Efésios 1
Efésios 1 — A vida que começa com aquilo que Deus fez
Por: Amanda C. Norgueira.
Efésios começa colocando o cristão diante de uma realidade que facilmente se perde em meio às preocupações da vida: antes de pensar no que deve fazer para Deus, ele precisa compreender o que Deus já fez por ele em Cristo. Paulo não inicia a carta com uma lista de deveres, correções ou metas espirituais. Depois da saudação, sua primeira reação é bendizer a Deus. Ele contempla eleição, adoção, redenção, perdão, herança e o dom do Espírito Santo e, diante de tamanha graça, transforma doutrina em adoração (Ef 1.3–14). É nessa ordem que a vida cristã deve ser aprendida: recebemos antes de oferecer; somos alcançados antes de responder; pertencemos a Cristo antes de sermos chamados a andar de maneira digna dele.
Essa perspectiva protege a fé de se transformar numa tentativa permanente de conquistar o favor divino. O cristão não obedece para ser recebido por Deus, mas porque foi recebido; não procura construir para si uma identidade espiritual, mas aprende a viver segundo a identidade que lhe foi concedida em Cristo. Por isso, uma das expressões que atravessam o capítulo é precisamente a realidade de estar em Cristo. Nele o crente é abençoado, escolhido, agraciado e feito participante da herança de Deus. A segurança da vida cristã, portanto, não repousa primeiro na força de nossa resolução, mas naquilo que Deus decidiu realizar por meio de seu Filho.[1]
Isso não conduz à passividade. A graça que concede uma nova posição diante de Deus também começa a formar uma nova maneira de viver. Fomos escolhidos para sermos santos; fomos adotados para viver como filhos; fomos redimidos para pertencer àquele que nos resgatou. Assim, Efésios 1 afasta tanto o orgulho religioso quanto uma compreensão acomodada da graça. Não há espaço para orgulho porque tudo procede de Deus, mas também não há espaço para indiferença porque o propósito da graça é produzir uma vida que corresponda à vocação recebida (Ef 1.4–6).
Paulo também amplia o horizonte do leitor. A salvação pessoal faz parte de algo muito maior que a solução de nossas necessidades imediatas. Deus está conduzindo todas as coisas para sua consumação em Cristo (Ef 1.9–10). Isso significa que a história do cristão, com suas alegrias, perdas, incertezas e esperanças, não está isolada do propósito de Deus. Mesmo quando não conseguimos compreender a direção dos acontecimentos, nossa vida permanece inserida numa obra cujo centro não somos nós, mas Cristo. A fé aprende, assim, a interpretar o presente à luz de um propósito que o ultrapassa.
Depois de contemplar aquilo que Deus concedeu, Paulo passa a orar para que os cristãos compreendam mais profundamente o que já possuem. Essa mudança é decisiva. O problema espiritual nem sempre é ausência de informação; muitas vezes é a distância entre aquilo que sabemos e aquilo que realmente governa nosso coração. Podemos conhecer a esperança cristã sem viver esperançosamente, confessar o poder de Deus enquanto somos dominados pelo medo e falar da herança futura enquanto vivemos como se esta vida fosse tudo o que possuímos. Por isso Paulo pede que os olhos do coração sejam iluminados (Ef 1.17–18).
A oração apostólica mostra que crescimento espiritual não consiste apenas em acrescentar novos conhecimentos, mas em enxergar com maior clareza as realidades que o evangelho já nos apresentou. Paulo deseja que os crentes conheçam sua esperança, reconheçam a riqueza de sua herança e percebam a grandeza do poder de Deus operando em favor dos que creem (Ef 1.18–19). Há verdades que podem estar corretas em nossa mente e, ainda assim, permanecer quase sem efeito sobre nossos temores, escolhas e afetos. Uma das obras contínuas de Deus no cristão é fazer com que aquilo que ele crê se torne cada vez mais aquilo pelo qual ele vive.
O capítulo termina levando nossos olhos a Cristo ressuscitado, exaltado acima de todo poder e constituído cabeça sobre todas as coisas para a igreja (Ef 1.20–23). Essa conclusão impede que a meditação sobre nossas bênçãos termine em nós mesmos. A eleição aponta para Cristo; a redenção está em Cristo; a herança é recebida em Cristo; a esperança encontra sua garantia em Cristo; e o poder de Deus é contemplado supremamente em Cristo. A verdadeira riqueza do cristão não é um conjunto de benefícios separados daquele que os concede. Nossa maior dádiva é pertencermos ao Filho e encontrarmos nele tudo aquilo de que precisamos para viver diante de Deus.
Efésios 1, portanto, nos ensina a começar a vida cristã pela contemplação, não pela ansiedade de desempenho. Antes de perguntar “O que devo fazer?”, somos convidados a perguntar “O que Deus fez em Cristo e quem me tornei nele?”. Essa ordem será fundamental para toda a carta. Somente depois de dedicar três capítulos às riquezas da graça Paulo começará a desenvolver extensamente o modo de andar correspondente a elas (Ef 4.1). Primeiro recebemos a verdade que firma nossos pés; depois somos chamados a caminhar segundo ela.[2]
Estar em Cristo
1. Para uma exposição pastoral da maneira como a união com Cristo redefine a identidade, o futuro, a igreja e a vida cotidiana do cristão em Efésios, veja Coekin, Richard. Ephesians For You. The Good Book Company.
Da posição à caminhada cristã
2. A progressão entre a posição recebida em Cristo, o andar correspondente a essa vocação e a permanência firme no conflito espiritual é desenvolvida de maneira devocional por Nee, Watchman, em Sit, Walk, Stand. Tyndale House Publishers. A obra é particularmente útil como leitura complementar da estrutura espiritual de Efésios, embora não deva ser tomada como divisão exegética da carta.
Efésios 1.1 — Chamados para viver como santos e fiéis em Cristo
Paulo começa apresentando-se como “apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus”. Antes mesmo de falar sobre a identidade dos leitores, ele reconhece que sua própria vida e seu ministério estão debaixo de uma vontade maior que a sua. Paulo não havia inventado para si uma missão religiosa; pertencia a Cristo e havia sido enviado por ele. Essa pequena expressão prepara o tom de toda a carta: a vida cristã não começa conosco tentando construir para nós mesmos um lugar no propósito de Deus, mas com Deus tomando a iniciativa e dando direção à nossa existência. Há profunda liberdade em reconhecer que nossa vida não precisa ser uma tentativa ansiosa de inventar significado; o cristão aprende a recebê-lo daquele a quem pertence (Gl 1.15–16).
Os destinatários são chamados de “santos”. Essa palavra pode sugerir, em nosso uso comum, uma classe excepcional de pessoas cuja espiritualidade ultrapassou a dos cristãos comuns. Não é assim que Paulo a emprega. Aqueles crentes eram santos porque haviam sido separados para Deus e pertenciam a ele. Viviam numa cidade marcada por idolatria, comércio, sensualidade e poder religioso, mas sua identidade mais profunda não era determinada pelo ambiente em que moravam. Estavam em Éfeso, porém, pertenciam a Deus. Essa tensão acompanhará toda a carta: o cristão vive realmente num lugar, numa cultura e numa época, mas nenhuma dessas coisas possui a palavra final sobre quem ele é.[3]

Isso muda a maneira como enxergamos a santidade. Paulo não chama essas pessoas de santos porque já tivessem alcançado perfeição moral. Mais adiante ele precisará exortá-las a abandonar mentira, ira, palavras destrutivas, amargura e impureza (Ef 4.25–32; 5.3–5). Ainda assim, começa chamando-as de santos. A identidade recebida antecede a transformação que será exigida. Deus primeiro separa um povo para si e depois o chama a viver de maneira coerente com aquilo que se tornou. A santidade cristã, portanto, não é uma tentativa de conquistar pertencimento, mas uma vida que começa a corresponder ao pertencimento já recebido pela graça.[4]
Paulo também os chama de “fiéis em Cristo Jesus”. A expressão aponta para pessoas cuja confiança está depositada em Cristo e cuja vida começa a ser marcada por essa relação. Não são chamados de fiéis porque jamais vacilam, nunca pecam ou possuem uma fé emocionalmente inabalável. O centro da expressão está naquele em quem se encontram: estão “em Cristo Jesus”. A estabilidade da identidade cristã não vem primeiro da força com que seguramos Cristo, mas da realidade de pertencermos a ele. A fé verdadeira responde a essa graça com confiança, perseverança e obediência, mas sua segurança não está na perfeição dessa resposta.[5]
A expressão “em Cristo” será uma das chaves de toda a carta. Paulo poderia ter descrito aqueles leitores de muitas maneiras: eram homens e mulheres, judeus e gentios, pessoas com histórias, profissões e posições sociais diferentes. No entanto, a realidade que passa a reorganizar todas as demais é sua união com Cristo. Estar em Cristo significa que nossa identidade mais fundamental já não precisa ser construída a partir de desempenho, reputação, passado, fracassos ou aprovação das pessoas. Essas coisas continuam exercendo influência sobre nós, mas deixam de ocupar o centro. O evangelho nos ensina a perguntar não apenas “Quem tenho sido?” ou “O que os outros pensam de mim?”, mas “Quem sou agora porque pertenço a Cristo?” (2Co 5.17).[6]
Isso não significa fugir da realidade da vida comum. Os cristãos estavam simultaneamente em seu ambiente cotidiano e em Cristo. Continuavam enfrentando pressões sociais, responsabilidades familiares, trabalho, tentações e oposição. A fé não os retirava de Éfeso; ensinava-os a viver ali a partir de outra identidade. Também nós continuamos inseridos em lugares concretos e sujeitos às suas pressões, mas não precisamos permitir que o ambiente determine inteiramente nossos valores. Podemos viver numa cultura sem permitir que ela diga a palavra definitiva sobre quem somos, porque nossa vida possui um centro mais profundo.
Há aqui também um importante remédio contra duas formas opostas de orgulho. A primeira é imaginar que nos tornamos santos porque fomos melhores que outros. A segunda é desprezar aquilo que Deus realizou em nós e continuar definindo-nos exclusivamente pelos pecados dos quais fomos resgatados. Paulo não permite nenhuma das duas. “Santo” é um nome de graça: impede a vanglória porque o pertencimento foi concedido por Deus e impede o desespero porque Deus realmente conferiu uma nova identidade. Humildade cristã não significa negar aquilo que a graça fez; significa reconhecer que tudo procede dela.
Ser “santo” também envolve pertencimento comunitário. Paulo não escreve a indivíduos isolados que cultivam separadamente uma espiritualidade particular. Escreve a um povo. Ao longo de Efésios, essa dimensão ficará cada vez mais evidente: os que estão em Cristo serão descritos como um corpo, uma família e um templo (Ef 2.19–22; 4.4). A identidade cristã possui, portanto, uma dimensão que não pode ser vivida inteiramente sozinha. Pertencer a Cristo significa ser unido também àqueles que ele chamou para si.[7]
Efésios 1.1 já antecipa, assim, uma das grandes dinâmicas da carta: primeiro recebemos uma identidade; depois somos chamados a viver de acordo com ela. Paulo não começará dizendo aos cristãos que se tornem alguma coisa suficientemente boa para então pertencerem a Cristo. Ele começa dizendo quem eles são. Essa ordem será decisiva quando chegarmos às exortações dos capítulos seguintes. A vida cristã não consiste em caminhar para conquistar um lugar em Cristo, mas em aprender a caminhar porque já fomos colocados nele.
Santos em meio a um mundo que não é santo
3. Sobre o significado pastoral da designação “santos” para cristãos comuns vivendo num ambiente pagão, veja Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; e Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications. Essas exposições ressaltam que “santos” designa aqueles que Deus separou para si, e não uma elite espiritual alcançada apenas depois de extraordinário desenvolvimento religioso.
Identidade antes da caminhada
4. A estrutura de Efésios, na qual a identidade e as dádivas recebidas em Cristo precedem as exortações à nova maneira de viver, é enfatizada por Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing; MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers; Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers; e Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook. A santidade prática é consequência da nova posição concedida pela graça, não o preço pago para adquiri-la.
Fiéis porque confiam em Cristo
5. Para a relação entre “fiéis” e a fé depositada em Cristo, veja Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook; Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora; e Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth. O ponto pastoral é que Paulo descreve pessoas cuja nova vida se define pela relação com Cristo, e não por uma alegação de perfeição pessoal.
A identidade fundamental “em Cristo”
6. A expressão “em Cristo” é central para a compreensão da identidade cristã em Efésios. Veja Boice, James Montgomery, Ephesians: An Expositional Commentary, Baker Books; Coekin, Richard, Ephesians For You, The Good Book Company; e Lloyd-Jones, D. Martyn, God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1, Banner of Truth. Essa união com Cristo fornece o fundamento para as bênçãos, a segurança e a transformação que a carta desenvolverá posteriormente.
Uma identidade recebida dentro de um povo
7. Efésios apresenta a identidade “em Cristo” não apenas individualmente, mas dentro da realidade corporativa da igreja. Essa perspectiva é desenvolvida por Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing; e Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora. Como aplicação temática mais ampla dessa posição recebida em Cristo, veja também Nee, Watchman, Sit, Walk, Stand, Tyndale House Publishers.
Efésios 1.2 — Graça e paz procedentes de Deus
“Graça e paz” poderiam passar despercebidas como simples palavras de saudação, mas Paulo coloca nelas duas realidades que atravessarão toda a carta. A graça aponta para aquilo que Deus concede a quem nada pode reivindicar por mérito próprio; a paz descreve a condição que nasce quando essa graça restaura o pecador e o reconcilia com Deus. A ordem é importante: a paz não produz a graça, mas procede dela. Primeiro Deus se volta bondosamente para nós; então podemos viver reconciliados com ele. Efésios desenvolverá repetidas vezes esse movimento, apresentando a graça como origem da salvação e Cristo como aquele que é a nossa paz (Ef 2.5–8,14).[3]
A graça desmonta uma tendência profundamente arraigada no coração humano: a tentativa de estabelecer diante de Deus algum direito baseado no próprio desempenho. Mesmo depois de receber o evangelho, o cristão pode começar a viver como se a aceitação divina precisasse ser reconquistada a cada dia. Uma semana de oração mais disciplinada pode fazê-lo sentir-se digno de aproximar-se de Deus; uma queda pode levá-lo a agir como se já não pudesse fazê-lo. Mas a graça não permite que nossa relação com Deus oscile segundo esse sistema de méritos. Se nossa comunhão com ele dependesse de apresentarmos uma vida suficientemente boa para merecê-la, jamais conheceríamos verdadeira paz. O evangelho nos ensina justamente o contrário: aproximamo-nos porque Deus abriu o caminho em Cristo, e continuamos dependendo da mesma bondade pela qual fomos inicialmente recebidos (Ef 1.6–7).
Isso não torna a obediência desnecessária; coloca-a no lugar correto. A vida cristã não é uma tentativa de realizar boas obras para persuadir Deus a nos conceder graça. É a resposta de quem já foi alcançado pela graça e, por isso, deseja viver de maneira correspondente a ela. Antes de Efésios apresentar o chamado para andar dignamente da vocação recebida, a carta dedica seus primeiros capítulos a mostrar o que Deus realizou por nós. Primeiro vêm as riquezas concedidas em Cristo; depois vem a caminhada que corresponde a essas riquezas (Ef 4.1). Essa ordem liberta o cristão tanto da presunção quanto do desespero: não há motivo para orgulho, pois tudo é recebido, e não há motivo para abandonar-se à desesperança, pois nossa confiança repousa no que Deus fez, e não na suficiência de nossa própria força.[4]
A paz mencionada por Paulo também precisa ser compreendida em toda a sua profundidade. Ela não é simplesmente a sensação agradável de que tudo está bem. Se fosse assim, desapareceria cada vez que surgissem doença, perda, conflito ou incerteza. A paz cristã tem raízes mais profundas porque começa na reconciliação com Deus. O mundo ao redor pode permanecer inquieto enquanto o fundamento da vida permanece seguro. É possível chorar e ainda possuir paz; enfrentar perguntas sem resposta e ainda permanecer em paz; atravessar circunstâncias que jamais escolheríamos sem concluir que fomos abandonados por Deus. Essa paz não depende de uma vida sem tempestades, mas de sabermos a quem pertencemos no meio delas (Rm 5.1).
Por isso, paz não deve ser confundida com passividade emocional. Nas páginas de Efésios ela alcançará também nossos relacionamentos, a vida da igreja e nossa maneira de caminhar. Cristo não apenas estabelece paz entre Deus e o pecador; ele derruba hostilidades, forma um novo povo e chama esse povo a preservar a unidade produzida pelo Espírito (Ef 2.14–18; 4.3). A pessoa reconciliada com Deus começa a aprender uma vida reconciliadora. A graça recebida verticalmente transforma a maneira como tratamos horizontalmente aqueles que Deus igualmente alcançou. Onde a graça é realmente compreendida, torna-se cada vez mais difícil alimentar superioridade, ressentimento e espírito implacável.[5]
Há também algo profundamente consolador na origem dessas dádivas: graça e paz procedem “de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo”. Paulo não aponta para uma técnica pela qual o cristão possa fabricar serenidade interior. Ele aponta para pessoas: o Pai e o Filho. A paz cristã é relacional antes de ser emocional. Ela nasce de termos Deus como Pai e Jesus Cristo como Senhor. Por isso, quando nosso coração se torna inquieto, a resposta não é simplesmente tentar produzir um estado psicológico mais tranquilo, mas retornar às realidades do evangelho: quem Deus é, o que Cristo realizou e em que relação fomos colocados com ele.
A expressão “nosso Pai” acrescenta ainda uma ternura que não deve ser perdida. O Deus de quem procedem graça e paz não é apresentado apenas como soberano distante, mas como Pai de seu povo. A graça não nos deixa à porta depois de cancelar nossa dívida; conduz-nos para dentro da casa. Aquele diante de quem éramos culpados torna-se, por meio de Cristo, aquele a quem podemos chamar de Pai. Isso significa que a paz cristã inclui pertencimento. Não estamos tentando sobreviver espiritualmente como estrangeiros tolerados na presença de Deus; somos recebidos numa relação na qual podemos depender de sua bondade, correção, provisão e cuidado (Ef 1.5).
Essa verdade confronta também nossa busca por segurança em outras fontes. Podemos tentar encontrar paz na estabilidade financeira, na aprovação das pessoas, na saúde, no controle dos acontecimentos ou na ausência de conflitos. Todas essas coisas podem ser legítimas bênçãos, mas nenhuma suporta o peso de ser fundamento último da paz. Circunstâncias mudam, recursos diminuem, pessoas falham e planos são interrompidos. A paz proveniente de Deus, porém, repousa numa realidade que não se desfaz com essas mudanças. O cristão possui riquezas que não podem ser medidas pelas condições externas de sua vida, porque sua verdadeira riqueza está em Cristo.[6]
Há, finalmente, uma bela disciplina espiritual escondida nessa breve saudação. Precisamos aprender diariamente a receber aquilo que Deus dá antes de correr para aquilo que devemos fazer. O coração religioso costuma inverter essa ordem: esforça-se primeiro, espera sentir-se digno depois e somente então imagina poder descansar. A graça nos chama a começar pelo descanso da fé. Não significa inatividade, mas dependência. Aquele que aprende a colocar o peso de sua vida sobre Cristo pode então levantar-se para servir sem imaginar que tudo depende dele. A atividade cristã saudável nasce do repouso na obra que Deus já realizou, e não da ansiedade de tentar completar aquilo que somente ele poderia fazer.[7]
Assim, as poucas palavras de Efésios 1.2 oferecem uma orientação para toda a caminhada cristã. Vivemos da graça que não merecemos e na paz que não conseguimos fabricar. Quando falhamos, voltamos à graça; quando o coração se inquieta, lembramos a paz que nasce da reconciliação; quando somos tentados a confiar em nosso desempenho, recordamos que a fonte continua sendo Deus nosso Pai e o Senhor Jesus Cristo. A vida cristã começa assim e continua assim: recebendo de Deus aquilo que jamais poderíamos produzir por nós mesmos.
Nota — Graça que conduz à paz
3. A relação entre graça e paz é particularmente desenvolvida por Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; e Lloyd-Jones, D. Martyn, God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1, Banner of Truth. Ambos tratam a graça como realidade fundamental da vida cristã e a paz como fruto dessa iniciativa divina. Veja também Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora, que relaciona a saudação ao tema mais amplo da nova sociedade reconciliada criada por Deus em Cristo.
Nota — A graça precede o dever cristão
4. Sobre a prioridade daquilo que Deus concede antes daquilo que exige, veja MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers; Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook; e Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers. Essas exposições ressaltam, por caminhos distintos, que as responsabilidades desenvolvidas posteriormente em Efésios repousam sobre as riquezas espirituais já concedidas ao crente.
Nota — Paz como reconciliação e nova maneira de viver
5. Para a dimensão relacional e comunitária da paz em Efésios, veja Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing; Coekin, Richard, Ephesians For You, The Good Book Company; e Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications. As três obras ajudam a perceber que a saudação antecipa temas que reaparecerão na carta: graça, reconciliação, pertencimento ao mesmo povo e uma vida transformada por essa nova relação com Deus.
Nota — A verdadeira riqueza e a segurança do cristão
6. Sobre a insuficiência das circunstâncias externas para produzir verdadeira segurança e sobre as riquezas possuídas em Cristo, veja Boice, James Montgomery, Ephesians: An Expositional Commentary, Baker Books; Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; e Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook. A ênfase pastoral comum é que aquilo que o cristão possui em Cristo não pode ser adequadamente avaliado pelas condições materiais ou emocionais do momento.
Nota — Receber antes de agir
7. Para uma leitura devocional dessa prioridade, é especialmente sugestiva a imagem desenvolvida por Nee, Watchman, em Sit, Walk, Stand, Tyndale House Publishers. A obra organiza Efésios em torno da posição recebida em Cristo, da caminhada correspondente e da permanência firme no conflito espiritual. Embora essa estrutura não deva controlar a divisão exegética da carta, ela expressa de maneira pastoral uma verdade importante para Efésios: a atividade cristã não começa no esforço de conquistar uma posição diante de Deus, mas no repouso da fé naquilo que ele já realizou em Cristo.
Efésios 1.3–4 — A bênção de ter sido escolhido em Cristo
Paulo começa esta longa celebração não falando daquilo que o cristão ainda precisa conquistar, mas daquilo que Deus já lhe concedeu: fomos abençoados “com toda bênção espiritual” em Cristo. O movimento do texto é de Deus para nós. Ele é a fonte, Cristo é o lugar dessas bênçãos, e nós somos seus beneficiários. Antes que apareça qualquer ordem para caminhar, servir ou lutar, somos convidados a contemplar aquilo que recebemos. A vida cristã saudável começa desse modo: não tentando produzir riquezas espirituais por esforço próprio, mas aprendendo a reconhecer, receber e desfrutar aquilo que Deus concede em seu Filho (Ef 1.3).[8]

É significativo que a primeira resposta de Paulo a essas verdades seja louvor. Ele não introduz a eleição como um problema abstrato a ser resolvido, mas como motivo para bendizer a Deus. Isso nos ensina algo sobre a maneira correta de nos aproximarmos desse assunto. Há questões difíceis que podem surgir, mas Paulo não começa por elas. Começa pela adoração. A pergunta fundamental de Efésios 1.4 não é como podemos dominar intelectualmente todos os mistérios da escolha divina, mas o que acontece com o coração quando percebe que sua salvação tem raízes mais profundas do que sua própria história.
“Antes da fundação do mundo” leva o pensamento para além do momento de nossa conversão, de nossa infância e até da existência da própria criação. A salvação não aparece como uma reação improvisada de Deus diante do desastre humano. Antes que houvesse mundo, antes que tivéssemos realizado qualquer bem ou mal, o propósito gracioso de Deus já estava estabelecido em Cristo. Isso dá à fé uma segurança que não poderia existir se tudo dependesse da instabilidade de nossa iniciativa. Nossa história com Deus começou, em certo sentido, antes que pudéssemos contar nossa própria história (Ef 1.4).[9]
Essa verdade não oferece fundamento para orgulho; destrói-o. Se a escolha precede nossas obras, nossos méritos e até nossa existência, ninguém pode apresentar-se diante de Deus como alguém que foi escolhido porque era mais digno, mais perspicaz ou espiritualmente superior a outros. A eleição corretamente recebida leva o cristão a baixar a cabeça, não a erguê-la acima do próximo. Quanto mais profundamente entendemos que a graça teve sua origem em Deus, menos espaço resta para vanglória. A pergunta “Por que eu?” não encontra resposta numa qualidade oculta de nossa pessoa, mas conduz novamente à liberdade e à bondade daquele que decidiu amar.
Ao mesmo tempo, essa graça produz uma segurança que não deve ser confundida com presunção. O cristão pode olhar para suas fraquezas reais sem concluir que o propósito de Deus começou com elas ou depende delas. Há grande consolo em saber que nossa salvação não é um acidente sustentado precariamente por nossa capacidade de nunca falhar. O Deus que chamou seu povo em Cristo não descobriu suas limitações depois de chamá-lo. Isso não torna o pecado insignificante; significa que podemos combatê-lo a partir da segurança de sermos alcançados pela graça, e não do medo constante de que cada tropeço tenha destruído toda esperança.[10]
Mas Paulo não permite que a segurança seja separada da santidade. Deus nos escolheu “para sermos santos e irrepreensíveis diante dele”. A santidade não é apresentada como razão pela qual fomos escolhidos, mas como finalidade dessa escolha. A graça não diz: “Fique como está, pois nada importa”. Ela diz: “Você pertence a Deus; agora sua vida será progressivamente conformada àquele a quem pertence”. O mesmo propósito que nos alcança sem mérito começa a transformar aquilo que somos. Por isso, eleição e santidade não competem entre si. Quanto mais profundamente compreendemos a graça, mais seriamente devemos desejar que nossa vida corresponda a ela.[11]
Isso também muda a maneira como encaramos a luta contra o pecado. O cristão não busca santidade para convencer Deus a escolhê-lo; busca santidade porque foi chamado para ela. Essa diferença é enorme. Num caso, a obediência nasce do medo e da tentativa de conquistar aceitação. No outro, nasce do pertencimento. Não nos tornamos santos para entrar em Cristo; estando em Cristo, somos conduzidos a uma vida santa. A transformação cristã deixa então de ser uma tentativa desesperada de fabricar uma nova identidade e passa a ser o desenvolvimento, pelo Espírito, da identidade que recebemos.
A expressão “em Cristo” é decisiva. Paulo não fala de uma escolha que possa ser separada do Filho. As bênçãos estão em Cristo; a escolha é em Cristo; e toda a vida que se segue será vivida em união com ele. Isso mantém a meditação longe de uma curiosidade fria sobre decretos escondidos e a leva para onde Paulo a coloca: para Jesus Cristo. O sinal pastoral para o crente não é perscrutar aquilo que Deus não revelou, mas olhar para Cristo, confiar nele e reconhecer que é nele que todas as riquezas da salvação são recebidas. A certeza cristã cresce não pela contemplação ansiosa de nós mesmos, mas pela confiança naquele em quem Deus concentrou suas bênçãos.[12]
Ef 1.3–4, portanto, ensina o cristão a viver entre duas convicções que devem permanecer inseparáveis: uma profunda segurança na iniciativa de Deus e um profundo chamado à transformação. Fomos alcançados antes de podermos alcançá-lo; fomos abençoados antes de podermos oferecer-lhe qualquer coisa; fomos escolhidos não porque já éramos santos, mas para que nos tornássemos aquilo que sua graça pretende formar. Quando essa verdade é recebida corretamente, ela não produz especulação estéril. Produz louvor, humildade, descanso e desejo de santidade.
A eleição como motivo de adoração
8. A leitura devocional de Efésios 1.3–4 como doxologia, antes de controvérsia, é especialmente desenvolvida por Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; e Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora. As três exposições enfatizam que Paulo apresenta a escolha divina no contexto de louvor pela graça recebida em Cristo.
Um propósito anterior à nossa história
9. Sobre a expressão “antes da fundação do mundo” como testemunho de que a salvação pertence ao propósito eterno de Deus, veja Lloyd-Jones, D. Martyn, God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1, Banner of Truth; MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers; e Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications. As exposições diferem em desenvolvimento, mas convergem em situar a salvação dentro de um propósito que antecede a criação e ultrapassa a perspectiva limitada do indivíduo.
Segurança sem orgulho
10. A relação entre eleição, segurança e humildade é tratada pastoralmente por Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers, que adverte contra transformar a predestinação em complacência ou sentimento de superioridade; e por Coekin, Richard, Ephesians For You, The Good Book Company, que relaciona a escolha divina à permanência do amor de Deus e à confiança em sua iniciativa salvadora.
Escolhidos para a santidade
11. A finalidade moral da eleição — “para sermos santos e irrepreensíveis” — recebe especial destaque em Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing; Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook; e Boice, James Montgomery, Ephesians: An Expositional Commentary, Baker Books. Em comum, essas exposições recusam a ideia de que a escolha divina torne a santidade irrelevante: o próprio texto apresenta a conformidade moral a Deus como um dos propósitos da graça.
Em Cristo: receber antes de conquistar
12. A centralidade da expressão “em Cristo” é ressaltada por diversas exposições de Efésios. Para uma aplicação especialmente devocional, veja Nee, Watchman, Sit, Walk, Stand, Tyndale House Publishers. Nee utiliza Efésios 1.3–4 para enfatizar que a vida cristã começa recebendo pela fé aquilo que Deus já concedeu em Cristo, e não tentando conquistar por esforço uma posição diante dele. Essa ênfase é útil como aplicação espiritual, embora não deva substituir a estrutura exegética própria do texto.
Efésios 1.15–16 — Fé e amor que despertam gratidão
Depois de contemplar as grandes obras de Deus em favor de seu povo, Paulo volta os olhos para aquilo que essa graça já estava produzindo nos próprios cristãos. Ele havia falado de eleição, redenção, perdão, herança e do selo do Espírito; agora menciona aquilo que podia ser visto na vida daqueles que haviam recebido essas bênçãos. A graça invisível começava a deixar sinais visíveis: fé no Senhor Jesus e amor pelos santos. A vida cristã não se reduz a uma experiência interior conhecida apenas por Deus. Aquilo que ele realiza no coração começa, de diferentes maneiras, a aparecer na direção que damos à nossa confiança e na maneira como tratamos seu povo (Ef 1.15).
Esses dois sinais precisam permanecer juntos. A fé volta o coração para Cristo; o amor volta o coração para os irmãos. Uma diz respeito àquele em quem confiamos, e a outra mostra algo do efeito dessa confiança sobre nossas relações. Paulo não se impressiona simplesmente com conhecimento religioso, eloquência ou intensidade de experiências espirituais. O relato que desperta sua gratidão é muito mais simples e profundo: aquelas pessoas confiavam no Senhor Jesus e amavam os santos. A maturidade cristã não pode ser medida somente pelo quanto alguém sabe sobre Deus, mas também pelo que a comunhão com Deus está fazendo com sua maneira de amar (Gl 5.6; 1Jo 3.14).[13]
A expressão “todos os santos” torna esse amor ainda mais exigente. É relativamente fácil demonstrar afeto por cristãos com quem compartilhamos temperamento, origem, preferências e maneiras semelhantes de pensar. O amor cristão, porém, não pode limitar-se às afinidades naturais. A igreja reunia pessoas cuja convivência não seria explicada apenas por compatibilidade social: judeus e gentios, pessoas de histórias e ambientes muito diferentes, estavam sendo reunidos em Cristo. Amar “todos os santos” significa aprender a reconhecer como irmãos aqueles que Deus recebeu, mesmo quando não seriam aqueles que escolheríamos espontaneamente para compor nosso círculo de amizades (Ef 2.14–19).[14]
Isso não significa que todo relacionamento cristão terá a mesma proximidade, nem que diferenças devam ser ignoradas. Significa que a graça de Deus cria uma lealdade mais profunda que nossas preferências pessoais. Podemos discordar, ter temperamentos incompatíveis e até precisar tratar de falhas reais, sem transformar essas diferenças em justificativa para desprezo. Quando Cristo se torna o centro da identidade do povo de Deus, o irmão deixa de ser avaliado apenas pela facilidade que temos de conviver com ele. Passamos a vê-lo também como alguém por quem Cristo morreu e em quem Deus está realizando sua obra.
Paulo oferece ainda outro exemplo de maturidade: ele sabia reconhecer essa obra. Ao receber notícias da fé e do amor daqueles cristãos, sua reação não foi procurar imediatamente aquilo que ainda estava faltando. Certamente havia muito em que eles precisavam crescer, como sua oração a seguir demonstrará. Mas isso não o impediu de perceber o que Deus já havia produzido. Há uma diferença entre discernimento espiritual e uma disposição permanentemente crítica. O discernimento consegue enxergar deficiências sem tornar-se cego para a graça; o espírito crítico aprende a encontrar defeitos com tanta facilidade que já quase não reconhece motivos para agradecer.
Essa atitude merece atenção porque podemos acostumar-nos a observar os irmãos principalmente pelas suas falhas. Notamos uma palavra inadequada, uma decisão infeliz, uma limitação de caráter ou uma diferença de opinião, enquanto anos de fidelidade, crescimento, serviço e amor passam quase despercebidos. Paulo nos ensina outra maneira de olhar. Quando a fé cresce, quando alguém persevera em Cristo, quando o amor vence uma antiga divisão ou quando um crente começa a servir com maior generosidade, há ali uma obra de Deus que merece ser reconhecida. A graça que celebramos em nossa própria vida deve tornar-nos mais capazes de reconhecê-la na vida dos outros.[15]
Mais significativo ainda é que Paulo não apenas elogia os efésios; agradece a Deus por eles. Isso revela como ele interpreta aquilo que observa. Fé e amor são responsabilidades humanas reais, mas Paulo consegue enxergar por trás delas a ação da graça. Por isso sua gratidão sobe a Deus. Quando vemos crescimento espiritual em alguém, podemos encorajar essa pessoa — e devemos fazê-lo —, mas também devemos reconhecer silenciosamente diante do Senhor: “Tu estás operando aqui”. Esse olhar preserva tanto o encorajamento quanto a humildade. O irmão é valorizado sem ser transformado na origem última daquilo que admiramos nele.
Há algo especialmente belo na capacidade de agradecer a Deus pelo crescimento de pessoas cuja obra não depende de nós. O coração dominado pela competição religiosa só se alegra plenamente com aquilo que acontece dentro de seu próprio círculo. Paulo demonstra outra disposição. A notícia de que Cristo estava sendo crido e seus santos estavam sendo amados já era razão suficiente para gratidão. Maturidade espiritual inclui aprender a alegrar-se quando Deus prospera outro irmão, outra comunidade ou outro ministério, mesmo quando não receberemos reconhecimento algum por isso. Se a obra pertence realmente a Cristo, sua expansão deve ser motivo de alegria onde quer que ela apareça (Fp 1.15–18).[16]
Entretanto, agradecer pelo que Deus já fez não significa considerar a obra concluída. Paulo agradece e continua orando. Ele reconhece a fé dos efésios sem imaginar que já aprenderam tudo sobre confiar; reconhece seu amor sem concluir que chegaram à perfeição; celebra a graça presente e, imediatamente, pede que recebam maior conhecimento de Deus. Essa combinação é profundamente saudável. Podemos agradecer sinceramente pelo progresso de alguém e ainda desejar seu crescimento. Podemos encorajar sem bajular, corrigir sem desprezar e interceder sem agir como se nada de bom já existisse.
Por isso, a gratidão de Paulo é também uma escola de oração. Notícias sobre outros cristãos não se transformam para ele apenas em assunto de conversa, comparação ou avaliação. Tornam-se oração. Aquilo que ouve sobre os irmãos leva-o à presença de Deus. Há aqui uma disciplina espiritual simples e exigente: quando soubermos da fé, perseverança, serviço ou amor de alguém, podemos transformar essa informação em agradecimento. E quando soubermos de suas necessidades, podemos levá-las à mesma presença. Falar menos sobre os irmãos e falar mais deles a Deus mudaria profundamente muitas de nossas relações (Cl 1.3–4).[17]
Ef 1.15–16 nos convida, portanto, a examinar não apenas se possuímos fé e amor, mas também como reagimos às evidências dessas virtudes nos outros. A graça de Deus ensina o cristão a confiar em Cristo, a amar seu povo e a alegrar-se quando vê essas mesmas coisas florescendo em outras vidas. Um coração amadurecido pela graça não precisa diminuir os irmãos para sentir-se seguro. Ele aprende a perceber, celebrar e agradecer. Onde outros talvez enxerguem apenas pessoas ainda imperfeitas, ele também reconhece sinais de que Deus não terminou sua obra.
Fé em Cristo e amor pelos santos
13. A relação entre fé no Senhor Jesus e amor pelo povo de Deus como marcas inseparáveis da vida cristã é desenvolvida por Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora; MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers; e Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook. Em diferentes formulações, essas exposições identificam no movimento simultâneo da fé para Cristo e do amor para os irmãos uma evidência concreta da realidade da profissão cristã.
O alcance de “todos os santos”
14. O caráter abrangente do amor mencionado em Efésios 1.15 recebe especial atenção em Coekin, Richard, Ephesians For You, The Good Book Company; Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; e Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications. O ponto pastoral comum é que o amor cristão ultrapassa afinidades naturais, alcançando irmãos de diferentes origens, temperamentos e circunstâncias.
Reconhecendo as evidências da graça
15. Lloyd-Jones, D. Martyn, God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1, Banner of Truth, trata Efésios 1.15–16 como evidência prática da profissão cristã, relacionando fé em Cristo e amor pelos santos à realidade da vida regenerada. Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing, chama atenção para a união entre a gratidão dirigida a Deus e o reconhecimento dirigido ao próprio povo de Deus: Paulo não somente agradece pelos efésios, mas permite que saibam que reconhece neles essas graças cristãs.
Alegrar-se com a obra de Deus nos outros
16. A aplicação de Paulo como alguém capaz de celebrar o crescimento espiritual de outros é especialmente desenvolvida por Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway, que chama atenção para a dificuldade humana de alegrar-se quando outros prosperam espiritualmente, inclusive fora de nosso próprio círculo; e por Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications, que observa que Paulo valorizava e intercedia também por convertidos e comunidades que não eram resultado direto de seu próprio trabalho.
Da gratidão à intercessão
17. A passagem da contemplação das bênçãos para a oração pelos crentes é ressaltada por Boice, James Montgomery, Ephesians: An Expositional Commentary, Baker Books; Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers; e Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth. Para uma perspectiva temática mais ampla sobre uma vida que procede daquilo que já foi recebido em Cristo, veja também Nee, Watchman, Sit, Walk, Stand, Tyndale House Publishers. Neste último caso, a contribuição é geral e devocional, não uma exposição específica de Efésios 1.15–16.
Efésios 1.17–18 — Olhos do coração iluminados para conhecer a esperança de Deus
Paulo não ora para que os efésios recebam um evangelho diferente ou uma experiência espiritual que complete aquilo que Cristo deixou incompleto. Eles já haviam sido abençoados em Cristo, redimidos, perdoados e selados pelo Espírito. O que lhes faltava era enxergar com maior profundidade a grandeza daquilo que já possuíam. Por isso, sua oração não é por novidade, mas por iluminação. Há uma diferença entre possuir uma verdade e perceber seu peso, entre saber algo corretamente e ter essa verdade governando a maneira como pensamos, esperamos e vivemos. O crescimento cristão inclui justamente essa passagem: aquilo que conhecemos com a mente precisa tornar-se cada vez mais claro aos “olhos do coração” (Ef 1.17–18).[18]
A primeira coisa que Paulo deseja para seus leitores é que conheçam melhor a Deus. Isso é significativo porque nossas orações costumam ser dominadas por circunstâncias: queremos solução para uma dificuldade, alívio de uma dor, direção para uma decisão ou mudança em determinada situação. Nenhum desses pedidos é ilegítimo. Paulo, porém, mostra que existe uma necessidade ainda mais profunda. Podemos ter circunstâncias favoráveis e ainda conhecer pouco a Deus; podemos ter muitos problemas e, justamente neles, crescer em conhecimento daquele que permanece conosco. O maior bem que Deus pode conceder não é apenas tornar nossa vida mais fácil, mas fazer-nos conhecê-lo mais profundamente (Jr 9.23–24; Jo 17.3).

Esse conhecimento não é mera acumulação de informações religiosas. É possível aprender doutrinas corretas, compreender argumentos teológicos e conhecer extensamente as Escrituras sem que a visão de Deus tenha penetrado suficientemente o coração. Paulo pede “sabedoria e revelação” para que os cristãos o conheçam melhor. Isso não significa buscar revelações privadas que ultrapassem aquilo que Deus tornou conhecido, mas depender do Espírito para compreender, acolher e viver à luz da revelação recebida. O mesmo texto bíblico pode estar diante de nossos olhos muitas vezes e, ainda assim, chegar o dia em que percebemos sua grandeza de maneira nova e ela passa a reorganizar nossos temores, desejos e prioridades.[19]
A imagem dos “olhos do coração” mostra que Paulo está pedindo algo que envolve a pessoa inteira. Na linguagem bíblica, o coração não é apenas o lugar das emoções, mas o centro interior do qual procedem pensamento, vontade, desejos e decisões. Ter o coração iluminado significa começar a enxergar a realidade de Deus de tal maneira que nossa maneira de interpretar a vida também muda. Podemos afirmar que Deus é fiel e, diante de uma crise, viver como se estivéssemos abandonados. Podemos confessar que a vida eterna é nossa esperança e, ainda assim, agir como se perder algo neste mundo fosse perder tudo. É por isso que precisamos de iluminação: não somente para dizer a verdade corretamente, mas para enxergar a vida a partir dela.[20]
Paulo menciona primeiro “a esperança do seu chamado”. A esperança cristã não é uma tentativa de pensar positivamente diante de um futuro incerto. Ela nasce de um chamado de Deus. Aquele que chamou é também aquele que determinou o destino para o qual seu povo caminha. Por isso, esperança bíblica possui firmeza diferente de simples expectativa humana. Não diz apenas: “Talvez as coisas terminem bem”. Diz: “Deus chamou seu povo para um futuro que ele mesmo prometeu realizar”. Essa esperança olha além da instabilidade do presente porque está ancorada no caráter de quem chama (Rm 8.28–30).
O chamado de Deus também é maior que uma vocação particular. Paulo não está falando apenas de descobrir um ministério, uma profissão ou uma tarefa específica. O chamado cristão envolve uma nova vida inteira: fomos chamados para pertencer a Cristo, para a santidade, para a comunhão com seu povo e, finalmente, para participar de sua glória. Compreender a esperança desse chamado significa perceber para onde toda a vida cristã está caminhando. Deus não apenas nos tirou de uma antiga condição; conduziu-nos para um destino. A salvação possui direção.[21]
Isso muda a maneira como enfrentamos o presente. Quando nossos olhos ficam presos somente ao que acontece agora, um fracasso pode parecer definitivo, uma perda pode parecer total e uma longa espera pode parecer sem sentido. A esperança amplia o horizonte. Ela não nega a dor, mas impede que a dor tenha a última palavra. O cristão pode atravessar sofrimento sem chamar o sofrimento de bem e, ao mesmo tempo, lembrar que sua história não termina ali. Deus ainda está conduzindo aqueles que chamou para aquilo que prometeu (Rm 5.2–5; Cl 3.4).
Paulo também deseja que os cristãos percebam “as riquezas da glória da sua herança nos santos”. Seja qual for o aspecto específico que se destaque nessa expressão, o ponto devocional permanece impressionante: o futuro do povo de Deus é descrito em linguagem de riqueza e glória. Isso confronta nossa tendência de avaliar a vida somente pelo que pode ser contado agora. Há cristãos que possuem pouco aos olhos do mundo e, no entanto, caminham para uma herança que torna insuficientes todas as medidas comuns de prosperidade. Quando o coração enxerga esse futuro, as riquezas presentes deixam de parecer absolutas e as perdas presentes deixam de parecer finais.[22]
Essa oração também nos ensina algo sobre leitura bíblica. Não basta abrir as Escrituras apenas perguntando: “O que este texto significa?”. Essa pergunta é indispensável, mas pode ser acompanhada de outra: “Senhor, faze-me enxergar a grandeza daquilo que estás mostrando”. Estudo e oração não são rivais. A mente precisa trabalhar, mas o coração precisa ser iluminado. Podemos examinar cuidadosamente uma passagem e, ao mesmo tempo, reconhecer que somente Deus pode fazer com que sua verdade alcance aquelas regiões interiores onde nossos medos, falsas seguranças e esperanças desordenadas realmente vivem (Sl 119.18).
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem conhecer as mesmas afirmações do evangelho e viver de maneiras tão diferentes. Uma sabe que Deus a chamou, mas ainda é governada pelo medo do futuro; outra, sem possuir informação adicional, começou a perceber o que esse chamado significa e encontra nele coragem para continuar. Uma sabe que existe uma herança futura, mas vive dominada por aquilo que pode perder hoje; outra começou a enxergar aquela herança e aprende a segurar as coisas presentes com mãos menos fechadas. A diferença nem sempre está na quantidade de informação, mas na profundidade com que a verdade foi vista.
Por isso, Paulo ora. A iluminação espiritual não é produzida apenas por esforço intelectual. Devemos estudar, meditar, comparar, aprender e guardar a Palavra, mas fazemos tudo isso em dependência daquele que abre os olhos. O cristão amadurecido não se torna independente do Espírito à medida que conhece mais a Bíblia; torna-se mais consciente de sua necessidade dele. Quanto mais conhece, mais percebe quanto ainda precisa enxergar.
Há também uma ligação importante entre visão e caminhada. Quando compreendemos melhor a esperança para a qual fomos chamados, nossa maneira de viver começa a corresponder àquilo que vemos. Uma visão pequena do futuro de Deus tende a produzir uma vida dominada pelo presente. Uma visão ampla de sua promessa gera perseverança, liberdade e propósito. O coração iluminado não é simplesmente um coração informado; é um coração que começa a caminhar na direção daquilo que agora enxerga com maior clareza.[23]
Efésios 1.17–18, portanto, ensina-nos a pedir mais que respostas para nossas circunstâncias. Ensina-nos a pedir olhos. Precisamos conhecer melhor a Deus, perceber mais profundamente aquilo que ele já revelou e enxergar com maior clareza o futuro para o qual fomos chamados. Muitas vezes, Deus não muda imediatamente aquilo que está diante de nós; muda primeiro a maneira como o enxergamos. E quando os olhos do coração são iluminados, o mesmo caminho pode ser percorrido com uma esperança que antes parecia distante.
Possuir as bênçãos e compreender sua grandeza
18. A distinção entre já possuir as bênçãos da salvação e precisar compreendê-las mais profundamente é ressaltada por Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora; Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook; e MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers. Paulo não ora para que os cristãos recebam uma salvação adicional, mas para que percebam mais plenamente as riquezas que já lhes foram concedidas em Cristo.
Iluminação, não nova revelação
19. Sobre a atuação do Espírito no conhecimento de Deus e na compreensão da verdade já revelada, veja Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; e Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing. Ambos tratam Efésios 1.17–18 em termos de iluminação espiritual: o Espírito permite ao crente conhecer, compreender e viver à luz da revelação divina, em vez de conduzi-lo à busca de um conteúdo revelatório concorrente com aquilo que Deus tornou conhecido em Cristo e nas Escrituras.
Os olhos do coração
20. A linguagem dos “olhos do coração” é desenvolvida extensamente por Lloyd-Jones, D. Martyn, God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1, Banner of Truth, que ressalta que o coração, em seu uso bíblico, envolve o centro da personalidade e não somente as emoções. Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers, igualmente relaciona essa iluminação ao pensamento, ao juízo moral e aos afetos. A oração de Paulo, portanto, visa conhecimento que alcance a pessoa inteira.
A esperança ligada ao chamado
21. Para o alcance da “esperança do chamado”, veja Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers; e Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications. Essas exposições relacionam o chamado de Deus a um futuro definido por sua promessa, abrangendo a nova vida presente e sua consumação futura em glória.
Conhecer Deus e enxergar sua herança
22. A unidade entre conhecimento de Deus e compreensão mais profunda da esperança, da herança e do poder divinos é desenvolvida por Boice, James Montgomery, Ephesians: An Expositional Commentary, Baker Books; e por Coekin, Richard, Ephesians For You, The Good Book Company. Ambos dão prioridade pastoral ao conhecimento pessoal de Deus: compreender as dádivas cristãs corretamente começa por conhecer melhor aquele que as concede.
Enxergar para caminhar
23. Como aplicação temática, Nee, Watchman, Sit, Walk, Stand, Tyndale House Publishers, relaciona diretamente a iluminação dos olhos do coração e o conhecimento da esperança do chamado à caminhada correspondente à vontade de Deus. Sua contribuição é particularmente útil para perceber que, em Efésios, a compreensão da posição e do chamado recebidos precede a vida prática que será desenvolvida nos capítulos seguintes.
Efésios 1.19–21 — O poder de Deus revelado na ressurreição e exaltação de Cristo
Paulo deseja que os cristãos conheçam “a suprema grandeza” do poder de Deus em favor dos que creem. Isso é mais que reconhecer intelectualmente que Deus é onipotente. O apóstolo quer que o coração perceba o que esse poder significa para aqueles que pertencem a Cristo. Há uma diferença entre confessar que Deus pode todas as coisas e viver com a segurança de que nossa salvação está sustentada por ele. Muitas de nossas ansiedades espirituais nascem justamente dessa distância: cremos num Deus poderoso, mas continuamos avaliando nosso futuro como se tudo dependesse da resistência de nossa própria fé, da constância de nossas emoções ou da força de nossa vontade (Ef 1.19).

Paulo não deixa esse poder indefinido. Ele aponta para um acontecimento: Deus o demonstrou quando ressuscitou Cristo dentre os mortos. O túmulo vazio torna-se a medida pela qual devemos pensar a força divina. Jesus esteve realmente morto; nenhuma possibilidade humana permanecia. Seus discípulos não poderiam devolver-lhe a vida, seus inimigos não esperavam sua vitória e a morte parecia ter pronunciado sua sentença final. Mas Deus o levantou. Por isso, quando o cristão pergunta se o poder de Deus é suficiente para sustentar sua esperança, Paulo não lhe oferece uma ideia abstrata; dirige seus olhos para a ressurreição (Ef 1.20; Rm 6.4).[24]
Isso muda profundamente a maneira de pensar nossa própria fraqueza. A força de Deus não começa onde terminam nossas limitações como se ele simplesmente completasse o que conseguimos fazer. A ressurreição mostra uma ação que somente ele poderia realizar. O cristão, portanto, não precisa fingir autossuficiência para demonstrar fé. Pode reconhecer cansaço, fragilidade, medo e incapacidade e, ainda assim, permanecer confiante, porque sua esperança não repousa na quantidade de força que consegue encontrar dentro de si. O evangelho não nos ensina a acreditar mais em nós mesmos, mas a depender mais daquele cujo poder se revelou precisamente onde toda possibilidade humana havia terminado.[25]
Esse poder também não deve ser confundido com uma promessa de que o cristão será poupado de sofrimento, oposição ou períodos de profunda fraqueza. Paulo conheceu tudo isso e, mesmo assim, aprendeu que a força de Cristo podia tornar-se mais claramente conhecida em sua fraqueza (2Co 12.9–10). O poder de Deus não transforma o cristão numa pessoa invulnerável; torna possível perseverar quando sua própria capacidade seria insuficiente. Ele sustenta a fé, produz transformação, fortalece a obediência e conduz o povo de Deus para o destino que lhe foi prometido.
Mas a demonstração do poder divino não termina na ressurreição. Deus também colocou Cristo à sua direita nos lugares celestiais. Aquele que saiu do túmulo não apenas voltou à vida; foi exaltado. Ressurreição fala de vitória sobre a morte; entronização fala de autoridade. Cristo não permanece como sobrevivente de um grande conflito, mas reina como Senhor. Assim, a esperança cristã repousa não somente no fato de que Jesus vive, mas no fato de que aquele que vive também governa (At 2.32–36).
Paulo então amplia deliberadamente a linguagem: Cristo está “muito acima de todo principado, autoridade, poder e domínio”. Para os primeiros leitores, cercados por crenças em forças espirituais e por estruturas religiosas e políticas que pareciam poderosas, essa afirmação teria enorme força pastoral. Paulo não precisa negar a existência de poderes hostis para oferecer segurança. Ele simplesmente mostra sua posição: estão abaixo de Cristo. O mal pode ser real sem ser supremo; pode resistir sem poder destronar; pode ameaçar sem possuir a palavra final (Ef 6.12).[26]
Essa verdade continua importante porque nossos medos também tendem a engrandecer aquilo que nos ameaça. Uma doença pode parecer absoluta enquanto a enfrentamos; uma crise pode ocupar todo o horizonte; uma autoridade humana pode parecer incontestável; uma tentação persistente pode parecer invencível. Efésios 1.21 não nos manda fingir que essas coisas são pequenas. Ensina-nos a vê-las em relação a Cristo. Elas podem ser grandes diante de nós e, ainda assim, infinitamente menores que aquele que está acima de todo nome, nesta era e na futura.
É aqui que a doutrina do poder de Deus precisa ser protegida do triunfalismo. Paulo não está dizendo que o crente recebeu soberania independente para controlar circunstâncias, impor sua vontade ou exigir que toda dificuldade desapareça. O poder continua sendo de Deus; o trono continua sendo de Cristo. Nossa segurança nasce precisamente dessa distinção. Não precisamos ser senhores de todas as situações porque pertencemos ao Senhor que está acima delas. O descanso cristão não vem da sensação de que podemos dominar tudo, mas da certeza de que tudo está finalmente debaixo daquele em quem confiamos.[27]
Há também uma relação profunda entre esse poder e nossa perseverança. Se a esperança do chamado é tão gloriosa quanto Paulo acabou de descrever, surge naturalmente uma pergunta: como pessoas tão frágeis chegarão até lá? A resposta de 1.19–21 é que o mesmo Deus que determinou o destino possui poder suficiente para conduzir seu povo até ele. Nossa segurança não está em nunca vacilar, mas em saber quem nos sustenta. O poder que ressuscitou Cristo não é apresentado como espetáculo distante, mas como fundamento para a confiança dos que creem.[28]
Isso também significa que a ressurreição deve influenciar nossa maneira de enfrentar aquilo que parece sem saída. O cristão não chama morte de vida nem sofrimento de prazer; sua esperança não depende de negar a realidade. Pelo contrário, a fé olha diretamente para aquilo que parece final e lembra que Deus já demonstrou sua capacidade de fazer surgir vida onde havia morte. Nem toda dificuldade será removida da maneira que desejamos, mas nenhuma circunstância presente é capaz de tornar inútil o poder pelo qual Deus está conduzindo sua obra à consumação.
Por isso, a oração de Paulo não é para que nos tornemos fascinados com poder, mas para que sejamos fortalecidos pela visão de Cristo. Quanto mais claramente o enxergamos ressuscitado e exaltado, menos precisamos fabricar coragem artificialmente. Nossa confiança muda de fundamento. Em vez de perguntar continuamente se somos fortes o bastante para enfrentar aquilo que vem, aprendemos a perguntar quem é aquele a quem pertencemos. A resposta de Efésios 1 é que pertencemos ao Cristo que Deus levantou dentre os mortos e assentou acima de todo principado, autoridade, poder e domínio.[29]
Efésios 1.19–21, portanto, não nos ensina a admirar nossa força espiritual, mas a descansar na força de Deus. O túmulo vazio mostra que a morte não pôde deter Cristo; o trono mostra que nenhum poder está acima dele. É desse lugar que nasce a perseverança cristã. Podemos ser fracos sem estar abandonados, cercados sem estar entregues e temerosos sem precisar viver dominados pelo medo. O fundamento de nossa segurança não está em conseguir manter todas as coisas sob controle, mas em saber que Jesus Cristo ressuscitou, reina e permanece acima de tudo aquilo que poderia parecer maior que nossa esperança.
A ressurreição como demonstração do poder de Deus
24. A ressurreição de Cristo como demonstração histórica decisiva do poder divino é especialmente ressaltada por Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora; Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications; e Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing. A ênfase comum é que Paulo não deixa o poder de Deus em nível abstrato, mas o relaciona ao acontecimento concreto da ressurreição de Cristo.
Poder divino em meio à fraqueza
25. A relação entre o poder de Deus e a fraqueza do cristão é desenvolvida pastoralmente por Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth, que relaciona Efésios 1.19 à experiência paulina de força recebida em meio à fragilidade; e por MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers, que ressalta a necessidade de confiar no poder do Senhor em vez de desenvolver autossuficiência espiritual.
Cristo acima de todo poder
26. Sobre a força pastoral da afirmação de que Cristo está acima de todo principado, autoridade, poder e domínio, veja Coekin, Richard, Ephesians For You, The Good Book Company; Boice, James Montgomery, Ephesians: An Expositional Commentary, Baker Books; Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; e Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications. Essas exposições relacionam a supremacia de Cristo tanto às forças espirituais hostis quanto às autoridades que parecem dominar a experiência humana.
Resurrection power sem triunfalismo
27. Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook, enfatiza que o crente necessita do poder divino para viver de acordo com as riquezas espirituais que recebeu. Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers, relaciona esse poder à aplicação das grandes verdades do evangelho às situações concretas da vida. Essas ênfases são úteis desde que se preserve a distinção fundamental do texto: trata-se do poder de Deus operando em favor de seu povo, não de uma capacidade autônoma concedida ao indivíduo para controlar circunstâncias.
O poder de Deus como fundamento de segurança
28. Lloyd-Jones, D. Martyn, God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1, Banner of Truth, desenvolve extensamente Efésios 1.19 como fundamento de segurança: diante da grandeza da herança prometida e da fraqueza do cristão, Paulo aponta para a grandeza do poder de Deus operando em seu povo. MacArthur, John, igualmente relaciona o poder manifestado na ressurreição à certeza de que Deus é capaz de conduzir os crentes à consumação de sua esperança.
Descansar na posição do Cristo exaltado
29. Para uma aplicação devocional da exaltação de Cristo, veja Nee, Watchman, Sit, Walk, Stand, Tyndale House Publishers. Nee parte de Efésios 1.20–21 para enfatizar que a vida cristã deve começar pela percepção da posição de Cristo, assentado acima de todo principado, autoridade, poder e domínio. Sua contribuição é particularmente útil quando entendida cristologicamente: a segurança do crente não repousa numa soberania própria, mas em sua união com aquele que já foi exaltado e reina.
Efésios 1.22–23 — Cristo como cabeça de todas as coisas para a igreja
O capítulo termina levando novamente os olhos para Cristo. Depois de falar da esperança do chamado, da riqueza da herança e da grandeza do poder de Deus, Paulo mostra onde todas essas realidades encontram sua segurança: naquele a quem Deus colocou todas as coisas debaixo dos pés. O Cristo ressuscitado não apenas venceu a morte; recebeu autoridade sobre tudo. E é justamente esse Cristo que foi dado à igreja como cabeça. A segurança da igreja, portanto, não repousa em sua força, em sua influência cultural, em seus recursos ou na capacidade de seus líderes. Repousa naquele a quem ela pertence (Ef 1.22–23).

Essa verdade corrige uma tendência constante da vida religiosa: identificar excessivamente a igreja com seus dirigentes humanos. Pastores ensinam, presbíteros cuidam, missionários servem e muitos outros exercem responsabilidades indispensáveis, mas nenhum deles ocupa o lugar da cabeça. A igreja não nasce de uma personalidade forte, não pertence ao ministro que a conduz e não perde sua verdadeira cabeça quando um líder parte. Cristo é aquele que dirige, sustenta e governa seu corpo. Quanto mais uma comunidade depende da personalidade de um homem para conservar sua identidade, mais precisa redescobrir de quem realmente é a igreja (Cl 1.18).[30]
Isso não diminui a importância da liderança; coloca-a em seu lugar correto. Toda autoridade cristã é recebida, limitada e responsável diante de Cristo. Ninguém conduz legitimamente a igreja em direção contrária àquele que é sua cabeça. Por isso, liderança fiel não procura tornar o povo dependente de sua própria presença, mas ajudá-lo a ouvir, conhecer e obedecer ao Senhor. Um líder pode aconselhar, ensinar e proteger, mas não pode substituir Cristo como fonte da vida espiritual. A igreja amadurece quando aprende a valorizar seus servos sem transformá-los em seu centro.
Há também uma dimensão profundamente consoladora na expressão “cabeça sobre todas as coisas para a igreja”. O mesmo Cristo que governa a igreja é aquele sob cujos pés Deus colocou todas as coisas. Paulo não apresenta dois Cristos — um que reina sobre o universo e outro que cuida de seu povo. O Rei sobre tudo é a cabeça do corpo. Aquilo que parece poderoso demais para a igreja não é poderoso demais para aquele que a governa. O que está acima de nossas forças continua abaixo de seus pés (Ef 1.21–22).[31]
Isso não significa que a igreja será poupada de perseguição, fraqueza ou períodos em que sua presença no mundo pareça insignificante. Muitas comunidades cristãs ao longo da história pareceram pequenas diante de impérios, movimentos culturais e estruturas muito mais poderosas. Ainda assim, sua segurança nunca dependeu de parecer forte. Cristo não se torna menos cabeça quando sua igreja atravessa tempos difíceis. Seu governo não é medido pelo conforto imediato de seu povo, mas pela fidelidade com que conduz sua obra até o propósito que determinou.
A imagem do corpo torna essa relação ainda mais íntima. Paulo não diz apenas que Cristo exerce autoridade sobre a igreja; afirma que a igreja é seu corpo. Isso fala de união, dependência e vida compartilhada. Um corpo separado de sua cabeça não possui direção nem vida ordenada. Do mesmo modo, a igreja não pode existir espiritualmente por conta própria. Tudo aquilo que a torna verdadeiramente igreja procede de sua relação com Cristo: sua mensagem, sua identidade, sua santidade, sua missão e sua esperança.[32]
Essa dependência precisa ser lembrada especialmente quando a igreja começa a confiar demais em seus próprios métodos. Organização, planejamento, conhecimento, recursos e experiência têm valor, mas nenhum deles pode produzir por si mesmo a vida que procede da cabeça. Uma igreja pode conservar atividades e perder consciência de sua dependência de Cristo; pode manter estruturas eficientes e, ainda assim, enfraquecer-se espiritualmente. Efésios 1.22–23 chama a comunidade cristã a permanecer conscientemente unida àquele de quem recebe direção e vida.
A expressão “a plenitude daquele que enche tudo em todas as coisas” eleva ainda mais a dignidade da igreja. A linguagem é densa, e existem discussões sobre a melhor maneira de explicar todos os seus detalhes, mas uma verdade pastoral é clara: a igreja recebe sua plenitude de Cristo. Ela não completa alguma deficiência essencial existente nele; é Cristo quem a enche com sua presença, graça e dons. O valor da igreja não nasce daquilo que ela pode oferecer ao Senhor como se ele dependesse de seus recursos. Sua glória está em ser o corpo daquele que enche todas as coisas.[33]
Isso oferece um remédio para dois erros opostos. O primeiro é desprezar a igreja porque vemos claramente suas imperfeições. O segundo é glorificá-la como instituição humana. Paulo não faz nenhum dos dois. A igreja é composta de pessoas ainda em processo de transformação e, portanto, possui fraquezas reais; mas pertence a Cristo, é seu corpo e é habitada por sua presença. Podemos reconhecer seus pecados sem desprezar aquilo que Cristo ama, e podemos valorizar profundamente sua importância sem atribuir-lhe uma grandeza independente de seu Senhor.
Essa visão também muda nossa maneira de pensar a comunhão cristã. Se a igreja é corpo de Cristo, pertencer a ela não é apenas frequentar uma organização religiosa. Significa participar de uma comunidade cuja identidade nasce de sua união com o próprio Senhor. Nenhum membro existe isoladamente como se pudesse receber tudo de Cristo enquanto permanece indiferente ao corpo. O Novo Testamento desenvolverá repetidamente essa interdependência, e Efésios fará isso de maneira especial ao falar de crescimento, dons e unidade (Ef 4.11–16).
A posição de Cristo também ensina como devemos responder ao medo. Quando a igreja olha apenas para si mesma, encontra muitas razões para ansiedade: suas limitações, divisões, pecados, oposição externa e fragilidade humana. Paulo, porém, termina o capítulo não contemplando a fraqueza da igreja, mas a grandeza de sua cabeça. Isso não é escapismo. É aprender a colocar a igreja dentro da realidade maior do senhorio de Cristo. A comunidade pode ser fraca; sua cabeça não é. Seus membros podem falhar; seu Senhor permanece. Seus recursos podem diminuir; sua fonte não se esgota.[34]
Mas descansar no governo de Cristo implica também submeter-se a ele. Não podemos encontrar consolo em sua autoridade e, ao mesmo tempo, resistir conscientemente à sua direção. Se Cristo é cabeça, a igreja deve ouvi-lo. Sua Palavra precisa governar aquilo que cremos, como adoramos, como tratamos uns aos outros e como cumprimos nossa missão. A verdadeira confiança em Cristo não diz apenas: “Ele cuidará de nós”; diz também: “Nós o seguiremos”. Segurança e submissão pertencem à mesma relação.
Por isso, a união com Cristo não encoraja passividade. O corpo vive precisamente porque recebe direção da cabeça. O descanso cristão não consiste em deixar de servir, mas em abandonar a ilusão de que a obra depende finalmente de nós. Servimos com diligência, ensinamos, oramos, corrigimos, cuidamos e testemunhamos, mas fazemos tudo sabendo que a igreja não é nossa propriedade. Podemos trabalhar intensamente sem carregar o peso impossível de sermos seus salvadores.[35]
Efésios 1 termina, assim, onde toda verdadeira espiritualidade precisa terminar: em Cristo. Ele é aquele em quem fomos escolhidos, em quem recebemos redenção, em quem encontramos esperança e em quem contemplamos o poder de Deus. Agora o vemos acima de todas as coisas e, ao mesmo tempo, unido à igreja como sua cabeça. Essa combinação oferece descanso e direção. A igreja pode enfrentar um mundo muito maior que ela sem desespero, porque aquele que governa todas as coisas é também aquele ao qual ela está unida. E pode caminhar sem pretensão, porque sua vida não nasce de si mesma, mas daquele que a enche.
Cristo, e não líderes humanos, é a cabeça da igreja
30. A centralidade exclusiva de Cristo como cabeça da igreja é enfatizada por Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing, que adverte contra identificar a igreja com a personalidade de seus pastores; Wiersbe, Warren W., Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy, David C Cook, que ressalta a submissão da igreja à autoridade de Cristo; e Phillips, John, Exploring Ephesians & Philippians, Kregel Publications, que relaciona a dignidade e o destino da igreja àquele que é sua cabeça.
O Senhor de todas as coisas dado à igreja
31. O caráter consolador de Cristo ser simultaneamente soberano sobre todas as coisas e cabeça da igreja é desenvolvido por Coekin, Richard, Ephesians For You, The Good Book Company; Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; e Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers. Essas exposições destacam que o Cristo exaltado governa, protege e dirige seu corpo, de modo que a fragilidade visível da igreja não deve ser confundida com ausência de cuidado ou governo divino.
A igreja como corpo de Cristo
32. A união entre Cristo e a igreja expressa pela imagem do corpo recebe amplo desenvolvimento em Lloyd-Jones, D. Martyn, God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1, Banner of Truth; MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers; e Swindoll, Charles R., Insights on Galatians, Ephesians, Tyndale House Publishers. A aplicação pastoral comum é que a igreja não possui vida independente: recebe de Cristo identidade, direção e os benefícios de sua obra salvadora.
A plenitude daquele que enche tudo
33. A expressão “a plenitude daquele que enche tudo em todas as coisas” admite diferentes formulações exegéticas. Para uma leitura pastoral que preserva a suficiência de Cristo, veja Ferguson, Sinclair B., Let’s Study Ephesians, Banner of Truth; Merida, Tony, Exalting Jesus in Ephesians, B&H Publishing; e Boice, James Montgomery, Ephesians: An Expositional Commentary, Baker Books. Essas exposições ajudam a manter o ponto principal: a igreja recebe sua plenitude e significado de sua relação com Cristo, aquele que a enche com sua presença e governa todas as coisas.
Segurança na cabeça exaltada
34. A segurança do povo de Deus fundada na supremacia de Cristo é ressaltada por Hughes, R. Kent, Ephesians: The Mystery of the Body of Christ, Crossway; Stott, John R. W., A mensagem de Efésios, ABU Editora; e MacArthur, John, Ephesians: MacArthur New Testament Commentary, Moody Publishers. O argumento de Efésios 1 conduz o crente a olhar para a autoridade e suficiência daquele que foi exaltado acima de todo poder e dado à igreja como cabeça.
Descanso na obra e no governo de Cristo
35. Como aplicação temática mais ampla, Nee, Watchman, Sit, Walk, Stand, Tyndale House Publishers, relaciona a posição exaltada de Cristo em Efésios 1.20–21 à necessidade de o cristão começar pela confiança naquilo que Deus já realizou antes de tentar agir por sua própria força. Embora a obra não desenvolva Efésios 1.22–23 diretamente, essa perspectiva contribui para a aplicação deste bloco: a igreja trabalha e obedece a partir da segurança de que Cristo já ocupa o lugar de autoridade que lhe pertence.
Siglas e abreviaturas
Livros bíblicos
At = Atos dos Apóstolos
Cl = Colossenses
2Co = 2 Coríntios.
Ef = Efésios.
Fp = Filipenses.
Gl = Gálatas.
1Jo = 1 João.
Jo = João.
Jr = Jeremias.
Rm = Romanos.
Sl = Salmos.
Abreviaturas bibliográficas e editoriais
ed. — edição; editor, conforme o contexto.
et al. — et alii (“e outros”).
Bibliografia
- Boice, James Montgomery. Ephesians: An Expositional Commentary. Baker Books, 1998.
- Coekin, Richard. Ephesians For You: For Reading, for Feeding, for Leading. The Good Book Company, 2015.
- Ferguson, Sinclair B. Let’s Study Ephesians. The Banner of Truth Trust, 2005.
- Hughes, R. Kent. Ephesians: The Mystery of the Body of Christ. Crossway, 2013.
- Lloyd-Jones, D. Martyn. God’s Ultimate Purpose: An Exposition of Ephesians 1. Baker Books, 1998.
- MacArthur, John. Ephesians. Moody Press, 1986.
- Merida, Tony. Exalting Jesus in Ephesians. B&H Publishing Group, 2014.
- Nee, Watchman. Sit, Walk, Stand. Tyndale House Publishers, 1977.
- Phillips, John. Exploring Ephesians & Philippians: An Expository Commentary. Kregel Publications, 2002.
- Stott, John R. W. A mensagem de Efésios: a nova sociedade de Deus. 6. ed. ABU Editora, 2001.
- Swindoll, Charles R. Insights on Galatians, Ephesians. Tyndale House Publishers, 2015.
- Wiersbe, Warren W. Be Rich (Ephesians): Gaining the Things That Money Can’t Buy. 2. ed. David C. Cook, 2009.
Cite este artigo
Campos, Amanda Nogueira. “Efésios 1 — Comentário Bíblico Devocional”. In: Galvão, Eduardo (ed.) et al. Comentário Devocional do Novo Testamento (CDNT). [S. l.], 30 set. 2026. Disponível em: [inserir URL do artigo]. Acesso em: [data].
