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Gênesis 1 (LXX)

1
1722 [e]
En
Ἐν
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PREP
746 [e]
archē
ἀρχῇ
princípio
SUB-DAT-F-S
4160 [e]
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fez
VER-AOR-ATV-IND-3S
3588 [e]
ho
ὁ
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ART-NOM-M-S
2316 [e]
theos
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Deus
SUB-NOM-M-S
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τὸν
o
ART-ACU-M-S
3772 [e]
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céu
SUB-ACU-M-S
2532 [e]
kai
καὶ
e
CONJ
3588 [e]
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τὴν
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ART-ACU-F-S
1093 [e]
gēn
γῆν.
terra
SUB-ACU-F-S

Nota — Gênesis 1.1: “No princípio, Deus fez o céu e a terra”

1. Filológico. O texto crítico da Septuaginta lê: Ἐν ἀρχῇ ἐποίησεν ὁ θεὸς τὸν οὐρανὸν καὶ τὴν γῆν. A construção ἐν ἀρχῇ é formada pela preposição ἐν com o dativo singular de ἀρχή. Neste contexto, ἀρχή tem valor primordialmente temporal: “princípio”, “começo”, isto é, o início primordial. Muraoka registra especificamente Gênesis 1.1 sob esse valor temporal de ἀρχή (Muraoka, 2009: s.v. ἀρχή). A sequência grega constitui uma oração declarativa completa: o adjunto temporal ἐν ἀρχῇ é seguido pelo aoristo indicativo ἐποίησεν e pelo sujeito ὁ θεός. Rösel observa que a tradução grega acompanha muito de perto a ordem e a estrutura do hebraico e entende בְּרֵאשִׁית temporalmente; ao mesmo tempo, o grego elimina boa parte da ambiguidade sintática existente na discussão do hebraico de Gênesis 1.1 (Rösel, 1994: 28–29; Brayford, 2007: 203–206).

A correspondência principal é: בְּרֵאשִׁית → ἐν ἀρχῇ; בָּרָא → ἐποίησεν; אֱלֹהִים → ὁ θεός; הַשָּׁמַיִם → τὸν οὐρανόν; הָאָרֶץ → τὴν γῆν. Os marcadores hebraicos de objeto direto אֵת não necessitam de equivalente lexical independente em grego, porque a função dos objetos é expressa pelo acusativo.

A escolha de ποιέω é particularmente importante para nossa tradução. O hebraico ברא possui em Gênesis uma associação distintiva com a atividade divina, ao passo que ποιέω é um verbo muito mais amplo, “fazer, produzir, realizar”. O tradutor de Gênesis emprega ποιέω tanto para ברא quanto para עשה, não preservando lexicalmente a mesma distinção do hebraico. Além disso, em Gênesis 14.19,22 ele conhece e emprega κτίζω em contexto criacional. Por isso, no interlinear e na tradução normal da LXX adotamos “fez”, não “criou”: a escolha mantém visível a opção lexical efetivamente feita pelo tradutor grego (Rösel, 1994: 29–30; Brayford, 2007: 206).

2. Crítica textual. A edição crítica de Göttingen estabelece ἐποίησεν. O aparato registra, entre as leituras secundárias relevantes, ἔπλασεν (“formou”) no manuscrito 664 e ἔκτισεν (“criou/fundou”) como leitura testemunhada indiretamente por Josefo em Antiguidades 1.27. Aquila, numa tradução grega posterior e deliberadamente mais aderente ao hebraico, também emprega ἔκτισεν; isso deve ser distinguido de uma variante do texto antigo da própria LXX (Wevers, Genesis, 1974: aparato ad Gn 1.1).

Para Gênesis 1.1 não há fundamento crítico para substituir ἐποίησεν no texto principal. Hendel, ao examinar sistematicamente as diferenças significativas entre o texto massorético e a Septuaginta em Gênesis 1.1–2.4, concentra as variantes textuais substanciais em outros versículos; em 1.1 a questão principal é a maneira como o tradutor grego verteu sua base hebraica, não a reconstrução de uma Vorlage radicalmente diferente (Hendel, 1998: 16–20).

Uma tradição rabínica posterior incluiu Gênesis 1.1 entre as supostas alterações feitas pelos tradutores para Ptolomeu e atribuiu à tradução uma ordem de palavras diferente. Rösel ressalta, porém, que a tradição manuscrita grega preservada não fornece evidência para essa alegada transposição. Ela pertence, portanto, à história da recepção do texto, não ao estabelecimento do texto crítico da LXX (Rösel, 1994: 30–31).

3. Versões comparadas. A opção “No princípio, Deus fez o céu e a terra” procura traduzir o texto grego, e não reconstruir por meio do português a formulação hebraica. A NETS traduz ἐποίησεν com made e mantém heaven no singular. A Septuaginta Deutsch igualmente usa machte e den Himmel. As duas traduções acadêmicas, portanto, preservam justamente as duas características que adotamos: o verbo geral “fazer” e o singular “céu”.

A diferença em relação a traduções portuguesas baseadas prioritariamente no hebraico é intencional. A ACF e a NVI empregam “criou” e “céus”, refletindo de modo natural בָּרָא e הַשָּׁמַיִם. A Septuaginta, porém, apresenta ἐποίησεν e o acusativo singular τὸν οὐρανόν. Importar “criou os céus” para nossa coluna da LXX apagaria precisamente uma diferença que este projeto pretende tornar visível. A comparação com as versões hebraicas será preservada nas notas, enquanto o texto principal permanecerá tradução do grego (NETS, Gn 1.1; Septuaginta Deutsch, Gn 1.1).

4. Exegético. Na forma grega, Gênesis 1.1 apresenta uma ação concluída de Deus no começo: Deus “fez” o céu e a terra. Brayford entende o versículo como o enunciado inicial do processo criador cuja elaboração ocupará a sequência da narrativa. A estrutura não exige que se leia “quando Deus começou a criar...”; o grego oferece naturalmente uma afirmação independente: ἐν ἀρχῇ ἐποίησεν.... Isso não significa, contudo, que cada questão levantada pela sintaxe hebraica tenha sido resolvida em nível histórico; significa que o tradutor grego produziu uma construção sintaticamente mais determinada para seu leitor (Brayford, 2007: 203–206).

O sujeito é explicitamente ὁ θεός; céu e terra aparecem como os dois objetos coordenados de sua ação. O restante do relato mostrará progressivamente a configuração e o preenchimento desse mundo. Assim, o versículo deve ser lido juntamente com 1.2–31, sem exigir do verbo ἐποίησεν, isoladamente, informações sobre o modo físico ou metafísico pelo qual essa ação ocorreu.

5. Hermenêutico. O termo ἀρχή merece atenção especial no ambiente intelectual helenístico. Além de “começo” em sentido temporal, ele podia participar do vocabulário filosófico sobre o princípio ou origem das coisas. Rösel considera possível que leitores gregos ouvissem em ἐν ἀρχῇ ressonâncias das discussões antigas sobre as ἀρχαί, os princípios do cosmos, e argumenta que a afirmação bíblica oferecia uma resposta própria: no princípio está a ação do Deus de Israel, não uma enumeração de princípios materiais autônomos (Rösel, 1994: 28–29). Essa leitura, entretanto, deve permanecer qualificada: a existência de ressonâncias filosóficas não demonstra por si só que o tradutor estivesse deliberadamente reescrevendo Gênesis segundo Platão. A influência filosófica direta sobre Gênesis 1–2 é discutida na pesquisa e recebeu objeções importantes (Brayford, 2007: 203–206).

O mesmo cuidado é necessário quanto à creatio ex nihilo. A construção grega independente de Gênesis 1.1 tornou-se particularmente apta a uma leitura segundo a qual toda a realidade procede da iniciativa criadora de Deus, e posteriormente pôde contribuir para a formulação cristã da criação a partir do nada. Entretanto, Gênesis 1.1 LXX, tomado isoladamente, não formula explicitamente a doutrina metafísica da creatio ex nihilo. O verbo ποιέω afirma a ação de Deus, mas não especifica lexicalmente se havia ou não matéria pré-existente. A história posterior da doutrina precisa, portanto, ser distinguida do sentido linguístico imediato do versículo. Gerhard May mostra, por exemplo, que mesmo Fílon pôde ler Gênesis dentro de categorias de formação do mundo a partir de matéria preexistente, enquanto a formulação explícita da criação a partir do nada se desenvolveu posteriormente no debate cristão do século II (May, 1994: 9–12, 22–26; Brayford, 2007: 205–206).

Referências desta nota.

BRAYFORD, Susan. Genesis. Septuagint Commentary Series. Leiden/Boston: Brill, 2007, comentário a Gn 1.1–5.

HENDEL, Ronald S. The Text of Genesis 1–11: Textual Studies and Critical Edition. New York: Oxford University Press, 1998, pp. 16–20.

MAY, Gerhard. Creatio Ex Nihilo: The Doctrine of “Creation out of Nothing” in Early Christian Thought. London/New York: T&T Clark, 1994, pp. 9–12, 22–26.

MURAOKA, Takamitsu. A Greek-English Lexicon of the Septuagint. Leuven: Peeters, 2009, s.v. ἀρχή.

RÖSEL, Martin. Übersetzung als Vollendung der Auslegung: Studien zur Genesis-Septuaginta. Berlin/New York: Walter de Gruyter, 1994, pp. 28–31.

WEVERS, John William, ed. Genesis. Septuaginta: Vetus Testamentum Graecum I. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1974, texto e aparato de Gn 1.1.

PIETERSMA, Albert; WRIGHT, Benjamin G., eds. A New English Translation of the Septuagint, Gn 1.1.

KRAUS, Wolfgang; KARRER, Martin, eds. Septuaginta Deutsch: Das griechische Alte Testament in deutscher Übersetzung, Gn 1.1.

2
3588 [e] hē ἡ a ART-NOM-F-S
1161 [e] de δὲ mas CONJ
1093 [e] gē γῆ terra SUB-NOM-F-S
1510 [e] ēn ἦν era VER-IMP-ATI-IND-3S
517 [e] aoratos ἀόρατος invisível ADJ-NOM-F-S
2532 [e] kai καὶ e CONJ
LXX akataskeuastos ἀκατασκεύαστος, não preparada ADJ-NOM-F-S
2532 [e] kai καὶ e CONJ
4655 [e] skotos σκότος trevas SUB-NOM-N-S
1883 [e] epanō ἐπάνω sobre PREP
3588 [e] tēs τῆς do ART-GEN-F-S
12 [e] abyssou ἀβύσσου, abismo SUB-GEN-F-S
2532 [e] kai καὶ e CONJ
4151 [e] pneuma πνεῦμα espírito SUB-NOM-N-S
2316 [e] theou θεοῦ de Deus SUB-GEN-M-S
2018 [e] epephereto ἐπεφέρετο movia-se VER-IMP-M/P-IND-3S
1883 [e] epanō ἐπάνω sobre PREP
3588 [e] tou τοῦ da ART-GEN-N-S
5204 [e] hydatos ὕδατος. água SUB-GEN-N-S

Nota — A terra invisível e não formada, o abismo e o Espírito de Deus

Filológico. A construção ἡ δὲ γῆ ἦν introduz o estado da terra mediante δέ, que aqui funciona naturalmente como transição: “mas a terra era”. O primeiro predicativo, ἀόρατος, significa aquilo que não pode ser visto, “invisível”. O segundo, ἀκατασκεύαστος, não significa propriamente “vazia”, mas aquilo que ainda não foi preparado, organizado ou levado à sua condição acabada; por isso a glosa interlinear “não preparada” e, na tradução corrente, “não formada”. O par grego não reproduz semanticamente de maneira mecânica o hebraico תֹהוּ וָבֹהוּ; o tradutor substituiu a expressão hebraica por dois adjetivos gregos que descrevem a condição da terra segundo categorias inteligíveis em grego. Ἄβυσσος designa a profundidade insondável, o “abismo”, e viria a tornar-se um termo característico do vocabulário bíblico grego. Já ἐπεφέρετο, imperfeito médio-passivo de ἐπιφέρω, pode exprimir movimento contínuo sobre uma superfície ou o ser levado sobre ela; o imperfeito representa adequadamente a ação durativa do particípio hebraico מְרַחֶפֶת. A tradução “movia-se” procura conservar essa indeterminação melhor que uma formulação mais específica como “pairava”. Πνεῦμα, por sua vez, possui o campo semântico de vento, sopro, respiração e espírito; a expressão πνεῦμα θεοῦ permite, portanto, mais de uma leitura legítima (Muraoka, 2009: s.v. ἀόρατος, ἀκατασκεύαστος, πνεῦμα, ἐπιφέρω; Dines, 1995: 440–448).

Crítica textual. O ponto decisivo deste versículo não é uma instabilidade relevante do texto grego. A comparação entre a forma crítica da LXX e o texto hebraico mostra correspondência estrutural muito próxima. O hebraico lê וְהָאָרֶץ הָיְתָה תֹהוּ וָבֹהוּ וְחֹשֶׁךְ עַל־פְּנֵי תְהוֹם וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל־פְּנֵי הַמָּיִם, enquanto o grego apresenta ἡ δὲ γῆ ἦν ἀόρατος καὶ ἀκατασκεύαστος, καὶ σκότος ἐπάνω τῆς ἀβύσσου, καὶ πνεῦμα θεοῦ ἐπεφέρετο ἐπάνω τοῦ ὕδατος. A presença do artigo em τῆς ἀβύσσου, sem equivalente formal diante de תְהוֹם, pertence à acomodação grega e não exige uma Vorlage distinta. O mesmo vale, em princípio, para as escolhas lexicais mais expressivas. Não há, portanto, fundamento neste versículo para reconstruir um texto hebraico substancialmente diferente do tipo textual preservado pelo Texto Massorético. O problema é sobretudo de técnica tradutória e interpretação lexical, não de crítica textual propriamente dita (Dines, 1995: 440–441; Rösel, 1994: 31–35).

Versões comparadas. A NETS traduz os dois adjetivos gregos pelo equivalente de “invisível e não formada” e interpreta πνεῦμα θεοῦ como “um vento divino”, mantendo em ἐπεφέρετο a ideia de ser levado continuamente sobre a água. A Septuaginta Deutsch verte ἀόρατος καὶ ἀκατασκεύαστος por “unsichtbar und ungestaltet” e emprega Gotteshauch, “sopro de Deus”, para πνεῦμα θεοῦ. Essas soluções mostram que a principal divergência moderna não está no texto grego, mas na decisão semântica entre “vento”, “sopro” e “Espírito”. Nossa tradução mantém “Espírito de Deus”, em continuidade com a possibilidade semântica do grego e com a leitura histórica mais conhecida em português, mas registra expressamente que o grego não obriga essa interpretação; a capitalização é editorial. Também não traduzimos ἀόρατος καὶ ἀκατασκεύαστος por “sem forma e vazia”, porque essa formulação corresponde diretamente à tradição de tradução do hebraico תֹהוּ וָבֹהוּ e apagaria a escolha lexical própria da Septuaginta (Pietersma; Wright, 2007: Gn 1.2; Kraus; Karrer, 2010: Gn 1.2).

Exegético. A sequência grega descreve não o nada absoluto, mas uma terra já mencionada em 1.1 cuja condição ainda não corresponde ao mundo ordenado que surgirá nos versículos seguintes. O qualificativo ἀόρατος adquire especial força quando lido à luz de 1.9, onde o terreno seco finalmente “aparece”: aquilo que no início não era visível torna-se visível à medida que as águas são reunidas. Ἀκατασκεύαστος acrescenta a ideia de uma terra ainda não preparada ou organizada para o desenvolvimento da vida. A narrativa subsequente pode, assim, ser lida como uma progressiva diferenciação, ordenação e aparelhamento do mundo. O σκότος está sobre a ἄβυσσος, mas o texto grego não apresenta o abismo como uma divindade rival nem descreve um combate cosmogônico: o cenário primordial permanece integralmente submetido à iniciativa do Deus de 1.1. O movimento de πνεῦμα θεοῦ sobre a água precede imediatamente a primeira palavra criadora de 1.3. Há ainda uma conexão literária própria da tradução grega: em Gn 7.18 a arca também é descrita com ἐπιφέρω movendo-se sobre as águas, embora o hebraico empregue ali outro verbo. A LXX cria, desse modo, uma aproximação verbal entre as águas da criação e as águas do dilúvio que é muito menos explícita no hebraico (Dines, 1995: 443–448; Rösel, 1994: 31–35).

Hermenêutico. A formulação grega abriu possibilidades interpretativas que vão além das oferecidas diretamente pela expressão hebraica. Ἀόρατος possuía uso filosófico anterior e podia designar aquilo que pertence ao domínio invisível; por isso alguns intérpretes veem aqui ressonâncias do vocabulário cosmológico grego. De modo semelhante, πνεῦμα podia ser usado no mundo helenístico para vento, princípio vital e força animadora. Contudo, esses paralelos não demonstram que o tradutor estivesse deliberadamente reescrevendo Gênesis segundo Platão ou qualquer sistema filosófico determinado. Uma linha de interpretação, representada por estudos da Genesis-LXX e pelo comentário da Septuaginta Deutsch, atribui maior peso ao horizonte platônico ou helenístico; outra enfatiza que o contexto interno de Gênesis explica adequadamente escolhas como ἀόρατος, pois a terra somente se torna visível em 1.9, e observa que ἀκατασκεύαστος nem sequer é um termo técnico consagrado da filosofia. A dependência filosófica direta deve, portanto, permanecer uma hipótese, não um dado do texto. O mesmo cuidado vale para a creatio ex nihilo: Gn 1.2 LXX descreve a condição primordial da terra, mas não formula por si só uma teoria metafísica da origem da matéria. As leituras judaicas e cristãs posteriores desenvolveram essas possibilidades de maneiras diversas; elas pertencem à história da recepção e não devem ser retrojetadas automaticamente para a intenção do tradutor (Rösel, 1994: 31–35; Dines, 1995: 442–450; Karrer; Kraus, 2011: 158–159).

3
2532 [e]
kai
καὶ
e
CONJ
3004 [e]
eipen
εἶπεν
disse
VER-AOR-ATIV-IND-3S
3588 [e]
ho
ὁ
o
ART-NOM-M-S
2316 [e]
theos
θεός
Deus
SUB-NOM-M-S
1096 [e]
genēthētō
γενηθήτω
venha a existir
VER-AOR-PASS-IMP-3S
5457 [e]
phōs
φῶς·
luz
SUB-NOM-N-S
2532 [e]
kai
καὶ
e
CONJ
1096 [e]
egeneto
ἐγένετο
veio a existir
VER-AOR-MED-IND-3S
5457 [e]
phōs
φῶς.
luz
SUB-NOM-N-S

Nota — O comando para que a luz venha a existir

Filológico. O ponto decisivo do versículo é a correspondência entre γενηθήτω e ἐγένετο, duas formas do mesmo verbo, γίνομαι. Γενηθήτω é aoristo passivo, imperativo, terceira pessoa do singular, enquanto ἐγένετο é aoristo médio, indicativo, terceira pessoa do singular. Apesar da morfologia passiva de γενηθήτω, γίνομαι funciona aqui intransitivamente: não significa simplesmente “ser”, mas “vir a existir”, “surgir”, “passar a existir”. O léxico da Septuaginta registra precisamente Gênesis 1.3 sob o sentido “come into existence, emerge”. Por isso, a interlinear conserva a correspondência “venha a existir [...] veio a existir”, enquanto a tradução corrente emprega o português idiomático “Haja luz [...] houve luz” (Muraoka, 2009: s.v. γίνομαι). Φῶς é substantivo neutro nominativo singular e constitui tanto o sujeito do imperativo quanto o sujeito da oração de cumprimento.

Crítica textual. No nível relevante para a tradução, o grego acompanha de perto a sequência hebraica וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר: “e disse Deus — haja/venha a ser luz — e houve/veio a ser luz”. O grego representa o jussivo יְהִי e sua realização וַיְהִי por duas formas correspondentes de γίνομαι. Diferentemente de outros pontos de Gênesis 1.1–2.4 em que existem diferenças significativas entre as tradições hebraica e grega, Gênesis 1.3 não figura entre as variantes substantivas examinadas para essa unidade. Assim, não há fundamento para reconstruir aqui uma Vorlage hebraica diferente apenas para explicar a redação grega; a diferença de expressão decorre adequadamente da passagem do hebraico para o grego (Hendel, 1998: 16–35).

Versões comparadas. A força de γίνομαι aparece com especial clareza na NETS, que traduz “Let light come into being. And light came into being”. A Septuaginta Deutsch opta pelo alemão tradicional e conciso: “Es werde Licht. Und es wurde Licht”. Entre as traduções portuguesas consultadas, a TEB conserva mais explicitamente a ideia de passagem à existência — “Que a luz seja! E a luz veio a ser” — enquanto a Bíblia de Jerusalém, a NAA e a ARC empregam a fórmula idiomática “Haja luz [...] houve luz”. Nossa tradução normal segue esta última solução por sua naturalidade em português; a interlinear, porém, preserva a repetição lexical do grego para que não se perca a relação formal entre ordem e realização.

Exegético. Este é o primeiro discurso direto atribuído a Deus no relato e inaugura um padrão que reaparecerá ao longo do capítulo: Deus fala, formula o resultado desejado e a realidade corresponde à palavra pronunciada. A Septuaginta expressa essa relação de maneira particularmente transparente pela sequência γενηθήτω [...] καὶ ἐγένετο. O comando e seu cumprimento estão ligados pelo mesmo verbo; não há descrição de processo intermediário. A luz surge como resposta imediata à palavra divina e se contrapõe às trevas mencionadas no versículo anterior. Ela também é narrativamente distinta dos luzeiros celestes, que somente serão introduzidos em Gênesis 1.14–18. O texto, portanto, não identifica aqui a luz com o sol ou com outro corpo celeste (Brayford, 2007: 209–210). Na leitura da sequência grega, é com esse comando que o processo de ordenação descrito depois da condição inicial do v. 2 entra efetivamente em movimento (Rösel, 1994: 35).

Hermenêutico. A formulação grega concentra a atenção na eficácia da palavra de Deus: aquilo que é ordenado passa a existir. Isso permite falar de soberania criadora e da correspondência imediata entre vontade, palavra e realidade, mas o versículo isoladamente não fornece uma teoria metafísica completa sobre a origem da matéria nem resolve, por si só, a questão da creatio ex nihilo. O emprego de γίνομαι descreve um “vir a existir”, não uma exposição filosófica da passagem do não-ser ao ser; seria excessivo transformá-lo, sem outras evidências, em terminologia platônica ou aristotélica. Na recepção neotestamentária, 2Co 4.6 retoma precisamente o Deus que ordenou que das trevas resplandecesse a luz e emprega a imagem da criação para descrever a iluminação operada por Deus no coração humano. Trata-se de uma releitura teológica posterior do poder criador expresso em Gênesis 1.3, e não de uma alteração do sentido histórico do versículo.

4
2532 [e]
kai
καὶ
e
CONJ
3708 [e]
eiden
εἶδεν
viu
VER-AOR-ATV-IND-3S
3588 [e]
ho
ὁ
o
ART-NOM-M-S
2316 [e]
theos
θεὸς
Deus
SUB-NOM-M-S
3588 [e]
to
τὸ
a
ART-ACU-N-S
5457 [e]
phōs
φῶς
luz
SUB-ACU-N-S
3754 [e]
hoti
ὅτι
que
CONJ
2570 [e]
kalon
καλόν
boa
ADJ-ACU-N-S
2532 [e]
kai
καὶ
e
CONJ
1316 [e]
diechōrisen
διεχώρισεν
separou
VER-AOR-ATV-IND-3S
3588 [e]
ho
ὁ
o
ART-NOM-M-S
2316 [e]
theos
θεὸς
Deus
SUB-NOM-M-S
303 [e]
ana
ἀνὰ
entre
PREP
3319 [e]
meson
μέσον
meio
ADJ-ACU-N-S
3588 [e]
tou
τοῦ
da
ART-GEN-N-S
5457 [e]
phōtos
φωτὸς
luz
SUB-GEN-N-S
2532 [e]
kai
καὶ
e
CONJ
303 [e]
ana
ἀνὰ
entre
PREP
3319 [e]
meson
μέσον
meio
ADJ-ACU-N-S
3588 [e]
tou
τοῦ
das
ART-GEN-N-S
4655 [e]
skotous
σκότους
trevas
SUB-GEN-N-S

Nota — A avaliação da luz e a separação entre luz e trevas

Filológico. A oração καὶ εἶδεν ὁ θεὸς τὸ φῶς ὅτι καλόν reproduz de perto a construção hebraica. O adjetivo καλόν, neutro singular, concorda com φῶς e funciona predicativamente: “viu que a luz era boa”. Embora καλός possa abranger no grego as ideias de bom, belo, apropriado ou excelente, no contexto da narrativa da criação a avaliação indica sobretudo que aquilo que Deus acaba de produzir corresponde adequadamente à ordem que está sendo estabelecida. Em Gênesis, καλός é o equivalente habitual de טוֹב neste contexto; a escolha não exige que se traduza “bela”, embora essa dimensão semântica permaneça disponível no grego. A segunda oração emprega διαχωρίζω, “separar, distinguir”, seguido da sequência ἀνὰ μέσον ... καὶ ἀνὰ μέσον. Essa construção é pouco idiomática em grego, mas acompanha muito estreitamente o hebraico בֵּין ... וּבֵין, literalmente “entre ... e entre”. Por isso, a interlinear conserva os componentes da expressão, enquanto a tradução corrente naturaliza para “separou a luz das trevas” (Rösel, 1994: 35–36).

Crítica textual. O texto crítico de Göttingen lê καὶ εἶδεν ὁ θεὸς τὸ φῶς ὅτι καλόν· καὶ διεχώρισεν ὁ θεὸς ἀνὰ μέσον τοῦ φωτὸς καὶ ἀνὰ μέσον τοῦ σκότους. A tradição é suficientemente estável para que nenhuma variante exija alteração da tradução. O aparato registra omissões secundárias do primeiro ou do segundo ὁ θεός em testemunhos isolados, a ausência de τὸ φῶς em um pequeno grupo de manuscritos e, em tradição patrística, uma inversão entre “luz” e “trevas”. Essas leituras não competem seriamente com o texto crítico. As versões gregas judaicas posteriores também mostram reformulações: Áquila emprega ἀγαθόν e prefere μεταξύ na expressão de separação, enquanto Símaco usa outro verbo para “separar”; esses dados pertencem à história das revisões gregas e não devem ser confundidos com o texto antigo da Septuaginta (Wevers, 1974: 6).

Versões comparadas. A NETS conserva de maneira deliberadamente próxima a construção grega: “God saw the light, that it was good” e “separated between the light and between the darkness”. A Septuaginta Deutsch procede de modo semelhante, mantendo em alemão a repetição “zwischen dem Licht und zwischen der Finsternis”. Em português, uma reprodução integral dessa sintaxe — “separou entre a luz e entre as trevas” — seria artificial. Por isso, a tradução contínua adota “separou a luz das trevas”, enquanto a interlinear deixa visível a estrutura do grego. As traduções portuguesas feitas principalmente a partir do texto hebraico normalmente chegam a formulação semelhante, mas isso não significa que tenham traduzido o grego; neste versículo, hebraico e Septuaginta são semanticamente muito próximos.

Exegético. O versículo contém dois movimentos complementares. Primeiro vem a avaliação divina: a luz produzida pela palavra de Deus é declarada καλόν. Depois vem sua integração na ordem do mundo por meio da separação entre luz e trevas. A criação, portanto, não é descrita somente como produção de entidades, mas também como diferenciação e ordenação. O verbo de separação reaparecerá ao longo do capítulo, especialmente na organização das águas e na função dos luminares. A luz de 1.3 é assim transformada em um componente ordenado do cosmos antes mesmo da nomeação de “dia” e “noite” em 1.5.

Hermenêutico. A formulação grega permite que “bondade” e “ordem” sejam percebidas conjuntamente. O campo semântico de καλός podia, para leitores gregos, incluir também beleza, adequação e harmonia; isso tornou o texto particularmente fértil para interpretações judaicas e cristãs posteriores acerca da beleza e racionalidade do cosmos. É metodologicamente mais seguro, porém, distinguir essa capacidade de recepção da afirmação de que o tradutor pretendesse conscientemente inserir uma cosmologia platônica no texto. O dado seguro é mais modesto: ao escolher um termo grego com esse campo semântico e ao reproduzir cuidadosamente a estrutura de separação do hebraico, a Septuaginta apresenta a criação como uma realidade que Deus julga adequada e progressivamente ordena.

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