Ir para o conteúdo principal

JSON Variables

Hebreus 5

Hebreus 5.1 — O sumo sacerdote tomado dentre os seres humanos e constituído em favor deles diante de Deus

5.1 Pois todo sumo sacerdote, tomado dentre os seres humanos, é constituído em favor dos seres humanos nas coisas referentes a Deus,[1] para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados.[2]

“Pois todo sumo sacerdote, tomado dentre os seres humanos, é constituído em favor dos seres humanos nas coisas referentes a Deus” — humanidade, representação e constituição sacerdotal

Crítica textual. A primeira parte do versículo — Πᾶς γὰρ ἀρχιερεὺς ἐξ ἀνθρώπων λαμβανόμενος ὑπὲρ ἀνθρώπων καθίσταται τὰ πρὸς τὸν θεόν — não apresenta no aparato da NA28 variante que afete sua tradução. A única variante registrada pela edição crítica em 5.1 ocorre posteriormente, junto à coordenação δῶρά τε καὶ θυσίας. Assim, as questões desta primeira cláusula são predominantemente sintáticas e lexicais.

Exegese. Γάρ, “pois”, impede que 5.1 seja tratado como começo independente de assunto. O versículo fornece fundamento para a caracterização do sumo sacerdote desenvolvida em 4.14–16. O autor acaba de apresentar Jesus como sumo sacerdote capaz de se compadecer das fraquezas humanas; agora formula, em termos gerais, aquilo que caracteriza o sumo sacerdócio que servirá de ponto de comparação para 5.1–10. A conexão é suficientemente importante para conservar “Pois” no início da tradução (Attridge, 1989: 142; Ellingworth, 1993: 271–273).

Πᾶς ἀρχιερεύς, literalmente “todo/cada sumo sacerdote”, introduz uma proposição genérica. No contexto imediato, porém, o referente não é qualquer sacerdócio conhecido no mundo antigo, mas o sumo sacerdócio israelita que culminará na referência explícita a Aarão em 5.4. Tampouco é necessário incluir Cristo indistintamente dentro da expressão “todo sumo sacerdote”: 5.1–4 descreve o sacerdócio humano que será colocado em relação com o sacerdócio de Cristo nos vv. 5–10. “Todo sumo sacerdote” conserva a formulação abrangente sem antecipar essa distinção na própria tradução.

Ἐξ ἀνθρώπων λαμβανόμενος significa literalmente “sendo tomado dentre os seres humanos”. Λαμβανόμενος é particípio presente passivo de λαμβάνω. Algumas traduções interpretam o verbo como “escolhido”, possibilidade perfeitamente compreensível no contexto, sobretudo à luz do chamado divino explicitado em 5.4. A tradução “tomado”, contudo, permanece mais próxima da forma lexical e evita inserir já em 5.1 um agente que o texto não nomeia nesta cláusula. O passivo prepara a afirmação posterior de que ninguém assume por si mesmo a honra sacerdotal, mas é chamado por Deus.

A repetição ἐξ ἀνθρώπων [...] ὑπὲρ ἀνθρώπων é deliberadamente equilibrada: o sumo sacerdote é tomado “dentre os seres humanos” e constituído “em favor dos seres humanos”. A primeira expressão indica sua procedência; a segunda, sua função representativa. Por isso, a presente tradução conserva a repetição de “seres humanos”, apesar de ser possível substituí-la na segunda ocorrência por um pronome. A repetição torna audível o paralelismo do grego e destaca a solidariedade entre o sacerdote e aqueles em favor de quem ele atua (Attridge, 1989: 142–143).

Καθίσταται é presente passivo de καθίστημι e, neste contexto institucional, significa “é constituído”, “é designado”, “é nomeado”. O verbo não descreve simplesmente a existência do sacerdote, mas sua colocação numa função. “É constituído” foi preferido por conservar esse valor institucional sem explicitar “por Deus” antes de o próprio texto fazê-lo em 5.4.

Τὰ πρὸς τὸν θεόν é uma construção idiomática: literalmente, “as coisas para/com relação a Deus”. A mesma expressão aparece em 2.17, onde caracteriza a atuação sacerdotal “nas coisas referentes a Deus”. Não se trata de localização espacial, mas da esfera de atuação que diz respeito à relação do povo com Deus. A tradução “nas coisas referentes a Deus” mantém a rede lexical interna de Hebreus e evita paráfrases mais amplas como “no culto a Deus” ou “para servir a Deus”, que exprimem corretamente parte do sentido, mas restringem uma formulação mais abrangente (Ellingworth e Nida, 1994: 92–93).

Versões comparadas. A ARA traz “todo sumo sacerdote, sendo tomado dentre os homens, é constituído nas coisas concernentes a Deus, a favor dos homens”, preservando λαμβανόμενος por “tomado”, mas colocando τὰ πρὸς τὸν θεόν antes de ὑπὲρ ἀνθρώπων. A ARC mantém mais de perto a sequência funcional: “tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus”. A NAA interpreta λαμβανόμενος por “sendo escolhido” e emprega “nas coisas relacionadas com Deus”. A Bíblia de Jerusalém traz “tirado do meio dos homens [...] constituído em favor dos homens em suas relações com Deus”. A NTLH explicita tanto a seleção quanto a função: “é escolhido entre os homens e nomeado para servir a Deus em favor do povo”. A NRSV interpreta de maneira semelhante: “chosen from among mortals is put in charge of things pertaining to God on their behalf”. A presente tradução prefere “tomado” a “escolhido”, mantém a duplicação ἀνθρώπων [...] ἀνθρώπων e conserva a expressão técnica “nas coisas referentes a Deus”.

Hermenêutica. 5.1–4 não pretende fornecer uma definição completa e neutra de tudo aquilo que o judaísmo do período entendia por sumo sacerdócio. A descrição é seletiva e foi moldada pelas necessidades do argumento. Depois de 4.15 destacar a capacidade de Jesus de compartilhar a condição dos ouvintes, 5.1 inicia a descrição do sacerdote humano justamente pela sua origem “dentre os seres humanos” e pela sua atuação “em favor dos seres humanos”. A humanidade e a função representativa recebem uma ênfase que servirá de ponto de contato para a exposição subsequente (Attridge, 1989: 142–143).

Teológico. Dentro do argumento de Hebreus, a função sacerdotal é inicialmente definida por uma dupla relação: o sacerdote pertence à humanidade que representa e é constituído para atuar na esfera da relação dessa humanidade com Deus. O texto ainda não estabelece aqui a superioridade de Cristo; fornece o quadro funcional a partir do qual as correspondências e diferenças entre o sacerdócio aarônico e o sacerdócio atribuído a Cristo serão desenvolvidas nos vv. 2–10.

Referências cruzadas. Êx 28.1; Lv 16.6,11,15–17; 21.10; Hb 2.17; 4.14–16; 5.2–4; 7.27–28; 8.3.

“Para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” — a finalidade cultual da constituição do sumo sacerdote

Crítica textual. A NA28 lê ἵνα προσφέρῃ δῶρά τε καὶ θυσίας ὑπὲρ ἁμαρτιῶν. O aparato registra a omissão de τε em 𝔓46, B, D1 e Ψ, produzindo simplesmente δῶρα καὶ θυσίας, “dons e sacrifícios”. A diferença é mínima e não altera o conteúdo da oração. Como “dons e sacrifícios” já representa naturalmente em português a coordenação δῶρά τε καὶ θυσίας, a variante não exige marcação na tradução principal.

Exegese. Ἵνα com o subjuntivo προσφέρῃ expressa finalidade: o sumo sacerdote é constituído “para oferecer”. Προσφέρω é verbo recorrente no vocabulário cultual de Hebreus e será empregado repetidamente para a apresentação de ofertas e sacrifícios, tanto no sacerdócio levítico quanto na exposição do oferecimento atribuído a Cristo. Conservar “oferecer” é, portanto, importante para manter essa rede verbal ao longo da obra.

Δῶρά τε καὶ θυσίας forma uma expressão abrangente para oferendas cultuais. Δῶρον possui o sentido básico de “dom, presente, oferta”; θυσία, “sacrifício”. É possível procurar distinções técnicas entre ofertas incruentas e sacrifícios animais, mas o uso de Hebreus não sustenta uma separação rígida em todas as ocorrências. Em 8.3 a mesma associação reaparece, e em 9.9 “dons e sacrifícios” funciona como caracterização global do sistema sacrificial. Por isso, “dons e sacrifícios” mantém a diferença lexical dos dois substantivos sem impor ao versículo uma classificação técnica que ele próprio não fornece (Attridge, 1989: 142–143; Ellingworth, 1993: 273–275).

O sintagma ὑπὲρ ἁμαρτιῶν, “pelos pecados”, qualifica naturalmente o conjunto “dons e sacrifícios”, e não apenas θυσίας. A preposição ὑπέρ é repetida no versículo com funções relacionadas, mas não idênticas: o sacerdote é constituído ὑπὲρ ἀνθρώπων, “em favor dos seres humanos”, e oferece ὑπὲρ ἁμαρτιῶν, “pelos pecados”. A tradução evita expandir a segunda expressão para “para obter perdão dos pecados” ou “para fazer expiação pelos pecados”, porque, embora essas ideias pertençam ao contexto sacrificial, elas introduziriam nesta cláusula um conteúdo que o grego expressa de maneira mais concisa.

“Dons” foi mantido em vez de “ofertas” para representar δῶρα distintamente de θυσίας e preservar a terminologia que poderá ser reutilizada em 8.3–4; 9.9 e 11.4. Em português, “dons” isoladamente pode sugerir capacidades pessoais, mas sua coordenação imediata com “sacrifícios” e o verbo “oferecer” fornece contexto cultual suficiente; a nota torna explícito esse valor.

Versões comparadas. A ARA procura representar τε καί de modo marcado: “para oferecer tanto dons como sacrifícios pelos pecados”. ARC, NAA e Bíblia de Jerusalém usam simplesmente “dons e sacrifícios pelos pecados”. A NTLH substitui δῶρα por “ofertas” e explicita o destinatário: “apresentando a Deus ofertas e sacrifícios pelos pecados”. A NRSV mantém “to offer gifts and sacrifices for sins”, enquanto a Young’s Literal Translation torna a coordenação mais explícita com “that he may offer both gifts and sacrifices for sins”. A presente tradução acompanha a coordenação simples “dons e sacrifícios”, pois o τε não introduz uma oposição semântica que precise ser marcada por “tanto... como”.

Hermenêutica. A oração final define concretamente o que significa ser constituído “nas coisas referentes a Deus”: o sacerdote exerce uma função sacrificial relacionada ao problema dos pecados. O desenvolvimento posterior mostrará que essa formulação inicial é programática. 8.3 retomará quase literalmente a necessidade de todo sumo sacerdote oferecer “dons e sacrifícios”; 9.7–10 explorará a limitação desse serviço; e 7.27; 9.11–14,23–28; 10.1–14 desenvolverão a comparação com o oferecimento atribuído a Cristo. A tradução deve, portanto, preservar o vocabulário simples do v. 1 para que essas retomadas permaneçam perceptíveis.

Teológico. A primeira descrição funcional do sumo sacerdote em Hebreus está vinculada ao tratamento cultual do pecado. A mediação sacerdotal não é apresentada como posição honorífica abstrata, mas como função exercida em favor de outros e concretizada pela oferta sacrificial. Essa formulação estabelecerá o ponto de partida para o contraste posterior entre a multiplicidade das ofertas sacerdotais e a singularidade atribuída ao oferecimento de Cristo.

Referências cruzadas. Lv 4.3–12; 9.7; 16.6,11,15; Hb 5.3; 7.27; 8.3–4; 9.7,9,23–28; 10.1–14.

5.2 capaz de tratar com moderação os ignorantes e os que se desviam,[1] pois também ele mesmo está cercado de fraqueza;[2]

5.3 e, por causa dela, é obrigado, assim como pelo povo, também por si mesmo, a oferecer pelos pecados.[3]

“Capaz de tratar com moderação os ignorantes e os que se desviam” — o valor de μετριοπαθεῖν e os pecados cometidos por ignorância

Crítica textual. A redação μετριοπαθεῖν δυνάμενος τοῖς ἀγνοοῦσιν καὶ πλανωμένοις é estável no texto da NA28 e não apresenta, nesse segmento, variante registrada no aparato que altere a tradução. A dificuldade é predominantemente lexical e exegética, sobretudo porque μετριοπαθεῖν ocorre somente aqui no Novo Testamento e possui uma história de uso própria na literatura ética grega.

Exegese. Μετριοπαθεῖν é infinitivo presente de μετριοπαθέω, dependente de δυνάμενος: o sumo sacerdote é alguém “capaz de” exercer determinada disposição em relação aos que erram. O verbo pertence ao campo de μέτριος, “moderado”, e πάθος, “afecção, emoção”, e pode designar a capacidade de manter as emoções dentro de medida adequada. Na tradição filosófica grega, especialmente peripatética, μετριοπάθεια podia ser contraposta à eliminação estoica das paixões: não ausência completa de emoção, mas seu governo ou moderação. No contexto de Hebreus, porém, não é necessário importar todo esse sistema filosófico para a palavra. O sentido pragmático é tratar os faltosos sem reação desmedida, nem com dureza excessiva nem com indiferença moral (Moffatt, 1952: 62–63; Attridge, 1989: 143–144).

“Tratar com moderação” foi, por isso, preferido a “compadecer-se”. Esta última opção aproxima μετριοπαθεῖν de συμπαθῆσαι em 4.15, embora o autor deliberadamente empregue verbos diferentes. Em 4.15, Cristo é capaz de “simpatizar” com as fraquezas humanas; em 5.2, o sacerdote humano deve manter uma atitude moderada diante dos que pecam. Attridge chama atenção precisamente para essa diferença: há analogia entre o sacerdote humano e Cristo, mas não equivalência lexical estrita entre μετριοπαθεῖν e συμπαθεῖν (Attridge, 1989: 143–144). Westcott igualmente distingue a simpatia atribuída a Cristo em 4.15 da disposição moderada atribuída ao sacerdote em 5.2.

Τοῖς ἀγνοοῦσιν καὶ πλανωμένοις é formalmente uma coordenação: “aos que ignoram e aos que se desviam”. Ἀγνοέω significa não saber, ignorar ou agir sem conhecimento; πλανάω, na voz passiva aqui empregada, significa desviar-se, extraviar-se, errar. Os dois membros podem funcionar quase como uma hendíade: não necessariamente dois grupos rigidamente distintos, mas pessoas que se desviam em condição de ignorância. A formulação corresponde ao horizonte do sistema sacrificial levítico, no qual os sacrifícios expiatórios ordinários se ocupam particularmente de transgressões não deliberadas ou cometidas inadvertidamente (Lv 4.2,13,22,27; Nm 15.22–29). Isso explica por que “ignorantes” não deve ser entendido como simples deficiência intelectual (Moffatt, 1952: 62–63; Attridge, 1989: 143–144).

O verbo πλανάω também produz uma discreta continuidade com Hebreus 3.10, onde a geração do deserto é descrita como aquela que “sempre se desvia no coração”. Entretanto, 5.2 não identifica automaticamente os dois contextos. Aqui o foco recai sobre aqueles cuja transgressão permanece no âmbito em que a mediação sacerdotal pode operar; mais adiante, Hebreus distinguirá severamente o pecado deliberado e persistente (6.4–8; 10.26–31).

Versões comparadas. A ARA traduz “é capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram”, enquanto a NAA apresenta “é capaz de se compadecer dos ignorantes e dos que se desviam do caminho”. Ambas tornam μετριοπαθεῖν pela linguagem de compaixão. Essa solução é idiomática, mas aproxima o verbo de συμπαθέω em 4.15 e enfraquece a distinção lexical existente no grego. A presente tradução adota “tratar com moderação”, expressão menos tradicional, porém mais adequada ao componente semântico específico de μετριοπαθεῖν e à oposição implícita entre reação excessivamente severa e atitude sacerdotal equilibrada.

Hermenêutica. A característica sacerdotal apresentada aqui não deve ser transformada numa descrição idealizada de benevolência irrestrita. O contexto sacrificial pressupõe distinções entre diferentes modalidades de transgressão. O sacerdote pode agir com moderação porque reconhece nos faltosos uma condição que também o alcança: fraqueza humana. A moderação não relativiza a gravidade do pecado; torna possível que aquele que media entre Deus e o povo não trate a falha alheia como realidade completamente estranha à sua própria condição.

Teológico. Dentro da argumentação de 4.14–5.10, o sacerdote humano fornece um termo de comparação para Cristo, mas a correspondência é cuidadosamente qualificada. O sacerdote levítico pode tratar os pecadores com moderação porque compartilha da fraqueza que também pode levá-lo ao pecado. Cristo, em contraste, compartilhou plenamente da condição humana e pode simpatizar com as fraquezas, mas foi apresentado em 4.15 como “sem pecado”. A analogia sacerdotal prepara, assim, uma comparação que posteriormente também se tornará contraste.

Referências cruzadas. Lv 4.2,13,22,27; Nm 15.22–31; Hb 3.10; 4.15; 7.26–28; 9.7; 10.26–31.

“Pois também ele mesmo está cercado de fraqueza” — περίκειται ἀσθένειαν e a condição do sacerdote humano

Crítica textual. A redação ἐπεὶ καὶ αὐτὸς περίκειται ἀσθένειαν é textualmente estável no aparato da NA28. Não há variante relevante nesse segmento que modifique nem περίκειται nem ἀσθένειαν. A questão central é determinar a imagem expressa pelo verbo περίκειμαι e o alcance de “fraqueza” no argumento.

Exegese. Ἐπεί introduz a razão pela qual o sacerdote consegue exercer μετριοπάθεια: “pois”, “uma vez que”. Καὶ αὐτός possui força inclusiva e enfática: “também ele mesmo”. O sacerdote não observa a fragilidade humana de uma posição exterior; pertence à mesma condição daqueles em favor de quem exerce sua função.

Περίκειται é presente médio/passivo de περίκειμαι, verbo cujo sentido espacial básico é “estar ao redor” e que pode ser usado para aquilo que envolve, circunda ou reveste alguém. Com acusativo, como aqui, a construção pode expressar aquilo de que alguém se encontra revestido ou cercado. “Está cercado de fraqueza” conserva a imagem sem produzir a expressão algo menos natural “está vestido de fraqueza”. A mesma família imagética reaparece em 12.1, onde uma realidade pode “envolver” ou “cercar” alguém. Westcott observa que o verbo apresenta a fraqueza quase como algo que circunda a existência sacerdotal, enquanto Attridge entende a imagem metaforicamente como a condição humana na qual o sacerdote está inevitavelmente inserido (Attridge, 1989: 144).

Ἀσθένεια, “fraqueza”, não deve ser automaticamente igualada a “pecado”. A distinção é decisiva porque Hebreus pode atribuir fraquezas aos seres humanos e, em 4.15, afirmar simultaneamente que Cristo foi provado “sem pecado”. No caso do sacerdote levítico, porém, a fraqueza efetivamente se manifesta também em pecado, como o v. 3 explicitará pela obrigação de oferecer por si mesmo. Assim, a relação é estreita, mas não sinonímica: fraqueza é a condição humana suscetível ao pecado; pecado é uma de suas manifestações efetivas (Westcott, 1978: 120–121; Attridge, 1989: 144).

O singular ἀσθένειαν contrasta com o plural ἀσθενείαις de 4.15. Não é necessário transformar essa diferença em distinção técnica. Em 4.15, as “fraquezas” são consideradas em suas diversas manifestações; em 5.2, “fraqueza” caracteriza globalmente a condição que envolve o sacerdote humano. A manutenção do singular em português permite conservar essa diferença formal.

Versões comparadas. A ARA traduz “pois também ele mesmo está rodeado de fraquezas”, utilizando o plural; a NAA igualmente apresenta “rodeado de fraquezas”. O grego da NA28, porém, possui o singular ἀσθένειαν. A presente tradução emprega “está cercado de fraqueza”, mantendo tanto a imagem de περίκειμαι quanto o número do substantivo. Essa opção também evita antecipar o plural “fraquezas” de 4.15 como se as duas formulações gregas fossem idênticas.

Hermenêutica. A fraqueza funciona aqui como fundamento da capacidade sacerdotal de tratar os faltosos sem rigor desmedido e, ao mesmo tempo, como limitação do próprio sacerdote. Aquilo que o habilita a compreender a condição humana também torna necessária uma oferta por seus próprios pecados. A mesma característica possui, portanto, um duplo efeito argumentativo: solidariedade e insuficiência.

Teológico. A descrição prepara o contraste posterior entre os sacerdotes constituídos pela Lei, “sujeitos à fraqueza”, e o Filho aperfeiçoado para sempre em 7.28. Hebreus não nega a legitimidade do sacerdócio humano descrito em 5.1–4, mas mostra que sua própria constituição contém a limitação que exigirá uma forma superior de sacerdócio.

Referências cruzadas. Hb 2.17–18; 4.15; 5.3; 7.27–28; 9.7; 12.1.

“Por causa dela, é obrigado, assim como pelo povo, também por si mesmo, a oferecer pelos pecados” — a necessidade de oferta pelo próprio sacerdote

Crítica textual. O v. 3 apresenta três variações registradas no aparato da NA28. Primeiro, o texto crítico lê δι’ αὐτήν, “por causa dela”, com referência à ἀσθένεια imediatamente anterior. Essa leitura é sustentada por 𝔓46, א, A, B, C*, D*, P, 0278, 33, 81, 1505, 1739, 1881, 2464 e outros testemunhos. C3, D2, K, L, 104, 365, 630 e 1241, entre outros, apresentam διὰ ταύτην, “por causa desta”, tornando a referência mais demonstrativa; outros testemunhos trazem διὰ ταῦτα, “por causa destas coisas”. A forma pronominal mais simples da NA28 foi preservada por “por causa dela”.

Segundo, depois de περὶ aparece no texto crítico αὐτοῦ, “dele”, apoiado por 𝔓46, B, D*, 0278*, 365, 1881 e outros; uma tradição ampla apresenta ἑαυτοῦ, “de si mesmo”, provavelmente para explicitar a reflexividade já exigida pelo contexto. Em português, “por si mesmo” representa necessariamente o referente reflexivo da construção, embora a forma grega impressa seja αὐτοῦ. Terceiro, após προσφέρειν a NA28 lê περὶ ἁμαρτιῶν; parte da tradição substitui περί por ὑπέρ, provavelmente sob influência da formulação de 5.1. A tradução segue περί em ambos os membros do texto crítico.

Exegese. Καὶ δι’ αὐτὴν retoma diretamente ἀσθένειαν: “e, por causa dela”. A opção preserva uma ligação anafórica que várias traduções tornam mais genérica mediante “por esta razão”. A razão não é indeterminada: é precisamente a fraqueza que envolve o sacerdote. Não se afirma que fraqueza seja em si mesma pecado, mas que, no sacerdote humano real, essa condição torna necessária uma oferta também em favor dele próprio.

Ὀφείλει possui força de obrigação: “deve”, “está obrigado”, “é obrigado”. Não se trata de mera conveniência cultual. A constituição do sacerdote e as prescrições de seu ofício impõem-lhe a necessidade de oferecer por si antes ou juntamente com sua ação representativa em favor do povo. “É obrigado” procura conservar essa força mais nitidamente que um simples “deve” (Westcott, 1978: 121; Attridge, 1989: 144).

Καθὼς περὶ τοῦ λαοῦ, οὕτως καὶ περὶ αὐτοῦ forma uma correlação cuidadosamente equilibrada: “assim como pelo povo, também por si mesmo”. A ordem foi preservada porque o autor parte da função pública já estabelecida no v. 1 e acrescenta a necessidade correspondente do próprio sacerdote. Inverter para “por si mesmo e pelo povo” seria historicamente compreensível à luz do ritual de Lv 16, mas alteraria a ordem retórica escolhida no texto.

Προσφέρειν περὶ ἁμαρτιῶν significa literalmente “oferecer acerca de/por pecados”. O objeto da oferta é recuperado do v. 1, onde aparecem δῶρά τε καὶ θυσίας, “dons e sacrifícios”. A tradução principal mantém simplesmente “oferecer pelos pecados” para não repetir um substantivo que o grego não repete. A elipse é inteligível porque o ato sacrificial acaba de ser explicitado no início da mesma sentença prolongada.

O pano de fundo mais provável é especialmente o Dia da Expiação. Em Lv 16.6,11–17 o sumo sacerdote apresenta primeiro a oferta relacionada a si e à sua casa e depois realiza a expiação pelo povo. Hebreus retomará explicitamente essa diferença em 7.27 e 9.7. Attridge considera provável que o ritual de Yom Kippur esteja especialmente em vista, embora outras ofertas sacerdotais também possam integrar o horizonte da formulação (Attridge, 1989: 144). Moffatt igualmente relaciona a passagem ao sistema expiatório em que a condição do sacerdote exige oferta em favor dele próprio (Moffatt, 1952: 63).

Versões comparadas. A ARA traz “E, por esta razão, deve oferecer sacrifícios pelos pecados, tanto do povo como de si mesmo”; a NAA apresenta praticamente a mesma solução: “Por esta razão, deve oferecer sacrifícios pelos pecados, tanto do povo como de si mesmo”. Essas traduções explicitam “sacrifícios”, recuperando θυσίας do v. 1, e tornam δι’ αὐτήν pela expressão mais genérica “por esta razão”. A presente tradução prefere “por causa dela” para conservar a referência direta à “fraqueza” do v. 2 e mantém a elipse verbal “oferecer pelos pecados”, deixando que o contexto imediato forneça o conteúdo sacrificial da ação.

Hermenêutica. A afirmação constitui um dos pontos em que a analogia entre o sacerdócio humano e Cristo alcança seu limite. O sacerdote levítico pode compreender os faltosos justamente porque compartilha da fraqueza humana, mas essa mesma participação significa que ele também necessita de expiação. Cristo foi anteriormente apresentado como alguém que participa das fraquezas e das provações humanas sem pecado (4.15). Por isso, quando o argumento retornar à oferta de Cristo, a necessidade de oferecer por pecados próprios desaparecerá.

Teológico. O v. 3 não é uma observação incidental sobre imperfeições individuais de determinados sacerdotes. A necessidade é construída como elemento estrutural do sacerdócio humano: aquele que representa o povo diante de Deus pertence à mesma condição marcada pela fraqueza e pelo pecado. Essa limitação será usada posteriormente para distinguir o sacerdócio de Cristo, que não precisa repetir o padrão de oferecer primeiro por seus próprios pecados e depois pelos do povo (7.26–28).

Referências cruzadas. Lv 9.7; 16.6,11–17; Hb 4.15; 5.1–2; 7.26–28; 9.7; 10.11–14.

Hebreus 5.4 — A honra do sacerdócio não assumida por iniciativa própria, mas mediante chamado divino

5.4 E ninguém toma para si mesmo essa honra, mas somente quando chamado por Deus, assim como Arão.[1]

“Ninguém toma para si mesmo essa honra, mas somente quando chamado por Deus, assim como Arão” — a origem divina da nomeação sacerdotal

Crítica textual. O núcleo do versículo — καὶ οὐχ ἑαυτῷ τις λαμβάνει τὴν τιμὴν ἀλλὰ καλούμενος ὑπὸ τοῦ θεοῦ — é textualmente estável no aparato da NA28. A única variante registrada encontra-se na partícula comparativa que introduz Arão. A NA28 lê καθώσπερ, apoiado por 𝔓46, א*, A, B, D*, 33 e l249. Uma tradição ampla, incluindo א2, C2, D2, K, L, P, Ψ, 0278, 81, 104, 365, 630, 1241, 1505, 1739, 1881 e 2464, traz καθάπερ; C* e l846 apresentam καθώς. As três formas possuem aqui função comparativa equivalente, de modo que a variação não afeta a tradução: “assim como Arão”.

Exegese. Καί liga o v. 4 ao desenvolvimento anterior. Depois de caracterizar o sumo sacerdote quanto à sua relação com os seres humanos — sua capacidade de tratar moderadamente os ignorantes e desviados e sua própria condição de fraqueza —, o autor acrescenta a qualificação relativa à origem de seu ofício: o sacerdócio não é posição que alguém possa conferir a si próprio. Westcott identifica precisamente essa progressão: os vv. 2–3 apresentam a qualificação do sacerdote em relação aos seres humanos, enquanto o v. 4 apresenta sua qualificação em relação a Deus (Westcott, 1978: 119–121).

Οὐχ ἑαυτῷ τις λαμβάνει τὴν τιμήν significa, de maneira bastante direta, “ninguém toma para si mesmo a honra”. O dativo reflexivo ἑαυτῷ possui valor de interesse ou vantagem: a pessoa não toma “para si” aquilo que está em questão. Λαμβάνει está no presente e formula uma regra geral, não uma proibição expressa. Por isso, a tradução mantém o indicativo “ninguém toma”, em vez de transformar a sentença em um imperativo como “ninguém tome”. A posição de ἑαυτῷ imediatamente após a negação torna particularmente perceptível o contraste entre autodesignação e chamado divino.

Τὴν τιμήν, literalmente “a honra”, refere-se contextualmente à dignidade ou posição de sumo sacerdote descrita desde o v. 1. Τιμή pode designar honra atribuída a uma pessoa, mas também, por metonímia, uma dignidade ou cargo honroso. Attridge observa que o termo pode funcionar como designação de um ofício, e Westcott entende aqui “a honra” especificamente como a dignidade sacerdotal (Attridge, 1989: 144; Westcott, 1978: 121). “Essa honra” torna explícita em português a referência anafórica ao sumo sacerdócio que acaba de ser descrito, sem substituir a metáfora honorífica por “cargo” ou “ofício” no texto principal.

Ἀλλὰ καλούμενος ὑπὸ τοῦ θεοῦ apresenta uma elipse facilmente recuperável: depois de λαμβάνει, “toma”, o verbo não é repetido na segunda oração. O sentido é “mas [toma-a] sendo chamado por Deus” ou, mais naturalmente em português, “mas somente quando chamado por Deus”. Καλούμενος é particípio presente passivo de καλέω, e ὑπὸ τοῦ θεοῦ explicita o agente do chamado. Nesse contexto, “chamado” não descreve uma percepção interior ou uma vocação subjetiva; designa a iniciativa divina que confere legitimidade ao exercício do sacerdócio. A tradução “somente quando chamado” torna explícita a restrição inerente ao contraste οὐχ ... ἀλλά sem introduzir um novo agente ou uma nova ação.

Καθώσπερ καὶ Ἀαρών apresenta Arão como o exemplo escriturístico dessa nomeação. Êx 28.1 descreve Deus ordenando a Moisés que faça aproximar Arão e seus filhos “para que me sirvam como sacerdotes”; Êx 29 e Lv 8 narram sua consagração. A referência não afirma que Arão tenha solicitado ou conquistado o sacerdócio, mas o utiliza como paradigma de uma função recebida por iniciativa divina. As narrativas de Nm 16–17 reforçam posteriormente a mesma concepção ao rejeitarem reivindicações concorrentes ao sacerdócio (Westcott, 1978: 121; Attridge, 1989: 144).

A função argumentativa do versículo torna-se particularmente clara na passagem para 5.5. Οὕτως καί, “assim também”, retomará diretamente o princípio estabelecido em 5.4: assim como o sumo sacerdote não toma para si a honra, Cristo “não glorificou a si mesmo para tornar-se sumo sacerdote”. Há uma correspondência deliberada entre οὐχ ἑαυτῷ ... λαμβάνει, no v. 4, e οὐχ ἑαυτὸν ἐδόξασεν, no v. 5. O v. 4, portanto, não é uma observação independente sobre Arão; fornece a premissa pela qual a nomeação de Cristo será apresentada nos vv. 5–6 (Attridge, 1989: 144).

Versões comparadas. A ARA traduz “Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”; a NAA apresenta “E ninguém toma esta honra para si mesmo, a não ser quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”; e a ARC, “E ninguém toma para si essa honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão”. As três preservam λαμβάνει mediante “toma” e mantêm a oposição entre iniciativa pessoal e chamado divino. A Bíblia de Jerusalém traz “Ninguém, pois, se atribua esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão!”, solução semanticamente próxima, mas que transforma o indicativo genérico λαμβάνει numa formulação de aparência injuntiva. A Young’s Literal Translation conserva de forma particularmente estreita a sintaxe: “no one to himself doth take the honour, but he who is called by God, as also Aaron”. A presente tradução mantém o indicativo “toma”, conserva explicitamente “para si mesmo” e traduz a construção elíptica por “mas somente quando chamado por Deus”, evitando tanto uma formulação imperativa quanto a necessidade de repetir artificialmente o verbo.

Hermenêutica. Arão não aparece neste ponto como termo negativo de uma comparação com Cristo. O autor não contrapõe um sacerdócio aarônico ilegítimo a um sacerdócio cristológico legítimo; ao contrário, utiliza a própria nomeação legítima de Arão para formular a regra que será aplicada a Cristo. Attridge ressalta que não há aqui finalidade polêmica específica contra Arão nem ainda uma discussão explícita sobre a ascendência não levítica de Jesus. Essa questão será enfrentada somente em 7.11–17. O ponto imediato de 5.4 é mais delimitado: a dignidade sacerdotal pressupõe iniciativa e autorização divinas (Attridge, 1989: 144).

Teológico. Dentro da argumentação de Hebreus, o v. 4 estabelece a nomeação divina como elemento constitutivo do sumo sacerdócio. O princípio permite que os vv. 5–6 apresentem a condição sacerdotal de Cristo não como reivindicação autoconferida, mas como posição atribuída por aquele que fala nas Escrituras citadas. A continuidade com Arão está, neste ponto, precisamente na origem da nomeação; as diferenças entre o sacerdócio aarônico e o sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque serão desenvolvidas posteriormente.

Referências cruzadas. Êx 28.1; 29.4–9; Lv 8.1–13; Nm 16.1–40; 17.1–13; Hb 5.1,5–6; 7.11–17,28; 8.3.

Hebreus 5.4 — A honra do sacerdócio não assumida por iniciativa própria, mas mediante chamado divino

5.4 E ninguém toma para si mesmo essa honra, mas somente quando chamado por Deus, assim como Arão.[1]

“Ninguém toma para si mesmo essa honra, mas somente quando chamado por Deus, assim como Arão” — a origem divina da nomeação sacerdotal

Crítica textual. O núcleo do versículo — καὶ οὐχ ἑαυτῷ τις λαμβάνει τὴν τιμὴν ἀλλὰ καλούμενος ὑπὸ τοῦ θεοῦ — é textualmente estável no aparato da NA28. A única variante registrada encontra-se na partícula comparativa que introduz Arão. A NA28 lê καθώσπερ, apoiado por 𝔓46, א*, A, B, D*, 33 e l249. Uma tradição ampla, incluindo א2, C2, D2, K, L, P, Ψ, 0278, 81, 104, 365, 630, 1241, 1505, 1739, 1881 e 2464, traz καθάπερ; C* e l846 apresentam καθώς. As três formas possuem aqui função comparativa equivalente, de modo que a variação não afeta a tradução: “assim como Arão”.

Exegese. Καί liga o v. 4 ao desenvolvimento anterior. Depois de caracterizar o sumo sacerdote quanto à sua relação com os seres humanos — sua capacidade de tratar moderadamente os ignorantes e desviados e sua própria condição de fraqueza —, o autor acrescenta a qualificação relativa à origem de seu ofício: o sacerdócio não é posição que alguém possa conferir a si próprio. Westcott identifica precisamente essa progressão: os vv. 2–3 apresentam a qualificação do sacerdote em relação aos seres humanos, enquanto o v. 4 apresenta sua qualificação em relação a Deus (Westcott, 1978: 119–121).

Οὐχ ἑαυτῷ τις λαμβάνει τὴν τιμήν significa, de maneira bastante direta, “ninguém toma para si mesmo a honra”. O dativo reflexivo ἑαυτῷ possui valor de interesse ou vantagem: a pessoa não toma “para si” aquilo que está em questão. Λαμβάνει está no presente e formula uma regra geral, não uma proibição expressa. Por isso, a tradução mantém o indicativo “ninguém toma”, em vez de transformar a sentença em um imperativo como “ninguém tome”. A posição de ἑαυτῷ imediatamente após a negação torna particularmente perceptível o contraste entre autodesignação e chamado divino.

Τὴν τιμήν, literalmente “a honra”, refere-se contextualmente à dignidade ou posição de sumo sacerdote descrita desde o v. 1. Τιμή pode designar honra atribuída a uma pessoa, mas também, por metonímia, uma dignidade ou cargo honroso. Attridge observa que o termo pode funcionar como designação de um ofício, e Westcott entende aqui “a honra” especificamente como a dignidade sacerdotal (Attridge, 1989: 144; Westcott, 1978: 121). “Essa honra” torna explícita em português a referência anafórica ao sumo sacerdócio que acaba de ser descrito, sem substituir a metáfora honorífica por “cargo” ou “ofício” no texto principal.

Ἀλλὰ καλούμενος ὑπὸ τοῦ θεοῦ apresenta uma elipse facilmente recuperável: depois de λαμβάνει, “toma”, o verbo não é repetido na segunda oração. O sentido é “mas [toma-a] sendo chamado por Deus” ou, mais naturalmente em português, “mas somente quando chamado por Deus”. Καλούμενος é particípio presente passivo de καλέω, e ὑπὸ τοῦ θεοῦ explicita o agente do chamado. Nesse contexto, “chamado” não descreve uma percepção interior ou uma vocação subjetiva; designa a iniciativa divina que confere legitimidade ao exercício do sacerdócio. A tradução “somente quando chamado” torna explícita a restrição inerente ao contraste οὐχ ... ἀλλά sem introduzir um novo agente ou uma nova ação.

Καθώσπερ καὶ Ἀαρών apresenta Arão como o exemplo escriturístico dessa nomeação. Êx 28.1 descreve Deus ordenando a Moisés que faça aproximar Arão e seus filhos “para que me sirvam como sacerdotes”; Êx 29 e Lv 8 narram sua consagração. A referência não afirma que Arão tenha solicitado ou conquistado o sacerdócio, mas o utiliza como paradigma de uma função recebida por iniciativa divina. As narrativas de Nm 16–17 reforçam posteriormente a mesma concepção ao rejeitarem reivindicações concorrentes ao sacerdócio (Westcott, 1978: 121; Attridge, 1989: 144).

A função argumentativa do versículo torna-se particularmente clara na passagem para 5.5. Οὕτως καί, “assim também”, retomará diretamente o princípio estabelecido em 5.4: assim como o sumo sacerdote não toma para si a honra, Cristo “não glorificou a si mesmo para tornar-se sumo sacerdote”. Há uma correspondência deliberada entre οὐχ ἑαυτῷ ... λαμβάνει, no v. 4, e οὐχ ἑαυτὸν ἐδόξασεν, no v. 5. O v. 4, portanto, não é uma observação independente sobre Arão; fornece a premissa pela qual a nomeação de Cristo será apresentada nos vv. 5–6 (Attridge, 1989: 144).

Versões comparadas. A ARA traduz “Ninguém, pois, toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”; a NAA apresenta “E ninguém toma esta honra para si mesmo, a não ser quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”; e a ARC, “E ninguém toma para si essa honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão”. As três preservam λαμβάνει mediante “toma” e mantêm a oposição entre iniciativa pessoal e chamado divino. A Bíblia de Jerusalém traz “Ninguém, pois, se atribua esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão!”, solução semanticamente próxima, mas que transforma o indicativo genérico λαμβάνει numa formulação de aparência injuntiva. A Young’s Literal Translation conserva de forma particularmente estreita a sintaxe: “no one to himself doth take the honour, but he who is called by God, as also Aaron”. A presente tradução mantém o indicativo “toma”, conserva explicitamente “para si mesmo” e traduz a construção elíptica por “mas somente quando chamado por Deus”, evitando tanto uma formulação imperativa quanto a necessidade de repetir artificialmente o verbo.

Hermenêutica. Arão não aparece neste ponto como termo negativo de uma comparação com Cristo. O autor não contrapõe um sacerdócio aarônico ilegítimo a um sacerdócio cristológico legítimo; ao contrário, utiliza a própria nomeação legítima de Arão para formular a regra que será aplicada a Cristo. Attridge ressalta que não há aqui finalidade polêmica específica contra Arão nem ainda uma discussão explícita sobre a ascendência não levítica de Jesus. Essa questão será enfrentada somente em 7.11–17. O ponto imediato de 5.4 é mais delimitado: a dignidade sacerdotal pressupõe iniciativa e autorização divinas (Attridge, 1989: 144).

Teológico. Dentro da argumentação de Hebreus, o v. 4 estabelece a nomeação divina como elemento constitutivo do sumo sacerdócio. O princípio permite que os vv. 5–6 apresentem a condição sacerdotal de Cristo não como reivindicação autoconferida, mas como posição atribuída por aquele que fala nas Escrituras citadas. A continuidade com Arão está, neste ponto, precisamente na origem da nomeação; as diferenças entre o sacerdócio aarônico e o sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque serão desenvolvidas posteriormente.

Referências cruzadas. Êx 28.1; 29.4–9; Lv 8.1–13; Nm 16.1–40; 17.1–13; Hb 5.1,5–6; 7.11–17,28; 8.3.

A nomeação divina de Cristo como sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque

5.5 Assim também Cristo não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote,[1] mas quem o glorificou foi aquele que lhe disse: “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei.”[2]

5.6 Como também diz em outro lugar: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.”[3]

“Assim também Cristo não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote” — da regra de Aarão à nomeação de Cristo

Crítica textual. A redação Οὕτως καὶ ὁ Χριστὸς οὐχ ἑαυτὸν ἐδόξασεν γενηθῆναι ἀρχιερέα é estável no texto crítico adotado. O aparato da NA28 não registra neste segmento variante que afete a tradução. As principais questões são sintáticas: a relação de οὕτως καί com o v. 4, o valor de ἐδόξασεν e a função do infinitivo γενηθῆναι.

Exegese. Οὕτως καί, “assim também”, aplica diretamente a Cristo o princípio enunciado no versículo anterior. Em 5.4, ninguém toma para si a honra do sumo sacerdócio, mas a recebe quando chamado por Deus, “como também Aarão”; em 5.5, “assim também Cristo” não se atribui por iniciativa própria a dignidade sacerdotal. A correspondência é deliberada: a primeira qualificação do sumo sacerdote — sua designação divina — é agora demonstrada no caso de Cristo (Attridge, 1989: 144–145; Peterson, 1982: 84–86).

Οὐχ ἑαυτὸν ἐδόξασεν é literalmente “não glorificou a si mesmo”. O reflexivo ἑαυτόν torna explícita a ausência de autoatribuição. O autor muda o vocabulário empregado no v. 4: ali se falava da τιμή, “honra”, que ninguém toma para si; aqui emprega δοξάζω, “glorificar”. A mudança não rompe o argumento. A dignidade sacerdotal é concebida como uma honra ou glória conferida, não como posição apropriada autonomamente. Attridge observa que, embora δόξα possa possuir associações específicas com dignidade sacerdotal, o verbo tem aqui sentido mais amplo e retoma também a linguagem de glorificação já aplicada a Cristo anteriormente em Hebreus (Attridge, 1989: 145).

Γενηθῆναι é aoristo infinitivo de γίνομαι e complementa ἐδόξασεν: “não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote”. O infinitivo especifica em que consistiria essa autoglorificação: assumir para si a condição de ἀρχιερεύς. Não se deve carregar isoladamente γενηθῆναι com uma teoria sobre o instante em que o sacerdócio de Cristo teria começado. A passagem está demonstrando primordialmente a origem divina de sua investidura, em contraste com uma pretensa autodesignação (Moffatt, 1952: 63–64; Westcott, 1978: 122).

A oração adversativa que segue é elíptica: ἀλλ’ ὁ λαλήσας πρὸς αὐτόν, literalmente, “mas aquele que lhe falou...”. O verbo ἐδόξασεν não é repetido, mas precisa ser recuperado do primeiro membro: “mas [o glorificou] aquele que lhe disse”. Uma reprodução estritamente formal deixaria a frase incompleta ou ambígua em português oral. Por isso, “mas quem o glorificou foi aquele que lhe disse” explicita somente o predicado elíptico já fornecido pela estrutura grega. Essa mesma solução aparece substancialmente na NAA.

Versões comparadas. A ARA conserva muito de perto a forma grega: “Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse”. A NAA torna explícita a elipse exatamente no ponto necessário para o português contemporâneo: “Cristo não glorificou a si mesmo [...] mas quem o glorificou foi aquele que lhe disse”. A ARC mantém a construção antiga “não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote”, mas a sequência “mas glorificou aquele que lhe disse” pode ser momentaneamente ambígua ao ouvido moderno. A Bíblia de Jerusalém interpreta o verbo mediante “não se atribui a glória” e explicita “Ele, porém, a recebeu daquele que lhe disse”. A TEB segue caminho semelhante: “não arrogou a si mesmo a glória [...] recebeu-a daquele que lhe disse”. A presente tradução conserva δοξάζω como “glorificar”, mas explicita no segundo membro apenas o verbo elíptico.

A Young’s Literal Translation reproduz de maneira particularmente formal “the Christ did not glorify himself to become chief priest”, enquanto a Revised New Jerusalem Bible interpreta a relação nominal: “it was not Christ who gave himself the glory of becoming high priest”. Essas diferenças ilustram que a principal dificuldade não está no conteúdo da frase, mas em representar idiomaticamente a construção ἐδόξασεν γενηθῆναι.

Hermenêutica. O v. 5 começa a aplicação a Cristo dos critérios apresentados em 5.1–4, mas a correspondência não deve ser transformada em identidade completa entre o sacerdócio aarônico e o de Cristo. O ponto preciso retomado do v. 4 é a necessidade de designação divina. Já o v. 6 mostrará que a forma dessa designação não pertence à linhagem de Aarão, mas é expressa mediante o Sl 110.4 e Melquisedeque. Assim, comparação e diferenciação são estabelecidas simultaneamente (Peterson, 1982: 84–86).

Teológico. Dentro do argumento de Hebreus, a dignidade sacerdotal de Cristo não é apresentada como prerrogativa autoconferida. O sacerdócio deriva da iniciativa daquele que fala nas Escrituras citadas. Esse movimento corresponde ao padrão mais amplo da obra, em que a posição do Filho, sua missão e sua função sacerdotal são relacionadas à ação e à declaração de Deus, sem que o autor neste ponto procure formular uma cronologia sistemática de sua investidura.

Referências cruzadas. Hb 2.9,17; 4.14; 5.1,4,10; 7.20–28; Jo 8.54.

“Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” — a retomada do Salmo 2.7 e a ligação entre filiação e sacerdócio

Crítica textual. A citação υἱός μου εἶ σύ, ἐγὼ σήμερον γεγέννηκά σε não apresenta variante relevante no aparato da NA28 em 5.5. Ela reproduz a formulação grega de Sl 2.7 LXX já citada integralmente em Hb 1.5. A questão, portanto, não é de estabelecimento textual, mas da função assumida pela repetição da citação neste novo contexto sacerdotal.

Exegese. Υἱός μου εἶ σύ é literalmente “Filho meu és tu”. “Tu és meu Filho” representa a ordem natural do português sem alterar a ênfase da declaração. O pronome σύ encontra-se expresso e reforça o destinatário. A segunda oração, ἐγὼ σήμερον γεγέννηκά σε, também contém o pronome explícito ἐγώ: “eu hoje te gerei”. O perfeito γεγέννηκα, de γεννάω, descreve a ação de gerar com o estado resultante em perspectiva. A tradução conserva simplesmente “gerei”, pois qualquer expansão como “tornei-me hoje teu Pai”, “hoje te constituí Filho” ou “hoje te entronizei” já incorporaria uma interpretação do uso do salmo que não está lexicalmente expressa na citação.

A mesma passagem abriu a cadeia de citações de 1.5. Sua retomada aqui produz uma ligação estrutural importante: aquele que em 1.5 foi identificado escrituristicamente como Filho é agora apresentado no contexto de sua função sacerdotal. Attridge entende que a combinação de Sl 2.7 e Sl 110.4 reúne dois eixos centrais da cristologia de Hebreus — Filho e sacerdote — e observa que a repetição de Sl 2.7 cria uma retomada deliberada da exposição anterior (Attridge, 1989: 145–146).

A função exata da primeira citação, entretanto, deve ser formulada com cautela. Sl 2.7 não contém vocabulário sacerdotal. A declaração explícita do sacerdócio virá somente no v. 6. Alguns intérpretes, portanto, atribuem à primeira citação sobretudo a função de identificar aquele que fala a Cristo e de reafirmar sua condição de Filho; outros entendem que as duas citações, tomadas conjuntamente, fundamentam a nomeação sacerdotal. Peterson chama atenção justamente para essa discussão e considera significativa a ligação entre a condição de Filho e a função de sumo sacerdote, embora reconheça que é Sl 110.4 que fornece a declaração sacerdotal propriamente dita (Peterson, 1982: 84–86).

Também não convém concluir da palavra σήμερον, “hoje”, que Hebreus esteja afirmando aqui que Cristo somente passou a ser Filho no instante referido pelo salmo. O próprio desenvolvimento da obra utiliza “Filho” para caracterizá-lo em contextos anteriores à culminação de sua trajetória terrena, e 5.8 dirá “embora fosse Filho”. A citação funciona dentro de uma tradição régia e messiânica apropriada pelo autor; determinar qual momento — ressurreição, exaltação, entronização ou outro horizonte — é especialmente focalizado por σήμερον é uma questão interpretativa distinta da tradução da frase. Attridge adverte contra exigir que as duas citações de 5.5–6 sejam associadas ao mesmo instante cronológico, enquanto Peterson relaciona a retomada de Sl 2.7 particularmente à manifestação da filiação na exaltação sem entender que a filiação tenha começado apenas ali (Attridge, 1989: 146; Peterson, 1982: 85–86).

Versões comparadas. ARA, ARC e TEB conservam a formulação tradicional “Tu és meu Filho, [eu] hoje te gerei”; a Bíblia de Jerusalém traz “Tu és o meu Filho, hoje eu te gerei”, explicitando o artigo em português. A NAA moderniza o tratamento para “Você é meu Filho, hoje eu gerei você”. Tanto a forma tradicional quanto a contemporânea representam adequadamente a sintaxe; a presente tradução prefere “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” para conservar a solenidade e, sobretudo, tornar audíveis os dois pronomes enfáticos do grego, σύ e ἐγώ.

Hermenêutica. A repetição de Sl 2.7 não constitui uma nova prova isolada da filiação, pois essa questão já domina o capítulo 1. Aqui o texto conhecido é recolocado ao lado de Sl 110.4. A novidade está na justaposição: o Filho sobre quem a obra vinha falando é aquele a quem a Escritura atribui também um sacerdócio permanente. A unidade de 5.5–6 prepara, assim, a integração que será desenvolvida em 5.7–10 e sobretudo no capítulo 7.

Teológico. A terminologia de filiação e a terminologia sacerdotal não são fundidas numa única categoria. Hebreus mantém os dois títulos distintos e os aproxima mediante duas declarações escriturísticas. A identidade de Filho já estabelecida fornece a moldura para a apresentação da função sacerdotal, enquanto Sl 110.4 especifica uma forma de sacerdócio que não deriva da ordem aarônica.

Referências cruzadas. Sl 2.7; Hb 1.2,5; 3.6; 4.14; 5.8; 7.28; At 13.33.

“Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” — Salmo 110.4, permanência sacerdotal e o sentido de τάξις

Crítica textual. O NA28 lê σὺ ἱερεὺς εἰς τὸν αἰῶνα κατὰ τὴν τάξιν Μελχισέδεκ. Depois de σύ, 𝔓46, P e 629 acrescentam εἶ, produzindo explicitamente σὺ εἶ ἱερεύς, “tu és sacerdote”. O texto crítico conserva a construção nominal sem a cópula expressa. A variante não produz diferença na tradução portuguesa, que necessita do verbo “és”. A expansão também aproxima a redação da forma completa de Sl 109.4 LXX (= Sl 110.4 na numeração hebraica e moderna), tornando facilmente compreensível sua ocorrência na transmissão.

Exegese. Καθὼς καὶ ἐν ἑτέρῳ λέγει é traduzido por “como também diz em outro lugar”. O sujeito de λέγει não é novamente expresso: continua sendo aquele que “lhe disse” no v. 5, isto é, Deus enquanto falante das Escrituras citadas. Ἐν ἑτέρῳ é uma expressão elíptica cujo sentido contextual é “em outro [lugar/passagem]”. O autor coloca, portanto, uma segunda declaração divina ao lado de Sl 2.7 (Westcott, 1978: 122–123).

A segunda citação provém de Sl 110.4 e fornece o elemento que faltava em Sl 2.7: σὺ ἱερεύς, “tu és sacerdote”. É significativo que o salmo diga ἱερεύς, “sacerdote”, e não ἀρχιερεύς, “sumo sacerdote”, empregado em 5.5. Hebreus, porém, aplica as duas designações a Cristo sem fazer delas dois ofícios diferentes; em 5.10 retomará a própria linguagem de Melquisedeque dizendo que ele foi designado por Deus ἀρχιερεύς, “sumo sacerdote” (Attridge, 1989: 145–146).

Εἰς τὸν αἰῶνα significa literalmente “para a era/o século”, mas na fórmula do salmo possui valor durativo, “para sempre”. A expressão será decisiva no desenvolvimento do capítulo 7, onde a permanência do sacerdócio associado a Melquisedeque será contraposta à sucessão de sacerdotes cuja função é interrompida pela morte. Traduzir “para sempre” preserva esse alcance sem antecipar a argumentação posterior.

Κατὰ τὴν τάξιν Μελχισέδεκ é tradicionalmente vertido por “segundo a ordem de Melquisedeque”. Τάξις possui campo semântico amplo: pode designar arranjo, disposição, posição, categoria, ordem ou condição. Neste contexto, “ordem” não deve ser automaticamente entendido no sentido posterior de uma corporação sacerdotal ou de uma sucessão institucional de sacerdotes melquisedequianos. Moffatt ressalta que não existe no argumento uma série histórica de sacerdotes pertencentes a uma “ordem” de Melquisedeque; a expressão caracteriza o tipo, posição ou modalidade de sacerdócio representada por ele. Westcott igualmente relaciona τάξις à posição ou condição segundo a qual o sacerdócio é exercido (Moffatt, 1952: 64; Westcott, 1978: 123).

O próprio desenvolvimento de Hebreus ajuda a delimitar o sentido. Em 7.15, ao voltar ao mesmo argumento, o autor falará de outro sacerdote que surge κατὰ τὴν ὁμοιότητα Μελχισέδεκ, “segundo a semelhança de Melquisedeque”. Assim, τάξις em 5.6 não precisa ser interpretado como uma genealogia alternativa à de Levi. O contraste posterior depende justamente de um sacerdócio cuja legitimidade não se baseia na descendência levítica, mas na declaração de Sl 110.4 e na caracterização escriturística de Melquisedeque.

A figura de Melquisedeque não é explicada neste ponto. O nome aparece abruptamente porque sua função será desenvolvida adiante: 5.10 repete a fórmula, 6.20 a utiliza na transição e 7.1–10 retorna à narrativa de Gn 14.18–20 para construir a exposição propriamente dita. A tradução, portanto, não acrescenta aqui “à maneira”, “semelhante a” ou qualquer explicação da relação; conserva a forma tradicional “segundo a ordem” e reserva à nota a delimitação semântica.

Versões comparadas. ARA, NAA e ARC empregam “segundo a ordem de Melquisedeque”, acompanhando de perto κατὰ τὴν τάξιν. A Bíblia de Jerusalém também conserva “segundo a ordem de Melquisedec”. A TEB opta por uma tradução interpretativa — “à maneira de Melquisedec” — que comunica diretamente a ideia de correspondência e evita que “ordem” seja entendida como instituição histórica. A Revised New Jerusalem Bible mantém “of the order of Melchizedek”, enquanto a Young’s Literal Translation traz “according to the order of Melchisedek”. A presente tradução mantém “segundo a ordem” porque representa diretamente τάξις e permite que Hebreus 7 esclareça progressivamente a natureza dessa relação.

Quanto à expressão temporal, ARA, NAA e Bíblia de Jerusalém trazem “para sempre”; a ARC prefere “eternamente”; a TEB, “para a eternidade”. Todas representam legitimamente εἰς τὸν αἰῶνα. “Para sempre” foi preferido por sua simplicidade, por sua adequação à proclamação oral e porque permite conservar a mesma fórmula nas sucessivas reutilizações de Sl 110.4 em Hebreus.

Hermenêutica. Sl 110 já havia aparecido em 1.13, onde seu primeiro versículo forneceu a linguagem da entronização à direita de Deus. Em 5.6 o autor mobiliza agora o v. 4, a declaração sacerdotal. A combinação de Sl 2.7 e Sl 110.4 aproxima filiação, entronização e sacerdócio sem ainda desenvolver todos os vínculos entre eles. Attridge observa que a segunda citação fornece propriamente o fundamento escriturístico para afirmar que Cristo não assumiu por iniciativa própria o sacerdócio; Peterson destaca que o texto introduz uma modalidade sacerdotal distinta daquela descrita a partir de Aarão nos vv. 1–4 (Attridge, 1989: 145–146; Peterson, 1982: 84–86).

Teológico. A função do v. 6 dentro do argumento é definir escrituristicamente a natureza da nomeação mencionada no v. 5. Cristo satisfaz o princípio de 5.4 — o sacerdote deve ser chamado por Deus —, mas a Escritura utilizada para expressar seu sacerdócio não o insere na sucessão aarônica. O resultado é simultaneamente continuidade de princípio e diferença de modalidade: a autorização é divina em ambos os casos, mas a caracterização sacerdotal de Cristo é articulada por meio de Melquisedeque e de um sacerdócio qualificado como permanente.

Referências cruzadas. Gn 14.18–20; Sl 110.1,4; Hb 1.3,13; 4.14; 5.4–5,10; 6.20; 7.1–28.

Mantive a estrutura e a granularidade técnica do modelo de Hebreus 3. :chatgpt-content-reference{index="0"}

5.7 Ele, nos dias da sua carne,[1] tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas àquele que podia salvá-lo da morte,[2] e tendo sido ouvido por causa da sua reverência,[3]

“Ele, nos dias da sua carne” — a condição mortal de Jesus e a indeterminação temporal da expressão

Crítica textual. A redação ὃς ἐν ταῖς ἡμέραις τῆς σαρκὸς αὐτοῦ é segura no texto crítico adotado. O aparato da NA28 não registra em 5.7 variante que exija alteração da tradução. As dificuldades do versículo são sintáticas e semânticas, particularmente o alcance de “dias da carne”, o sentido de ἐκ θανάτου e a construção final ἀπὸ τῆς εὐλαβείας.

Exegese. Ὅς, “que/o qual”, retoma Cristo, sujeito de 5.5–6. Como não há ambiguidade real quanto ao antecedente, “Ele” fornece em português uma retomada natural sem acrescentar novamente o nome “Jesus”. Mais importante é perceber que o v. 7 não constitui uma sentença independente. Προσενέγκας, “tendo oferecido”, e εἰσακουσθείς, “tendo sido ouvido”, são particípios subordinados ao verbo finito ἔμαθεν, “aprendeu”, somente no v. 8. A tradução conserva, por isso, a frase aberta no final do versículo, em vez de encerrá-la artificialmente com um ponto. A estrutura completa prossegue por 5.8 e, em sentido mais amplo, forma uma unidade cuidadosamente articulada até 5.10 (Westcott, 1978: 124–125).

Ἐν ταῖς ἡμέραις τῆς σαρκὸς αὐτοῦ significa literalmente “nos dias da sua carne”. Σάρξ não designa aqui uma parte anatômica isolada nem possui por si mesma conotação moral negativa. A expressão caracteriza o período da existência humana de Jesus submetida às condições de mortalidade, fraqueza e sofrimento. Westcott entende a frase como referência ao período em que Jesus possuía um corpo mortal; Attridge igualmente interpreta “carne” como a esfera da fragilidade e do sofrimento humanos já pressuposta em 2.14 (Westcott, 1978: 125; Attridge, 1989: 149–150).

A forma plural ταῖς ἡμέραις, “nos dias”, é importante. O texto não diz “no dia de sua morte” nem identifica explicitamente um único episódio. A descrição posterior — clamor, lágrimas e oração diante da morte — torna o contexto da paixão particularmente relevante, mas não permite converter a frase, na tradução, em “no Getsêmani”. Westcott considera provável uma referência à agonia de Getsêmani, embora admita que a formulação alcance outros momentos de provação; Attridge observa de maneira mais cautelosa que “os dias da sua carne” não fornece indicação temporal precisa. Joseph enfatiza justamente o plural e argumenta que as orações podem representar uma amplitude maior da vida terrena de Jesus, não necessariamente um único momento (Westcott, 1978: 125–126; Attridge, 1989: 149–150; Joseph, 2021: 224).

“Nos dias da sua carne” foi mantido no texto principal em lugar de “durante sua vida terrena” ou “durante sua vida mortal”. Estas últimas tornam imediatamente explícito o sentido contextual, mas eliminam a imagem concreta de σάρξ e sua relação lexical com a linguagem de participação na “carne e sangue” em 2.14. A formulação portuguesa permanece compreensível e permite que a nota esclareça o valor contextual sem substituir a expressão do autor por sua interpretação.

Versões comparadas. ARA, NAA e ARC preservam literalmente “nos dias da sua carne”. A Bíblia de Jerusalém interpreta a expressão como “nos dias de sua vida terrestre”, enquanto a TEB utiliza “durante sua vida terrena”. RNJB e YLT mantêm o equivalente formal “the days of his flesh”. A diversidade revela duas estratégias legítimas: explicitar a referência à existência mortal ou conservar a metáfora antropológica do original. A presente tradução segue a segunda, por permitir maior continuidade lexical dentro de Hebreus.

Hermenêutica. A frase introduz uma mudança importante de perspectiva. Os vv. 5–6 estabeleceram a designação sacerdotal de Cristo mediante as citações de Sl 2.7 e 110

O Filho aprende a obediência por meio do sofrimento

5.8 Embora fosse Filho, aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu.[1]

“Embora fosse Filho, aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu” — filiação, aprendizagem e sofrimento

Crítica textual. A redação de 5.8 — καίπερ ὢν υἱός, ἔμαθεν ἀφ’ ὧν ἔπαθεν τὴν ὑπακοήν — não apresenta variante no aparato da NA28. A dificuldade do versículo é, portanto, sintática e semântica, não textual. Em particular, discute-se se καίπερ ὢν υἱός, “embora fosse Filho”, deve ser ligado retrospectivamente ao fato de Jesus ter sido “ouvido por causa de sua reverência” no v. 7 ou, como entende a maioria dos intérpretes e traduções, prospectivamente a ἔμαθεν [...] τὴν ὑπακοήν, “aprendeu [...] a obediência”. A tradução adotada segue esta segunda análise, mas a primeira permanece gramaticalmente possível (Attridge, 1989: 151–152; deSilva, 2000: 192–193).

Exegese. Καίπερ introduz uma concessão enfática, “embora”, “ainda que”, e ὢν é particípio presente de εἰμί, “ser”: literalmente, algo como “embora sendo Filho”. “Embora fosse Filho” reproduz o valor concessivo com sintaxe mais natural em português destinado à leitura pública. Υἱός aparece sem artigo, mas isso não obriga a entendê-lo indefinidamente como “um filho”. O contexto acaba de retomar em 5.5 a declaração “Tu és meu Filho”, e o título já constitui uma das designações fundamentais de Jesus desde 1.1–5. A concessão ganha precisamente sua força dessa identidade: aquele que Hebreus apresenta como Filho não é dispensado da experiência concreta de sofrimento e obediência. Por isso, “Filho” foi conservado com valor titular e não reduzido a uma referência genérica à condição filial (Peterson, 1982: 92–93; Moffatt, 1952: 66–67).

A colocação de καίπερ ὢν υἱός é sintaticamente relevante. deSilva observa que a construção pode ser relacionada ao que precede: Jesus teria sido ouvido por causa de sua reverência, “embora fosse Filho”, isto é, não simplesmente por sua relação filial. Essa interpretação é possível e evita pressupor que a filiação devesse normalmente excluir sofrimento. Attridge, porém, chama atenção para exemplos em que καίπερ introduz uma concessiva que se relaciona naturalmente ao que vem depois e entende que aqui o contraste é entre a condição de Filho e o aprendizado mediante sofrimento. Essa leitura também explica mais diretamente por que υἱός é imediatamente seguido pelo verbo principal ἔμαθεν. A tradução “Embora fosse Filho, aprendeu...” preserva essa conexão sem acrescentar qualificações como “mesmo sendo o Filho eterno”, que pertencem à interpretação e não à formulação lexical do versículo (Attridge, 1989: 151–152; deSilva, 2000: 192–193).

Ἔμαθεν é aoristo ativo indicativo de μανθάνω, “aprender”, e τὴν ὑπακοήν constitui seu objeto direto: “aprendeu a obediência”. A formulação deve ser preservada em sua força própria. O autor não diz simplesmente que Jesus “foi obediente” ou “obedeceu”; descreve uma aprendizagem. Isso, porém, não implica que ele tivesse anteriormente sido desobediente e precisasse corrigir uma deficiência moral. O contexto imediatamente anterior o apresentou como alguém “provado em todas as coisas de modo semelhante, sem pecado” (4.15). O aprendizado é apresentado como experiencial: a obediência é vivida concretamente em condições nas quais cumprir a vontade recebida envolve sofrimento. Peterson distingue precisamente essa aprendizagem de uma correção produzida por desobediência anterior: trata-se do desenvolvimento, no âmbito da experiência humana, da obediência exigida por sua missão, que alcança sua expressão culminante no sofrimento (Peterson, 1982: 93–95).

Ἀφ’ ὧν ἔπαθεν é, de maneira estritamente formal, “a partir das coisas que sofreu”. Ἀπό com o relativo plural neutro ὧν apresenta aquilo que foi sofrido como a experiência da qual procede esse aprendizado. Em português, “pelas coisas que sofreu” seria bastante próximo da forma grega, mas “coisas” produz uma formulação menos natural e pode sugerir uma coleção indefinida de acontecimentos. “Por meio daquilo que sofreu” procura conservar a relação experiencial entre sofrimento e aprendizagem sem reduzir a expressão a uma causalidade abstrata. Ἔπαθεν, aoristo de πάσχω, foi traduzido simplesmente por “sofreu”; “padeceu” é lexicalmente possível, mas menos corrente na oralidade contemporânea.

Há ainda um efeito literário importante e praticamente intraduzível: ἔμαθεν ἀφ’ ὧν ἔπαθεν, “aprendeu por aquilo que sofreu”. A proximidade sonora entre ἔμαθεν e ἔπαθεν reproduz uma associação proverbial antiga entre aprender e sofrer. Moffatt e Attridge assinalam paralelos desde Ésquilo e Heródoto. No uso proverbial grego, a máxima podia descrever alguém que aprende somente depois de sofrer as consequências de seus erros; Hebreus, contudo, não utiliza o jogo verbal para atribuir erro anterior a Jesus. O texto reinsere a fórmula em outro quadro: o sofrimento constitui o âmbito concreto no qual a obediência é experimentada e realizada (Moffatt, 1952: 66–67; Attridge, 1989: 152).

O versículo também não deve ser isolado da longa construção de 5.7–10. O eixo verbal da sentença avança de ἔμαθεν, “aprendeu”, em 5.8, para ἐγένετο, “tornou-se”, em 5.9, enquanto os particípios descrevem circunstâncias e etapas desse movimento. Assim, as orações, súplicas, clamor e lágrimas do v. 7 pertencem ao mesmo quadro experiencial em que se situa o aprendizado da obediência, e τελειωθείς, “tendo sido aperfeiçoado”, no v. 9 retoma o processo e o conduz à função subsequente de Cristo como causa de salvação. Separar 5.8 como observação psicológica independente enfraqueceria a progressão sintática do período (deSilva, 2000: 191–192; Peterson, 1982: 92–95).

Versões comparadas. A ARA traz “embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”, preservando de perto tanto o particípio ὢν quanto o plural implícito em ὧν. A NAA torna a concessiva mais idiomática: “Embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”. A ARC apresenta “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu”, conservando uma sintaxe hoje menos corrente e utilizando “padeceu” para ἔπαθεν. A Bíblia de Jerusalém traduz “E embora fosse Filho, aprendeu, contudo, a obediência pelo sofrimento”, reforçando duas vezes a concessão e condensando ἀφ’ ὧν ἔπαθεν em “pelo sofrimento”. A TEB traz “Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelos próprios sofrimentos”, convertendo a oração relativa em um sintagma nominal e explicitando “próprios”. A NIV apresenta “Son though he was, he learned obedience from what he suffered”, bastante próxima da estrutura semântica do grego. A Revised New Jerusalem Bible desloca a concessiva para depois do verbo — “he learnt obedience, Son though he was, through his sufferings” — tornando particularmente perceptível seu caráter parentético. A presente tradução combina a naturalidade de “Embora fosse Filho” com a preservação da relação experiencial expressa por ἀφ’ ὧν: “por meio daquilo que sofreu”.

Hermenêutica. O v. 8 constitui a articulação entre a experiência descrita em 5.7 e o “aperfeiçoamento” de 5.9. Sua função no argumento não é explicar abstratamente como alguém adquire a virtude da obediência, mas mostrar como a qualificação do sumo sacerdote apresentada em 4.15 e 5.1–2 se realiza de maneira própria em Jesus. Em 2.10 o autor já havia associado seu aperfeiçoamento a “sofrimentos”; em 2.17–18 e 4.15, sua capacidade de solidariedade aos seres humanos estava vinculada à experiência efetiva de sofrimento e provação. Hebreus 5.8 concentra essa linha argumentativa na relação entre sofrimento e obediência. O v. 9, por sua vez, retomará a raiz de ὑπακοή em τοῖς ὑπακούουσιν, “os que lhe obedecem”, formando uma ligação lexical entre a obediência experimentada pelo Filho e a obediência requerida daqueles para os quais ele se torna causa de salvação (Peterson, 1982: 92–95).

Teológico. A formulação mantém em tensão duas caracterizações que Hebreus não procura dissolver: Jesus é “Filho” e, simultaneamente, sua existência humana inclui aprendizado, sofrimento e obediência concretamente exercida. O paradoxo não deve ser neutralizado traduzindo ἔμαθεν como se significasse apenas “demonstrou”, nem transformado em afirmação de que uma desobediência anterior precisou ser corrigida. Dentro da cristologia própria de Hebreus, a filiação elevada estabelecida no capítulo 1 e reiterada em 5.5 é colocada lado a lado com a experiência humana efetiva já enfatizada em 2.10–18 e 4.15. É justamente essa combinação que prepara a declaração de 5.9 acerca de seu aperfeiçoamento e de sua função salvífica (Attridge, 1989: 151–152; Peterson, 1982: 92–95).

Referências cruzadas. Hb 1.2–5; 2.10,17–18; 4.15; 5.5,7,9; 7.28; 10.5–10; 12.2–11; Fp 2.8.

Aperfeiçoado, causa de salvação eterna e proclamado sumo sacerdote

5.9 e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem,[1]

5.10 tendo sido proclamado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.[2]

“Tendo sido aperfeiçoado, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” — τελειωθείς, αἴτιος e a passagem da obediência de Jesus à dos que o seguem

Crítica textual. O aparato da NA28 não registra variante em 5.9. A redação καὶ τελειωθεὶς ἐγένετο πᾶσιν τοῖς ὑπακούουσιν αὐτῷ αἴτιος σωτηρίας αἰωνίου pode, portanto, ser tratada como textualmente estável para os propósitos da tradução. As divergências entre as versões concentram-se na interpretação de τελειωθείς e αἴτιος, não em diferenças do texto grego.

Exegese. O v. 9 não inicia sintaticamente uma nova sentença independente. Hebreus 5.7–10 constitui um período complexo cujo antecedente remonta a Cristo no v. 5. Dentro dele, os dois verbos finitos que sustentam a progressão são ἔμαθεν, “aprendeu”, no v. 8, e ἐγένετο, “tornou-se”, no v. 9; τελειωθείς, “tendo sido aperfeiçoado”, e προσαγορευθείς, “tendo sido proclamado/designado”, são particípios subordinados ao segundo movimento. Assim, os vv. 9–10 formam uma sequência única: tendo sido aperfeiçoado, Cristo tornou-se causa de salvação eterna e foi proclamado por Deus sumo sacerdote (Westcott, 1978: 124, 128–130; Attridge, 1989: 147, 153–154).

Τελειωθείς é particípio aoristo passivo de τελειόω. A tradução “tendo sido aperfeiçoado” conserva deliberadamente a mesma família lexical que desempenha papel importante em Hebreus e já apareceu em 2.10, voltando a caracterizar Cristo em 7.28. O português “aperfeiçoado”, porém, pode sugerir que Jesus possuía anteriormente algum defeito moral que precisasse ser corrigido. Esse não é o sentido exigido pelo contexto. O v. 8 não descreve a passagem da desobediência para a obediência, e 4.15 já qualificou Jesus como “sem pecado”. O movimento é antes o de levar uma trajetória ao seu cumprimento: por meio da experiência efetiva do sofrimento e da obediência, o Filho chega à condição plenamente adequada para exercer a função salvadora e sacerdotal que a passagem lhe atribui (Attridge, 1989: 153; Peterson, 1982: 96–103).

Também não é necessário reduzir τελειόω a um termo técnico que significaria simplesmente “consagrar sacerdote”. A linguagem cultual contribui para o horizonte da passagem e a tradição grega do Pentateuco emprega a família de τελειόω em contextos de investidura sacerdotal, mas o emprego em Hebreus é mais abrangente. Peterson argumenta que uma tradução exclusivamente cultual possui base linguística insuficiente: em 5.9 estão combinados qualificação vocacional, consumação da trajetória terrestre e a passagem à condição em que Cristo pode realizar plenamente sua função salvadora (Peterson, 1982: 97–103). Attridge chega a conclusão semelhante: o termo não é mero sinônimo de προσαγορευθείς no v. 10 nem uma referência à aquisição de perfeição moral, mas envolve sua adequação à função intercessora mediante o sofrimento e, simultaneamente, a culminação dessa trajetória em sua exaltação (Attridge, 1989: 153).

Ἐγένετο, aoristo de γίνομαι, fornece o verbo principal: “tornou-se”. A construção não diz simplesmente que Cristo “é” causa de salvação, mas situa essa condição como resultado do processo descrito nos vv. 7–9. A tradução conserva esse movimento verbal. O particípio τελειωθείς apresenta a circunstância antecedente; ἐγένετο introduz o resultado: “tendo sido aperfeiçoado, tornou-se...”. A relação não precisa ser transformada em uma causal explícita — “porque foi aperfeiçoado” —, embora essa conexão esteja implícita na sequência.

Πᾶσιν τοῖς ὑπακούουσιν αὐτῷ é um dativo que identifica os beneficiários: “para todos os que lhe obedecem”. Ὑπακούουσιν é particípio presente substantivado de ὑπακούω. Mais importante que extrair do presente uma duração artificial é perceber a retomada lexical de ὑπακοή, “obediência”, imediatamente no v. 8. O texto produz uma transição cuidadosamente construída: o Filho “aprendeu a obediência” e torna-se causa de salvação para “os que lhe obedecem”. A obediência de Cristo ao Pai e a obediência dos destinatários a Cristo não são gramaticalmente idênticas nem intercambiáveis, mas a repetição da mesma família lexical estabelece uma correspondência deliberada entre elas (Westcott, 1978: 129; Attridge, 1989: 153–154; Urso, 2014: 88–89).

Αἴτιος é predicativo de ἐγένετο e ocorre somente aqui no Novo Testamento. Seu campo semântico inclui aquele que é responsável por alguma coisa, sua causa ou agente originador. “Causa” foi escolhida por conservar de maneira particularmente direta esse valor causal. “Fonte” é idiomática e deixa clara a procedência da salvação; “autor”, tradicional em várias versões, também é possível, mas pode aproximar excessivamente αἴτιος de ἀρχηγός, empregado em 2.10. Hebreus utiliza palavras diferentes: em 2.10, Cristo é ἀρχηγὸς τῆς σωτηρίας, expressão que comporta a imagem do pioneiro ou iniciador que conduz outros; em 5.9, αἴτιος coloca em primeiro plano sua eficácia causal em relação à salvação. Não é necessário transformar essa diferença lexical numa oposição técnica rígida, mas preservá-la na tradução permite que o vocabulário próprio de cada passagem continue perceptível (Westcott, 1978: 129; Attridge, 1989: 153–154; Peterson, 1982: 58, 97).

Σωτηρίας αἰωνίου é literalmente “de salvação eterna”. O adjetivo αἰώνιος não é acessório dentro de Hebreus. Ele integra uma rede que inclui “redenção eterna” em 9.12, “herança eterna” em 9.15 e “aliança eterna” em 13.20. Aqui prepara a oposição entre a eficácia limitada e reiterada das instituições sacerdotais discutidas posteriormente e a eficácia duradoura da ação atribuída a Cristo. A expressão possui também precedente bíblico em Is 45.17 LXX. A tradução mantém “salvação eterna” sem expandi-la para “salvação para sempre” ou antecipar no texto principal a maneira pela qual os capítulos seguintes desenvolverão essa eternidade (Attridge, 1989: 153–154; Westcott, 1978: 129–130).

Versões comparadas. ARA e NAA traduzem τελειωθείς por “tendo sido aperfeiçoado” e αἴτιος por “Autor da salvação eterna”. A ARC emprega a formulação tradicional “sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação”, preservando αἴτιος como “causa”, mas utilizando “consumado” para τελειωθείς. A Bíblia de Jerusalém traz “levado à perfeição” e interpreta αἴτιος como “princípio de salvação eterna”. A TEB apresenta “levado até a própria consumação” e conserva “causa de salvação eterna”. A Revised New Jerusalem Bible tem “when he had been perfected [...] the source of eternal salvation”, enquanto Young’s Literal Translation mantém de modo particularmente formal “having been made perfect [...] a cause of salvation age-during”. A presente tradução combina “tendo sido aperfeiçoado”, que preserva a rede de τελειόω em Hebreus, com “causa de salvação eterna”, que representa diretamente αἴτιος e evita identificar lexicalmente o termo com ἀρχηγός de 2.10.

Hermenêutica. O v. 9 deve ser interpretado como resultado do movimento iniciado nos vv. 7–8. A oração, o sofrimento e o aprendizado da obediência não constituem um episódio biográfico colocado ao lado da cristologia sacerdotal; conduzem diretamente à afirmação de que Cristo foi “aperfeiçoado” e se tornou causa de salvação. Ao mesmo tempo, o v. 10 impedirá que “aperfeiçoamento” e “salvação” sejam interpretados isoladamente da categoria sacerdotal. O autor converte a experiência terrestre descrita nos vv. 7–8 em fundamento da função que será desenvolvida extensamente nos caps. 7–10 (Attridge, 1989: 137, 153–154; Peterson, 1982: 96–103).

Teológico. Na lógica própria de Hebreus, a sequência é cuidadosamente articulada: sofrimento → obediência → aperfeiçoamento → eficácia salvadora. O texto não apresenta essas etapas como correção moral de Cristo, mas como consumação de sua trajetória e qualificação para a função mediadora. A expressão “para todos os que lhe obedecem” incorpora os destinatários à mesma rede temática da obediência, transformando a descrição de Cristo em uma afirmação que prepara a dimensão exortativa que começará em 5.11.

Referências cruzadas. Is 45.17; Hb 2.10,17–18; 4.14–16; 5.7–8; 6.20; 7.25,28; 9.12,15,28; 10.14; 12.2.

“Tendo sido proclamado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” — προσαγορευθείς, a releitura do Salmo 110.4 e o sentido de τάξις

Crítica textual. O aparato da NA28 não registra variante em 5.10. A redação προσαγορευθεὶς ὑπὸ τοῦ θεοῦ ἀρχιερεὺς κατὰ τὴν τάξιν Μελχισέδεκ é, portanto, estável no texto crítico adotado. A principal questão não é textual, mas exegética: determinar a força de προσαγορεύω, explicar por que Hebreus utiliza ἀρχιερεύς, “sumo sacerdote”, ao retomar um salmo que diz ἱερεύς, “sacerdote”, e delimitar o que significa “segundo a ordem de Melquisedeque”.

Exegese. Προσαγορευθείς é particípio aoristo passivo de προσαγορεύω e está sintaticamente coordenado com τελειωθείς do v. 9 em torno do verbo principal ἐγένετο. Por isso, o v. 10 foi mantido como continuação da sentença anterior: “tendo sido proclamado...”. A estrutura pode ser ouvida como uma moldura: “tendo sido aperfeiçoado” → “tornou-se causa de salvação eterna” → “tendo sido proclamado por Deus sumo sacerdote”. A forma participial evita transformar a designação sacerdotal numa afirmação desligada do aperfeiçoamento e da eficácia salvadora que a precedem (Westcott, 1978: 124, 129–130; Attridge, 1989: 153–154).

Προσαγορεύω ocorre somente aqui no Novo Testamento. O verbo pode significar dirigir-se a alguém por determinado nome ou título, denominar formalmente, aclamar ou conferir uma designação. Westcott destaca seu caráter formal e solene, aproximando-o de “ser intitulado” ou “ser chamado oficialmente”; usos semelhantes aparecem, por exemplo, em 1Mc 14.40 e 2Mc 4.7; 10.9; 14.37 (Westcott, 1978: 130). Attridge igualmente fala da “designação” de Cristo mediante as palavras do Sl 110.4 (Attridge, 1989: 154). “Proclamado” foi preferido porque distingue esse verbo do simples “chamar” e comunica a atribuição solene de um título. Não significa que o título fosse apenas anunciado publicamente nem resolve, por si só, a questão cronológica de quando o sacerdócio teria começado.

O agente do passivo é explicitado pela construção ὑπὸ τοῦ θεοῦ, “por Deus”. Isso retoma o argumento de 5.4–6: ninguém assume a honra sacerdotal por iniciativa própria; Cristo igualmente não glorificou a si mesmo, mas sua condição é fundamentada numa declaração divina. O v. 10 fecha, portanto, o movimento iniciado em 5.5–6. O primeiro anúncio citou o Sl 110.4; agora o autor resume seu efeito: Deus proclamou Cristo sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.

Há uma modificação interpretativa importante. O Sl 109.4 LXX (= Sl 110.4 nas numerações modernas) diz: σὺ ἱερεὺς εἰς τὸν αἰῶνα κατὰ τὴν τάξιν Μελχισέδεκ, “tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque”. Essa mesma formulação foi citada em Hb 5.6. No v. 10, porém, o autor não escreve simplesmente ἱερεύς, “sacerdote”, mas ἀρχιερεύς, “sumo sacerdote”. Não se trata de variante do salmo nem do texto de Hebreus: é a maneira como o próprio discurso interpreta o sacerdote do oráculo à luz da categoria de sumo sacerdócio que vem desenvolvendo desde 2.17. O capítulo 7 voltará a utilizar tanto “sacerdote” quanto “sumo sacerdote”, explicando por que a figura indicada no salmo pode sustentar a cristologia sacerdotal de Hebreus (Attridge, 1989: 145–146, 154; Westcott, 1978: 130).

Κατὰ τὴν τάξιν Μελχισέδεκ reproduz a expressão do Sl 110.4 LXX. Τάξις pode designar ordem, disposição, arranjo, posição ou categoria. “Ordem” foi mantido por sua proximidade formal e por sua longa tradição tradutória, mas não deve ser ouvido automaticamente no sentido moderno de uma “ordem religiosa”, corporação institucional ou linha genealógica de sucessão sacerdotal. O próprio autor ainda não explica aqui em que consiste essa τάξις. Essa explicação é deliberadamente adiada até o cap. 7, onde a relação entre Melquisedeque e Cristo será construída a partir de Gn 14.17–20 e Sl 110.4. Traduzir desde já por “linhagem”, “sucessão” ou “sacerdócio de Melquisedeque” imporia ao v. 10 uma interpretação que o texto ainda não formulou (Attridge, 1989: 154).

A escolha “Melquisedeque” representa a forma tradicional portuguesa do nome Μελχισέδεκ. A ausência de artigo diante de ἀρχιερεύς é normal numa construção predicativa desse tipo e não exige “um sumo sacerdote”: o substantivo funciona como título conferido ao sujeito. Da mesma forma, não foi acrescentado “como” antes de “sumo sacerdote”; “proclamado por Deus sumo sacerdote” conserva a predicação direta do grego.

Versões comparadas. A ARA traduz “tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”; a NAA transforma o particípio em oração finita e explicita o sujeito: “E Deus o nomeou sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque”. A ARC utiliza o mais genérico “chamado por Deus sumo sacerdote”. A Bíblia de Jerusalém expande a relação titulativa: “tendo recebido de Deus o título de sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec”. A TEB aproxima-se especialmente da força adotada aqui: “tendo sido proclamado por Deus sumo sacerdote à maneira de Melquisedec”, mas interpreta κατὰ τὴν τάξιν mediante “à maneira de”. A Revised New Jerusalem Bible emprega “was acclaimed by God with the title of high priest of the order of Melchizedek”, enquanto Young’s Literal Translation preserva quase formalmente a construção: “having been addressed by God a chief priest, according to the order of Melchisedek”. A presente tradução escolhe “proclamado” para a solenidade de προσαγορεύω e conserva “segundo a ordem” para não antecipar a explicação de τάξις que será dada pelo próprio argumento.

Hermenêutica. O v. 10 é simultaneamente conclusão e transição. Ele conclui 5.1–10 retomando a exigência estabelecida no v. 4 — o sacerdote deve possuir autorização divina — e aplica novamente a Cristo o Sl 110.4 já citado no v. 6. Ao mesmo tempo, a referência a Melquisedeque abre uma questão ainda não resolvida. O discurso interromperá a exposição em 5.11–6.20 e somente em 6.20–7.1 retomará explicitamente “sumo sacerdote [...] segundo a ordem de Melquisedeque”. Essa suspensão contribui para a passagem da exposição à advertência sobre a dificuldade dos ouvintes em acompanhar o argumento (Attridge, 1989: 137, 154).

Há ainda uma função programática mais ampla em 5.9–10. As expressões “aperfeiçoado”, “salvação eterna” e “sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” antecipam temas que dominarão a grande exposição sacerdotal subsequente. Urso, seguindo a análise estrutural de Vanhoye, entende essas três afirmações como uma propositio que será desenvolvida em 7.1–10.18 (Urso, 2014: 89–90). Attridge igualmente reconhece sua função antecipatória, embora considere excessivamente rígida a tentativa de fazer cada expressão anunciar uma seção inteiramente separada (Attridge, 1989: 137). Convém, portanto, reconhecer a função programática sem impor ao texto uma correspondência estrutural mais precisa do que a evidência permite.

Teológico. A designação sacerdotal não aparece isolada da experiência narrada nos vv. 7–9. O discurso vincula a condição sacerdotal de Cristo à sua trajetória de sofrimento e obediência, ao aperfeiçoamento e à eficácia salvadora que dela resulta. Ao mesmo tempo, a fórmula “segundo a ordem de Melquisedeque” impede que seu sacerdócio seja simplesmente assimilado ao modelo aarônico descrito nos vv. 1–4. A natureza dessa diferença ainda não é explicada em 5.10; o cap. 7 constitui precisamente a exposição destinada a fazê-lo.

Referências cruzadas. Gn 14.17–20; Sl 110.1,4; Hb 2.17; 4.14; 5.1,4–6,9; 6.20; 7.1–3,11,15–17,20–28; 8.1; 9.11–12,24; 10.12–14.

Hebreus 5.11–12 — A dificuldade da exposição e a necessidade renovada dos elementos básicos

5.11 A respeito disso, temos muito a dizer, e é difícil de explicar, porque vocês se tornaram lentos para ouvir.[1]

5.12 Pois, pelo tempo decorrido, vocês já deveriam ser mestres; novamente precisam de alguém que lhes ensine os elementos iniciais dos oráculos de Deus,[2] e passaram a precisar de leite, não de alimento sólido.[3]

“A respeito disso, temos muito a dizer, e é difícil de explicar, porque vocês se tornaram lentos para ouvir” — a interrupção da exposição e a lentidão dos ouvintes

Crítica textual. A NA28 lê Περὶ οὗ πολὺς ἡμῖν ὁ λόγος καὶ δυσερμήνευτος λέγειν, ἐπεὶ νωθροὶ γεγόνατε ταῖς ἀκοαῖς. O aparato registra a omissão do artigo ὁ, diante de λόγος, em 𝔓46*, D* e P. A presença ou ausência do artigo não produz diferença substantiva em português, e a presente tradução segue o texto impresso pela NA28. A principal dificuldade do versículo não é propriamente textual, mas sintática: οὗ pode ser entendido como masculino, remetendo a Melquisedeque ou ao sumo sacerdote mencionado em 5.10, ou como neutro, retomando o assunto que acaba de ser introduzido. A forma gráfica do relativo é idêntica nas duas análises.

Exegese. Περὶ οὗ significa literalmente “a respeito do qual/disso”. A referência masculina é possível: nesse caso, o autor estaria dizendo que tem muito a expor acerca de Melquisedeque, mencionado imediatamente antes. Entretanto, a referência mais ampla ao assunto — o sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque — ajusta-se particularmente bem ao desenvolvimento subsequente, pois a exposição retomada em 7.1 não tratará apenas da pessoa de Melquisedeque, mas de sua função dentro da argumentação sacerdotal. Por isso, “a respeito disso” preserva uma referência temática suficientemente ampla sem inserir no texto “Melquisedeque” ou “sacerdócio”, que não são repetidos no v. 11 (Attridge, 1989: 156–157).

Πολὺς ἡμῖν ὁ λόγος é uma construção idiomática: literalmente, algo como “grande/muito é para nós o discurso”. O sentido contextual é “temos muito a dizer”. Λόγος não precisa ser entendido como uma lista de numerosas proposições independentes; refere-se ao discurso ou exposição que ainda deverá ser desenvolvido. A expressão καὶ δυσερμήνευτος λέγειν acrescenta que esse discurso é “difícil de explicar/expor”. O infinitivo λέγειν explicita em que sentido ele é δυσερμήνευτος: difícil de colocar em discurso inteligível. Há inclusive uma discreta aproximação sonora e lexical entre λόγος e λέγειν, difícil de reproduzir integralmente em português (Attridge, 1989: 156–157; Westcott, 1978: 132).

A dificuldade, contudo, recebe imediatamente uma causa: ἐπεὶ νωθροὶ γεγόνατε ταῖς ἀκοαῖς. Νωθρός descreve alguém lento, indolente, tardio ou pouco responsivo. Com ταῖς ἀκοαῖς, “quanto aos ouvidos/à audição”, não se refere a deficiência física, mas à capacidade de receber e processar aquilo que é ouvido. “Lentos para ouvir” conserva deliberadamente a metáfora auditiva do grego, importante numa obra cuja argumentação pressupõe proclamação e audição. Traduções como “lentos à compreensão” tornam explícita uma consequência correta, mas substituem a imagem da audição pela interpretação cognitiva dela (Moffatt, 1952: 69; Westcott, 1978: 132).

O perfeito γεγόνατε, “vocês se tornaram”, é igualmente importante. O autor não caracteriza seus ouvintes como pessoas naturalmente incapazes de compreender. Ele descreve uma condição adquirida: eles se tornaram lentos para ouvir. Essa formulação prepara a acusação mais desenvolvida do v. 12, segundo a qual o tempo transcorrido deveria ter produzido progresso, mas a situação presente exige novamente instrução elementar. A mesma palavra νωθρός reaparecerá em 6.12, onde os ouvintes são exortados a não se tornarem “lentos”, formando uma ligação lexical entre a abertura e o encerramento dessa seção parenética (Attridge, 1989: 156–157).

Versões comparadas. A ARA traduz “temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir”, preservando diretamente a metáfora auditiva. A NAA intensifica a dimensão volitiva mediante “vocês ficaram com preguiça de ouvir”. A ARC apresenta “vos fizestes negligentes para ouvir”, também atribuindo ao adjetivo uma nuance moral mais marcada. A Bíblia de Jerusalém prefere “vos tornastes lentos à compreensão”, interpretando ταῖς ἀκοαῖς pelo efeito cognitivo da audição. A Revised New Jerusalem Bible igualmente traz “sluggish in understanding”. A Young’s Literal Translation mantém mais formalmente “ye have become dull of hearing”. A presente tradução, “vocês se tornaram lentos para ouvir”, procura preservar simultaneamente γεγόνατε, a relativa neutralidade de νωθροί e a imagem explícita da audição.

Hermenêutica. O v. 11 não abandona o assunto de 5.1–10, mas suspende momentaneamente sua exposição. Depois de anunciar Jesus como “sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque” em 5.10, o discurso passa a avaliar a capacidade dos ouvintes de acompanhar o argumento. Somente em 6.20–7.1 o nome de Melquisedeque voltará ao primeiro plano. Essa interrupção possui função retórica: a exposição mais complexa que virá é precedida por uma repreensão destinada a exigir dos ouvintes maior atenção e maturidade. A dificuldade da comunicação é, portanto, apresentada menos como obscuridade intrínseca da matéria do que como problema da relação entre o discurso e a disposição de sua audiência (Attridge, 1989: 155–157).

Teológico. No desenvolvimento literário de Hebreus, exposição cristológica e exortação não constituem blocos independentes. A afirmação acerca do sacerdócio de Cristo conduz imediatamente a uma avaliação da capacidade da comunidade de compreender o argumento. O aprofundamento da exposição sacerdotal exige, dentro da própria lógica do discurso, uma audição que não permaneça no estágio elementar. A relação entre conhecimento e perseverança será desenvolvida em 5.12–6.12 antes que o tema de Melquisedeque seja retomado.

Referências cruzadas. Hb 2.1; 3.7,15; 4.7; 5.6,10; 6.12,20; 7.1.

“Pelo tempo decorrido, vocês já deveriam ser mestres; novamente precisam de alguém que lhes ensine os elementos iniciais dos oráculos de Deus” — tempo, ensino e os στοιχεῖα

Crítica textual. A principal questão textual da primeira metade do v. 12 encontra-se em τινά. Nos antigos manuscritos em escrita maiúscula, a sequência ΤΙΝΑ não distinguia graficamente por acentuação entre τινά, pronome indefinido, “alguém”, e τίνα, pronome interrogativo, “quais/o que”. A NA28 imprime τινά. Ψ e 81 apoiam explicitamente essa leitura acentuada, enquanto 𝔓46, א, A, B*, C, D*, P e 33 apresentam a forma sem acento e, portanto, não podem resolver a questão pela grafia. B2, D2, K, L, 0122, 0278, 104, 365, 630, 1241, 1505 e 2464, além de testemunhos latinos, coptas e da tradição majoritária, foram entendidos na tradição editorial como τίνα, “quais”; os manuscritos 6, 1739 e 1881 omitem a palavra. A tradução segue a análise indefinida adotada no texto crítico: “alguém que lhes ensine” (Attridge, 1989: 155, 158).

Exegese. Καὶ γάρ introduz a explicação da acusação anterior: “pois”. A lentidão da audição é demonstrada por uma discrepância entre o estágio que os destinatários deveriam ter alcançado e aquele em que efetivamente se encontram. Ὀφείλοντες εἶναι διδάσκαλοι expressa obrigação ou expectativa: “devendo ser mestres”. Διὰ τὸν χρόνον fornece o fundamento temporal dessa expectativa. Χρόνος designa aqui um período transcorrido, não a idade biológica dos ouvintes. O contexto sugere o tempo decorrido desde que receberam sua formação cristã, embora o texto não indique quantos anos seriam nem forneça uma data a partir da qual o intervalo possa ser calculado. “Pelo tempo decorrido” preserva essa relativa indeterminação (Attridge, 1989: 158; Westcott, 1978: 133).

Διδάσκαλοι, “mestres”, não exige que os destinatários constituíssem uma ordem formal de professores da comunidade. A oposição é retórica e pedagógica: depois de tempo suficiente de aprendizagem, pessoas maduras deveriam estar em condições de instruir outras, mas os destinatários ainda necessitam receber instrução. Paralelos educacionais greco-romanos mostram que a passagem de aprendiz para alguém capaz de ensinar podia funcionar como imagem comum de maturidade. Assim, o versículo não oferece base suficiente para reconstruir os leitores de Hebreus como uma escola de mestres ou um círculo profissional de docentes (Moffatt, 1952: 70; Attridge, 1989: 158).

Πάλιν χρείαν ἔχετε, “novamente precisam”, intensifica a censura. O advérbio πάλιν pressupõe que os elementos em questão já haviam sido ensinados anteriormente. A construção τοῦ διδάσκειν ὑμᾶς τινά é mais naturalmente entendida com τινά como sujeito do infinitivo: “que alguém ensine vocês”. A alternativa interrogativa τίνα produziria algo como “que lhes ensinem quais são os elementos iniciais...”. Embora gramaticalmente possível e refletida em parte da tradição manuscrita e tradutória, a leitura indefinida cria uma antítese particularmente clara: aqueles que deveriam ser mestres precisam novamente de alguém que os ensine (Westcott, 1978: 133; Attridge, 1989: 158).

Τὰ στοιχεῖα τῆς ἀρχῆς é uma expressão enfaticamente elementar. Στοιχεῖον pode designar um componente básico e, em contexto educacional, as letras do alfabeto, daí metaforicamente os “rudimentos” ou “elementos” de uma disciplina. Aqui o contexto pedagógico torna esse sentido preferível às acepções cosmológicas que στοιχεῖα possui em outros textos do Novo Testamento. Τῆς ἀρχῆς, “do início”, reforça a mesma ideia. “Elementos iniciais” procura conservar as duas partes da expressão sem produzir em português uma formulação excessivamente redundante como “elementos dos princípios iniciais” (Attridge, 1989: 158–159; Westcott, 1978: 133).

Τῶν λογίων τοῦ θεοῦ foi mantido como “dos oráculos de Deus”. Λόγιον pode designar pronunciamento divino e é empregado em outros contextos para as Escrituras. Há divergência quanto ao alcance específico da expressão aqui. Westcott considera mais natural relacioná-la às Escrituras do Antigo Testamento, cuja correta compreensão é central para a argumentação de Hebreus (Westcott, 1978: 133). Attridge admite essa possibilidade, mas considera mais provável o sentido mais abrangente de “revelação divina”, que inclui as Escrituras sem se limitar a elas e pode compreender também a mensagem cristã resumida em 6.1–2 (Attridge, 1989: 158–159). A tradução “oráculos de Deus” preserva essa abertura em vez de substituir o termo por “Escrituras”, “doutrina” ou “palavra de Deus”.

Versões comparadas. A ARA traz “quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido” e, adotando uma representação que combina as duas possibilidades de τινά/τίνα, diz “necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus”. A NAA apresenta estrutura semelhante: “necessidade de alguém que lhes ensine quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus”. A ARC verte “ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus”, optando por “palavras” para λόγια. A Bíblia de Jerusalém tem “necessitais novamente que se vos ensinem os primeiros rudimentos dos oráculos de Deus”. A Revised New Jerusalem Bible apresenta “you need someone to teach you all over again the elements of the principles of God’s sayings”, enquanto a Young’s Literal Translation conserva de modo bastante formal “again ye have need that one teach you what are the elements of the beginning of the oracles of God”. A presente tradução escolhe “alguém” para τινά e “elementos iniciais dos oráculos de Deus”, evitando acrescentar “quais são”, que pressuporia a análise interrogativa de τίνα.

Hermenêutica. A censura não contrapõe simplesmente pessoas instruídas a pessoas sem instrução. Seu ponto é a falta de progressão esperada. O mesmo público que já recebeu os “elementos iniciais” deveria estar apto a avançar para uma exposição mais exigente; em vez disso, precisa novamente de instrução básica. Essa formulação prepara 6.1, onde o autor propõe precisamente deixar o “ensino inicial acerca de Cristo” e avançar para a maturidade. Os elementos básicos não são rejeitados como falsos ou dispensáveis; funcionam como fundamento que não deveria necessitar ser continuamente recolocado.

Teológico. A argumentação pressupõe continuidade entre instrução elementar e aprofundamento. A exposição do sacerdócio de Cristo segundo Melquisedeque não é apresentada como doutrina esotérica independente do ensino inicial, mas como desenvolvimento que exige domínio e assimilação daquele fundamento. A deficiência denunciada no v. 12 consiste, portanto, não na inexistência de informação recebida, mas na ausência do crescimento que deveria ter resultado dela.

Referências cruzadas. Hb 2.1–3; 5.13–14; 6.1–3,12; 10.32; 13.7.

“Passaram a precisar de leite, não de alimento sólido” — regressão pedagógica e a metáfora da alimentação

Crítica textual. A NA28 imprime γάλακτος [καὶ] οὐ στερεᾶς τροφῆς, colocando καί entre colchetes para indicar incerteza quanto à sua pertença ao texto inicial. A omissão é atestada por 𝔓46, א*, B2, C, 33, 81 e 1739, além de testemunhos latinos e de citações de Orígenes e Dídimo. A presença de καί possui apoio amplo, incluindo א2, A, B*, D, K, L, P, Ψ, 0122, 0278, 104, 365, 630, 1241, 1505, 1881 e 2464, além da tradição majoritária, de testemunhos siríacos e de Clemente. A diferença é estilística: γάλακτος οὐ στερεᾶς τροφῆς, “de leite, não de alimento sólido”, e γάλακτος καὶ οὐ στερεᾶς τροφῆς, “de leite e não de alimento sólido”, exprimem o mesmo contraste fundamental. A tradução “leite, não de alimento sólido” não depende da decisão sobre o καί colocado entre colchetes.

Exegese. Καὶ γεγόνατε χρείαν ἔχοντες apresenta novamente γίνομαι no perfeito: os destinatários “vieram a estar” numa condição em que necessitam de leite. A formulação é mais forte que o simples χρείαν ἔχετε empregado pouco antes. Primeiro o autor afirma que eles “têm necessidade” de alguém que os ensine; depois diz que “se tornaram pessoas que têm necessidade” de leite. A mudança descreve um estado resultante e dá à metáfora uma dimensão regressiva: o tempo deveria tê-los conduzido à maturidade, mas eles chegaram novamente à condição correspondente à alimentação infantil. “Passaram a precisar” procura representar em português tanto a mudança expressa por γίνομαι quanto o estado presente implicado pelo perfeito (Westcott, 1978: 133–134; Moffatt, 1952: 70–71).

Γάλα, “leite”, e στερεὰ τροφή, “alimento sólido”, pertencem a uma metáfora pedagógica amplamente difundida no mundo antigo. A distinção entre alimento de crianças e alimento de adultos servia naturalmente para representar níveis de formação e capacidade de assimilação. Por isso, não há necessidade de procurar aqui um código técnico próprio de uma escola filosófica, de círculos mistéricos ou de uma forma específica de ensino esotérico. Hebreus adapta uma imagem educacional conhecida à situação de seus ouvintes (Moffatt, 1952: 70–71; Attridge, 1989: 155, 159).

O contraste também não significa que o “leite” seja falso, inferior em importância ou deva ser abandonado como erro. Ele é apropriado ao começo, assim como o “alimento sólido” corresponde à maturidade. Westcott observa que os dois estágios não são diferenciados pela essencialidade de seus conteúdos, mas pela capacidade do discípulo de assimilar uma exposição mais desenvolvida; aquilo que corresponde ao leite é precisamente o fundamento sobre o qual se edifica o restante (Westcott, 1978: 134). O problema dos ouvintes é que continuam necessitando do alimento correspondente ao início quando, “pelo tempo decorrido”, já deveriam estar preparados para outro estágio.

O contexto imediato fornece ainda uma indicação importante para o significado de “alimento sólido”. O autor acaba de introduzir o sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque e interrompe a exposição devido à condição de seus ouvintes; depois da advertência de 5.11–6.20, voltará ao assunto em 7.1. Assim, o “alimento sólido” não precisa ser identificado com uma doutrina secreta distinta do núcleo da mensagem cristã. Ele inclui precisamente uma compreensão mais desenvolvida daquilo que já constitui o centro da exposição: a identidade, o sacerdócio e a obra de Cristo interpretados mediante argumentação escriturística mais exigente (Attridge, 1989: 155–159).

Versões comparadas. A ARA procura conservar a ideia de mudança ao traduzir “vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido”. A NAA torna a transição particularmente clara: “Passaram a ter necessidade de leite e não de alimento sólido”. A ARC apresenta “vos haveis feito tais que necessitais de leite e não de sólido mantimento”. A BJ simplifica para o estado presente: “precisais de leite, e não de alimento sólido”, deixando menos explícito o valor de γεγόνατε. A RNJB igualmente traz simplesmente “you need milk, and not solid food”. A Young’s Literal Translation conserva de maneira rígida a construção de mudança: “ye have become having need of milk”. A presente tradução, “passaram a precisar de leite, não de alimento sólido”, segue a direção da NAA quanto ao perfeito e evita uma construção portuguesa artificial como “tornaram-se tendo necessidade”.

Hermenêutica. A metáfora prolonga a inversão retórica iniciada na primeira metade do versículo: quem deveria ensinar precisa ser ensinado; quem deveria consumir alimento de adulto voltou a necessitar de leite. Os vv. 13–14 desenvolverão os dois lados da imagem, associando o leite à condição infantil e o alimento sólido aos “maduros”. A passagem não propõe simplesmente acumulação de informações. Em 5.14, maturidade será caracterizada pelo exercício que produz capacidade de discernimento, de modo que formação, prática e percepção aparecem integradas.

Teológico. Dentro da lógica de Hebreus, maturidade não consiste em abandonar o fundamento recebido, mas em ser capaz de avançar a partir dele. O contraste entre leite e alimento sólido prepara, portanto, a exortação de 6.1: o discurso pretende prosseguir para uma compreensão mais desenvolvida sem recolocar indefinidamente os fundamentos já ensinados. A metáfora descreve o estado dos destinatários e, simultaneamente, justifica o aprofundamento argumentativo que será retomado no capítulo 7.

Referências cruzadas. Hb 5.13–14; 6.1–3,12; 7.1; 1Co 3.1–2; 1Pe 2.2.

Hebreus 5.13–14 — Leite e alimento sólido: imaturidade e maturidade no discernimento

5.13 Pois todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça,[1] porque é criança.[2]

5.14 Mas o alimento sólido é para os maduros,[3] aqueles que, pela prática, têm as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal.[4]

“Todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça” — μετέχω, ἄπειρος e o difícil λόγος δικαιοσύνης

Crítica textual. A primeira cláusula de 5.13 — πᾶς γὰρ ὁ μετέχων γάλακτος ἄπειρος λόγου δικαιοσύνης — não apresenta no aparato da NA28 variante que altere sua tradução. A variante registrada no versículo encontra-se somente na cláusula seguinte, depois de νήπιος γάρ. Portanto, as dificuldades deste segmento são lexicais e semânticas, sobretudo a representação de μετέχων γάλακτος e o alcance de λόγου δικαιοσύνης.

Exegese. Γάρ liga o v. 13 diretamente à afirmação de 5.12 de que os destinatários voltaram a necessitar de “leite e não de alimento sólido”. O versículo não introduz uma nova imagem: explica a oposição alimentar que acaba de ser formulada. Πᾶς ὁ μετέχων γάλακτος significa literalmente algo próximo de “todo aquele que participa de leite”. Μετέχω rege aqui o genitivo γάλακτος e possui seu sentido comum de participar, tomar parte ou compartilhar de alguma coisa. Como se trata de alimento, “se alimenta de leite” reproduz naturalmente a relação sem impor ao verbo um sentido técnico. A metáfora pertence ao repertório educacional antigo: leite corresponde ao estágio infantil da formação, enquanto alimento sólido corresponde ao estágio de maturidade (Moffatt, 1952: 71; Attridge, 1989: 160).

Ἄπειρος é formado com alfa privativo e designa aquele que carece de experiência em alguma coisa: “inexperiente”, “não familiarizado”, “não exercitado”. O genitivo λόγου δικαιοσύνης indica aquilo em relação ao qual a pessoa é ἄπειρος. “Inexperiente” foi preferido a “ignorante” ou “incapaz”, porque o problema descrito não é necessariamente ausência total de conhecimento, mas falta da experiência e competência que deveriam acompanhar o desenvolvimento. Isso prepara diretamente o contraste com 5.14, onde os maduros possuem faculdades já “exercitadas”. A oposição é, portanto, também lexical: ausência de experiência no v. 13, exercício adquirido no v. 14.

Λόγος δικαιοσύνης é a expressão mais discutida da cláusula. Λόγος pode significar palavra, discurso, mensagem, exposição ou ensino; δικαιοσύνη pode qualificar esse λόγος de diferentes maneiras. Foram propostas interpretações como “discurso correto”, “ensino sobre justiça”, “doutrina da justiça”, “mensagem cristã” e, num contexto educacional, instrução moral mais avançada. Moffatt entende a expressão à luz da linguagem ética antiga e a aproxima de “verdade moral”; Attridge igualmente reconhece que a imagem educacional favorece um horizonte ético, mas adverte contra reduzir δικαιοσύνη a um sentido técnico ou especificamente paulino. A expressão pode adquirir ressonâncias cristãs no contexto, sem que o autor forneça aqui uma definição precisa (Moffatt, 1952: 71; Attridge, 1989: 160).

Por isso, “palavra da justiça” foi mantido no texto principal. A formulação conserva separadamente λόγος e δικαιοσύνη e deixa a nota registrar a amplitude interpretativa. Traduzir diretamente “doutrina da justiça” decidiria que λόγος é ensino e que o genitivo determina seu conteúdo; “verdade moral” avançaria ainda mais para uma interpretação contextual. A tradução adotada preserva a relativa abertura do grego, especialmente porque o próprio autor passará imediatamente da linguagem de δικαιοσύνη para o discernimento do “bem e do mal” no v. 14 (Westcott, 1978: 134–135; Attridge, 1989: 160–161).

Versões comparadas. ARA e NAA apresentam “todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça”, solução muito próxima da adotada aqui. A ARC acrescenta interpretativamente “ainda” — “qualquer que ainda se alimenta de leite” — e verte ἄπειρος por “não está experimentado”. A Bíblia de Jerusalém interpreta de maneira mais livre: “aquele que ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da justiça”, transformando λόγος δικαιοσύνης em “doutrina da justiça” e reforçando a metáfora alimentar mediante “degustar”. A Revised New Jerusalem Bible tem “lacks experience of the word of righteousness”, enquanto a Young’s Literal Translation conserva de maneira bastante formal “unskilled in the word of righteousness”. A presente tradução acompanha a estrutura mais aberta do grego e reserva qualquer definição mais específica de λόγος δικαιοσύνης para a nota.

Hermenêutica. O v. 13 deve ser interpretado dentro da repreensão iniciada em 5.11, e não como classificação universal e autônoma de diferentes categorias de cristãos. O autor emprega uma analogia educacional para caracterizar a incapacidade dos ouvintes de acompanhar a exposição mais exigente que pretende desenvolver. O próprio contexto indica que o “alimento sólido” incluirá a elaboração do sacerdócio de Cristo segundo Melquisedeque, interrompida em 5.10 e retomada no capítulo 7. A imagem, contudo, não estabelece uma correspondência rígida segundo a qual cada doutrina pudesse ser classificada objetivamente como “leite” ou “alimento sólido”; sua função é denunciar estagnação e preparar o apelo à maturidade de 6.1 (Attridge, 1989: 156,160).

Referências cruzadas. Hb 5.11–12,14; 6.1; 1Co 3.1–2; 1Pe 2.2.

“Porque é criança” — νήπιος como polo negativo da metáfora educacional

Crítica textual. O NA28 lê νήπιος γάρ ἐστιν, “porque é criança”. O aparato registra uma expansão singular em D*, que acrescenta ἀκμήν depois de γάρ, produzindo o sentido “porque ainda é criança”. A adição torna explícita uma ideia facilmente inferida do contexto — a permanência indevida no estágio infantil —, mas não pertence ao texto adotado pela NA28. Por isso, “ainda” não foi incorporado à presente tradução.

Exegese. Νήπιος pode designar literalmente um bebê ou criança pequena e, figuradamente, alguém ainda imaturo. Aqui a imagem é determinada por γάλα, “leite”, e pelo contraste explícito com τέλειοι no versículo seguinte. “Criança” foi preferido a “menino” porque evita uma especificação de gênero inexistente no grego e porque reproduz melhor a categoria etária geral que sustenta a metáfora. “Bebê” seria possível e enfatizaria mais fortemente a relação com o leite, mas produziria em português uma imagem mais concreta do que a necessária para a sequência argumentativa.

A frase é explicativa: νήπιος γάρ ἐστιν fornece a razão figurativa pela qual quem vive de leite é ἄπειρος λόγου δικαιοσύνης. O autor não está descrevendo a idade cronológica dos destinatários. Desde 5.12, o problema é precisamente que o tempo transcorrido deveria ter produzido outro estágio de formação. A imagem é irônica: pessoas que, em razão do tempo, já deveriam ensinar outras são descritas como crianças necessitadas novamente de alimento infantil (Westcott, 1978: 134; Attridge, 1989: 160).

O contraste νήπιος–τέλειος possui antecedentes amplos no vocabulário educacional e moral grego e também aparece em outros textos cristãos antigos. Nada na expressão exige, porém, que τέλειος seja lido como título técnico de uma elite iniciática. Em Hebreus, a oposição funciona de maneira ordinária: criança versus pessoa madura. Isso é importante para a tradução do v. 14, onde “maduros” representa melhor τέλειοι do que o português “perfeitos” quando este é entendido como ausência absoluta de deficiência (Moffatt, 1952: 71; Attridge, 1989: 160–161).

Versões comparadas. ARA e NAA traduzem νήπιος por “criança”. A ARC prefere “menino” e introduz anteriormente “ainda se alimenta de leite”, tornando explícita a permanência no estágio infantil. A Bíblia de Jerusalém intensifica a imagem com “criancinha”; a Revised New Jerusalem Bible usa “baby”; e a Young’s Literal Translation, “infant”. A presente tradução mantém o termo mais neutro “criança” e não incorpora o “ainda” da variante de D* nem o acrescenta por interpretação contextual.

Hermenêutica. A metáfora da infância não constitui uma condenação da instrução elementar em si. O leite é alimento apropriado à criança; o problema está em permanecer dependente dele quando o tempo e a formação deveriam ter produzido maturidade. A crítica do autor, portanto, recai sobre a discrepância entre o estágio em que os ouvintes deveriam estar e aquele em que sua capacidade de compreensão os coloca. Essa lógica é decisiva para a transição de 5.14 para 6.1.

Referências cruzadas. Hb 5.12,14; 6.1; 1Co 3.1–2; 14.20; Ef 4.13–14.

“O alimento sólido é para os maduros” — τέλειος como maturidade, não perfeição absoluta

Crítica textual. A cláusula τελείων δέ ἐστιν ἡ στερεὰ τροφή não apresenta variante relevante no aparato da NA28. O contraste com o versículo anterior é textualmente seguro: leite corresponde à criança; alimento sólido, aos τέλειοι.

Exegese. Δέ introduz o segundo polo da oposição iniciada no v. 13. Στερεὰ τροφή é literalmente “alimento sólido”: στερεός designa aquilo que é firme ou sólido, e τροφή, alimento ou sustento. A repetição de στερεὰ τροφή de 5.12 deve ser mantida, pois o autor agora explica quem é capaz de recebê-la. A imagem não é apenas ornamental; fornece a arquitetura da transição entre a repreensão de 5.11–14 e a ordem de avançar em 6.1.

Τελείων é genitivo plural de τέλειος. O adjetivo pode significar completo, plenamente desenvolvido, acabado ou maduro. Neste contexto, seu sentido deriva diretamente da oposição com νήπιος: os τέλειοι são aqueles que chegaram ao estágio adulto ou maduro da formação. “Maduros” foi preferido a “perfeitos”, porque o português “perfeito” pode sugerir ausência absoluta de falhas ou uma categoria técnica que o texto não exige. O próprio versículo definirá os τέλειοι funcionalmente: são pessoas cujas faculdades foram treinadas pela prática. A maturidade descrita é, portanto, adquirida e exercitada (Westcott, 1978: 135; Attridge, 1989: 161).

A escolha “maduros” também preserva uma relação importante com 6.1, onde aparece τελειότης. O movimento do discurso é da condição infantil para a maturidade. Embora os dois termos não devam ser automaticamente reduzidos a uma única definição técnica, traduzir a família lexical de maneira coerente permite perceber que 5.14 prepara verbalmente a exortação seguinte. A linguagem não aponta para iniciação esotérica nem para uma classe de “perfeitos”; trata-se do desenvolvimento esperado daqueles que deixaram o estágio elementar da formação (Attridge, 1989: 161).

Versões comparadas. ARA e NAA utilizam “adultos”, solução que torna imediatamente visível a oposição criança–adulto. A Bíblia de Jerusalém igualmente emprega “adultos”. A ARC preserva a tradução tradicional “perfeitos”, mais formal em relação a τέλειος, mas suscetível de ser compreendida em sentido mais absoluto que o contexto requer. A Revised New Jerusalem Bible usa “adults”; a Young’s Literal Translation, mais formalmente, “perfect men”. A presente tradução prefere “maduros”, porque conserva a ideia de desenvolvimento contida na metáfora e facilita a conexão lexical com a “maturidade” que será introduzida em 6.1.

Hermenêutica. A maturidade não é definida pela simples passagem do tempo. Esse foi precisamente o problema apontado em 5.12: o tempo já decorrido deveria ter produzido capacidade de ensinar, mas não a produziu. O v. 14 fornece o elemento que faltava — exercício habitual. O contraste real não é, portanto, entre leitores antigos e novos em termos puramente cronológicos, mas entre faculdades não desenvolvidas e faculdades efetivamente treinadas.

Referências cruzadas. Hb 5.11–13; 6.1; 1Co 2.6; 14.20; Ef 4.13–14; Fp 3.15.

“Pela prática, têm as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal” — ἕξις, αἰσθητήρια, γυμνάζω e διάκρισις

Crítica textual. A sequência τῶν διὰ τὴν ἕξιν τὰ αἰσθητήρια γεγυμνασμένα ἐχόντων πρὸς διάκρισιν καλοῦ τε καὶ κακοῦ não apresenta variante relevante no aparato da NA28. A dificuldade é inteiramente filológica: a construção concentra vocabulário pouco frequente no Novo Testamento e combina linguagem de percepção, hábito e treinamento.

Exegese. O genitivo τῶν [...] ἐχόντων explica quem são os “maduros” da oração anterior: “aqueles que [...] têm”. A maturidade não fica, portanto, sem definição. O autor a descreve mediante uma capacidade adquirida. Διὰ τὴν ἕξιν indica o meio ou fundamento dessa condição. Ἕξις ocorre somente aqui no Novo Testamento e pode designar hábito, prática, disposição adquirida ou estado produzido pelo uso reiterado. Não é simplesmente um ato isolado de “exercício”; pressupõe repetição suficiente para criar uma capacidade estável. “Pela prática” comunica essa dimensão em português com maior naturalidade que “pelo hábito”, sem reduzir o termo a mero costume mecânico (Westcott, 1978: 135–136; Moffatt, 1952: 71–72).

Τὰ αἰσθητήρια é outro termo raro, também único no Novo Testamento. Em seu uso mais concreto pode designar os órgãos dos sentidos; por extensão, as capacidades ou faculdades de percepção. Neste contexto, uma tradução simplesmente por “sentidos” poderia ser ouvida como referência exclusiva a visão, audição, paladar, olfato e tato. O objeto do treinamento, porém, é uma capacidade avaliativa que culmina na διάκρισις do bem e do mal. “Faculdades” preserva melhor essa passagem da imagem sensorial para a percepção moral e intelectual. Moffatt observa que o termo, embora provenha da linguagem dos sentidos, adquire facilmente valor ético; Attridge igualmente identifica aqui a utilização de linguagem comum à educação filosófica helenística (Moffatt, 1952: 72; Attridge, 1989: 161).

Γεγυμνασμένα é particípio perfeito passivo de γυμνάζω, “exercitar, treinar”. O perfeito descreve faculdades que foram submetidas a exercício e se encontram, como resultado, em condição treinada. A imagem possui fundo atlético: γυμνάζω é o verbo do treinamento ou exercício. “Exercitadas” foi mantido para conservar essa metáfora e também permitir a conexão com Hb 12.11, onde o mesmo verbo reaparece. A construção γεγυμνασμένα ἐχόντων é aproximadamente “que têm [suas] faculdades em estado exercitado”, isto é, faculdades que o uso reiterado tornou aptas para uma função específica (Westcott, 1978: 136).

Πρὸς διάκρισιν indica a finalidade ou aptidão produzida por esse treinamento: “para discernir”. Διάκρισις é distinção, diferenciação, capacidade de discriminar entre realidades. O genitivo καλοῦ τε καὶ κακοῦ especifica os dois polos dessa distinção: “do bem e do mal”. A correlação τε ... καί é representada por “tanto ... como”, sem a intensificação de uma estrutura como “não somente ... mas também”, que corresponderia a uma formulação grega diferente.

A expressão “discernir o bem e o mal” possui ressonâncias bíblicas, inclusive em contextos que relacionam maturidade ou capacidade de julgamento à distinção entre bem e mal (Dt 1.39; cf. Is 7.15–16). Ao mesmo tempo, paralelos helenísticos mostram que a distinção entre coisas boas e más era linguagem corrente na reflexão ética. Attridge entende, por isso, que a formulação descreve fundamentalmente discernimento ético e considera insuficientemente fundamentada a tentativa de reduzi-la à capacidade de distinguir doutrina verdadeira de falsa. O contexto educacional permite que a imagem seja aplicada à formação cristã, mas não autoriza transformar διάκρισις num termo técnico para ortodoxia doutrinária (Attridge, 1989: 161; Moffatt, 1952: 72).

Versões comparadas. ARA e NAA apresentam “aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal”. Essa tradução representa adequadamente ἕξις por “prática” e αἰσθητήρια por “faculdades”, mas expande τε ... καί para “não somente ... mas também”. A ARC prefere “em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal”, sendo mais formal na correlação final, mas traduzindo αἰσθητήρια por “sentidos”. A Bíblia de Jerusalém oferece uma solução fortemente interpretativa: “pelo hábito possuem o senso moral exercitado para discernir o bem e o mal”; “senso moral” explicita a leitura ética, mas comprime o plural αἰσθητήρια numa categoria que não está lexicalmente expressa. A Revised New Jerusalem Bible traz “faculties trained by practice to distinguish between good and bad”. A Young’s Literal Translation mantém “because of the use [...] the senses exercised, unto the discernment both of good and of evil”. A presente tradução procura conservar simultaneamente a imagem do treinamento, a amplitude de αἰσθητήρια e a correlação simples τε ... καί.

Hermenêutica. O final do v. 14 impede que “maturidade” seja entendida como mera acumulação de informação. A exposição mais avançada que Hebreus pretende oferecer exige capacidade formada pelo uso. Ao mesmo tempo, não convém inverter a metáfora e fazer de “discernir o bem e o mal” uma definição exaustiva de todo o conteúdo do “alimento sólido”. O autor está empregando uma analogia educacional: assim como a pessoa madura possui faculdades treinadas para fazer distinções, seus ouvintes precisam desenvolver a capacidade necessária para acompanhar e assimilar a argumentação que seguirá. Por isso, 6.1 não responde à imaturidade oferecendo novamente o “leite”, mas convocando os ouvintes a avançar para a maturidade (Attridge, 1989: 161–162).

Referências cruzadas. Dt 1.39; Is 7.15–16; Hb 5.11–13; 6.1; 12.11; Rm 12.2; Fp 1.9–10.

Pro Blogger Templates