começa a mudar aquele que pede.
A oração leva o problema a Deus — e leva também a nós mesmos.
Paulo escreve: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus” (Fp 4.6). Aquilo que antes circulava apenas dentro da mente passa a ser apresentado diante de Deus.
A preocupação repete.
A oração entrega.
A preocupação imagina dezenas de futuros.
A oração volta ao Deus que já está em todos eles.
Isso não significa que quem ora nunca mais sentirá ansiedade, dúvida ou temor. Significa que esses sentimentos deixam de ser quartos fechados onde conversamos apenas conosco. Abrimos a porta e permitimos que Deus entre na conversa.
Quando a fé vacilar:
Diga a Deus exatamente o que está temendo.
Confesse onde sua confiança está vacilando.
Lembre diante dele uma promessa das Escrituras.
Peça ajuda para crer e obedecer hoje.
Volte a essa oração sempre que o medo retornar.
Não é preciso esperar que a alma fique calma para começar. Em Lc 18.1, Jesus ensina seus discípulos a orar sempre e a não desanimar. A oração aparece justamente como resposta ao desânimo, não como atividade reservada aos momentos em que o desânimo já passou.
Quando a fé estiver pequena, não a esconda. Leve a Deus exatamente aquilo que está faltando: “Quero confiar, mas meu coração ainda treme. Ajuda-me.”
Fortalecer a fé pode começar com apenas quatro palavras:
“Ajuda-me a crer.”
3. Obedeça ao que você já sabe
Há uma forma de pobreza espiritual que consegue conviver com muita informação bíblica: saber e não fazer.
Tiago compara essa condição a alguém que olha o próprio rosto no espelho, vai embora e logo se esquece de como era (Tg 1.22–25). O problema não está no espelho. Ele cumpriu perfeitamente sua função. Mostrou. Revelou. Tornou visível. O problema começa quando aquilo que foi visto não acompanha a pessoa para fora do quarto.
Também podemos fazer isso com a Bíblia.
Lemos sobre perdão e continuamos alimentando ressentimento. Lemos sobre generosidade e adiamos a mão aberta. Lemos sobre reconciliação e esperamos que o outro dê o primeiro passo. Lemos sobre oração e fechamos a Bíblia sem orar.
A Palavra entrou pelos olhos, atravessou a mente — mas não chegou aos pés.
Tiago é incisivo: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes” (Tg 1.22). A fé bíblica não termina quando compreendemos uma verdade. Nesse ponto, começa a pergunta mais incômoda:
O que farei porque isso é verdade?
Richard Foster observa que, na espiritualidade bíblica, ouvir Deus e obedecer não são movimentos independentes. A própria meditação cristã se orienta para uma resposta concreta: escutar a Palavra e submetê-la à vida. Nas Escrituras, encontro com Deus e mudança de comportamento permanecem unidos (Foster, 1998, pp. 15–18).
Não significa que obedecer seja comprar o amor de Deus.
Jesus não diz: “Obedeçam para que eu comece a amá-los”. Em Jo 14, a obediência aparece dentro de uma relação de amor: “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama” (Jo 14.21). A obediência cristã não é salário pago por uma graça futura. É resposta à graça já recebida.
→ legalismo: obedeço para ser aceito;
→ evangelho: porque fui alcançado por Deus, aprendo a obedecer.
Whitney insiste nessa diferença ao tratar as disciplinas espirituais como meios, não como fins. Práticas como ler, meditar, orar e servir são ações concretas, mas seu objetivo não é produzir uma ficha religiosa impecável; é cultivar uma vida progressivamente semelhante a Cristo. Separadas da graça e transformadas em desempenho, elas perdem seu propósito (Whitney, 2014, pp. 6–10).
É aqui que a obediência fortalece a fé.
Hebreus diz que Abraão, “quando chamado, obedeceu e dirigiu-se a um lugar que mais tarde receberia como herança, embora não soubesse para onde estava indo” (Hb 11.8). A ordem é clara: Deus chamou; Abraão creu; por isso, partiu.
Ele não recebeu primeiro o mapa inteiro.
Recebeu uma palavra.
A fé fez o restante do caminho com os pés.
Palavra recebida → confiança → obediência → fé exercitada.
Há momentos em que queremos mais esclarecimento de Deus quando o que nos falta não é nova informação, mas coragem para praticar aquilo que já ficou claro.
Você não precisa descobrir hoje qual será a vontade de Deus para os próximos dez anos. Já pode existir uma obediência menor, mais próxima e mais silenciosa diante de você.
Perdoar alguém.
Abandonar um hábito que você sabe que precisa abandonar.
Pedir perdão.
Cumprir uma promessa.
Dizer a verdade.
Recomeçar uma disciplina negligenciada.
Servir alguém sem esperar reconhecimento.
Não é preciso obedecer dez quilômetros de uma vez. A vida cristã quase nunca nos é entregue assim. Deus costuma colocar luz suficiente para o próximo passo.
Obedecer não significa dizer: “Veja, Deus, como sou forte”.
Significa dizer:
“Porque confio em ti, darei este passo.”
A fé que nunca sai do pensamento corre o risco de tornar-se apenas opinião religiosa. Mas quando a Palavra encontra mãos, escolhas, agenda, dinheiro, língua, perdão e caminhos, aquilo que confessamos começa a adquirir carne.
Fortalecer a fé hoje pode exigir menos uma verdade nova que a obediência à última verdade que Deus já lhe mostrou nas Escrituras.
4. Lembre-se do que Deus já fez
Há noites em que a memória parece trabalhar contra a fé.
Ela recolhe a palavra dura que alguém disse, a porta que se fechou, o erro que cometemos, a oração cuja resposta ainda não chegou. Depois coloca tudo sobre a mesa e conclui: talvez amanhã seja ainda pior.
O Salmo 77 nasce dentro de uma noite assim.
O salmista procura Deus e não encontra consolo. Sua alma recusa ser consolada. Ele se lembra de Deus e geme. Depois, as perguntas começam a escurecer ainda mais o quarto:
“Será que o Senhor vai nos rejeitar para sempre?”
“Jamais tornará a mostrar-nos o seu favor?”
“Desapareceu para sempre o seu amor?” (Sl 77.7–8).
A dor do presente começa a reescrever toda a história de Deus.
Não mudam primeiro as circunstâncias. Não chega uma notícia. Não aparece uma solução. O que muda é a direção da memória:
“Recordarei os feitos do SENHOR; recordarei os teus antigos milagres. Meditarei em todas as tuas obras” (Sl 77.11–12).
O salmista continua no mesmo lugar — mas deixa de olhar apenas para aquilo que está acontecendo agora e começa a lembrar-se de quem Deus já demonstrou ser.
Richard Foster observa que a repetição exerce papel formativo justamente porque dirige repetidamente a mente para determinada realidade; não por acaso, a tradição bíblica insiste em recordar e recitar os feitos de Deus. Aquilo que voltamos a contemplar começa a formar nossos hábitos de pensamento (Foster, 1998, p. 64).
Israel precisava aprender isso continuamente.
Quando atravessasse o Jordão, pedras seriam levantadas para que os filhos perguntassem o que significavam (Js 4.6–7). Quando comesse e se fartasse na terra prometida, deveria cuidar para não esquecer de Yahweh (Dt 8.10–14). Quando chegasse a Páscoa, uma história antiga deveria novamente ocupar a mesa.
Deus cercou seu povo de memória.
Porque esquecer também é um perigo espiritual.
Esquecemos a provisão passada e a necessidade presente parece inédita. Esquecemos o livramento e o medo volta a falar como se jamais tivéssemos sido socorridos. Esquecemos a graça recebida e começamos a interpretar Deus somente pelo capítulo difícil que estamos vivendo.
Donald Whitney chama atenção para a ordem de 1Sm 12.24: servir fielmente a Deus está ligado a considerar “as grandes coisas que ele fez”. Para Whitney, recordar aquilo que Deus já realizou devolve perspectiva quando o serviço se torna pesado e a disposição espiritual esfria (Whitney, 2014, p. 146).
A memória, então, pode servir à fé — não como nostalgia, mas como testemunha do que Deus já fez.
O medo diz: “E se Deus não cuidar de mim?”
A memória responde: “Já houve estrada antes, e não caminhei sozinho.”
O medo pergunta: “E se eu não suportar?”
A memória recorda: “Também pensei isso em outra noite.”
O medo olha para aquilo que ainda não aconteceu.
A memória aponta para aquilo que Deus já fez.
Lm 3.21 oferece a mesma disciplina. Depois de descrever sofrimento profundo, o poeta traz à memória aquilo que pode dar esperança: o amor do Senhor, suas misericórdias e sua fidelidade renovada a cada manhã (Lm 3.21–23).
A situação ainda dói. Mas a dor já não possui sozinha o direito de interpretar Deus.
Quando a fé enfraquecer, pare e pergunte:
Onde Deus já me sustentou quando eu julgava que não conseguiria continuar?
Que oração já vi respondida?
Que porta fechada mais tarde revelou alguma providência que eu não enxergava?
Que texto das Escrituras já me sustentou numa época difícil?
Acima de tudo: o que Deus já fez por mim em Cristo?
A última pergunta é a mais importante.
Nossa confiança não repousa finalmente numa coleção de pequenas coincidências felizes de nossa biografia. Há um ato de Deus que permanece mesmo quando não conseguimos interpretar nenhum acontecimento recente: Cristo morreu e ressuscitou.
A cruz já aconteceu.
O túmulo já ficou vazio.
A graça já entrou na história.
A fé cristã olha para trás para conseguir olhar para frente.
Whitney sugere o diário espiritual como lugar para registrar as obras e os caminhos de Deus, juntamente com orações, acontecimentos e percepções bíblicas (Whitney, 2014, p. 249). Pode ser apenas uma página com alguns memoriais:
→ uma oração respondida;
→ uma provisão inesperada;
→ uma passagem bíblica decisiva;
→ uma ocasião em que você quase desistiu e permaneceu;
→ uma misericórdia que não deseja esquecer.
Escreva para o dia em que sua memória estiver cansada.
Haverá manhãs em que será fácil falar da fidelidade de Deus. E haverá noites em que precisaremos abrir os velhos memoriais e dizer à própria alma: “Isto aconteceu. Deus esteve aqui.”
No Salmo 77, recordar não apaga a noite.
Mas acende uma lâmpada dentro dela.
A fé pode ser fortalecida exatamente assim: não recebendo antecipadamente a resposta para amanhã, mas lembrando-se de que o Deus de amanhã é o mesmo Deus que já nos sustentou ontem.
5. Não tente manter a fé sozinho
Há pesos que uma pessoa consegue carregar sozinha. Uma sacola, uma mala, talvez uma caixa. Mas há pesos que parecem ter sido feitos para quatro mãos.
A fé também conhece esse limite.
É possível orar sozinho. Ler a Bíblia sozinho. Meditar sozinho. Há desertos interiores pelos quais ninguém poderá caminhar em nosso lugar. Mas o Novo Testamento nunca imaginou a vida cristã como uma sucessão de indivíduos tentando chegar sozinhos ao fim.
Nunca foi solitária.
Em Hb 10.23–25, três movimentos aparecem quase sem intervalo:
→ retenhamos firmemente a esperança;
→ consideremo-nos uns aos outros;
→ encorajemo-nos.
Isso é significativo. O autor poderia simplesmente ordenar: “Permaneça firme”. Em vez disso, coloca a perseverança dentro de uma comunidade.
Donald Whitney observa que as próprias imagens neotestamentárias da igreja — rebanho, corpo, edifício, família — tornam difícil imaginar um cristianismo essencialmente isolado. Hb 10.25, para ele, não trata a reunião dos cristãos como acessório de uma vida espiritual privada já completa; há dimensões da vida cristã que somente existem quando os crentes efetivamente se encontram (Whitney, 2014, p. 111).
Atos descreve os primeiros cristãos perseverando no ensino dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2.42). Eles ouviam, comiam, oravam e repartiam juntos. Não eram atividades casuais colocadas lado a lado; era uma forma de vida.
A palavra usada para essa comunhão não descreve simplesmente pessoas ocupando o mesmo salão. A comunhão cristã se manifesta em participação, vínculo e partilha concreta. Em Atos, ela chega até aos bens, às refeições e ao cuidado das necessidades uns dos outros.
Estar cercado de pessoas não significa necessariamente viver em comunhão.
É possível entrar numa igreja, sentar, cantar, ouvir e sair sem que ninguém saiba onde nossa fé está sangrando.
Comunhão exige mais.
Exige que, em algum lugar do corpo de Cristo, alguém conheça pelo menos parte verdadeira de nossa história.
Alguém diante de quem possamos dizer a verdade: “Estou cansado. Estou começando a duvidar. Ore por mim.”
A força da igreja não está em fingir que todos chegaram fortes.
Está também em permitir que os fracos sejam carregados.
Foster reproduz uma imagem antiga especialmente bela: carvões reunidos aquecem uns aos outros; separados, perdem depressa o calor. Seu ponto é simples: mesmo vidas espiritualmente modestas podem fortalecer umas às outras quando permanecem juntas (Foster, 1998, pp. 171–172).
Hb 3.13 manda que os cristãos se encorajem “uns aos outros” para que nenhum seja endurecido pelo engano do pecado.
Há coisas sobre nós que enxergamos mal justamente porque estamos perto demais. Outros cristãos podem perceber o orgulho que chamamos de convicção, o cansaço que chamamos de força ou o medo que chamamos de prudência.
Comunhão não é apenas receber companhia. É aceitar correção, receber consolo e repartir cargas — hoje sustentando alguém, amanhã permitindo que alguém nos sustente.
Isso exige humildade. Gostamos de ajudar; nem sempre gostamos de precisar de ajuda. Há uma pequena vaidade na autossuficiência espiritual: queremos ser sustentados por Deus, contanto que ele não use outra pessoa para fazê-lo.
Mas frequentemente Deus usa pessoas: uma conversa, uma oração, uma presença silenciosa na hora certa.
Se você está tentando fortalecer a fé apenas acrescentando práticas individuais — mais leitura, mais oração, mais silêncio, mais esforço — talvez falte outra coisa: alguém presente.
Se sua fé está enfraquecida:
Não desapareça justamente quando estiver pior.
Procure uma comunidade cristã em que Cristo e as Escrituras estejam no centro.
Escolha pelo menos uma pessoa madura com quem possa falar com verdade.
Peça oração de maneira específica.
Faça também a pergunta inversa: “Quem precisa que eu permaneça perto dele?”
O objetivo da comunhão não é criar dependência emocional uns dos outros.
É ajudar uns aos outros a depender de Deus.
Ninguém crê por você. Ninguém pode obedecer em seu lugar. Ninguém entrará em seu coração e fará sua oração.
Mas alguém pode caminhar ao seu lado enquanto você faz tudo isso.
Quando nossas mãos já não conseguem apertar a corda com força, Deus nem sempre faz a corda descer do céu.
Ele envia outra mão.
6. Deixe as provações amadurecerem sua fé
Ninguém pede uma tempestade para aprender a navegar.
Quando ela chega, porém, descobre-se depressa o que o mar tranquilo escondia: onde o barco é frágil, onde a mão treme, onde a âncora realmente alcança o fundo.
A Bíblia nunca chama o sofrimento de agradável. Tiago não diz que a provação é boa porque dói. Pedro não pede que seus leitores gostem da perseguição. Paulo não transforma lágrimas em poesia barata.
O ponto bíblico é outro: a dor não precisa passar por nós sem produzir nada.
Tiago escreve: “Considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança” (Tg 1.2–3).
A alegria não está na ferida.
Está naquilo que Deus pode formar enquanto ela cicatriza.
Tiago descreve um processo:
provação → fé testada → perseverança → maturidade.
Nem toda dificuldade nos amadurece automaticamente. A mesma dor pode tornar uma pessoa mais paciente e outra mais amarga. Sofrer, por si só, não santifica ninguém.
A provação amadurece a fé quando, dentro dela, continuamos voltando para Deus: orando sem compreender, obedecendo sem enxergar o resultado e recusando transformar a demora em acusação contra o caráter de Deus.
Donald Whitney observa que confiança e descanso pertencem à vida cristã, mas não eliminam disciplina, conflito e perseverança. O crescimento em piedade acontece num caminho em que ainda existe luta; esperar uma espiritualidade sem resistência produz frustração em vez de maturidade (Whitney, 2014, pp. 296–297).
A presença da dificuldade não significa automaticamente a ausência de Deus. A dor pode nascer de pecado, injustiça, doença ou da fragilidade de um mundo que geme; ainda assim, Deus pode formar perseverança no meio dela.
Pedro escreve a cristãos entristecidos “por todo tipo de provação” e compara a fé deles ao ouro submetido ao fogo (1Pe 1.6–7).
O fogo não cria ouro.
Revela-o.
A provação faz perguntas que os dias fáceis raramente fazem:
→ Confio em Deus apenas quando compreendo?
→ Obedeço apenas quando a obediência custa pouco?
→ Oro apenas quando espero resposta rápida?
→ Minha paz depende da presença de Deus ou da ausência de problemas?
Paulo descreve processo semelhante em Rm 5.3–5:
sofrimento → perseverança → caráter aprovado → esperança.
Em Rm 5, a esperança aparece depois de um caminho. Antes da provação dizemos: “Deus sustentará”. Depois de atravessá-la com ele, sabemos um pouco melhor o que essa promessa significa.
Isso não autoriza romantizar a dor.
Se você está sofrendo, não precisa fingir que gosta.
Jesus chorou; Paulo conheceu pressão acima de suas forças (2Co 1.8); os salmos perguntam “até quando?”. A maturidade cristã não transforma o coração em pedra.
Fé madura também chora — mas não precisa virar as costas para Deus.
Quando atravessar uma provação, algumas perguntas podem ajudar:
O que esta situação está revelando sobre mim?
Que verdade sobre Deus preciso recordar agora?
Há alguma obediência que esta dificuldade tornou mais difícil — e, justamente por isso, mais necessária?
Que tipo de pessoa posso me tornar se atravessar isto com Deus?
Quem pode caminhar comigo enquanto eu atravesso?
E uma pergunta mais difícil:
O que preciso parar de exigir que Deus me explique antes de continuar confiando nele?
Nem sempre teremos a resposta. Jó, Habacuque e Paulo conheceram perguntas que não foram resolvidas da maneira que desejavam.
A fé amadurecida não é aquela que finalmente entende todos os porquês.
É aquela que aprendeu que pode continuar confiando mesmo quando alguns porquês permanecem sem resposta.
Caráter leva tempo. Paciência precisa esperar; perseverança precisa atravessar a vontade de desistir; coragem precisa encontrar o medo.
Não peça sofrimento para aprender essas coisas.
Quando o sofrimento vier, não desperdice a escola.
Peça alívio. Procure ajuda. Chore. Ore para que a porta se abra.
Enquanto a porta não abre, peça também:
“Senhor, não permitas que eu saia daqui apenas ferido. Faz-me sair mais parecido com Cristo.”
Porque algumas tempestades terminam deixando destroços.
Outras deixam marinheiros.
7. Fixe os olhos em Jesus
Todas essas práticas deixam uma pergunta decisiva:
Para onde estamos olhando enquanto fazemos tudo isso?
É possível transformar até boas disciplinas em espelhos.
Lemos a Bíblia e começamos a medir quanto lemos. Oramos e avaliamos a qualidade de nossas orações. Obedecemos e contamos nossas vitórias. Perseveramos e admiramos nossa resistência.
Sem perceber, podemos começar tentando fortalecer a fé e terminar olhando continuamente para nós mesmos.
Hebreus aponta em outra direção.
Depois de apresentar uma longa galeria de homens e mulheres que viveram pela fé, o autor não termina dizendo: “Olhem para Abraão”. Nem: “Sejam tão corajosos quanto Moisés”. Nem: “Tentem alcançar a fé dos grandes heróis”.
Ele diz, em essência:
Corram olhando para Jesus (Hb 12.1–2).
A imagem é de uma corrida. Há peso para abandonar. Há pecado que embaraça. Há um percurso diante de nós. Há necessidade de perseverança.
Mas o corredor não deve passar a prova inteira olhando para as próprias pernas.
O movimento expresso em Hb 12.2 é forte: o verbo usado para “olhar” carrega a ideia de afastar o olhar de uma coisa para fixá-lo em outra. O foco deixa aquilo que cerca o corredor e se concentra em Jesus (Walker, The Letter to the Hebrews: pp. 440–441).
Uma fé excessivamente preocupada consigo mesma se torna cansada.
“Minha fé é suficiente? Por que ainda tenho dúvidas? Por que continuo lutando?”
Algumas dessas perguntas são legítimas. Mas, quando ocupam todo o campo de visão, fazemos da própria fé o objeto da fé.
A Bíblia não manda confiar em nossa capacidade de confiar.
Manda confiar em Cristo.
Hebreus o chama de aquele que leva a fé ao seu cumprimento. Ele não aparece apenas no fim da corrida, esperando corredores exaustos. O próprio caminho da fidelidade foi percorrido por ele.
Jesus conheceu oposição, rejeição, vergonha, sofrimento e cruz — e permaneceu.
Hb 12.2 coloca diante do leitor esse contraste extraordinário: a cruz estava diante dele, mas havia também uma alegria diante dele. Ele suportou a primeira olhando para além dela.
Cruz → perseverança → alegria → trono.
O sofrimento não foi a última palavra.
O texto termina com Cristo assentado à direita do trono de Deus.
Ao mandar olhar para Jesus, Hebreus não oferece apenas um exemplo inspirador de resistência. Aponta para aquele que atravessou o sofrimento, venceu e agora ocupa o lugar de autoridade.
O cristão cansado não olha para um companheiro derrotado.
Olha para o Cristo crucificado e exaltado.
Esse foco impede que a disciplina espiritual se transforme num programa de aperfeiçoamento pessoal.
Donald Whitney faz uma distinção necessária: disciplinas espirituais podem servir ao crescimento cristão, mas não são a fonte da força espiritual. Elas não conseguem fabricar semelhança com Cristo por si mesmas. É o Espírito quem age por meio delas, conduzindo o cristão para mais perto de Jesus e formando nele o caráter de Jesus (Whitney, 2014, p. 291).
→ a Bíblia não substitui Cristo; leva-nos a conhecê-lo;
→ a oração não substitui Cristo; leva-nos à sua presença;
→ a obediência não substitui Cristo; responde ao seu senhorio;
→ a comunhão não substitui Cristo; reúne seu corpo;
→ a perseverança não substitui Cristo; segue aquele que perseverou primeiro.
Os meios importam. Cristo é o fim.
Hebreus 12.3 acrescenta algo especialmente precioso para quem está cansado: considere Jesus, aquele que suportou tamanha oposição, para que você não se canse nem desanime.
O antídoto dado pelo texto ao desânimo é contemplação: considerar o que Cristo sofreu, por que permaneceu e onde está agora.
O verbo usado nesse versículo significa ponderar, pensar cuidadosamente, colocar diante da mente para avaliação. A intenção é clara: lembrar deliberadamente da perseverança de Cristo impede que o cansaço interior tenha a última palavra (Walker, 2014, pp. 443–444).
Quando a fé enfraquecer, pare de perguntar apenas:
“Quanto de fé ainda existe dentro de mim?”
Pergunte antes:
“Quem é aquele em quem estou crendo?”
Olhe novamente:
A força da fé não está finalmente no tamanho da mão que se estende.
Está naquele a quem essa mão se agarra.
Quando estiver cansado:
Pare de medir sua fé por alguns instantes.
Recorde quem Jesus é.
Considere o que ele já suportou.
Lembre-se de onde ele está agora.
Dê o próximo passo olhando para ele.
Se a corrida estiver lenta, continue. Em Hb 12, o acento não recai na velocidade, mas na perseverança: corra o percurso que está diante de você, olhando para Jesus.
Conclusão
Fortalecer a fé não é aprender a nunca tremer.
É aprender para onde voltar quando trememos.
A Bíblia não trata a fé como um sentimento que precisa permanecer sempre intenso. Ela a apresenta como confiança que é alimentada, exercitada, lembrada, compartilhada, provada — e continuamente dirigida para Cristo.
A Palavra alimenta.
A oração aproxima.
A obediência exercita.
A memória recorda.
A comunhão sustenta.
A provação amadurece.
Cristo mantém os olhos no lugar certo.
Essas sete maneiras não são degraus para chegar a Deus nem uma fórmula para eliminar toda dúvida. São caminhos bíblicos de permanência: meios pelos quais continuamos voltando àquele em quem confiamos.
A fé cresce muitas vezes assim: sem ruído, sem espetáculo, sem percebermos exatamente em que momento a raiz ficou mais profunda.
Uma árvore não passa a noite medindo a própria raiz.
Ela permanece junto às águas.
Não passe a vida examinando ansiosamente se sua fé já ficou suficientemente forte. Aproxime-se repetidamente das fontes pelas quais Deus a alimenta.
A chama pode estar baixa e a oração sair em poucas palavras. Pequena, porém, não significa morta.
O homem de Mc 9 não chegou a Jesus com uma fé impecável. Chegou com uma frase partida ao meio:
“Eu creio.”
E logo depois:
“Ajuda-me na minha falta de fé.”
Algumas das orações mais maduras da vida cristã continuam tendo essas duas metades.
Porque fé forte não é aquela que finalmente deixou de precisar de ajuda.
É aquela que aprendeu de quem pedir ajuda.
Quando não souber mais onde colocar os olhos, volte ao centro de tudo:
olhe para Jesus.
Obras citadas neste artigo
FOSTER, Richard J. Celebration of Discipline: The Path to Spiritual Growth. 20th Anniversary ed. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1998.
MULHOLLAND JR., M. Robert. Shaped by the Word: The Power of Scripture in Spiritual Formation. Rev. ed. Nashville: Upper Room Books, 2000.
WALKER, David Harris. The Letter to the Hebrews. The Learner’s Greek New Testament Series. Kindle ed. David Harris Walker, 2014.
WHITNEY, Donald S. Spiritual Disciplines for the Christian Life. Revised and Updated. Colorado Springs, CO: NavPress, 2014.
